Sunday, April 15, 2012

Ser Mulher

A primeira lembrança é nebulosa. Eu tinha sete anos e estava com mãe e irmãos no Iate Clube da Pampulha, onde aprendi a nadar.

Vagamente, me recordo de um amigo de minha mãe, que sempre estava por perto nas reuniões festivas. Ele me colocou no colo e, não me perguntem como, senti minha braguilha aberta e sua mão tentando passar pelo vão do fecho.

Lembro que fiquei confusa e me levantei. Não me lembro de nada mais. Não contei para minha mãe (só anos depois, quando já adulta, em um desabafo descontrolado, citado no fim do post). Não disse nada a ninguém. Com sete anos já me sentia culpada, só não sabia o por quê.

Na adolescência, os casos foram acontecendo, ainda devagar. Eu fui uma menina que demorei a ter cara (e corpo) de mulher. Por isso os homens que se aproximavam de mim eram na verdade tendenciosos a pedofilia. E não vou negar que sempre me interessei por homens mais velhos (até alguns anos atrás). Com quatorze eu beijei um de vinte e sete!

Esses homens não queriam brincar de casinha, como me alertava minha mãe. E eu não queria ir além de beijos casuais.

Meus parcos encontros românticos, usualmente se transformavam em uma guerra de mãos. Eu dizendo não e eles tentando me convencer que esse “não” era uma bobagem. E todos achavam normal sair de um carro com a sensação que, o que seria um papo romântico, virasse uma guerra pelo controle.
Com 14 anos eu passei a estudar à noite e, durante o dia, fazia companhia ao meu avô.

Uma vez, acho que com 16 anos já, voltando da escola, de tênis, mochila e camisa de malha (ou seja, não estava vestida para matar né?) às 22 horas, fui abordada na rua por um carro que perguntou sem titubear “custa quanto?”. Eu abaixei a cabeça e continuei andando e ele deu marcha ré (estava na contramão) e insistiu: “Eu pago 150”. Minha irmã, que estava alguns passos à minha frente, retornou e deu um chute na porta do carro e só assim ele se foi.

No ano seguinte eu fui agarrada no mesmo local. Um homem veio correndo por trás, me “abraçou”, segurando meus braços e passou a mão na minha virilha. Eu berrei alto e ele me soltou, rindo, e foi embora. Cheguei aos prantos em casa.

Um novo caso, também um ano depois, aconteceu no bar que eu freqüentava. Um homem se aproximou e disse: “o que você pensa de uma cama cheia de dólares, com lençóis de cetim e champagne francês?”. Eu não sei se ele estava querendo impressionar, fiquei olhando para ele com cara de “não entendi”, enquanto meu corpo se recolhia de medo.  As lágrimas saltaram ali na frente de todos, e o segurança do bar, que me conhecia (e ao meu namorado), tratou de chamar o sujeito para uma conversa.

E assim, de tempos em tempos, eu era lembrada do que é ser mulher. Vieram várias “teses” do porque disso me acontecer: “Mulher não pode ficar sorrindo o tempo todo, pois pode significar um sinal positivo”.;“Esse seu nariz empinado desafia os homens”;“Você deve estar fazendo algo pra atrair isso”. A culpa crescia cada vez mais e o sentimento de humilhação também.

Ano de 1995: agora já consigo ordenar as datas melhor, a lembrança é mais fresca. Eu trabalhava em uma delikatessen e vivia levando cantadas de clientes, mas fingia que não era comigo. Até que um dia entrou um senhor na loja, em torno dos seus cinqüenta anos, e me pediu para ver as melhores bebidas de lá. Eu mostrava e ele parecia mais interessado em conversar do que ver as maravilhas que eu indicava. No final, deixou o cartão e disse que ligaria assim que decidisse o que ia querer.

Fez alguns elogios e eu fingi que não ouvi. No dia seguinte ele ligou e me convidou pra jantar logo de cara. Eu, delicada e firmemente, falei que teria que pedir opinião ao meu noivo e, provavelmente, levá-lo junto (mentira pura e muito usual nessas horas).

Lembro de sua fala rasgada, de sua voz áspera ao dizer: “Adriana, oportunidades são como cavalos selados, só passam uma vez diante da porteira. O que você quer? Uma loja de bebidas só pra você? Eu posso lhe dar. Jóias? Vestidos? Eu posso lhe dar o mundo…”. Pateticamente muda, com o telefone no ouvido e as lágrimas escorrendo, senti o aparelho sendo arrancado de minhas mãos pela gerente, que o xingou de todos os nomes imagináveis e desligou. Eu sentei no chão, apalermada. E me acusei novamente.

Um ano depois eu estava já trabalhando em uma média empresa e com um salário razoável. Resolvi fazer minha primeira viagem, sozinha, com meu dinheiro. Que orgulho! Fui para Maceió em uma excursão com muita gente animada e divertida. Eu estava sonhando…

O sonho se transformou em pesadelo, quando o guia local tentou me estuprar no dia que eu iria retornar. E desse caso eu não esqueço um só detalhe. Os sorrisos dele durante a semana e eu me esquivando de forma gentil e sorridente, levando na brincadeira… O convite para um chope no sábado que eu aceitei.  “Preciso passar rapidinho em casa pra trocar a camisa”. Eu não querendo entrar na casa e ele dizendo “deixa disso, não farei nada com você, sou separado, tenho um filho…”

A sala arrumada. O álbum com fotos do filho que ele fez questão de trazer para mostrar. Enquanto eu via as fotos, ele foi trocar a camisa. De repente estava ao meu lado, tentando me beijar. Eu paralisei e o medo sufocou. O afastei de forma delicada e ele insistiu. Eu disse não, mas ele não ouvia. Comecei a me debater e ele me jogou no sofá, arrancando minhas roupas com uma facilidade absurda. Eu chorava e tentava empurrá-lo, mas era em vão. Ele era o dobro de mim.

O tapa na cara que levei, parece estar ainda marcado em minha face. E eu rezei, chamei preto velho, Clara Guerreira, familiares desencarnados… E funcionou. Ou melhor, não funcionou. Ele parecia estar com problemas “técnicos” e começou a me xingar. Eu consegui desvencilhar e corri para me trancar no banheiro ao lado da sala, chorando muito.

Lembro dele, do outro lado da porta, rindo e dizendo que ninguém acreditaria em mim. Que a culpa era minha. Que eu queria sim, só não sabia disso, para eu parasse de palhaçada.  Eu não respondia, só chorava e rezava, com a pequena foto 3×4 de minha irmã falecida nas mãos.

Na hora do embarque da excursão se aproximava, acredito que por isso ele me deixou escapar. Corri como louca e consegui um táxi em um bar próximo. Quando cheguei ao hotel, chorava como uma criança e só repetia para mim o quanto eu era idiota.

No ônibus para o aeroporto lá estava ele, me olhando, comentando com os colegas e rindo. Eu abaixei a cabeça e comecei a preencher a ficha de satisfação do cliente enviada pela agência.

Não disse nada. Nem na ficha, nem no caminho. No avião desatei a chorar novamente e uma das companheiras de viagem veio sentar ao meu lado e questionar o que estava acontecendo. Não consegui falar direito, mas ela entendeu e também se calou. Acho que me culpou quase tanto quanto eu me culpava.
Nunca saberei o quanto isso afetou meu modo de ser. Mas ainda não tinha acabado. Não, eu precisava sorver daquela taça ainda mais.

Em uma festa promovida pela empresa que eu trabalhava um dos gerentes, com o qual eu mais tinha afinidade, ofereceu carona na volta pra casa e eu aceitei. No caminho ele parou o carro e pulou em cima de mim. Desta vez consegui reagir, tamanha minha decepção com ele. Fiz um discurso de meia hora e saltei do carro, pegando um taxi.

No dia seguinte contei para meu superior direto. Sabia que algo poderia acontecer. Não deu outra. Dois dias depois veio uma reclamação de um cliente, atendido pelo departamento que o tal gerenciava. Três anos de empresa e a primeira vez que alguém reclamava. Sem motivo. Fomos eu e meu supervisor para sala do gerente, o primeiro me pedindo paciência e eu indignada com o fato.

Ele falou, meu supervisor argumentou e saímos da sala. Eu, balançando a cabeça, chocada. Foi aí que ele saiu na porta da sala e berrou comigo na frente de todos: “Você está rindo de mim? Está me desafiando? Eu sou gerente! Você não é ninguém, está entendido?” Todos ficaram olhando estupefatos enquanto, mais uma vez, as lágrimas me traíram e eu saí sem dar um pio.
(Seis meses depois esse gerente foi mandado embora acusado de desvio de uma verba altíssima da empresa).

Clientes… O caso da loja de bebidas se repetiu lá também, mas de forma menos agressiva. Mas não menos invasiva e autoritária, como se eu estivesse posta à venda lá, não as peças. E com a conivência e aprovação do gerente de máquinas! (não o meu, que era um doce…)

Alguns anos se passaram e parecia que, finalmente, o karma tinha cessado.  Já trabalhando em outra empresa, eu voltava a ter confiança em fazer amizades masculinas, coisa que, por um tempo, evitei, apesar de adorar conversar com homens (adoro opiniões diferentes, vocês sabem disso…)

E novamente aconteceu. Um gerente de outra área tentando me seduzir e, com minha recusa, agindo para que eu fosse demitida.  Um pesadelo indescritível.
Como se não bastasse, veio mais um.  Um dos piores, em minha opinião. Porque foi justamente no mês que minha mãe descobriu o câncer.

Um grande amigo me liga e me chama para um churrasco na casa de um colega nosso, no caminho de Lagoa Santa. Eu acabei aceitando. Precisava espairecer. E um dos convidados era um rapaz muito charmoso que eu já estava de olho…Chegamos na  casa, um sítio delicioso e com alguns cavalos – meu Deus, cavalos! Minha grande paixão!

O convidado gatinho não tinha chegado e fiquei conversando com meus colegas, bebendo cerveja e saboreando um peixe grelhado.
O pai do meu colega, dono do sítio, veio se juntar a nós. Cabeleireiro famoso de Belo Horizonte, era muito simpático e logo puxou conversa comigo. Em poucos minutos estava eu, mais que entusiasmada vendo as fotos dos árabes que ele criava. Cavalos árabes são a coisa mais linda da face da terra!

A paquera chegou logo depois e eu, já um pouco tonta, fiquei ainda mais saltitante e faladeira. Sentou do meu lado direito, enquanto o dono do sítio estava à minha esquerda e sua esposa sentada à minha frente.

De repente senti uma mão na minha perna.  E o terror me paralisou completamente. Segui a mão como em câmera lenta e, horrorizada, vi que era do pai do meu colega, que sorria para mim, como se fossemos cúmplices. Não sei como não percebeu meus olhos vidrados, a cerveja parecendo que ia voltar para a boca, o terror que me dominou. E eu não sei quanto tempo demorei até conseguir afastar a cadeira e me levantar.

Dei uma volta na casa, respirando fundo e tentando raciocinar (além do terror eu estava tonta, o que dificultava a atividade dos neurônios). O que fazer? Acusar o homem na casa dele, na frente da mulher dele? Humilhar meu colega na frente dos seus convidados?

Que imbecil que sou. Antes tivesse feito isso. Mas não. Voltei e pedi para o gatinho me dar carona para casa, pois não estava me sentindo bem. Ele aceitou e fomos. No meio do caminho comecei a contar para ele o que tinha acontecido e…
… ele ficou com ódio de mim. Disse que eu estava inventando aquilo, que era uma louca. Não lembro mais tudo que falou, mas cheguei na casa de minha mãe aos prantos. Coitada, além de saber que estava com câncer, ainda teve que me consolar, pois me descontrolei completamente.

Nos dias seguintes chegou ao meu ouvido que a versão contada pelo filho era outra. Resumia-se em “meu pai é foda. Mas a Adriana facilitou, ela tava toda contente conversando com ele…”.

“Toda contente conversando com ele” significa “ei, venha aqui, passe a mão em mim”? Sem comentários. Mesmo!

Meu terapeuta costumava dizer que existia algo dentro de mim que atraía isso. E minha culpa aumentava ainda mais. Eu me vestia de forma charmosa, mas não provocativa, em minha opinião. Eu era muito educada com todos, mulheres e homens.  Eu nunca fui promíscua e sempre tive relacionamentos discretos (na verdade, poucas pessoas já conheceram meus namorados). O que eu fazia de errado?
Até que um dia, finalmente, eu descobri o que eu tinha. CULPA. CULPA. E MAIS CULPA.

A culpa era o catalisador de todos esses episódios torpes que passei, desde os meus sete anos, quando ainda mal sabia o que era sexo – a CULPA já me atormentava.
Hoje faço um trabalho diário comigo. De perdão. De conhecimento. E de cura.
É por isso, meus queridos amigos, que quando vejo brincadeiras inofensivas como o Lingerie Day, quando saio na rua e escuto as baixarias que alguns “objetos não identificados” falam baixinho quando passo, que meu sangue ferve e eu tenho ímpetos de gritar com toda a força: NÃO!

Gritar como não gritei em muitos momentos pavorosos. Me defender do sentimento de impotência e humilhação, que são próprios durante e após cada investida.
Eu não estou escrevendo isso para que tenham pena de mim, até porque conheço casos muito piores do que os meus. Quando decidi relatar e me expor de forma tão completa foi por um único motivo: ajudar alguém. Seja uma mulher a não se culpar nem se colocar como objeto na vida de um homem, seja ajudando um homem a compreender o que passamos.

Mulheres, não se culpem. Não são vocês.  É nossa sociedade machista, materialista e retrógada que faz com que sejamos AINDA vistas como meros objetos.
Não se rendam a culpa, como eu fiz. Lutem contra ela. Mas não aceitem mais fazerem o papel da “bunda do ano” ou do “peito mais gostoso”. Não alimentem essa indústria de violência.

Homens, reflitam! Pensem nas piadinhas que já fizeram. Nas mulheres com as quais saíram e você, quando ouviu o não, pensou “ela está só fazendo de difícil, tentarei mais”.  Resista na hora que sua colega for promovida e você quiser soltar a pérola “quem está comendo?”.

Não somos iguais. Mas temos os mesmos direitos. De sermos vistos como seres humanos, pensantes, com virtudes e defeitos. Não nos reduza a um conceito que já deveria ter sido esgotado.

Não contei aqui dos delitos menores. Do homem que jogou a chave do seu quarto na minha cara no scotch bar de um hotel, deixando o barman com quem eu conversava atônito. Do outro, que me ligou às duas da manhã ( no mesmo hotel onde morei por três meses) e demorei cinco minutos para entender que ele queria fazer sexo (falava em inglês, francês, nem lembro).

Não falei do senhor de 80 anos que, após me seguir dentro de um supermercado, passou a mão na minha tatuagem (que fica nas costas, na linha da cintura) e saiu andando rápido e dando risadinhas. E eu fiquei parada (novamente) tentando imaginar se era esclerose mental!

Nem tampouco escrevi sobre o homem que me ligou às oito da manhã, quando trabalhei em Varginha, tentando me convencer a sair com ele (essa coisa chata de irmos tomar café da manhã e termos que deixar a chave com o número do apartamento em cima da mesa para o garçom ver).

Hoje, colocando tudo no papel, custo a acreditar que realmente aconteceu, Comigo e porque sou mulher.
Afinal, ser mulher é isso. Ou não?

Como já bem disse a alma feminina de Caetano, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”…
Beijos
Dri Torres

P.S. Faço um agradecimento mais que especial a dois blogueiros, @renatalima91 e @ThiagoBeleza: Não os conheço, mas li seus posts aqui e ali, o primeiro tuitado pelo @iavelar, que me levou ao outro… Bem, foram vocês que me deram coragem. Obrigada!
P.S 2. Sei que o post ficou gigante demais para a internet. Sorry, exclui alguns casos e condensei explicações para tentar minimizar o tamanho, mas não teve muito jeito…





Originalmente publicado no blog Adriana Torres

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