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Thursday, May 31, 2012

TOCAIA - REVISTA GRAPIÚNA DE LETRAS E ARTES



TOCAIAR É PRECISO

(Editorial  Revista Tocaia)


“Berilo levanta o olhar, perscrutando. Natário estende o braço, firma a pontaria — com sua licença, Coronel — atira para acertar na cabeça. O tiroteio irrompe no alto da colina e a confusão se estabelece no lodaçal, embaixo; os jagunços respondem a esmo, sem saber para onde dirigir as armas. Uma carnificina, como comprovou o coronel Elias Daltro. Não se tinha notícia de tocaia de tal envergadura, nem nos tempos das primeiras lutas, as de Basílio de Oliveira e dos Badaró. Ia ficar na história, a tocaia grande.”
(Tocaia Grande, Jorge Amado).


          Este é um periódico cultural que nasce sob o peso de uma palavra: tocaia. Originário do tupi guarani, o termo designava o abrigo onde os índios se ocultavam para surpreender a caça ou os inimigos. Tocaiar é estar à espreita, em um ponto de visão privilegiada, para atacar. Tocaia-se para matar um animal, ou uma pessoa. Tocaia-se para assustar, ou dar uma surra. Tocaia-se para raptar, seduzir, desnortear, tirar do caminho. Decidimos tocaiar.
         Tocaiamos ideias, atitudes, ações. Tocaiamos o belo e o não tão belo. Tocaiamos o feio. Montamos nossa tocaia em uma curva, na vereda das letras, das artes. Raptamos nossas primeiras vítimas e as estamos exibindo neste número: os poemas de Piligra, Heitor Brasileiro, Daniela Galdino, Rita Santana, Mário Prata, Adelmo Oliveira, Lamiae El Amrani; as fotografias de Pedro Montalvão e Milena Gantois Palladino; o conto de Daniel Prudente, o ensaio de Gustavo Felicíssimo e os haikais de George Pellegrini.
           Mas, os advertimos: nem só de raptos e seduções vivemos. A arma que ameaça também dispara. Cuidado, incautos! Os que se arvoram de donos da verdade, usurpadores dos espaços que deveriam ser de todos. Falastrões e demagogos da arte, pseudo novos colonizadores. Ainda que nossa palavra seja suave, o leitmotiv da tocaia é atirar... com a clara intenção de matar. Se você carrega algum desses adjetivos, um conselho: não passe por nosso caminho.


George Pellegrini
Gustavo Felicíssimo
(Editores)

Monday, May 14, 2012

"PONTE ESTREITA EM CURVA SINUOSA"



           Certa feita o escritor Adonias Filho foi questionado: além de cacau, a região sulbaiana produz o quê? Ao que veio a resposta: “escritores”. A “pobre região rica” - que associou a opulência à exploração de trabalhadoras/es nas roças de cacau - se não já é responsável pela maior parte do PIB do estado,  ainda produz vozes literárias diversas. Seja na prosa ou poesia, a região sulbaiana mantém o vigor nas Letras, fornecendo ao campo literário obras que, somadas, compõem um intenso diálogo.
Para não fugir a essa ciranda, o blog “operariadasruinas” divulga o lançamento de Ponte Estreita em Curva Sinuosa, livro de estréia do itabunense Aquilino Paiva. Em breve será publicada, aqui, uma entrevista com o autor.
“O título anuncia um alerta, uma situação de perigo logo à frente. Os 15 contos do livro não permitem estabelecer uma temática de modo preciso. Alguém poderia se arriscar a dizer “suspense”, ou mesmo “terror”, mas os textos tornam difícil uma definição. Ainda que as histórias dos contos estejam repletas de elementos amedrontadores, como a violência, a maldade e, quase sempre, a morte, esses fatores sempre aparecem como face de uma moeda, que tem em oposição outras dimensões humanas, como a crença, os mitos, o amor, a solidão, o tempo.
Sem jamais romper a barreira do sobrenatural, que nunca é revelado, e só aparece, no máximo, como dúvida, Ponte Estreita em Curva Sinuosa usa o horror nosso de cada dia, aquele que está bem presente nas vidas e nas relações entre as pessoas. Coisa que, de algum modo, poderia se ver em todo lugar, ou acontecer com qualquer um. Por isso mesmo, a vida revelada nesses contos pode parecer assustadora, mas com nuances e descaminhos que a fazem um eterno desafio. Nessa estrada, como avisa a placa, é melhor ficar atento e dirigir com cuidado.”                                  (Texto de Divulgação)



SOBRE ESSE NEGÓCIO DE PUBLICAR
(Por: Aquilino Paiva)


Vivo no encalço da Literatura desde que me entendo por gente. Ariano Suassuna diz que tem um momento em que o sujeito é arrebatado pela Arte. Entendo isso, pra mim, como aquela hora em que, encantado por uma forma de arte, já não basta ler, olhar, ou ouvir. Dá vontade de fazer, uma esperança de ser capaz também de criar.

Aí a pessoa vai escrevendo, e vai colocando na gaveta. Na Literatura, quase sempre se começa pela poesia. Os anos se passaram, me estranhei com a poesia (isso é outra história), comecei a pensar nas formas narrativas (isso também é outra história), e tudo ia pra gaveta, e pensar em publicar sempre parecia algo remoto. Dentro da gaveta, os textos foram se mexendo e começaram a fazer barulho, me incomodando o sono. Sou daqueles que escrevem e acham que nunca está bom o suficiente...  e os escritos fiquem quietos na gaveta, que eu quero dormir.

Depois entendi o barulho que faziam e aí resolvi publicar. Não foi considerar que agora os textos tem algum valor, sobre isso desisti de pensar. É que chega a hora que dá vontade que a coisa se complete. Explico: uma obra de Arte não é tão "do artista", quanto ele muitas vezes pensa. Utiliza-se uma linguagem, um discurso, uma técnica, formas e gêneros que já estão por aí, e faz é tempo. Tem uma comunicação, ou seja, quando você escreve e guarda lá na gaveta (ou no HD), tem um leitor que já está ali, mas você deixa ele amarrado. Isso o Sartre diz, naquele texto que é be-a-bá do curso de letras, "o objeto literário é um estranho pião, que só existe em movimento. Parafazê-lo surgir é necessário um ato concreto que se chama leitura...".

É mais ou menos isso. Era a hora de colocar o texto na praça, e avançar o sinal na relação com a Literatura. O ladrão aproveita a ocasião, e veio o edital de lançamento da Editora UFRB, Universidade Federal do Recôncavo, onde trabalho como Técnico Administrativo. Boa chance de colocar o texto à prova, já que passaria por um Conselho Editorial e Parecerista. O parecer, aliás, bastante favorável e elogioso, foi animador. Vou publicar. Revisão, diagramação, capa, prefácio, gráfica, um ano de expectativa e... taí o livro!

Ver Ponte Estreita em Curva Sinuosa, antes espectro digital, informação em bits, agora encarnado em papel, objeto livro, algo que se abre e folheia, que se balançar faz vento, é
uma realização, de fato, admito o deslumbramento de estreante. Tá no mundo, uma frágil materialidade nessa ilusão da Arte, nessa fantasia de artista, e a pergunta do que é a Literatura, não em si, mas para mim, enfim, se renova, pois jamais poderá ser respondida.


O livro: Ponte Estreita em Curva Sinuosa
Editora:UFRB
Ano: 2012
Gênero: contos
15 textos
95 páginas
Prefácio:Reheniglei Rehem
Capa:Cristiano Maia
Diagramação:Luiz Carlos Junior
Foto:Felippe Thomaz
Revisão:Lélia Sampaio







Aquilino Paiva: ilheense de nascimento, itabunense de criação. Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Mestrando em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Servidor Técnico na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), campus Cruz das Almas (BA).


Contato para venda: axjunior@hotmail.com

O autor no facebook:

Ponte Estreita em Curva Sinuosa (Facebook):







Tuesday, April 17, 2012

Papa-jacas perdoam amado?

Itabuna tenta se reconciliar com seu filho mais ilustre


Privados do mar por fatalidade geográfica, os cidadãos de Itabuna, no sul da Bahia, costumam ir à praia no município contíguo de Ilhéus. Houve um tempo, contam nos anais da terra, em que eles levavam de casa tudo o que consumiriam, para não precisar beber sequer a água da cidade vizinha. Por isso receberam a desairosa designação de papa-jacas – uma referência ao fruto abundante na região, que os itabunenses supostamente levavam como única refeição do dia.
Por trás do apelido está uma rivalidade que opõe as duas cidades desde 1910, quando Itabuna se emancipou de Ilhéus e ganhou status de município. Durante a época áurea da produção do cacau, a partir dos anos 20, Itabuna se desenvolveu mais do que a cidade de cujas costelas se originou, o que exacerbou os ânimos de parte a parte. A querela envolve desde times de futebol a uma disputa de fronteiras.
O mais ilustre dos rebentos de Itabuna ajudou a estender a rivalidade para a esfera literária: o escritor Jorge Amado, nascido em 1912 numa fazenda perto do bairro de Ferradas. O romancista viveu na cidade até 1 ano e meio de idade, quando a família se mudou para a rival Ilhéus, a adversária, onde ele morou até os 11. Depois foi para Salvador.
Entre alguns itabunenses, há o sentimento de que Amado renegou a cidade natal em benefício da arquirrival. Citam como evidência que a cidade litorânea aparece com mais destaque na obra do autor e chegou a figurar no título de um romance de 1944, São Jorge dos Ilhéus– privilégio de que Itabuna jamais gozou. A projeção maior veio em 1958 com Gabriela, Cravo e Canela, romance de grande sucesso ambientado numa Ilhéus marcada pela opulência do ciclo do cacau.
Para piorar, quando Itabuna aparecia na obra de Jorge Amado, nem sempre era em circunstâncias abonadoras. É o caso de Terras do Sem-Fim, de 1943. Os papa-jacas foram descritos ali como uma gente rústica, mulheres de comportamento duvidoso e homens violentos e às vezes cornos.
Tudo isso poderia ser superado, não fosse a fatídica frase proferida por um personagem anônimo do romance: “Ferradas é o cu do mundo.” A passagem era irrelevante para a trama, mas repercutiu mal. “Por causa de uma frase os moradores ficaram revoltados”, resumiu Gustavo Veloso, autor de um livro sobre a história de Ferradas.
Entre os itabunenses mais velhos, é fácil encontrar quem se recuse a abrir um livro do conterrâneo ilustre. É o que faz o aposentado Nilton Ferreira Ramos, colecionador de documentos históricos sobre o município. “Ele nunca teve a hombridadede dizer que era de Itabuna, e essa mágoa eu carrego comigo”, disse, amuado.
De nada adiantou que Amado distinguisse sua cidade natal, como fez em uma entrevista de 1988 ao Fantástico e em diversas outras ocasiões: o estrago já estava feito.
orge Amado ainda era vivo quando foi erguido em sua honra um busto na praça principal de Ferradas, em 1983. Agradecido, o romancista voltou a Itabuna e tirou fotos ao lado do bronze lavrado por Richard Wagner Habib Silva. Mas a homenagem só fez reabrir velhas feridas: no dia seguinte à inauguração, o busto desapareceu.
De acordo com a explicação mais difundida, um grupo de vândalos teria levado a peça para conhecer o prostíbulo da cidade, já que em seus romances o escritor só descrevia os de Ilhéus – excitantes cabarés de bebida farta e mulheres ardentes. “O busto ficou em cima de uma mesa, deram bebida a ele e as mulheres o beijavam”, relatou Gustavo Veloso. A prefeitura desconhece o paradeiro da escultura.
Quando Amado morreu, em 2001, tentaram mudar o nome da avenida Cinquentenário, principal via da cidade, para homenageá-lo. Mas houve resistência e o projeto foi engavetado. Hoje, há uma única referência ao romancista na cidade: um bairro resultante de invasão de terra, chamado de Jorge Amado por costume popular – está entre os mais violentos de Itabuna.
Em compensação, sobram homenagens a Adonias Filho, nascido na vizinha Itajuípe. É seu nome que batiza o principal centro cultural de Itabuna. É também ele o patrono da egrégia Academia de Letras de Itabuna. “Adonias Filho é o patrono da Academia, mas a cadeira 5, ocupada pelo escritor Cyro de Mattos, tem como patrono Jorge Amado, que é muito querido”, ponderou Marcos Bandeira, presidente da casa. Para reparar a desfeita, a cidade acaba de ganhar uma nova agremiação literária, a Academia Grapiúna de Letras, que elegeu Amado como patrono.
Do outro lado da principal estrada da região, a BR-415, a 25 quilômetros dali, Jorge Amado é nome de rua, quarteirão e até aeroporto. A casa de Ilhéus onde morou o escritor é preservada como um espaço de memória, e sobram placas e estátuas em sua homenagem. Maurício Corso, presidente da Fundação Cultural de Ilhéus, contou que a Casa de Cultura Jorge Amado recebeu 35 mil visitantes neste verão. “Não gosto de comparar, de falar mal”, disse, em voz baixa. “Mas Itabuna poderia aproveitar melhor o local onde ele nasceu.”
Reconciliar a cidade com a memória de seu filho mais ilustre no ano de seu centenário é uma prioridade do prefeito Capitão Azevedo, um oficial licenciado da Polícia Militar baiana. “Já é hora de acabar com essas picuinhas”, disse. A principal medida é o restauro de uma casa no bairro de Ferradas a ser transformada em museu e centro cultural. “É a residência onde nasceu o escritor Jorge Amado”, afirmou o prefeito. Em verdade, o escritor apenas passou ali alguns dias com a família – a casa em que de fato veio ao mundo já não existe mais.
Capitão Azevedo tem se mostrado um bravo defensor da cultura e da história de seu município. Naturalmente, o prefeito há de ser um bom conhecedor da obra do homenageado. “Exatamente... tranquilo”, tentou desconversar quando questionado sobre seu livro predileto de Amado. Até que desceu do muro: “Bem... Gabriela, que teve aquela novela, né?”

Tuesday, January 24, 2012

LANÇAMENTO DE "INÚMERA" EM SALVADOR




Depois de ser lançado em Ilhéus (12/01/12) e Itabuna (19/01/12), INÚMERA, o meu livro de poemas chega a Salvador, numa promoção do Centro de Estudos dos Povos Afro-Índio-Americanos (CEPAIA). Será uma grande festa poético-musical, com as participações de Vércia Gonçalvez, Carlos Barros, Zé Liveira, Gabriel Barros, Brisa Aziz, Daniel Fernandes, Sapiranga (música) e Rita Santana, Lorenza Mucida, Daniela Galdino (poesia).

Friday, January 6, 2012

“... SOU INTRUSA, SOU INÚBIL, SOU INÚMERA”

Daniela Galdino. Foto: Felippe Thomaz
Re-começo a vida em 2012 trazendo ao público o meu segundo livro de poemas: Inúmera. Trata-se de uma obra em movimento, feita em transe e no trânsito dos dias, nos deslocamentos do corpo que percorre paisagens alheias e familiares... Na minha atual modalidade de vida, em que enceno o papel de “migrante pendular”, não poderia ser de outra maneira... No entanto, o meu desafio da/na escrita é provocar a linguagem e construir imagens de maneira a gerar uma obra que não seja um testemunho pessoal... o meu desejo, com Inúmera, é construir uma ciranda com as/os leitoras/es (que podem ou não se reconhecer no escrito, mas que serão provocadas/os de alguma forma).

Com ilustrações de Daniel Prudente (baiano de Itabuna, artista visual formado pela UFMG), Inúmera é uma obra que nasce junto com a editora que a publica: a Mondrongo (editora do Teatro Popular de Ilhéus). Essa é uma opção consciente: movimentar a cena artística sulbaiana e, ao mesmo tempo, projetar as nossas produções em outros espaços. Daí o propósito de construir uma ampla agenda de lançamento de Inúmera, começando pelo sul da Bahia,  Ilhéus (12 de janeiro de 2012, Casa dos Artistas) e Itabuna (19 de janeiro de 2012, sede da FICC) e depois percorrendo outras cidades e capitais.
Inúmera, para captar as nuances femininas, está organizado em cinco partes: “Eu sou uma interrogação vagando com pressa”, “É passeio abissal”, “Nos absurdos de uma colheita infeliz”, “Toma o fôlego aos ventos esparsos”, “Eu sou maior por dentro”.
Aqui prefiro não dizer mais, abrir alas e deixar passar quem encanta palavras para apresentar a obra: Tânia Lima (poeta recifense-maranhense cuja obra possui reconhecimento nacional. Tânia foi uma grata surpresa em 2010: nos conhecemos transitando pelas ladeiras de Ouro Preto), Carlos Barros (figura altamente sensível, cantor, compositor que atua principalmente na cena baiana da soterópolis. A voz e a presença de palco de Carlos sempre me atraem e me libertam), Daniel Fernandes (cantador, músico, poeta de coisas mínimas, professor de música do Colégio Pedro II – RJ, militante das artes e da vida. Daniel também é fruto de inusitado encontro no trânsito inimaginável que se experimenta pelas ruas do Recife antigo). Estas são as primeiras vozes que tratam de Inúmera, o tom é o da sensibilidade, pondo abaixo os academicismos que podem esquartejar o literário.

SOBRE “INÚMERA”:

“[...] A poesia dessa autora é uma carta sem selo endereçada à diversidade de leitores. É certo que ser leitor é ser só em companhia de uma multidão de vozes. No compasso das páginas lidas, a releitura é um momento dialógico com a literatura, exige o diálogo com nossa outra idade, aquela de um tempo extemporâneo. Duas solidões exige a leitura do livro Inúmera: a de quem lê, a de quem escreve. Toda obra nasce de um parto solitário, de um pacto solidário, em sintonia com o que nos diz o signo dos inúmeros poemas: “Quero des-edificar lares/provocar divórcio/ entre significante e significado”. De baixo para cima, o livro Inúmera é um pertencimento de mundo, um recado que aposta todas as cartas em uma saga: provocação. Uma experiência una e múltipla, ao mesmo tempo em que o gesto solidário traz as margens para dentro das imagens [...]”.

Tânia Lima
(Poeta Maranhense-Recifense,
Profa. de Literatura da UFRN. Natal – RN, primavera/2011)







“[...] Daniela Galdino chega como um raio que de água gerada na eletricidade dos ares. Sua presença aporta como autora em primeira pessoa. Seus poemas são, antes de qualquer coisa, assunções de sua  persona mais que imponente e ao mesmo tempo flutuante. O verbo flutuar, que em francês – fluctuer – tem uma sonoridade musicalmente agradável, ora aponta, ora desmonta o que a arte de Daniela Galdino traz enquanto essência. Sua personalidade forte faz com que seus vôos sejam como os do avião: obra gigante de aço que paira no ar sob a força propulsora que levanta e equilibra-se por entre os ventos. Desta forma é aérea e forte [...]”.

Carlos Barros
(Cantor, Compositor e Sociólogo.
Salvador – BA, primavera/2011)



“[...] Estas linhas aqui tecidas bem sabem que a poesia de Daniela Galdino não carece de alguém que a defina. Escrita com sangue e no sangue, percorre vários caminhos de veias indagando, vasculhando, encontrando o ser bem maior na carne de cada palavra reinventada. Daí o olhar para o além e o umbigo fincando na terra, brotando sonhos e lirismos enraizados em guerrilhas cotidianas. À  frente da batalha, a mulher, inteira. Menina, amor, mãe, acolhimento com cheiro de agressivo de fêmea plena de sensualidade subversiva. Erotismo vingando séculos de passiva subserviência [...]”.


Daniel Fernandes
(Músico – Rio de Janeiro, primavera /2011)




POEMAS DO LIVRO “INÚMERA”, DE DANIELA GALDINO

GALDINO, Daniela. Inúmera. Ilhéus – BA: Mondrongo, 2011.



INÚMERA

Eu tenho a síndrome de Tim Maia.
Eu tenho as varizes de Clara Nunes.
Eu tenho os vícios de Piaf.
Eu tenho a orelha de Van Gogh.
Eu tenho a perna que falta ao Saci.

Eu tenho o olfato de Freud.
Eu tenho o cansaço de Amélia.
Eu tenho o peso de Maria.
Eu tenho as dermatoses de Macabéa.
Eu tenho a cusparada de Sofará.

Eu sou a linha tênue que une os xipófagos.
Eu sou uma interrogação vagando com pressa.
Eu sou um insulto atirado à queima roupa.

Eu tenho atalhos ainda não percorridos.
Eu tenho palavras desgastadas e nulas.
Eu tenho uma voz penífera e cortante.

Eu confesso: sou intrusa, sou inúbil, sou inúmera.


(Daniela Galdino)




MULHER ABJETA


Não sei desenhar
não sei fazer conta
só entendo de assustar palavras.

Puxo o verbo pelo rabo
finco dente no dorso.

Quero des-edificar lares
provocar divórcio 
entre significante e significado.

Aí será o oco da linguagem varrido pelo avesso...

Encosto a boca na orelha dos vocábulos
e sussurro:
“Deus é a nossa criação necessária”.
Eles habitam pântanos de pânicos.
Estão prontos para representar meus terrores.

Eu não espero pelo dia
em que o meu nome flutuará
nas páginas de uma hagiografia.

Não sei qual evangelho rege
as impurezas da minha arte.

Eu transbordo excrescências,
dúvidas,
 luminosidades.
E... só entendo de assustar palavras.

(Daniela Galdino)



SAUDADE AMANHECIDA

meus pés contêm mapas
distorcidos por cartógrafos loucos.

e esses pés tocam sem cuidado
a profusão de fios... rastros... fluxos...

eu esqueço os ares de moça
ignoro compêndios
transito por rotas imprecisas:

língua percorre lágrimas
boca engole axilas
dedos iluminam côncavos
buceta grita espumas

corpo bambeia na cadência
da memória indistinta:
seus jorros trêmulos
em meus pontos cardeais.

(Daniela Galdino)



ALVORECIDA


Acordei com um sol enorme
dentro de mim

abrasaram-se os órgãos vitais
raios trafegaram minhas veias

borbulharam pensamentos de lama
nos lençóis freáticos da memória

o sol tomou conta de tudo
expandiu felonias esquecidas

ergueu-se um centenário baobá
no terreiro inabitado de mim

o frêmito deste nascimento
alimentou espetáculo frondoso:

sombra nas costas do dia
vertigem na borboleta.


(Daniela Galdino)





CONSELHO INFANTIL

Dandara


Medi o rio que divide a cidade do Mim
Mirei o espectro de peixes isolados
Aspirei o miasma de sonhos esquecidos
Segui o transitar das baronesas inférteis
Multipliquei-me em silêncio.
Ensaiei a elegância das garças.
As tuas palavras despertaram-me:
“eu sou maior por dentro”.

(Daniela Galdino)








 Inúmera no facebook:

https://www.facebook.com/pages/In%C3%BAmera-poesia/329892917038209



 Site da Editora Mondrongo:










Friday, September 2, 2011

PROJETO MEMÓRIAS DO RIO CACHOEIRA


Esta é a sua chance de se tornar apoiador
do Projeto Memórias do Rio Cachoeira



Veja como:

 O que é? O Memórias do Rio Cachoeira (MRC) é um projeto que está sendo desenvolvido desde maio de 2011. O objetivo é gravar um CD com 12 poemas de autoras-es grapiúnas musicados pela banda Manzuá. Os poemas são de Cyro de Mattos, Ruy Póvoas, Daniela Galdino, Valdelice Pinheiro, Firmino Rocha, Kléber Torres, Lorenza Mucida, Iana Carolina e Mither Amorim. O CD está em fase de finalização. Além disso, será produzido um documentário sobre aspectos da história do Rio Cachoeira e a sua relação com a história de Itabuna - BA. O documentário está em fase de pré-produção e a gravação será iniciada no final de agosto de 2011.

O "Memórias" visa contribuir com o registro e preservação da memória da região, estimular a cultura local através da literatura, música e vídeo, estimular a educação ambiental e formar público para o audiovisual. Saiba mais sobre o projeto no site: www.memoriasdocachoeira.com

Equipe do Projeto MRC. Acervo do projeto
 
- Você pode apoiar o MRC para que seja produzida uma festa de lançamento inesquecível, gratuita e aberta ao público, a fim de que todos possam ter acesso e prestigiar esse projeto tão importante. Apoiando, você ainda ganha prêmios!


Apoiando com...

* R$ 15,00 você ganha - Agradecimento nos créditos finais + agradecimentos na página do projeto + uma música antecipada, antes de todo mundo, assim que ela ficar pronta.

* R$ 30,00 você ganhauma camisa "Eu apoio" o Memórias do Rio Cachoeira ou um convite para participar do ensaio fechado.

* R$ 50,00 você ganha  -  um lindo Box Memórias do Rio Cachoeira contendo CD e DVD.

* R$ 75,00 você ganha - uma camiseta +o Box Memórias do Rio Cachoeira (CD e DVD).

* R$ 100,00 você escolhe entre assistir 01 dia de filmagens ou assistir 01 dia de edição do documentário. Você ainda pode atuar como estagiário, caso tenha interesse ganhando certificado de participação com direito a créditos de equipe técnica. As gravações acontecerão na cidade de Itabuna.

* R$ 300,00 você ganha - um desenho (Filisminogravura) feito pelo artista plástico Ayam U`brais, com sua foto. Uma técnica única e muito bela. Exemplo: http://afrofilisminogravura.wordpress.com/outros-trabalhos/

* R$ 1000,00 você ganha - um desenho (Filisminogravura) feito pelo artista plástico Ayam U`brais, com foto da Banda Manzuá, autografado por todos os integrantes da banda. Exemplo:http://afrofilisminogravura.wordpress.com/outros-trabalhos/

* R$ 5000,00 você APRESENTA: Com este item você tem a grande oportunidade de inserir o seu nome ou da sua empresa apresentando o filme nos créditos iniciais, com direito a no máximo 05 segundos de duração. Ex.: EMPRESA APRESENTA ou FULADO DE TAL APRESENTA: Memórias do Rio Cachoeira. 


E ainda: Apoiando com qualquer um desses valores, seu nome aparecerá na parte "Quem faz", do nosso site"!

Para apoiar, clique aqui: 

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