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Friday, February 10, 2012

CRÍTICA: O ARTISTA / Quando Hollywood era muda

E dançava um pouquinho

Até agora, de todos os filmes concorrendo ao Oscar, nenhum parece que vai deixar saudades. Ouso dizer que a comédia de Woody Allen, embora longe de ser uma grande obra, é a mais encantadora. Os outros filmes são meigos, fofinhos, e principalmente saudosos de um tempo que já ficou pra trás, mas duvido que muita gente se lembrará deles em alguns meses. Os Descendentes e O Homem que Mudou o Jogo são bonitinhos. Histórias Cruzadas pelo menos é polêmico. Ainda não vi A Invenção de Hugo Cabret (esse quero ver em 3D), não vou ver Cavalo de Guerra (ordens médicas; posso ter uma convulsão), e estou criando coragem pra ver Árvore da Vida. O Artista, provável futuro vencedor do Oscar 2012, certamente entra nesse patamar de nostálgico e doce. Mas não vai me marcar de jeito nenhum. Sequer me fez chorar, o que, convenhamos, não é difícil.
No começo deu preguiça. Fotografia em preto e branco eu tiro de letra, mas não é simples se adaptar a algo tão datado como gente falando, falando, falando, sem sair nenhum som dos lábios. E as caras e bocas que o francês Jean Dujardin faz no primeiro terço do filme também são limitadas (expressão de bravo, franzindo os olhos, e aí abrindo um sorriso), meio caricato demais. Ou talvez eu que não seja tão nostálgica quanto o filme em si. Sinto muita falta de musicais como Cantando na Chuva, de algumas cenas (mais do que filmes inteiros) de Chaplin; continuo amando obras-primas como Encouraçado Potemkin e Nascimento de uma Nação (apesar de entender que hoje é impossível exibir algo tão abertamente racista, que vangloriza a Ku Klux Klan)... mas adoro um cineminha falado, com narração em off, cheio de palavras.
Muita gente anda comparando Artista com Cantando na Chuva, e de fato há muitas semelhanças (a dura transição do cinema mudo pro cinema falado; a fã que vira estrela), mas Cantando é um clássico inesquecível, algo que Artista não será. Cantando é um musical, um feel good movie que eleva o espírito ou, no mínimo, o bom humor. Não é o caso de Artista, que possui várias cenas sombrias.
Tem um monte de coisa que apreciei. Por exemplo, o cachorrinho. Ele rouba todas as cenas (mas ele desaparece no final ou eu é que perdi alguma coisa?). Ganhou prêmio em Cannes pra melhor animal. Se tivesse um Oscar de Melhor Bicho, quem ganharia este ano, o cavalo de Cavalo de Guerra (confio na sua avaliação) ou o cãozinho de Artista?
Outros pontos positivos são a cena do pesadelo, em que Dujardin imagina tudo fazendo barulho. E o mordomo e chofer fiel feito por James Cromwell (Babe, o Porquinho Atrapalhado, meu recorde de lágrimas de toda a história do cinema) tem ecos de Crepúsculo dos Deuses. Por que é sempre assim? Por que todo mordomo adora seu patrão?
Também é interessante como o filme mostra a passagem do tempo, o que é sempre complicado, ainda mais sem falas ou legendas. Isso eu achava engenhoso como faziam antes, com cenas rápidas e sobrepostas (no caso, a atriz com seu nome cada vez mais alto nos posters). É criativo quando ela tenta se acariciar usando o casaco do astro. Aliás, a personagem dela é forte e decidida, mais que a dele. Adoro a legenda “Brinquedos”, quando ele lhe pergunta quem são os dois rapazes que andam com ela.
Mas uma coisa que me incomodou bastante foi justamente a atriz que faz a atriz. Não me entendam mal: a argentina Bérénice Bejo é linda (na maior parte dos ângulos) e simpática e talentosa e dança bem. Porém, enquanto Dujardin parece um astro daquela época, bem Erroll Flynn, com bigodinho e cabelo engomado, ela não. Ela parece uma atriz do século 21. Do tempo em que as atrizes nunca estiveram tão magras. E magreza estava longe de ser o padrão de beleza nos anos 20/30. Agora acabamos de ter Michelle Williams e seu manequim 36 interpretando a deusa Monroe em Sete Dias com Marilyn (que se passa na década de 50). Michelle afirmou em entrevistas que tentou engordar pro papel, mas só conseguiu ficar com o rosto inchado, daí desistiu e recorreu a roupas com enchimentos. E agora temos Bérénice. Enfim, é chato ver gente tão magrinha em papéis dessas décadas. Nem creio que seja um revisionismo histórico proposital (fingir que o padrão não é construído, e sim natural, já que sempre foi assim). É mais a dificuldade em encontrar hoje em dia atrizes que não sejam magérrimas.
E pensar que pro padrão atual Marilyn Monroe e Debbie Reynolds seriam consideradas acima do peso...

Wednesday, December 14, 2011

CRÍTICA: MELANCOLIA / Merecemos ser exterminados

Um casamento com muitos vampiros. Quantos? Quais? Resposta no fim.

Nos primeiros minutos de Melancolia, em que as imagens, apesar de parecerem lindas molduras, não se mexiam, olhei pro maridão, vi que ele já estava cochilando, e comentei: “Tenho esperança que o filme comece um dia”. Sou um pouco impaciente quando o início demora. Mas essas imagens eram deslumbrantes e logo me rendi a elas. Pior: elas eram assustadoras, fantasmagóricas, porque dava pra ver que tinha algo se mexendo. E tinha mesmo. Elas foram filmadas em super câmera lenta, devagar quase parado. A cena que vai habitar meus pesadelos pra todo o sempre -– e que também é uma descrição exata do que é a depressão –- é a de uma noiva tentando andar pra frente, atada por plantas nos pés. Depois de ver dez minutos de imagens dessas, já sabemos que estamos num universo alternativo, a anos luz do cinema americano, onde a edição é rápida, picotada, e tudo tem explicação. Pois é, estamos no mundo do Lars von Trier (vou sempre me lembrar de uma das recepções mais hostis que vi a um filme, no caso, aos cenários de Dogville numa sessão em Joinville. O público não se conformou que só havia linhas no chão pra representar casas). Von Trier é original, ousado, e eu gosto dele, embora eu tenha odiado Anticristo, e o diretor tenha uma queda pela misoginia e pela crueldade com animais. E pela polêmica exibicionista em entrevistas pra imprensa. Desta vez, no festival de Cannes, Von Trier meio que se revelou simpatizante nazista. Ou algo do gênero. Ele é muito tosco no seu trato com jornalistas. Cannes teve que dizer que não tem nada a ver com ele.Mas falemos de Melancolia. Cada vez que penso no filme, e não vou deixar de pensar nele tão cedo, mais ele me fascina. O clima é paradão (apesar da câmera frenética na mão), mas é angustiante, prende, sufoca. É dividido em duas partes: uma em que Justine (Kirsten Dunst, talvez no melhor papel de sua carreira, aparentando ter bem mais que seus míseros 30 anos) se casa, e outra em que ela se isola na mansão da irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg, que já passou por lençóis piores em Anticristo). Permeando tudo há um desastre iminente: um planeta, Melancolia, está numa dança macabra com a Terra, ameaçando se chocar contra nós. Os astrônomos, como o marido milionário de Claire (Kiefer Sutherland, que eu nunca havia notado que tinha uma voz tão sedutora), asseguram que tá tudo bem. Mas as imagens iniciais do filme mostram nosso planetinha azul se espatifando. E aí, em quem acreditar? A primeira parte é longa demais. Eu já entenderia que Justine tá com uma depressão acachapante se o filme tivesse meia hora a menos. Se bem que compreendo que quem já tenha passado por isso vai se identificar. É realmente um dos retratos mais fiéis da depressão já mostrados no cinema. Já a segunda parte é muito melhor amarrada, juntando o relacionamento das irmãs com a doença com o fim do mundo. Von Trier sempre teve depressão, e muitas das imagens não só de Melancolia como também de Anticristo vêm da sua cabeça enferma. Numa consulta com um psiquiatra, ele descobriu que pessoas deprês mantêm a calma em situações de estresse, muito mais que gente “saudável”. Ahn, certo. Mas se eu tiver que escolher entre passar trinta anos com alguém deprê que vai ser um buda durante dez minutos, e passar trinta anos com alguém saltitante e feliz que vai ser um histérico quando um planeta se chocar com a Terra, eu nem pisco. Todo mundo em pânico! Com todo o respeito às pessoas que sofrem de depressão, a personagem da Kirsten é insuportável. Ok, ela só não é totalmente insuportável porque está cercada de gente que expele maus fluidos: sua mãe reclamona e amarga (Charlotte Rampling, sempre bela), seu pai vacilão (John Hurt), seu chefe porco capitalista (Stellan Skarsgard), seu cunhado, outro porco capitalista (que soa sexualmente ameaçador quando lhe propõe um acordo), sua irmã, que está longe de ser uma pessoa feliz, e seu noivo (Alexander Skarsgard, filho de Stellan na vida real), que não parece ser má pessoa, só não entendi sua motivação.Tá, mas quando Justine bate sem dó no seu cavalo preferido, eu passei a torcer pra que Melancolia, o planeta, acelerasse seu curso e se chocasse diretamente com ela. Qualquer pessoa que espanca um animal não é minha amiga. E, Lars querido, um conselho: diretor que já é odiado por defensores de animais desde que matou um jumento em Manderlay deveria evitar maltratar um bicho pro resto de sua carreira. Fiquei ansiosamente procurando nos créditos o aviso de “Nenhum animal foi machucado durante as filmagens”. Não encontrei! Glupt.Mas tô de picuinha. Adorei um montão de coisas no filme. O uso de música (apropriadíssimo o prelúdio de Tristão e Isolda como trilha sonora de colisão cósmica). O dispositivo para enquadrar planetas invasores e ver se eles estão se aproximando ou se afastando (algo tão rústico, e eficaz, quanto contar números no caso de raios). A explicação pra que algo trivial como “quantos feijões há neste jarro?” ganhe destaque. A premonição dos animais. O planeta invasor, quase vampiresco no seu hábito de sugar o oxigênio da Terra.Claro, sou suspeita pra falar -– adoro filmes sobre fim de mundo. Mas este não é exatamente sobre isso. Um filme sobre um planeta que se choca com o nosso seria sobre a preparação pra esse terrível incidente, ou sobre o Bruce Willis sendo enviado pra dissolver o planeta invasor, ou sobre o Tom Cruise sobrevivendo ao desastre. Melancolia se passa num local isolado com pessoas deprês ou apáticas. É praticamente um “Imagine Que o Planeta Explode e Ninguém Aparece”. E tá bom assim.P.S.: Respondendo à pergunta lá de cima, eu contei quatro vampiros: Kirsten, a menininha adorável (not) em Entrevista com o Vampiro; Kiefer, em Garotos Perdidos; Alexander Skarsgard, o Eric de True Blood; Udo Kier (que aqui faz o planejador do casamento, aquele que não olha pra noiva que se atrasou e estragou a “sua” festa), de Blade e A Sombra do Vampiro. Esqueci algum?

Wednesday, November 9, 2011

A LINDA PELE QUE HABITAMOS

Uma pessoa fisicamente linda assiste a outra.

O mais recente filme de Pedro Almodóvar é o máximo. Aliás, o diretor espanhol é o máximo, um dos cineastas mais adorados e criativos da atualidade (das últimas três décadas, pra ser franca). E ele deve ser o mais ousado -– não é qualquer um que consegue transformar o melodrama em obras de arte. Infelizmente, é duro falar de A Pele que Habito (título maravilhoso que diz muito sobre aceitação do corpo) sem entregar a trama. Então minha recomendação é que você vá correndo ver o filme sem saber de nada (se quiser arriscar, veja o trailer). Saiba apenas que Antonio Banderas não consegue um papel desses desde... bom, desde que largou a Europa e foi pra Hollywood. E que Pele trata de uma história imperdível e rocambolesca. Com ela é possível fazer umas cinco tramas principais de novelas. E que Pele se tornará no futuro próximo o tema de dezenas de teses e dissertações sobre gênero. Opa, falei demais? Ficarei esperando vcs verem o filme pra poder escrever sobre ele com spoilers.

Wednesday, June 29, 2011

CRÍTICA: XEQUE MATE / Dama, seja protagonista deste tabuleiro

Quem se arrisca pode perder. Quem não se arrisca perde sempre.

Semana passada fui ao Dragão do Mar ver um filme do Festival Varilux de Cinema Francês, que abre espaço em 22 cidades para a produção francesa recente. Ano passado teve também, e eu não fui. E agora o trampo é tamanho, e tá tudo tão corrido, que deu pra prestigiar apenas um. Uma pena, porque dá pra ver que tá cheio de coisa boa sendo feita (vocês devem ter notado que eu mal tenho ido ao cinema nesses últimos meses).
O filme que eu e o maridão fomos ver foi Xeque Mate (Joueuse -- veja trailer sem legendas. Tem um trailer mais longo com legendas em inglês. Atenção: se você tentar baixar o filme, cuidado que tem um de Hollywood do ano passado, com o Bruce Willis e o mesmo título. Não parece ter nada a ver com xadrez. E parece ter uma única mulher, a Lucy Liu). É, confesso que fomos atraídos pela temática. Amamos xadrez, nos conhecemos num torneio em SP, duas décadas atrás, e ele é profissional de xadrez. É o que ele faz da vida desde os treze anos. E, apesar de existirem mil e uma histórias chamadas Xeque Mate, pouquíssimas são realmente sobre xadrez. Esta é. Dirigida por uma mulher, Caroline Bottaro, escrita por outra mulher, Bertina Henrichs. Aparentemente as duas têm grande carinho pelo jogo, e também pelo gênero feminino (leia entrevista em inglês).
Xeque é sobre Hélène (Sandrine Bonnaire), uma mulher que vive na bela ilha mediterrânea de Córsega. Bela pros turistas, porque, pros habitantes locais, deve ser o fim do mundo. Hélène é arrumadeira de hotel e leva uma vida pacata e monótona com seu marido, empregado de um estaleiro, e sua filha adolescente, revoltada por pertencer a uma família pobre. Enquanto limpa um quarto, Hélène vê, na varanda, um casal de turistas (a moça é a Jennifer Beals, mais bonita hoje que em Flashdance) jogando xadrez enquanto troca olhares e carícias de um modo bem erótico. Então Hélène pensa: opa, se xadrez é isso aí, eu também quero jogar! (Ha ha, vai nessa, tolinha!). Primeiro ela tenta seduzir o marido. Como falha, compra um tabuleiro de xadrez eletrônico e um livro para aprender.
Ela fica fascinada ao ler que a peça mais poderosa do xadrez é a dama (ainda vou escrever um post sobre feminismo e xadrez, podem me cobrar). Isso é totalmente anacrônico no mundo que Hélène ocupa, um mundo em que as mulheres trabalham, mas ainda têm que cuidar da casa e da família, enquanto os homens trabalham, mas têm horas livres para passar com os amigos (não com a família). Como o único tempo que sobra a Hélène para estudar xadrez é à noite, e como ela vai ficando obcecada pelo jogo (todas essas cenas de jogador imaginando um piso como se fosse um tabuleiro são clichê, mas são um clichê deslumbrante, sempre com efeito fotográfico bacana), o resto de sua vida vai mudando. Além do mais, ela também é diarista na casa de um sujeito solitário e excêntrico (Kevin Kline, falando francês como se ele fosse francês — o maridão nem o reconheceu). Ela insiste, e ele acaba jogando xadrez com ela. Não vou falar da relação deles para não entregar as surpresas. Mas adoro quando ele pergunta “Como é o seu marido?”, e ela responde “Lindo”. E por falar em linda, é interessante como Sandrinne se transforma durante o filme. Ela vai ficando mais bonita à medida que vai ficando mais livre, mais ousada, mais cheia de vida, mais confiante. Sabe como em filme americano o patinho feio vira cisne depois de um banho de loja e maquiagem, à la Uma Linda Mulher? Pois então, não precisa disso não. Autoestima em alta é que é atraente.
Xeque é todinho sobre o processo de descoberta de uma mulher, que acontece através do xadrez. Não é panfletário, não é escancaradamente feminista. É mais ou menos sutil, como a trilha sonora do piano que acompanha a trama. Mas a mensagem não deixa muita margem pra dúvida: damas, vamos perceber nossa força no meio desse tabuleiro.
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