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Saturday, April 28, 2012

GUEST POST: "TU É FILHA DAQUELE NÊGO?"

Como faço com comentários que se destacam, guardei este da Cândido no post Feio é o seu racismo. Já faz um tempinho que ela o escreveu, mas gostaria de compartilhá-lo com vocês. Ele vem a calhar numa semana marcada pela decisão unânime do Supremo Tribunal Federal de que as cotas raciais adotadas por 42% das universidades federais no Brasil (só 42%?!) são, sim, constitucionais. Talvez este relato pessoal da Cândido ajude o pessoal que não acredita na existência do racismo (ou que pensa que, se racismo existe, ele não influencia diretamente a vida das pessoas) a refletir um pouco.

Leio seu blog já faz muitos meses, gosto muito dos seus textos, nunca havia comentado nada, mas hoje vim falar um pouquinho porque essa questão do racismo sempre foi algo muito presente na minha vida.
Bem, sou filha de pai negro (por mais que todo mundo adore dizer que ele é "só um poquinho mais escuro") e mãe branca.
Nasci super branquinha, com sardas e um cabelão MARAVILHOSO, bem cacheadão, crespo, que quando criancinha era loiro e com o tempo foi escurecendo, chegando na adolescência a ter todas as cores e tamanhos possíveis dada a minha "rebeldia" de não me render aos alisamentos constantes a que era pressionada por minha família de pai (pasmem, a negra) a fazer. Não tenho traços tão afilados como os da minha mãe; na verdade sou a cara do meu pai. Tenho uma irmã mais escura e um irmão da minha cor. Todos de cabelos crespos.
Quando era criança não conseguia entender muito bem como a família do meu pai que era negra odiava tanto o fato de eu e minha irmã termos "cabelos de negros". No meu caso esse comentário sempre vinha junto com o "não sei como tu tão branca nasceu com esse cabelo ruim de nêgo". Tipo, pra minha irmã era de se esperar pela cor, MAS EU... um absurdo, que deveria ser corrigido com um alisamento assim que eu crescesse um pouco. E pro meu irmão, ah! era só raspar, né?
Sempre me sentia mal quando ia passar os fins de semana na casa dessa minha família. Fui crescendo, estudando e aprendendo sobre a história da escravidão negra no Brasil e então fui entendendo que esses tipos de visões, comportamentos, atitudes da minha família eram herança da nossa sociedade escravocrata. Eles nem sonham que são racistas, eles perseguiram um ideal de beleza branco a vida inteira, e eles não vão mudar. O que tento fazer hoje é educar meus priminhos mais novos a não repetirem esse tipo de comportamento.
Era muito ruim escutar das pessoas quando saía com meu pai: "Nossa, essa menina é tua filha? Tem certeza?" Era pela cor? Era duvidando da minha mãe? Horrível. Meu pai deve ter sofrido muito por isso.
Um tempo desses fui na casa de uma amiga e ao me apresentar ao seu pai ele me perguntou de quem eu era filha (coisa de cidade pequena). Quando eu disse de quem eu era filha, ele falou: "Mentira! Tu é filha daquele nêgo feio? Pode não..."
Péssimo, né? Sempre fico sem jeito, mas algo que sempre me surpreende é que quando as pessoas descobrem que meu pai é auditor fiscal da Fazenda ele fica "moreninho"!
Essa questão da "morenidade" é bem complexa, mas explica muitas situações de racismo velado. Ler Gilberto Freyre com um olhar bem crítico sobre sua "democracia racial" e o "mito da morenidade" é bom pra entender algumas situações. Jessé Souza também consegue explicar a partir de uma leitura bem particular de Freyre como se deu a "modernização" do Brasil. É interessante a explicação dele pra porque a gente tenha absorvido somente alguns aspectos do que vem a ser modernidade ocidental (racionalidade, estado, etc) e como a questão racial, principalmente do negro, ficou nisso tudo.

Saturday, March 24, 2012

GUEST POST: A INSISTÊNCIA EM DOMAR CABELO CRESPO

Por que o segundo tipo é tido como o padrão aceitável?

Adorei este comentário que a Yssy deixou no post Feio é o seu racismo, e decidi reproduzi-lo aqui. Ele trata do padrão de beleza racista que determina que só um tipo de cabelo é bonito, e como isso afeta a autoestima de montes de meninas. Aproveitando o tema, ontem recebi vários tweets de leitoras indignadas com o novo anúncio de uma marca de lingerie.Vamos boicotar a marca, pessoal. Esta e todas as outras que insistem em ser racistas num país em que mais de 50% da população é negra ou parda. Não devemos tolerar racismo e outros preconceitos em lugar nenhum, menos ainda num país com maioria negra. Temos poder como consumidor@s e cidad@s. Da próxima vez que ouvir a expressão cabelo ruim, critique.

Lola, este post me tocou especialmente porque eu cresci exatamente com esse padrão de beleza martelando a minha vida e isso trouxe sérios danos em todo o processo de formação da minha autoestima.
Tenho a pele clara e o cabelo muito crespo mas um pouco claro também, o que as pessoas chamam de "Sarará". Minha mãe é branca de cabelo liso. Eu nunca tive contato com meu pai, que já faleceu e era negro.
Fui levada por todos os lados a acreditar que eu era feia por causa do meu cabelo, que era “de preto”, “ruim”, e vivi muitos anos em luta com ele. Eu não saía na rua quando ele estava natural, alisei o cabelo sistematicamente desde os nove anos de idade, usei até ferro de passar roupa para alisá-lo (como muita gente) e fiquei careca duas vezes por alisamentos com soda cáustica, uma dessas vezes no dia da minha “formatura” da quarta série, aos dez anos de idade.
Quando eu era menor, queria ser paquita. E minha mãe, que também era muito nova, chorava porque sabia que eu nunca seria paquita, afinal, eu não era uma menina branca, loira de cabelos lisos! Como minha mãe e toda a família dela são brancos, eu não tinha nenhuma referência, e achava que eu era simplesmente feia.
Eu demorei décadas para perceber que o que eu sofri na infância na verdade era racismo! Estudei em uma escola pequena, privada, classista e racista -- que só tinha um aluno negro, bolsista, claro. E as crianças lá cantavam para mim a música “Reggae Night” e eu não percebia na época porque aquilo para eles era uma ofensa e porque eu realmente me ofendia tanto.
Minha mãe conta que, quando eu nasci, uma das primeiras coisas que falaram pra ela foi “Ainda bem que nasceu branquinha”… E outras pessoas da família da minha mãe falavam que meu cabelo era crespo por causa da idade, hormônios da adolescência, ou de uma influência sei lá daonde (nunca negra!).
Enfim, hoje, aos vinte e cinco anos, com o cabelo crespíssimo, totalmente natural, formada em Antropologia e morando na África, em Moçambique, eu olho para trás e percebo quantas formas e diferentes expressões o racismo pode adquirir na nossa sociedade, principalmente nessa fábula da miscigenação que é o Brasil e na formação de uma auto-estima feminina, o que por si só já é um processo complicado nesse bombardeio de padrões que a sociedade machista nos impõe.
Fico revoltada por imaginar quantas crianças, principalmente meninas, da minha e de tantas outras gerações cresceram sem imaginar que podiam ser consideradas bonitas -– por elas e pelos outros!
Por outro lado, vejo uma luzinha no fim do túnel em algumas coisas como o clipe da Willow Smith de uma música chamada “Whip my Hair”. Tudo bem, sei que não é uma coisa lá muito progressista e reproduz vários clichês, mas é a linguagem da molecada mostrando uma menina negra, de cabelo crespo, trançado como a “popular”, incentivando as outras crianças a “whip your hair” seja lá como ele for… Precisamos de mais expressões desse tipo no Brasil, que ajudem a empoderar as crianças negras, fazê-las ter orgulho se sua origem e sentirem-se lindas e poderosas com seus cabelões!
Quem sabe o fato de a maioria da população brasileira já ter “coragem” de se auto-intitular parda ou negra seja também um indício de que esta caminhada contra o racismo pode começar a andar a passos um pouco mais largos… porque o caminho ainda é muito longo!

Tuesday, March 13, 2012

POR QUE SOU UM HOMEM FEMINISTA

Eu sou a Lolinha, e sou mulher, com muito orgulho, se bem que às vezes é mais difícil definir o que é ser mulher do que o que é ser feminista. Mas uma leitora, a Nina, me enviou um link muito interessante por email. Já li alguns livros e artigos de homens feministas, e a história deles é sempre bastante parecida. É gente que um dia se deu conta de seus privilégios masculinos e decidiu lutar por igualdade. O que eles dizem sobre comportamento, sobre como homens devem agir no feminismo, também é parecido: um homem precisa engolir a arrogância, sua tendência ao homexplicanismo, sentar e ouvir. Sua atuação é de coadjuvante. Se você acha isso absurdo, pense como seria estúpido se eu, branca, entrasse no ativismo pró-negro dizendo que sei mais sobre os problemas negros que eles mesmos. Ou se eu, hétero, me juntasse ao ativismo LGBTTT querendo dar ordens. Homens podem (e devem!) ser feministas. Mas não é possível que até num movimento de luta feminina eles queiram manter seus privilégios.
Byron Hurt, um documentarista americano, é negro. Ele conta que, durante sua infância, nunca viu seu pai bater em sua mãe. Mas acompanhava e ouvia as brigas acaloradas dos pais, e notava que seu pai sempre tinha a última palavra. Era dele o berro final que encerrava a discussão. E Byron pensava: por quê? O que fazia seu pai tão especial? Por mais que Byron amasse seu pai tanto quanto amava sua mãe, algo naquele ambiente lhe parecia errado. Não havia igualdade.
Quando Byron cresceu, passou a tratar as namoradas da mesma forma. Ele se tornava verbalmente abusivo sempre que era criticado, e usava seu tamanho para intimidar.
Depois de se formar na faculdade, procurou emprego num programa que recrutava mentores para prevenção da violência. Chegou lá sem saber que o programa lidava com violência doméstica, e quase foi embora ao perceber que tratava-se de educar jovens para combater a violência contra as mulheres. Mas aí o fundador do programa lhe perguntou como a violência dos negros americanos contra as negras americanas contribuía para melhorar a comunidade negra americana. E Byron começou a se tocar. Ninguém nunca lhe havia feito aquela pergunta. Ele sempre esteve muito envolvido com questões raciais, mas não de gênero. Diz ele: “Nunca tinha pensado sobre como abuso emocional, espancamento, abuso sexual, assédio nas ruas e estupro podem afetar toda uma comunidade, assim como o racismo afeta”.
No dia seguinte, ele foi a um workshop oferecido pelo fundador do curso, que começou com uma pergunta: “Homens, o que vocês fazem para se proteger de serem estuprados ou abusados sexualmente?”. Nenhum homem fazia nada. Aquela pergunta era alienígena pra eles. Privilégio é isso: você nem se dar conta que um problema existe. Mas, quando o fundador fez a mesma pergunta às mulheres, praticamente todas elas deram exemplos: “eu não faço contato visual com homens quando saio à rua”, “eu não paro de segurar o meu copo nas festas”, “eu peço para uma amiga me ligar quando saio para um encontro”, “eu atravesso a rua quando vem um grupo de caras na minha direção”, “eu uso minhas chaves como possível arma”, “eu carrego spray de pimenta”, “eu tomo cuidado com o que visto”. Etc etc etc.
Byron ouviu tudo aquilo e ficou chocado. Pensou na sua mãe, na sua irmã, nas suas namoradas, e em como possivelmente todas elas passaram e passam por isso. Ele aceitou o emprego, e passou a ler teoria feminista escrita por ativistas negras (e maravilhosas) como bell hooks, Patricia Hill Collins, e Angela Davis.
Ele conta que, como tantos homens, também acreditava no estereótipo que feministas eram brancas lésbicas ogras que odiavam os homens. Logo ele viu que feministas amam homens: “Porém, assim como meu pai silenciava minha mãe durante as discussões para que ele não precisasse ouvir suas reclamações, os homens silenciam feministas, depreciando-as para que possamos nos desviar de ouvir verdades sobre quem somos nós”.
A teoria feminista ajudou Byron a entender seu lugar no mundo e suas origens: “A análise das feministas sobre cultura masculina e comportamento masculino me ajudou a ver o patriarcado do meu pai num contexto social muito maior, e também me ajudou a me entender melhor”. Continua ele: “Não só o feminismo dá voz às mulheres, como também abre o caminho para que homens se libertem da camisa de força da masculinidade tradicional. Quando machucamos as mulheres em nossas vidas, nos machucamos, e também machucamos a nossa comunidade”.
É comovente ler isso, inclusive porque morei um ano nos EUA e fiquei espantada com a misoginia de parte da comunidade negra. Como se pode lutar contra discriminação racial e fingir que a discriminação por gênero não existe, ou que essa discriminação por gênero não afeta a luta contra a discriminação racial? Como se pode achar que uma comunidade vai melhorar se metade da sua população continua sendo oprimida?
Mas a descoberta de Byron de que a situação que presenciou em seu lar não era algo individual, e sim estrutural e coletivo, e de que homens devem fazer sua parte para eliminar o sexismo, vai muito além da questão racial. Pense em como seria um mundo sem violência doméstica. Sem estupro. Sem mulheres sendo espancadas e mortas por homens que se consideram seus donos. Um mundo desses não seria melhor apenas para as mulheres. Seria um mundo melhor pra todo mundo, ponto. Inclusive pra você.

Wednesday, March 7, 2012

GUEST POST: EU, BABÁ, OU CARTA PARA MINHA FILHA

Josiane é professora e me conta que demorou para perceber, ou talvez assumir, sua identidade racial. Hoje ela assume sua cor com orgulho e escreve um blog para sua filha Beatriz ler quando crescer (adoro essa ideia! Todas as mães e pais deveriam fazer o mesmo). Logo, o bonequinha fofa é pra Beatriz, não pra mim nem pra você -- não insista. Mas o post é um belo relato para tod@s nós.

Oi minha bonequinha fofa!
Filha, eu sabia que este dia chegaria! Só não sabia que a minha reação seria assim tão boba, meio inerte, com cara de besta muda. Mas foi assim que aconteceu, não dá pra mudar o passado. Nem sei se seria bom ter outro tipo de reação diferente da que tive.
Antes de você nascer, a curiosidade sobre como você seria era enorme. Seu pai se acha moreno, mas é um camarão na praia, prova infalível de brancuras negadas. Já eu sou mulata, e mesmo que esta palavra tenha uma "mula" dentro dela (e todas as implicações possíveis da palavra), não consigo achar outra mais adequada para me descrever fisicamente. Então, quando engravidei, ficou aquela questão no ar: "Pra quem ela vai puxar?" Lembro-me de uma conversa que tive neste período com uma vizinha, loira, que adotou com o marido -- também loiro -- duas meninas bem moreninhas, e dos olhares que recebiam quando as levavam para passear, olhares do tipo : "Hum... a loira pulou a cerca!" Pois aproveitei para falar sobre o meu medo de você nascer bem branca como seu pai e me confundirem com sua babá. O interessante é que na mesma hora, chegou meu pai, seu avô. A vizinha olhou para ele, que também é branco, e comentou rindo: "Se prepare então: com certeza sua filha vai ser clara". E foi o que aconteceu. Você nasceu esta beleza toda, não tão branca, mas diferente de mim. E semana passada, a profecia da babá se concretizou.
Estava eu, você e a minha assistente sobrinha fofa Jheniffer na feira da gestante e bebê. Desta vez você foi uma "lady", se comportou divinamente. Comprei só umas chupetas da única marca que você aceita, e um pacote com 36 fraldas por 9 reais. Quando voltei no dia seguinte, depois de conhecer a qualidade da fralda, para acabar com o estoque, fiquei sabendo que o preço estava errado, custava 38 reais. Bem, continuando a história: Estava eu desfilando com você, quando uma senhora, de aparentes 50 anos, chegou perto de mim e ficou te olhando. Estávamos numa barraca bem apertada e havia uma gestante atrás de mim. Então a senhora perguntou, olhando para a gestante, apontando para você:
- Quantos meses ela tem?
Eu, achando que a mulher tinha algum problema de vista, respondi:
- 8 meses.
A senhora então, soltou a pérola:
- Não, não estou perguntando pra você, estou perguntando para a mãe dela.
A gestante olhou pra mulher, olhou pra mim, e a senhora insistindo na pergunta. A gestante respondeu o óbvio, que não fazia a mínima ideia, e saiu de perto rapidinho, talvez temendo algum barraco. Eu fiquei olhando pra mulher, que fingiu não ter ouvido nada e saiu andando normalmente, enquanto uma vendedora me chamou para ver um chapeuzinho de bebê que eu tinha pedido para olhar. Na hora, não raciocinei muito sobre o que tinha acontecido, foi bem rápido. Mas depois, que revolta me deu! Por dois motivos:
1- É claro que muita gente pensa o que esta senhora pensou, mas nem todos têm a arrogância de assumir um pensamento deste em voz alta;
2- E se eu fosse a babá mesmo? Por que eu não poderia ter respondido a sua idade?
Em resumo: esta senhora ou era uma racista ("Um homem branco ter filho com uma mulata? Que mundo é este?") ou era uma elitista ("Não falo com babás!"), ou a melhor das hipóteses, a que eu assumi intimamente como verdade: ela não passava de uma senhora com graves problemas. Como todos os racistas, aliás.
Beatriz, pode parecer besteira falar sobre racismo hoje, mas só sabe a importância de reconhecer tal tipo de preconceito quem o sente na pele. E quando você é meio misturada, como eu, fica ainda mais difícil identificar atitudes racistas quando elas acontecem. Gostaria muito de lhe dizer que tudo não passa de imaginação minha, que essas coisas não existem mais. Quem dera! O racismo encontra-se no dia a dia, quando alguém fala que cabelo de negro é cabelo ruim, quando um grupo de rapazes negros são enquadrados pela polícia sem motivo algum, e em tantas outras situações! Mesmo que você continue tendo a pele clara, Beatriz, quero que lembre-se de suas raízes, e de como você é uma mistural genética genial. E que critérios de cor de pele não podem servir de parâmetros para se avaliar a importância de uma pessoa.
Embora eu ache que seu cabelo vai começar a cachear logo, logo. Ele ficará lindo, minha filha! Como todo o restante em você!
Adoro você!
Sua mãe.

Thursday, February 16, 2012

GUEST POST: É DURO TER CABELO DURO

Recebi este email da Cecília, que tem 15 anos e mora no Rio de Janeiro. Ele me deixou triste porque suas palavras mostram o quanto Cecília internalizou o racismo que ouviu a vida inteira. O racismo não é explícito -- vem só disfarçado de "gosto pessoal" por um cabelo liso que, por coincidência, é o padrão caucasiano. Não sei muito bem como ajudar esta garota, a não ser recomendando ótimos vídeos como o "Solte o cabelo, prenda o racismo" e "O que o cabelo fez para ser chamado de ruim?". Já publiquei diversos guest posts de moças, algumas tão jovens quanto ela, que aprenderam a aceitar suas cabeleiras. Mas ela ainda parece estar muito longe desse estágio. Me ajudem a ajudar a Ceci!

Eu sou uma pessoa insegura desde sempre, com tudo. Nunca me achei bonita o suficiente, sou extremamente ansiosa, desenvolvi uma compulsão alimentar por doces e como o tempo todo pra descontar minha ansiedade. Depois da 'comilança' vem a depressão, o sentimento de que eu sou um lixo, me xingo de todos os nomes e fico me odiando por um bom tempo, autoestima lá embaixo. Detesto minhas curvas e meu corpo. Sou do tipo 'pêra', sabe? Não tenho seios, minha cintura é fina e meu quadril é muito largo, ou seja: muito desproporcional. Sou normal, nem magra nem gorda (me enxergo como uma baleia), mas tenho tendência a engordar, a celulites e flacidez. Já fiz várias dietas e jejuns, tenho pânico de engordar, mas sempre volto a comer.
Dizem que eu sou bonita, meu namorado vive afirmando isso, e tem dias que eu realmente me sinto assim, mas uma coisa sempre me impediu de ser feliz: meu cabelo. Eu não o suporto, sou extremamente infeliz e só fico bem no dia que volto do salão. No resto dos dias, me sinto péssima e insegura com minha aparência.
Você já deve imaginar que meu cabelo é crespo. Mas aí eu digo que crespo é pouco pro meu. Minha juba é insuportável de cuidar, de manter, de tratar, de alisar. É um inferno, de verdade. Embora eu seja bem branquinha, falo que meu cabelo é "de negro". E não é racismo não, meus avós são mestiços e me deram essa herança ótima (só que ao contrário).
É duro ter cabelo duro. Quando você é pequeno, as outras crianças riem de você, fazem piada e te humilham (quem falou que na infância nós somos inocentes, tá mentindo. Crianças sabem direitinho como atacar e ferir as pessoas). Conheci todas as marcas de palha de aço através dos apelidos carinhosos pro meu cabelo. "Assolan", "Bombril", "Sarará", "Pixaim", e outros nomes muito fofos pra quem tá com a autoestima em formação.
E quando você cresce, é o resto do mundo reparando mais ainda. Adolescente é um bicho cruel. Fala, aponta, segrega, humilha. Pratica bullying como se fosse algo normal. Por causa disso eu evito ir à praia e à piscina pra não molhar o cabelo sem ter chapinha por perto. Viajar é um inferno, porque preciso usar secador e prancha a cada ida à piscina, a cada banho que molhe o cabelo. Não saio de casa sem todo esse ritual de fritar o cabelo, e ficar 'ao natural' pra mim é insuportável, me sinto mais feia do que o habitual. Me arrumo horas antes pra dar tempo de tentar melhorar.
Gasto os tubos, às vezes mais do que posso, com salão de beleza. Perco um tempo precioso, arrisco minha saúde com produtos químicos desde muito novinha (sim, eu faço relaxamento desde uns cinco anos de idade, mais ou menos). E dói, Lola, dói. Arde o coro cabeludo, o olho e a pele, puxa, e mais toda a sorte de coisas ruins. Ainda sim, não dura pra sempre. Dois meses depois eu volto pra essa tortura de novo. Tudo porque eu não consigo abdicar da minha vaidade, não consigo desencanar e não ligar pro que pensam.
Não gosto de ter cabelo esticado o tempo todo. Queria poder acordar e ir pra escola sem ter que queimar meu cabelo todo dia. Não ter que gastar quantias enormes com coisa que faz mal pra mim. Juro que queria. Ter uma liberdade que a sociedade só dá pra quem tem cabelo liso, 'bom'. Mas não, não posso. Tenho que me sujeitar a algo que eu odeio e que me faz ficar igual a todo mundo (o mundo agora é louro e liso, já viu, né?) porque, se não for assim, apontam, julgam e falam mal. Eu sou uma pessoa infeliz, insegura com meu corpo e principalmente com meu cabelo porque as pessoas me fizeram assim.

Wednesday, February 8, 2012

HISTÓRIAS CRUZADAS, CRÍTICAS CERTEIRAS

O diretor Tate Taylor conversa com atrizes durante as filmagens

Pensava que, após minha crítica de Histórias Cruzadas, algumas pessoas iriam dizer: Ah, só porque muitas negras americanas detestaram o filme, é pra eu não gostar também? Ninguém disse, mas vou responder: Não. Pode gostar do filme. Mas procure aprender com gente que sabe mais do que a gente (e historiadoras americanas negras são um bom parâmetro de quem conhece história negra nos EUA). Traduzi alguns trechos da nota que a Associação de Historiadoras Negras divulgou sobre o livro e filme:

“A representação que Histórias Cruzadas faz dessas mulheres [nada menos que 90% das mulheres negras no sul segregado dos anos 1960 eram empregadas domésticas em casas brancas!] é uma ressurreição desapontadora da mammy –- um estereótipo mítico de que mulheres negras estavam propensas, através da escravidão ou da segregação, a servir famílias brancas. Retratadas como assexuais, leais, e babás satisfeitas de brancas, a caricatura da mammy permitiu que a América mainstream ignorasse o racismo que prendia as negras a trabalhos pesados e mal-pagos em que patrões rotineiramente as exploravam. A popularidade desta mais recente repetição é problemática porque revela uma nostalgia contemporânea por dias em que uma negra só podia sonhar em limpar a Casa Branca em vez de presidi-la”.
“Não reconhecemos a comunidade negra descrita em Histórias Cruzadas, em que a maioria dos personagens negros são retratados como bêbados, agressivos, ou ausentes. Essas imagens distorcidas são enganosas e não representam as realidades históricas da masculinidade negra”.
“Retratar os racistas mais perigosos do Mississippi dos anos 60 como um grupo de mulheres da sociedade, bem-vestidas e atraentes, enquanto o filme ignora o reino de terror perpetuado pela Ku Klux Klan e pelo Conselho dos Cidadãos Brancos, reduz a injustiça racial a atos individuais de maldade”.
Histórias Cruzadas não é uma história sobre as milhões de negras dignas e perseverantes que trabalharam em casas de famílias brancas para sustentar suas famílias e comunidades. Na realidade, é uma história de iniciação de uma protagonista branca, que usa os mitos sobre as vidas das negras para fazer sentido de sua própria vida. A Associação das Historiadoras Negras considera inaceitável que livro ou filme removam a precisão histórica das vidas das negras pelo valor do entretenimento”.

Ainda bem para os realizadores brancos do filme que a Academia de Artes e Ciências não é feita de historiadoras negras...

Com todas essas críticas que merecem ser ouvidas, surgem as besteiras de sempre, como jornalista americano branco dizendo que racista não é o filme, mas quem acha o filme racista (já ouvimos isso antes).
O diretor Tate Taylor, que é branco, têm feito o que pode para se esquivar das críticas (fala contra o racismo; diz pra todo mundo que sua melhor amiga é Octavia Spencer, que concorre a atriz coadjuvante por fazer a empregada Minny), mas também se ressente, e pensa que, se o diretor tivesse sido negro, não haveria tanto incômodo por parte da comunidade negra (nisso ele provavelmente tem razão): “Acho que qualquer um vendo este filme vai sentir que Aibeleen e Minny são as humanas mais corajosas, brilhantes, espertas, espirituais e carinhosas do planeta, e ah sim, elas usam um uniforme. Não filmei essas mulheres esfregando latrinas”. Não, filmou uma delas dando uma torta feita de estrume pra ex-patroa comer.
Tate dá escorregadas típicas de alguém que não tem a menor ideia do que seja violência ou racismo: A cena em que Viola Davis está sentada num vaso sanitário numa garagem a 108 graus, e então uma mulher branca aparece e lhe diz para se apressar, foi visualmente brutal. Pra mim isso é pior que ver um linchamento. Apenas é”.
Não sei, Tate, pra mim linchamentos parecem um pouco piores.

Sunday, December 18, 2011

GUEST POST: ATITUDE PRA IR CONTRA O PADRÃO CAUCASIANO

Este é o lindo desenho que a Lívia fez pra Ester.

R. tem 16 anos, é daqui de Fortaleza e, inspirada pelo caso da Ester, me enviou este relato. Aproveito aqui para recomendar este lindo vídeo da campanha "Solte seus cabelos, prenda o racismo".

Não é um caso muito raro de se ver. Apesar de não ser negra e nem de ser filha de pais negros, eu, como a maior parte dos brasileiros, tenho ascendência negra e nasci com o cabelo afro, cacheadinho e bastante volumoso desde pequenininha. E com esse meu cabelo já passei por poucas e boas. É sobre ele o relato que eu vou contar.
Tudo começou quando eu era bem pequenininha, na primeira escola, uns três ou quatro aninhos. Sempre fui muito alegre e gostava muito de dançar. Minha avó cuidava do meu cabelo e sabia fazer vários penteados bonitos, então eu sempre parecia uma bonequinha. A primeira vez que eu aprendi que deveria odiar o meu cabelo foi num passeio da escolinha. Durante uma brincadeira entre os alunos, eu entrei no meio da rodinha de crianças e professoras pra dançar. Acontece que eu tinha ido para a piscina, meu cabelo estava secando sem creme para pentear, ao natural, e obviamente eu queria saber mais era de brincar. O resultado foi uma pequena moita cacheada na minha cabeça. E quando entrei na rodinha e comecei a dançar, de repente estavam todos rindo de alguma coisa. Coleguinhas e tias. Só fui perceber que a piada era eu (e o meu cabelo) depois de um tempo. Aí eu saí da roda.
A partir daí eu comecei a dizer que queria ser loira, ter cabelo liso e olhos verdes. A imagem perfeita do padrão. Chorava dizendo que era feia, que eu não queria ter nascido daquele jeito. Com o tempo, eu fui crescendo, e a minha avó, talvez por não saber o que fazer, começou a me levar na cabeleireira para passar relaxante e alisante no cabelo com 7 anos de idade. Felizmente, eu nunca fui tímida e mesmo com o cabelo "ruim" aprendi a me sentir especial. Mas com tantos procedimentos químicos feitos desde a infância, o cabelo foi ficando ruim de verdade.
Até que, relaxamentos e progressivas depois, eu cortei o meu cabelo no ombro, tratei e conseguir voltar a ver os meus cachinhos saudáveis. O problema é que, na indústria cosmética, poucos são os produtos para cabelo cacheado realmente eficazes. A maioria dos cabeleireiros têm pouquíssimo conhecimento sobre como lidar com esse tipo de cabelo de forma saudável, acham que a única solução é a química. Junte então a falta de informação com o preconceito por parte das pessoas. Um dia uma cabeleireira, negra, com o cabelo alisado, me abordou num restaurante perguntando se eu não queria alisar o meu cabelo pois ficaria muito mais bonito, fácil de manter, etc etc etc. Respondi que não, que tinha orgulho dele do jeito que era. Mas as pessoas são cruéis, Lola. Eu era constantemente motivo de piada por causa do meu cabelo. E quem fazia as piadas eram os meus próprios "amigos". Eu ria e fingia levar na esportiva, enquanto as meninas de cabelo liso colecionavam elogios. Ao mesmo tempo, eu não encontrava um cabeleireiro que não me oferecia uma "escova de não-sei-o-quê" junto com mil argumentos de realizar o procedimento (e desistir do meu cabelo natural). É também uma questão de custos. É muito mais lucrativo vender procedimentos químicos, e o cliente ter que voltar ao salão de 4 em 4 meses em média para retocar a parte da raiz que cresceu natural, ao invés de vender apenas tratamentos como hidratação, em geral mais baratos e que são necessários para manter saudável tanto o cabelo natural como o cabelo modificado por químicas.
Até que eu me rendi. Alisei o cabelo e deixei só alguns poucos cachos na ponta. Na primeira vez ficou lindo, elogios, o fim das piadinhas inconvenientes. Na segunda vez, meu cabelo sofreu um dano imenso, e chegou ao estado de "calamidade" que nunca havia chegado antes. Veio a raiva do profissional irresponsável que aplicou o produto da forma incorreta, o arrependimento de não ter seguido firme e forte com os cachos, de não ter ouvido pessoas que me aconselharam a não mudar, como alguns poucos amigos e o meu namorado. Mas hoje, um ano depois, sabe o que eu percebi? Que aquele cabelo volumoso, cacheado, que chama a atenção é meu, só meu, e faz parte da minha identidade. Cabelo liso pode ser lindo e prático, mas não é meu.
Minha história capilar caminha para um final feliz agora. Decidi pacientemente esperar o cabelo crescer inteiro de novo, e cuidar de uma parte de mim que tem sérias chances de se tornar a preferida, ainda que todo o resto seja amad
o. Pesquiso na internet e vejo que tem muitas meninas na mesma situação que eu e que compartilham pequenas diquinhas umas com as outras. Hoje eu sou feliz tendo cabelo cacheado (ainda que na base da técnica do "dedinho" e do "papelote"), olhos castanhos e sendo morena.
O que eu quero dizer para as leitoras e os leitores do seu blog é que a "ditadura do cabelo liso" é sim uma forma de racismo. Não vivemos em países eslavos para sermos todas loiras dos cabelos lisíssimos. É absurdo que o Brasil, um país com uma diversidade racial tão grande, tenha tanto preconceito disfarçado. Quantos não me diziam que eu estava certa de "assumir meu cabelo" (como se fosse algo que eu precisasse de muita coragem e humildade para admitir tamanha diferença perante à sociedade), mas tinham o mesmo cabelo de etnia negra como eu e viviam tentando aparentar o padrão caucasiano. A verdade é que tem que ter muita atitude para ir contra esse padrão. Portanto, não vou dizer que "se aceitem" como se fosse um ato passivo de conformação, mas mostrem às pessoas que todos têm o direito de serem aceitos! Que todos têm o direito de te aceitar do jeito que é e te respeitar assim. Não tolerem piadinhas. Não deixem que as pessoas te convençam que por causa de qualquer característica sua, seja cabelo, cor de pele, forma corporal, você não pode ser bel@. A beleza começa dentro de nós (sei que é clichê), e não num pote de escova progressiva milagrosa.
PS: Se alguém precisar de alguma referência quanto à cuidados com cabelos crespos e cacheados, foi aqui que eu aprendi muita coisa.
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