Enize Vidigal
Travestis adolescentes vendem sexo livremente nas ruas de Belém. Nos pontos de prostituição da capital paraense também estão pessoas com aids e dependentes químicas que assaltam clientes para sustentar o vício. Um submundo que passa despercebido aos olhos da população e das autoridades. A principal fonte de renda das trans é o mercado do sexo, que se relaciona intimamente com o tráfico humano, especialmente com destino a São Paulo, mas também à Europa, onde os programas são mais caros. A reportagem foi conhecer essa realidade na madrugada do último dia 27, e colheu histórias surpreendentes de pessoas que foram rejeitadas pela família e pela sociedade, e que encontraram na prostituição o passaporte para realizar o sonho de obter formas femininas com cirurgias plásticas.Acompanhamos um integrante do Grupo Ellos Pela Livre Orientação Sexual, uma ong que presta assistência aos travestis e transexuais, que distribui camisinhas às trans na madrugada. Os preservativos são recebidos com festa. Numa das esquinas escuras da avenida Almirante Barroso, encontramos a morena que vamos chamar de Stephany, de 24 anos. Ela pediu para não ser identificada. É definida como uma transexual, pois possui seios de prótese de silicone. Ela usa micro-saia e anda com os seios despidos. "Tem gente que vem aqui oferece R$ 100, R$ 200 para transar sem camisinha ou R$ 30 para usar droga com ele (cliente). Quase a metade dos clientes querem (sexo) sem camisinha. Eu não faço (sem preservativo) porque a vida é o que conta, né, amor?", diz.
Stephany conta que viaja a cada quatro meses para São Paulo, onde o programa custa R$ 100. Já em Belém, ela e outras trans contaram que, em média, o sexo oral sai a R$ 30 e a relação com penetração a R$ 50, mas se o cliente quiser que a travesti seja o parceiro ativo da relação, o programa sai mais caro, R$ 80, porque elas não gostam de fazer o papel masculino no sexo. "A maioria dos homens que procuram querem ser mulher", afirma Stephany. O Carnaval é uma das temporadas em que muitas viajam para trabalhar fora do estado. O principal destino é a capital paulista, seguido de Campinas, Anápolis, Goiânia, Curitiba e Rio de Janeiro. Depois de uma temporada, elas voltam às ruas de Belém. "Aqui numa noite dá para ganhar R$ 200 e em São Paulo, R$ 300 a R$ 350", compara Stephany. Ela conta que chegava a ganhar R$ 500 numa noite em Milão, onde ficou por quatro anos. "Eu gastei R$ 72 mil em cirurgias. Já fiz duas próteses (mamárias), tirei costela (para afinar a cintura), fiz o nariz e os olhos. Também fiz uma casa pra minha mãe", conta. A vida na prostituição foi iniciada aos 12 anos e a primeira viagem à Itália aconteceu aos 17 anos, conforme relata. Ela já se prepara para voltar àquele país. "Tem que entrar com visto de turista pra ficar só dez dias e vai ficando", revela.
Enize Vidigal - O Liberal, 06.02.12.
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