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Sunday, May 13, 2012

UM DIA DAS MÃES ACONCHEGANTE PRA VOCÊ

Pessoas queridas, enquanto preparo um post que não tem nada a ver com mães, deixo aqui minha pequena homenagem para este dia. Sou muito ruim pra escrever sobre datas comerciais. Outros anos já falei sobre mães e cinema, em posts até bonitinhos. 
E, pra quem me pediu pra tratar da "polêmica" capa da Time com uma mãe amamentando seu filho de 3 anos, talvez eu até fale, mas não hoje, porque estou muito sem tempo. E nada do que eu escrever chegará aos pés deste post.
Boas lambidas maternais a tod@s vocês! (esta aí ao lado é a minha mãe).

Monday, April 30, 2012

CRÍTICA: PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN / É a mãe

Nunca fomos tão felizes.
 
Nossa, vi Precisamos Falar Sobre o Kevin, e ele me derrubou. Achei perturbador. Fiquei grudada na cama, muito assustada e confusa, como se estivesse vendo um filme de terror. Enquanto procuro entender como a Tilda Swinton não foi indicada ao Oscar de melhor atriz, fico pensando em como estou com vontade de ler o romance de 2003 de Lionel Shriver, que inspirou o filme de Lynne Ramsay (uma diretora mulher, aleluia!).
O drama segue a perspectiva de uma mãe (Tilda) que tem um filho problemático. A trama é contada em uma série de flashbacks. Quando que a gente percebe que alguma coisa vai dar muito, muito errado? Tipo: antes da menina nascer, aliás, antes do Kevin nascer, vemos que a loirinha já tá usando um tapa-olho. Portanto, no momento em que Kevin e irmã começam a habitar o mesmo tempo e espaço, a gente sabe que ela vai perder um olho. Pensei que seria com o aspirador de pó. Daí pensei que seria com uma flechada. Mas acho que ficamos sabendo mesmo que o babado é forte quando vizinhas passam, do nada, a agredir Eva.
E logo que a gente nota que o menino não é boa pessoa, a gente (ou pelo menos eu) torce pra que, pelamor, ninguém invente de ter um bichinho de estimação em casa. Porque todo mundo sabe que existe uma grande atração de serial killers por animais. Aí, quando aparece um porquinho da índia, ou um hamster, ou sei lá que bichinho peludo e fofudo é aquele, a gente até fica surpresa que ele sobrevive cinco minutos naquele campo minado.
Só pra variar, praticamente todas as opiniões que ouvi sobre a história colocam a culpa por ter um filho psicopata na mãe. A julgar por essas pessoas, sempre tão ligeiras em responsabilizar as mães, parece que os filhos moram numa ilha deserta só com suas progenitoras. Kevin tem pai também, pelo que eu pude notar. E é um pai que sempre lhe dá razão e que justifica seu comportamento. Pior: é o pai que lhe dá um arco e flecha e o ensina a usá-lo. Fica o aviso: se você desconfiar de qualquer impulso agressivo do seu filho, não o presenteie com armas letais. Obrigada.
Mas também não entendo porque todo mundo culpa tanto os pais, sempre. E, claro, principalmente as mães. Num filme que eu adoro, A Outra História Americana (American History X), o fillho mais velho, interpretado por Edward Norton, torna-se um neonazista, e seu irmão mais novo também, mais pela influência do Edward. Mas quem influencia Edward? Ninguém na casa dele é neonazi. Os pais são carinhosos com os filhos. Há uma cena em que o pai, no meio da mesa de jantar, diz alguma coisa racista. Mas pô, se cada filho que ouvisse seu pai dizer algo racista tatuasse uma suástica no peito, estaríamos bem pior do que estamos agora. No entanto, a gente responsabiliza os pais pelas atrocidades que seus filhos cometem.
Eu acredito que psicopatas existam e que sejam incuráveis. Acho que pode faltar um pedaço do cérebro que possibilite a empatia. E que, por mais que a criança tenha pais legais, essa falta de empatia pode causar algum estrago cedo ou tarde. Mas também acredito que psicopatas possam ser criados pelo meio ambiente. Uma criança que é sistematicamente abusada e torturada pelos pais têm grandes chances de querer repetir o comportamento já na adolescência. Mas assim, eu sou contra a pena de morte. Por mais que algumas pessoas nunca vão aprender a conviver em sociedade, elas não devem ser mortas. Mas também não devem ser soltas.
Kevin odeia sua mãe, ou é o que transparece, desde o comecinho. E ela não gosta dele. Só que eu acho que ela faz o possível. Ela tenta se conectar com ele, e não consegue. Sua gravidez não é desejada, isso é claro, mas até aí, a maioria também não é, e nem por isso temos uma legião de serial killers. Não sei se Eva tem depressão pós-parto, que é um dos grandes tabus da humanidade. O mito do instinto materno é tão grande que poucos ousam falar que muitas mães sofrem e têm pensamentos pouco carinhosos pro bebê depois do parto. Mas essa é uma doença, é depressão, precisa de tratamento. E não fica claro se Eva sofre disso.
Também não sei se é possível que uma criança pequena decida que vai destratar um de seus pais. É o que acontece no filme. Pro resto do mundo, Kevin é um docinho de coco. Pra sua mãe, porém, ele é um pesadelo. Eu me peguei pensando o que eu faria num caso desses, se tivesse um Kevin. Depois de tentar de tudo, creio que eu jogaria a toalha. Desculpe a insensibilidade e a covardia, mas eu me separaria dele, o deixaria com o pai, com quem ele se dá bem, e tentaria seguir minha própria vida.
É uma atitude egoísta, eu sei, e eu digo isso sem ser mãe, nem nunca querer ser mãe. E tenho certeza que a maior parte de vocês mães não desistiria. Mas eu só fiquei pensando se visitaria o Kevin muito de vez em quando ou se eu fugiria logo pro México. Não caio nessas de amor incondicional. Se um filho fizer algo terrivelmente errado, é dever dos pais perdoá-lo? Vamos supor que, em vez do guri arruinar a parede que você pintou com tanto esmero, ele tivesse torturado até a morte alguns cãezinhos. Você não deserdaria o menino? Quantas ninhadas de cachorrinhos você permitiria que ele eliminasse até interná-lo?
Imagino que o livro deve oferecer muito mais detalhes de tudo. Soa altamente improvável que Kevin consiga enganar a todos (exceto a mãe) por tanto tempo. Um garoto desses deve aprontar maldades na escola. Sua irmãzinha aparece pouco, o que é conveniente, porque suponho que ela sofra pacas nas mãos de Kevin. Um dos meus problemas com o filme é que sabemos tão pouco sobre Eva, a mãe.
O único momento em que ela diz algo duro é no campo de golfe, quando ela fala o que umas cinquenta pessoas escrevem em todo santo post que publico sobre gordofobia -– que metabolismo lento ou genes o quê, gordos são gordos porque comem mal e muito. Por mais que eu gostaria de avisar que os babacas que repetem essas coisas vão gerar filhos psicopatas, hum, acho que não funciona assim. E o pai de Kevin (John C. Reilly) é bonzinho demais. Tá, mais pro lado panaca mesmo. Dá vontade de chacoalhá-lo e dizer: escuta, cara, você não tá vendo que seu adorável filhinho parece saído de A Profecia? Procura o 666 no couro cabeludo dele, que deve estar lá!
O lado bom é que, na vida real, se a população mundial aumentar muito e os governos quiserem fazer com que os casais tenham menos filhos, é só passar Precisamos Falar sobre Kevin na TV uma vez por ano. Problema resolvido.

Wednesday, March 7, 2012

GUEST POST: EU, BABÁ, OU CARTA PARA MINHA FILHA

Josiane é professora e me conta que demorou para perceber, ou talvez assumir, sua identidade racial. Hoje ela assume sua cor com orgulho e escreve um blog para sua filha Beatriz ler quando crescer (adoro essa ideia! Todas as mães e pais deveriam fazer o mesmo). Logo, o bonequinha fofa é pra Beatriz, não pra mim nem pra você -- não insista. Mas o post é um belo relato para tod@s nós.

Oi minha bonequinha fofa!
Filha, eu sabia que este dia chegaria! Só não sabia que a minha reação seria assim tão boba, meio inerte, com cara de besta muda. Mas foi assim que aconteceu, não dá pra mudar o passado. Nem sei se seria bom ter outro tipo de reação diferente da que tive.
Antes de você nascer, a curiosidade sobre como você seria era enorme. Seu pai se acha moreno, mas é um camarão na praia, prova infalível de brancuras negadas. Já eu sou mulata, e mesmo que esta palavra tenha uma "mula" dentro dela (e todas as implicações possíveis da palavra), não consigo achar outra mais adequada para me descrever fisicamente. Então, quando engravidei, ficou aquela questão no ar: "Pra quem ela vai puxar?" Lembro-me de uma conversa que tive neste período com uma vizinha, loira, que adotou com o marido -- também loiro -- duas meninas bem moreninhas, e dos olhares que recebiam quando as levavam para passear, olhares do tipo : "Hum... a loira pulou a cerca!" Pois aproveitei para falar sobre o meu medo de você nascer bem branca como seu pai e me confundirem com sua babá. O interessante é que na mesma hora, chegou meu pai, seu avô. A vizinha olhou para ele, que também é branco, e comentou rindo: "Se prepare então: com certeza sua filha vai ser clara". E foi o que aconteceu. Você nasceu esta beleza toda, não tão branca, mas diferente de mim. E semana passada, a profecia da babá se concretizou.
Estava eu, você e a minha assistente sobrinha fofa Jheniffer na feira da gestante e bebê. Desta vez você foi uma "lady", se comportou divinamente. Comprei só umas chupetas da única marca que você aceita, e um pacote com 36 fraldas por 9 reais. Quando voltei no dia seguinte, depois de conhecer a qualidade da fralda, para acabar com o estoque, fiquei sabendo que o preço estava errado, custava 38 reais. Bem, continuando a história: Estava eu desfilando com você, quando uma senhora, de aparentes 50 anos, chegou perto de mim e ficou te olhando. Estávamos numa barraca bem apertada e havia uma gestante atrás de mim. Então a senhora perguntou, olhando para a gestante, apontando para você:
- Quantos meses ela tem?
Eu, achando que a mulher tinha algum problema de vista, respondi:
- 8 meses.
A senhora então, soltou a pérola:
- Não, não estou perguntando pra você, estou perguntando para a mãe dela.
A gestante olhou pra mulher, olhou pra mim, e a senhora insistindo na pergunta. A gestante respondeu o óbvio, que não fazia a mínima ideia, e saiu de perto rapidinho, talvez temendo algum barraco. Eu fiquei olhando pra mulher, que fingiu não ter ouvido nada e saiu andando normalmente, enquanto uma vendedora me chamou para ver um chapeuzinho de bebê que eu tinha pedido para olhar. Na hora, não raciocinei muito sobre o que tinha acontecido, foi bem rápido. Mas depois, que revolta me deu! Por dois motivos:
1- É claro que muita gente pensa o que esta senhora pensou, mas nem todos têm a arrogância de assumir um pensamento deste em voz alta;
2- E se eu fosse a babá mesmo? Por que eu não poderia ter respondido a sua idade?
Em resumo: esta senhora ou era uma racista ("Um homem branco ter filho com uma mulata? Que mundo é este?") ou era uma elitista ("Não falo com babás!"), ou a melhor das hipóteses, a que eu assumi intimamente como verdade: ela não passava de uma senhora com graves problemas. Como todos os racistas, aliás.
Beatriz, pode parecer besteira falar sobre racismo hoje, mas só sabe a importância de reconhecer tal tipo de preconceito quem o sente na pele. E quando você é meio misturada, como eu, fica ainda mais difícil identificar atitudes racistas quando elas acontecem. Gostaria muito de lhe dizer que tudo não passa de imaginação minha, que essas coisas não existem mais. Quem dera! O racismo encontra-se no dia a dia, quando alguém fala que cabelo de negro é cabelo ruim, quando um grupo de rapazes negros são enquadrados pela polícia sem motivo algum, e em tantas outras situações! Mesmo que você continue tendo a pele clara, Beatriz, quero que lembre-se de suas raízes, e de como você é uma mistural genética genial. E que critérios de cor de pele não podem servir de parâmetros para se avaliar a importância de uma pessoa.
Embora eu ache que seu cabelo vai começar a cachear logo, logo. Ele ficará lindo, minha filha! Como todo o restante em você!
Adoro você!
Sua mãe.

Saturday, November 26, 2011

GUEST POST: AGRESSÃO NO PARTO, UM OUTRO TIPO DE VIOLÊNCIA

Ontem, Dia Internacional do Combate à Violência contra a Mulher, Ligia lançou um convite para que participem da sua pesquisa. Quem é Ligia, e qual é a pesquisa? Ligia Moreira Sena é bióloga formada pela UNESP, mestre em psicobiologia pela USP, doutora em farmacologia pela UFSC. Depois do nascimento da sua filha (hoje com 1 ano e 4 meses), envolveu-se ativamente na questão do respeito ao parto e nascimento, da maternidade ativa e do empreendedorismo de mulheres profissionais que se tornaram mães. Ficou sabendo que algumas de suas amigas haviam sido extremamente desrespeitadas em seus partos, sendo agredidas verbalmente e vítimas de humilhações. Não conseguiu se conformar. Decidiu abandonar a carreira antiga e fazer um novo doutorado. Agora ela é aluna novamente, no programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da UFSC, estudando a violência sofrida por mulheres em trabalho de parto. Ela é mãe, professora, ativista e feminista (e, por coincidência, mulher do chargista Frank Maia, meu “colega” no jornal A Notícia).
Segue o texto em que Ligia explica o que é sua pesquisa. Ela quer ouvir muitas mulheres. Peço que participem, porque o assunto é muito importante.

Existem formas de violência que vão além da força física e que, ainda assim, podem ser ainda mais agressivas, mais dominadoras, mais opressoras, pela sutileza com que se escondem no contexto institucional, nas relações sociais e nos significados simbólicos. É a ocorrência e a natureza de um desses tipos de violência, ou de práticas desrespeitosas, que ocorrem em instituições de saúde que queremos alcançar com esta pesquisa: a violência e o desrespeito vivido por mulheres em trabalho de parto, parto e pós-parto imediato. Uma forma de violência que não é conscientizada como tal e que representa, de certa forma, um processo de dominação. Muitas vezes, atitudes de violência, desrespeito e maus tratos são observadas contra mulheres em trabalho de parto e parto sem ao menos que os profissionais de saúde percebam que estão agindo assim. São ações e condutas encaradas como “normais” e rotineiras. Essa violência pode ser expressa, de acordo com alguns pesquisadores, desde a negligência na assistência, discriminação social, violência verbal –- tratamento grosseiro, ameaças, reprimendas, gritos, humilhação intencional -– e violência física, até o abuso sexual. Outras pesquisas também incluem como um tipo de violência o uso inadequado de tecnologia, com intervenções e procedimentos muitas vezes sem a real indicação, resultando numa cascata de intervenções com potenciais riscos e sequelas, físicos ou emocionais.
Consideramos como formas de violência ou tratamento desrespeitoso, nesta pesquisa, todo e qualquer processo, de ordem física ou psicológica, que tenha ocorrido sem consentimento da mulher em trabalho de parto, parto e pós-parto imediato; que tenha ocorrido de maneira abusiva; que tenha causado situação de embaraço ou constrangimento para a mulher; que represente intrusão de privacidade; que tenha representado ameaças de qualquer espécie proveniente do profissional da saúde e dirigido à parturiente e/ou seus acompanhantes; uso de relações de poder para impor práticas injustificadas; uso de palavras ofensivas e desrespeitosas ou de ironia e escárnio dirigidas à parturiente e/ou seus acompanhantes; e outras práticas que tenham sido problematizadas pelas mulheres que viveram situações de violência, desrespeito ou maus tratos e interpretadas como tais pelas mesmas.
Uma pesquisa realizada em 2010 revelou que uma em cada quatro brasileiras relata ter vivido situações de violência e desrespeito em seus partos. Nós queremos ouvir essas mulheres, conhecer os contextos desrespeitosos de parto que viveram, saber como isso foi interpretado por elas, sua percepção desta vivência. E vamos usar as ferramentas da internet para isso. As entrevistas serão feitas via comunicadores instantâneos da internet que permitam uma videochamada e se iniciarão no primeiro semestre de 2012. Acreditamos que a amplitude que a internet traz facilitará a participação de muitas mulheres, de diferentes locais, inclusive as que estão comprometidas com seus trabalhos ou filhos, ou os dois, que terão a liberdade de agendar as entrevistas de acordo com sua disponibilidade, sem ter que se deslocar a nenhum outro lugar.
O convite à participação na pesquisa será lançado a partir de 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência Contra as Mulheres, estendendo-se durante todo o desenvolvimento desta pesquisa, que pretende se encerrar em 2015. Nesse convite, mulheres que tenham se sentido desrespeitadas em seus partos poderão inserir seus e-mails de contato e serão contatadas para que maiores informações sobre a pesquisa sejam fornecidas. A pesquisa faz parte do desenvolvimento do meu doutorado em Saúde Coletiva, realizado na UFSC, no Departamento de Saúde Pública.
Portanto, se você conhece uma mulher que tenha se sentido desrespeitada de alguma forma no tratamento recebido em seu parto, por favor divulgue esta pesquisa a ela. Se você for essa mulher, conheça mais a pesquisa.

Sunday, May 8, 2011

MÃES FELIZES E INFELIZES NO CINEMA RECENTE

Feliz dia das mães!

Ano passado eu falei de alguns filmes que fazem as mães saírem bem na foto. Não houve muita coisa de lá pra cá. Quer dizer, esta semana eu revi (partes de) Mamma Mia porque passou na TV, e ah, eu adoro esse musical! As coreografias (quais coreografias? Nem parece ter um profissional envolvido nisso; é tudo tão improvisado, tão amador!) são as piores possíveis já vistas no gênero, e deveria ser lançada uma “versão sem sofrimento” em que o Pierce Brosnan, tadinho, ou é dublado por alguém que saiba cantar ou é deixado mudo. Mas a Meryl Streep brilha, toda alegre e jovial, e só a cena de "Dancing Queen", com todas aquelas gregas largando os aventais e indo cantar e dança no pier já vale o filme (veja aqui). E eu amo ABBA. Pronto, agora falei. Mamma Mia apresenta um dos melhores relacionamentos entre mãe e filha do cinema, não acham? A Meryl se dá muito bem com sua filhota Amanda Seyfried. E é interessante como a mãe é muito mais liberal que sua filha, não que seja o único caso. (E a Meryl é tão fantástica — nos últimos trinta anos, existiu atriz mais consagrada, mais versátil que ela? — que ela representa uma das poucas coisas boas do remake Sob o Domínio do Mal, que tem uma das mães mais megeras de todos os tempos). Outras boas mamães que surgiram de lá pra cá (nos últimos dois anos, digamos) foram a Annette Bening e a Julianne Moore em Minhas Mães e Meu Pai (contrariando o que o Woody Allen sugere em Manhattan, em que seu personagem é deixado pela mulher — olha aí a Meryl Streep de novo! — por outra mulher. Seu filho está sendo criado por duas mães, e Woody reclama: “Sempre achei que muito pouca gente conseguiria sobreviver a uma só mãe”). Eu gosto da cena de Minhas Mães quando as duas abrem os braços pro filho, exigindo um abraço. Bom, essa comédia dramática pode e deve ser criticada por jogar a ideia de que o que as lésbicas realmente querem é um homem, mas a relação que as duas mães têm com seu casal de filhos é muito saudável (e é raríssimo aparecer no cinema. Vamos torcer pra que aqui no Brasil, agora que o Supremo aprovou a união estável para casais do mesmo sexo, logo tenhamos filmes com filhos sendo criados por duas mães e dois pais). E por que, quando se fala de mãe, ninguém mais fala de A Troca? É um filme muito feminista com a Angelina Jolie. Ela faz a típica mãe coragem (e solteira), que luta nos anos 1920 para encontrar seu filho desaparecido. O que acontece com ela é surreal: a polícia lhe devolve um menino, e ela diz, putz, legal, obrigada, mas esse não é o meu filho, e a polícia diz claro que é, e a Angie reclama e é mandada pra um hospício por peitar as autoridades. E parece que é baseado num caso real em que governantes realmente falaram pra uma mãe que ela não seria capaz de reconhecer seu próprio filho de 9 anos que desaparece durante uns cinco meses. Pesadelo, né? Por falar em pesadelo, vamos aos piores retratos das mães no cinema recente. Dizem que uma das mais megeras é a Jackie Weaver no australiano Animal Kingdom (trailer aqui; Jacki concorreu ao Oscar de atriz coadjuvante e perdeu pra Melissa Leo em O Vencedor — em que ela faz uma mãe forte, que mais atrapalha do que ajuda o filhinho boxeador. Mas ainda não vi Animal Kingdom e prefiro esquecer tudo referente ao Oscar 2011). Uma mãe terrível que ainda parece estar na cabeça de todo mundo é a Barbara Hershey em Cisne Negro. A caixa de comentários do meu post tá impagável e acrescenta demais a minha crítica, lançando um monte de pontos de vista. Um leitor ou leitora, não dá pra saber pelo pseudônimo Fri Yourself, diz que, quando Nina fere sua própria barriga, ela tá tentando cortar o cordão umbilical que a une à mãe. A gente pode discutir durante horas se a mãe existe de verdade ou é um figmento da imaginação da protagonista (ou se talvez a mãe existe, mas boa parte de suas ações pode ser só fantasia. Por exemplo, ela está de fato na cadeira do quarto enquanto Nina começa a se masturbar?, pergunta a Lauren), ou até que ponto ela é a vilã (será que Nina não se autodestruiria ainda mais rápido sem a mãe repressora por perto?).Pedro Alexandre Sanches, famoso jornalista da área musical, deu uma canjinha aqui no blog e interpretou a cena de sexo entre Nina e Lily como entre Nina e... a mãe dela! Fascinante essa hipótese, pois, assim como em Preciosa, há sugestões de abuso sexual por parte materna. A mãe pergunta pra Nina “Você está pronta pra mim?” num contexto muito esquisito (a cena é cortada antes que a gente saiba do que ela tá falando). Tem todo o pavor de Nina em trancar as portas, fechá-las com barras de ferro... A protagonista quebrando a mão da mãe na porta já é um sinal. Eu não creio nisso que a cena de sexo entre Nina e Lily é entre Nina e a mãe (nem acho que a cena ocorre de fato), mas não não dá pra negar que a mãe de Nina tem um papel fundamental na sua repressão sexual. Pra mim a cena maior da manipulação materna é quando a Barbara ameaça jogar fora o bolo que tinha comprado pra comemorar o novo papel da filha. Nina diz que não quer comer e a mãe muda automaticamente. Mas um ou uma leitora anônimo lembrou que essa cena pode muito bem estar relacionada com a bulimia de Nina. A mãe, controladora que é, já conhecia os distúrbios alimentares da filha e encarou a negativa de comer uma fatia de bolo como mais um desses distúrbios. É uma interpretação que faria dela menos vilã. Sei lá, há tantas análises possíveis pra Cisne Negro que a gente pode falar do filme pra sempre...E é por isso que uma mãe claramente mais vilã, como a da Mo'nique em Preciosa, empalidece em comparação com a mãe de Cisne. Fica tudo muito óbvio! A culpa da mãe de Nina é mais ambígua e, no caso de Preciosa, não há tanta possibilidade de debate sobre a mãe brutal, abusiva, monstruosa. Não estou dizendo que a interpretação de Mo'nique não é fabulosa (ela mereceu o Oscar de atriz coadjuvante que recebeu em 2010, mas acho que a Barbara merecia ter sido pelo menos indicada este ano). Mas pode ser que eu só esteja dizendo isso porque Cisne Negro é um filme tanto melhor que Preciosa, né?
Bom, gente, tudo isso é só pra desejar um ótimo dia das mães! Mães de primeira viagem, favor seguir o modelo das mães legais de Hollywood tratado na primeira parte do post. E é só impressão minha ou tem mais mãe malvada que boa no cinema?
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