Wednesday, February 8, 2012

HISTÓRIAS CRUZADAS, CRÍTICAS CERTEIRAS

O diretor Tate Taylor conversa com atrizes durante as filmagens

Pensava que, após minha crítica de Histórias Cruzadas, algumas pessoas iriam dizer: Ah, só porque muitas negras americanas detestaram o filme, é pra eu não gostar também? Ninguém disse, mas vou responder: Não. Pode gostar do filme. Mas procure aprender com gente que sabe mais do que a gente (e historiadoras americanas negras são um bom parâmetro de quem conhece história negra nos EUA). Traduzi alguns trechos da nota que a Associação de Historiadoras Negras divulgou sobre o livro e filme:

“A representação que Histórias Cruzadas faz dessas mulheres [nada menos que 90% das mulheres negras no sul segregado dos anos 1960 eram empregadas domésticas em casas brancas!] é uma ressurreição desapontadora da mammy –- um estereótipo mítico de que mulheres negras estavam propensas, através da escravidão ou da segregação, a servir famílias brancas. Retratadas como assexuais, leais, e babás satisfeitas de brancas, a caricatura da mammy permitiu que a América mainstream ignorasse o racismo que prendia as negras a trabalhos pesados e mal-pagos em que patrões rotineiramente as exploravam. A popularidade desta mais recente repetição é problemática porque revela uma nostalgia contemporânea por dias em que uma negra só podia sonhar em limpar a Casa Branca em vez de presidi-la”.
“Não reconhecemos a comunidade negra descrita em Histórias Cruzadas, em que a maioria dos personagens negros são retratados como bêbados, agressivos, ou ausentes. Essas imagens distorcidas são enganosas e não representam as realidades históricas da masculinidade negra”.
“Retratar os racistas mais perigosos do Mississippi dos anos 60 como um grupo de mulheres da sociedade, bem-vestidas e atraentes, enquanto o filme ignora o reino de terror perpetuado pela Ku Klux Klan e pelo Conselho dos Cidadãos Brancos, reduz a injustiça racial a atos individuais de maldade”.
Histórias Cruzadas não é uma história sobre as milhões de negras dignas e perseverantes que trabalharam em casas de famílias brancas para sustentar suas famílias e comunidades. Na realidade, é uma história de iniciação de uma protagonista branca, que usa os mitos sobre as vidas das negras para fazer sentido de sua própria vida. A Associação das Historiadoras Negras considera inaceitável que livro ou filme removam a precisão histórica das vidas das negras pelo valor do entretenimento”.

Ainda bem para os realizadores brancos do filme que a Academia de Artes e Ciências não é feita de historiadoras negras...

Com todas essas críticas que merecem ser ouvidas, surgem as besteiras de sempre, como jornalista americano branco dizendo que racista não é o filme, mas quem acha o filme racista (já ouvimos isso antes).
O diretor Tate Taylor, que é branco, têm feito o que pode para se esquivar das críticas (fala contra o racismo; diz pra todo mundo que sua melhor amiga é Octavia Spencer, que concorre a atriz coadjuvante por fazer a empregada Minny), mas também se ressente, e pensa que, se o diretor tivesse sido negro, não haveria tanto incômodo por parte da comunidade negra (nisso ele provavelmente tem razão): “Acho que qualquer um vendo este filme vai sentir que Aibeleen e Minny são as humanas mais corajosas, brilhantes, espertas, espirituais e carinhosas do planeta, e ah sim, elas usam um uniforme. Não filmei essas mulheres esfregando latrinas”. Não, filmou uma delas dando uma torta feita de estrume pra ex-patroa comer.
Tate dá escorregadas típicas de alguém que não tem a menor ideia do que seja violência ou racismo: A cena em que Viola Davis está sentada num vaso sanitário numa garagem a 108 graus, e então uma mulher branca aparece e lhe diz para se apressar, foi visualmente brutal. Pra mim isso é pior que ver um linchamento. Apenas é”.
Não sei, Tate, pra mim linchamentos parecem um pouco piores.

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