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Thursday, May 24, 2012

XUXA, MINHA SOLIDARIEDADE

Como estava em SP sem internet, alheia ao mundo, só fiquei sabendo na manhã de terça da entrevista da Xuxa ao Fantátisco e sua incrível repercussão. E quem me contou foi a deputada Manuela Dávila, antes do evento na USP.
Pois é, sou muito chique! A deputada federal mais votada do RS por dois mandatos consecutivos e atual candidata à prefeitura de Porto Alegre, além de ser uma pessoa encantadora e revelar-se leitora do meu blog, me falou da sua indignação com o que andava lendo sobre Xuxa (Manuela, que também tem um blog, escreveu sobre o caso). Ela me disse que já andou perto de Xuxa, e que não fazemos ideia do fanatismo que é. Manuela disse que já esteve ao lado de Pelé, de Lula, e que não tem comparação -– que as pessoas se jogam pra tocar em Xuxa, que ela é A Celebridade. E que a reação de Xuxa (como seria de quase qualquer um) é de susto, de medo, de encolher-se diante de um assédio tão arrebatador.
Assim como Manuela, eu não tenho nenhuma simpatia por Xuxa. Absolutamente nenhuma. Felizmente, cresci  nos anos 70 vendo Vila Sésamo, não Xou da Xuxa. Já na década de 80 meu pai trazia a Manchete pra casa e as capas sofriam revezamento entre Xuxa, Luiza Brunet, Roberta Close, e alguma princesa de Mônaco. Nunca vi nenhum filme infantil com a rainha dos baixinhos. Sempre achei péssimo como ela (entre outras apresentadoras) estimula(va)m o consumismo e a sexualidade precoce das meninas. 
Até considerei ousado que ela tenha feito uma “produção independente” (ter filho sem casar). Espumei de raiva quando, em pleno dia de privataria das teles, o Jornal Nacional dedicou sua edição ao nascimento de Sasha. Mas, convenhamos, se não fosse a Xuxa, a Rede Globo pegaria outra inocente útil pra alienar os espectadores. Enfim, não tenho procuração pra defender a Xuxa.
Só que o que pega é que, no domingo, Xuxa deu uma entrevista de 25 minutos pro Fantástico. E, a partir dos 18 minutos (depois de falar de coisas que não me interessam nem um pouco, como seu namoro com Pelé, com Senna, seu encontro com Michael Jackson etc), ela, que já fez campanha contra bater em criança (excelente iniciativa, certo?), revela (minha transcrição):

“Alguém conhecido dentro de casa que acabou abusando sexualmente dessa criança e ela resolve sair de casa, mas pra ela poder comer, ela acaba fazendo isso nas ruas [se prostituindo]. Isso me dá um embrulho no estômago porque eu consigo não só me colocar no lugar delas como eu abracei essas causas todas porque eu vivi isso, na minha infância, na minha, até minha adolescência, até meus 13, 13 anos de idade, foi a última vez. Pelo fato de eu ser muito grande, eu chamar a atenção, eu fui abusada, então eu sei o que é, o quê que uma criança sente, sabe. A gente sente vergonha, a gente não quer falar sobre isso, a gente acha que a gente é culpada, […] eu sempre achei que eu tava fazendo alguma coisa, ou era minha roupa, ou era o que eu fazia que chamava a atenção, porque não foi uma pessoa, foram algumas pessoas que fizeram isso, e em situações diferentes, em momentos diferentes da minha vida, então ao invés de eu falar pras pessoas eu tinha vergonha, me calava, me sentia mal, me sentia suja, me sentia errada […].
Só que eu não falei pra minha mãe. Eu não tinha essa coragem de falar, e que a maioria das crianças, dos adolescentes, que passam por isso não falam. Eu não me lembro direito, eu sei que era muito nova. Eu me lembro do cheiro. Tinha cheiro de álcool, tinha cheiro de alguma coisa, e eu não sei quem foi. E depois aconteceram muitas vezes. Parou aos 13 anos, quando eu consegui fugir. Agora, tem essas coisas que pra mim me dói, me machuca, me dá vontade de vomitar, quando eu lembro que tudo isso aconteceu e eu não pude fazer nada, porque eu não sabia, eu não tinha experiência, o que uma criança tem de experiência, o que ela pode fazer? Eu tinha medo de falar pro meu pai e meu pai achar que era eu que tava fazendo isso, porque uma das vezes que aconteceu foi com o melhor amigo dele, que queria ser meu padrinho. Eu não podia falar pra minha mãe porque uma das vezes também foi com o cara que ia casar com a minha avó. Então a errada era eu? […]
Professores, um professor chegou pra mim e disse, não adianta você falar, porque entre a palavra de um professor e de uma aluna, eles vão acreditar no professor, não no aluno. E até hoje, se você me perguntar, porque aconteceu essas coisas comigo, eu acho, eu ainda acho, que foi minha culpa, e a gente não pode pensar assim. Porque a criança não tem culpa, a criança não sabe. […] Talvez eles deveriam ter notado que quando eu não tava falando muito, eu que sou de falar demais, é porque tava acontecendo uma coisa comigo […]. Por que que você acha que eu, que de repente eu, que eu não consigo ficar, sei lá, casar, ficar muito tempo com uma pessoa, deve ter uma explicação, né? Quem sabe não deve ser tudo isso que eu vivi? O fato de eu me achar horrível, de eu me achar feia, […] deve ter a ferida ali, aquela coisa, que eu... Eu nunca falei assim pra ninguém, porque eu achava que as pessoas iam me olhar diferente, nào vão entender, ou vão entender da maneira delas. […] Talvez eu tivesse que passar por tudo isso pra hoje chegar e dizer: eu quero lutar por elas, sabe. Eu tenho o sonho de um dia nenhuma criança sofrer.”

Não sei quanto a você, mas eu fiquei bastante comovida. Fico tocada com a dor das pessoas. E tenho como princípio não duvidar de quem narra seu abuso. Porque é raríssimo uma pessoa nessas condições mentir. Pelo contrário –- a maior parte sequer denuncia. São pouquíssimas as pessoas que denunciam. E, quando elas têm essa coragem, o que fazemos? Duvidamos delas. As chamamos de vitimistas. Dizemos que elas só querem aparecer. Que estão mentindo.
Ontem mesmo publiquei o guest post de uma mulher que foi estuprada trinta e poucos anos atrás e só agora resolveu contar o que sofreu, num suspiro, sem revisão, num email. Foi pura coincidência. Recebi o email em fevereiro, e o post já estava agendado, ilustrado e tal, desde a semana passada. E não foi o primeiro (nem será o último) post sobre estupro que publico aqui. Leia o guest post de ontem, os outros posts, e veja como a história que Xuxa conta se parece com todos esses casos. O que elas relatam é comum. Acontece direto, acontece com muita gente, e ainda assim a gente insiste em não acreditar, insiste em culpar a vítima. A gente não aprende nunca.
Quase sempre, quando publico um post desses, vem alguém me chamar de sensacionalista. Já me chamaram de Ratinho das Feministas ou algo assim. Tem feminista que não fala em abuso, em violência, em assuntos desagradáveis, porque acha que isso é se vitimizar. Então preferem ficar falando em como, sei lá, o funk, a pornografia e a prostituição empoderam as mulheres. Eu discordo. Acho que por pra fora nossas histórias de horror pode ser muito liberador. Saber que outras pessoas passaram pela mesma coisa pode ser empoderador. Não se calar, denunciar, protestar, criar uma rede de camaradagem, de consultoria jurídica, é extremamente importante. A outra opção é a gente cobrar silêncio absoluto, olhar pra baixo e fingir que estupros não existem. Assim, quem sabe, eles vão embora.
Eu fico feliz quando uma celebridade conta sua tragédia em horário nobre. Porque isso vai influenciar muito mais gente do que um mero bloguinho. Desde que Xuxa falou com o Fantástico, 285 mil denúncias foram feitas pro Disque 100, que lida com violência contra a criança e adolescente. Um aumento de 30% no número de ligações. Alguém me explica como isso pode ser negativo. Foi ótimo a nadadora Joanna Maranhão ter quebrado o silêncio em 2008 e acusado seu ex-treinador. Quer dizer, não foi nada bom pra ela, que foi processada (o crime prescreveu) e viu a mídia se obcecar pela sua história. Mas, graças a Joanna, foi aprovada uma lei (aguardando sanção presidencial) com seu nome que muda o prazo da prescrição dos crimes. Ele passa a contar a partir do instante que a vítima completa 18 anos. Isso só foi possível porque uma pessoa famosa contou sua história de horror.
Ah sim, tem muita gente falando do “filme pornô que Xuxa fez”, insinuando que a abusadora de crianças era ela. Quanta estupidez! Sei que o filme é antigo, de 1979 (lançado apenas em 82), mas pelamor! Seguinte: Amor Estranho Amor é uma entre várias obras do Walter Hugo Khouri. Que sempre fazia o mesmo filme (e não tinha nada a ver com pornochanchada; era drama, pretensioso, chatinho, com diálogos estranhos diálogos e péssima direção de atores), sobre a (hetero)sexualidade de seu alterego, sempre cercado de lindas mulheres -– todas querendo levá-lo pra cama, lógico. Lembro bem de Amor porque foi das primeiras fitas seladas a serem lançadas no Brasil (pela Globo Vídeo), e eu trabalhava numa locadora.
No filme, Xuxa faz uma prostituta de 16 anos que transa com o protagonista, um garoto de 10 ou 12 anos. Se não ficou claro, repito: Amor Estranho Amor não é um documentário. É um filme de ficção. Xuxa era apenas uma atriz, e longe de ser a principal (que era a Vera Fischer). Dizer que ela abusou de um menino porque fez esse papel é mais ou menos como dizer que Heath Ledger explodiu prédios e matou e torturou pessoas porque ele interpretou o Coringa, sabe?
E tem que ser meio ignorante, não saber nada sobre comportamento de pessoas abusadas, para perguntar “Ué, se ela foi abusada, por que fez um filme em que abusava de um menino?”. Bom, fora a diferença entre realidade e ficção (Xuxa não abusou de ninguém na vida real), existem estatísticas que apontam que boa parte dos abusadores foram abusados. Assim como boa parte dos homens que batem nas mulheres cresceram em lares em que apanhavam e viam o pai bater na mãe.
Ah, mas por que Xuxa só contou agora, trinta e poucos anos depois? Ela diz porquê: porque sentiu vergonha. Ainda sente. Ainda sente-se culpada. Como, aliás, a esmagadora maioria das vítimas de abuso. E talvez porque ela sabia que iria ser apedrejada.
Apedrejada pelo abuso que sofreu. Típico.

Wednesday, May 23, 2012

GUEST POST: UMA LEMBRANÇA DE HORROR

Não consigo nem começar a descrever como este relato enviado pela L. me encheu de raiva e pena.

Acabei de ler o relato Mais uma História de horror para sua coleção, e gostaria de por para fora o horror pelo qual também passei. Eu nunca tive coragem de contar pra ninguém, nunca verbalizei o horror de que fui vitima. Eu tentei apagar isso das minhas lembranças, mas é impossivel.
Eram meados da década de 70. Eu tinha 20 anos e estudava numa universidade no interior do Paraná. Morava numa república com mais algumas estudantes, minha família morava numa pequena cidade do interior, e naquela época a gente saía de casa para estudar.
Bem, eu costumava frequentar o Diretório Acadêmico que promovia uns bailinhos no final de semana. O dinheiro era curto, eu não pagava a escola, mas tinha que trabalhar pra pagar o aluguel, e esses bailinhos eram o único lazer de que dispunha.
Eu era bonita, e sempre tinha parceiro para dançar. Apesar de ter 20 anos, ainda era virgem e o máximo de carinhos que tinha recebido de um homem eram uns beijinhos.
Eu cursava Ciências Economicas e os estudantes não se misturavam. Os de Humanas andavam com os de Humanas, os de Exatas com os de Exatas, e assim por diante. Um dia, fui além dos domínios do corredor de humanas e conheci um rapaz, o Paulo, que estudava Engenharia. Conversamos e ele me convidou pra ir no baile no próximo sábado. Eu disse sim, que nos encontrrariamos lá. Só que nesse interim, um garoto pelo qual eu era apaixonada (vamos dizer que ela chama Jorge) veio falar comigo. Eu fiquei muito feliz, eu andava arrastando as asas pra ele desde o começo do ano, e agora ele percebia que eu existia. Pois bem, quando chegou o sábado, lá no Diretório eu falei para o Paulo que eu não podia ficar com ele, que eu iria ficar com o fulano, contei que era apaixonada, essas coisas. Ele foi super compreensivo, e o resto da noite foi tranquila. Dancei a noite toda com o Jorge e fui pedida em namoro por ele. Não cabia em mim de tanta felicidade...
Na segunda feira eu estava chegando na escola e encontrei o Paulo. Muito simpático, ele me cumprimentou, perguntou como estava, se estava feliz, dava mostras que compartilhava a minha felicidade. Contou que estava triste, que precisava de alguém pra conversar. Eu, que estava feliz, achei que não custava nada dar um pouco de atenção pra uma pessoa que estava precisando de conforto. E ele foi de tal forma me convencendo, que aceitei entrar no carro dele, uma caminhonete último modelo naquela época. 
Foi só eu entrar no carro que a fisionomia dele mudou. Ele trancou a porta, arrancou com o veiculo e rumou pra um lugar deserto, no meio do mato. Começou a me bater, mordeu meu ombro, mordeu de quase tirar um pedaço, mandou eu tirar a roupa, me chamava de vadia, dizia que eu o havia humilhado, que eu era uma pobre e ele um cara rico, que nunca ninguém o tinha recusado. Eu implorava, dizia que era virgem. Parecia que minhas súplicas o deixavam mais excitado e nervoso. Eu me recusava e colaborar e ele me batia. Nem lembro quanto tempo durou, mas só de lembrar hoje, passados três décadas e meia, ainda sinto o cheiro dele, a dor no meu ombro, a minha vergonha.
Quando ele conseguiu o que queria, disse que não iria me matar, mas que eu aprendesse a lição. Me levou até o portão da minha casa, e eu entrei com a minha vergonha e minha dor.
Nunca falei disso pra ninguém, nem com minhas amigas, nem com meu marido (fui casada durante trinta anos), nem como a terapeuta quando fiz análise por conta de uma doença que tive.
E depois disso, eu ainda o via na faculdade. Tive vergonha de denunciá-lo. Se hoje em dia ainda culpam as mulheres, imagine naquela época?
Depois da faculdade mudei de cidade e nunca mais soube dele. Ainda lembro seu nome, mas nunca tive coragem de por o nome dele no Google pra saber por onde anda.
O que isso fez com a minha vida? Isso não me impediu de seguir em frente, mas o sexo pra mim esteve sempre associado a dor, vergonha, medo.
Contar isso talvez possa pesar menos... ou não. Só sei que vivo com essa lembrança de horror.
Escrevi isso de um jato só, não tenho coragem de reler ou de  corrigir, pois se lê-lo talvez nem tenha coragem de enviar. [Eu fiz algumas correções mínimas].

Tuesday, May 22, 2012

AS HUMILHAÇÕES DOS TROTES

Como sempre acontece em tantas universidades, este ano na Unicamp também houve abuso nas atividades de recepção aos calouros. Algumas calouras reclamaram, a questão foi levada pro Centro Acadêmico, e notou-se (como é igualmente comum) que não havia espaço para reflexão sobre o machismo no meio universitário. Pra preencher essa lacuna, alun@s da Unicamp decidiram promover um ciclo de debates sobre machismo e opressão de gênero na universidade, nos movimentos sociais e na mídia. É por isso que estarei lá no dia 28, próxima segunda. Fui convidada justamente para falar sobre esses trotes. Mas sou professora, e quem é alun@ conhece melhor a dinâmica dos trotes, essa praga hierárquica e repulsiva disfarçada de tradição e brincadeira. Queria pedir pra vocês compartilharem experiências humilhantes de trotes, para que eu possa ter mais exemplos pra minha palestra.
Conheço alguns casos. Inclusive já tratei de vários no blog. Em 2010, durante o InterUnesp, jogos universitários realizados em Araraquara, cerca de 50 rapazes da Unesp derrubaram agumas alunas gordas e montaram nelas, como se fossem peões dominando touros. Os outros gritavam: “Pula, gorda bandida!”. Isso foi organizado no Orkut, e os mascus sanctos se vangloriam que foi obra deles (bem capaz). Os três organizadores do Rodeio de Gordas receberam apenas cinco dias de suspensão. Já o Ministério Público forçou um acordo para que Roberto Negrini e Raphael Dib Tebchrani pagassem cerca de 20 mil reais cada um em cestas básicas para instituições (ironicamente, feministas e LGBTTT). Um dos três organizadores, Daniel Prado de Souza, recusou-se a assinar o acordo. Se for condenado, terá de pagar 50 cestas básicas. Fica aqui a torcida para que seja.
No início do ano passado, calouras da Agronomia da UnB tiveram que chupar linguiças com leite condensado em cima, simulando sexo oral (e, pra aumentar a humilhação, quem segurava a linguiça era o presidente do grêmio, vestido de presidenta). Também houve a “brincadeira” de chupar linguiça com camisinha. Enquanto as calouras, uma de cada vez, chupavam a linguiça, um coro de cerca de 250 estudantes cantava “Ovo, ovo, ovo, vai até o ovo”. Os responsáveis pelo evento tiveram a cara de pau de negar o cunho sexual da recepção.
Agora em abril, na faculdade de Direito da UFPR, um dos partidos acadêmicos do curso lançou um guia para calour@s, chamado de “Manual de Sobrevivência: Como Cagar em Cima dos Humanos”, principalmente dos direitos das humanas, que teriam obrigação de dar. Houve nota de repúdio, e o grupo feminista do curso fez uma manifestação contra o manual e o machismo na sua faculdade. Muito a contragosto, o responsável disse que, “SE ofendeu alguém”, pedia desculpas.
O que esses três casos, em cursos e universidades bem diferentes, têm em comum? Eles mostram o descaso que se tem com as mulheres. Alunas, principalmente calouras (o patamar mais baixo na pirâmide social universitária), estão lá para servir a alunos, de uma forma ou de outra. É claro que esse tratamento misógino não é exclusividade das universidades. Ele está em todo lugar. O que choca é que ele persista até num meio privilegiado como o universitário, que deveria ser o ápice da educação formal. Muitas calouras entram na univesidade como foram instruídas -– a baixar a cabeça e fazer o que os homens mandam, sem reclamar. Já os alunos veem essas alunas como se fossem suas. O corpo delas não é delas, é deles.
Este excelente (e forte) vídeo da Frente Feminista da PUC-SP diz muito. Começa mostrando clichês machistas na mídia, e logo vem a pergunta: “Você acredita que está muito longe disso? Acredita que por estar na faculdade te olham de outra forma?” Em seguida surge uma calourada em que as alunas batem bumbo e os alunos cantam: “Seus peitos moles eu cansei de chupar. […] Ó caloura pucquiana, vc não sente dor / Não tenho tanta p*rra / Não sou fornecedor”. Não está claro no vídeo o que é e não é uma performance.
Mas alguma dúvida que essas coisas existam? Nos Jogos Jurídicos, olimpíadas e recepções aos calouros, as faculdades fazem charangas, equipes da bateria para cantar e tocar músicas de torcida para provocar outras equipes/cursos. Por exemplo, aqui está o Proibidão da Atlética da PUC-MG. No repertório de charangas do Direito da UFMG (também chamada de “Vetusta”) há atrocidades assim: “Moreninha vagabunda / Não estudou, só deu a bunda / Foi pra Fumec / Êeeêee / Só sabe f*der. / Loirinha muito rica / Só sabia ch*par p*ca / Foi pra Fumec / Êeeêee / Só sabe f*der. / Ô gorda submissa / Foi pra PUC rezar missa / Lambe minha gl*nde / Êeeêe / Vai emagrecer”. Essas são cantadas em coro por estudantes festivos.
O negócio é tão enraizado que muitas alunas apoiam os trotes e insistem que “a maldade está nos olhos de quem vê”. Uma veterana da Agronomia UnB que defendeu o trote de chupar linguiça (na época dela, ela teve que pegar uma cenoura no meio das pernas de um colega) ilustra bem a situação: “Todos podem fazer o que bem entendem, menos a gente”. E cita o exemplo de um programa de TV em que as participantes têm de pegar notas de dinheiro com a boca. Ou seja, se a mídia é machista, se o mundo é preconceituoso, por que a universidade também não pode sê-lo? De brincadeirinha, claro. E só brinca quem quer.
Em abril último, muita gente lançou nota de repúdio aos atos de violência moral e psicológica ocorridos nos rituais de recepção aos novos alunos da Faculdade de Direito da USP/Ribeirão Preto. Na Festa de Coroação, um grupo de calouras foi proibido de sair do recinto por não querer participar da “brincadeira” “Bixete pega o disquete”. Trata-se de um desfile em que as “bixetes” tem que se abaixar no final do percurso. No “juramento”, os calouros homens prometem não usar seus pênis. Já as calouras, que começam seu juramento com as palavras “Eu, bixete vagabunda...”, dizem que seguirão belas e pertencerão apenas aos veteranos.
Este ano, na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora, calouras tiveram que carregar placas escrito “Cara de sapatão” e “Cara de p*ta”. Em 14 de abril ocorreu um caso de abuso sexual contra uma estudante da mesma universidade durante a Calourada do Instituto de Artes e Design. Felizmente, a UFJF tem um Coletivo Feminista, o Maria Maria, que está fazendo pressão. Seu lema é “mudar a vida das mulheres para mudar o mundo, mudar o mundo para mudar a vida das mulheres”.
Pois é, grupos feministas existem e são importantes. Tanto que alunos vivem tentando deslegitimar qualquer protesto de mulheres sobre qualquer coisa. Recebi um email em março de uma aluna reclamando que o CA de Direito da USP chamou uma bandinha de mulatas seminuas para sambar na faculdade. Isso é ofensivo porque, numa universidade com tão poucos negros e pardos (apenas 0,2% dos professores da USP não são brancos), parece que a única forma que moças negras e pardas teriam de entrar é como faxineiras ou mulatas de carnaval. O Coletivo Feminista Dandara, que faz várias campanhas contra o machismo, muitas vezes encontra resistência de alun@s que não querem mudar coisa alguma.
Na mesma semana que recebi o convite da Unicamp, recebi também email de uma aluna da Unifesp Guarulhos. Lá eles estão em greve há mais de um mês, e o clima entre alunos pró e anti greve não anda bom. Numa assembleia recente, os alunos decidiram continuar a greve, e a votação foi apertada. Quando uma das manifestantes quis hastear uma bandeira, um manifestante anti-greve iniciou um bate boca e logo passou a chamar a moça de vadia e vagabunda. Alunas lançaram um manifesto e foram rechaçadas por uma ala conservadora da universidade “que simplesmente não se envergonha de mostrar seu machismo assumidamente em espaços públicos de debate”. Pra demonstrar que a aluna não está exagerando, reproduzo um entre dezenas de comentários deixados por alunos no blog aberto para repudiar o machismo: “Manifesto aqui minha total solidariedade para com os alunos que ofenderam a menina, toda feminista é vádia, até por que o feminismo prega precisamente isso, somente os cegos pela devassidão moral é que não entendem”. Isso vindo de um aluno da faculdade!
Num espaço com tanto preconceito, é lógico que haverá lugar para trotes humilhantes, ameaças, palavrões que valem só pra mulheres, e, em casos mais extremos, rodeios em alunas fora do padrào de beleza e até estupros. Se existe uma boa notícia neste post é que há resistência: a nossa, e a de todas as pessoas que veem que as universidades refletem o mundo encontrado “lá fora”, e lutam para mudar esse mundo.
Mas existe outra boa notícia. A partir deste ano, os órgãos que avaliam tanto universidades públicas quanto privadas incluirão o tipo de trote na equação. As avaliações cobrem trinta indicadores (infraestrutura, planejamento etc), e a questão dos trotes será um deles, entrando na política de atendimento ao estudante. Vamos ver se, correndo o risco de ver sua instituição rebaixada, reitorias sejam mais atuantes em coibir trotes violentos, e alun@s entendam a universidade como lugar de transformação, de tolerância, de diversidade. Afinal, ninguém precisa estudar pra perpetuar a desigualdade.

Monday, May 21, 2012

CAMISETAS FAZEM APOLOGIA AO ESTUPRO?

Semana passada o Fabiano me enviou este link para vendas da camiseta com a “fórmula do amor”. Eu tuitei a seguinte pergunta: “Que nível de babaquice alguém precisa atingir para usar camisetas de apologia ao estupro?”
Pra mim não resta muita dúvida que uma camiseta dessas faça apologia ao estupro, pois ela está dizendo que, se a mulher se embebedar, isso renderá muito “amor”. Infelizmente, este tipo de “piada” está se tornando cada vez mais comum. Os rapazes riem, esquecendo-se que fazer sexo com alguém que não está consciente é estupro de vulnerável. Tenho visto clipes de música no YouTube (não vou linká-los aqui) passando essa “dica” (embebede sua parceira até ela cair) como estratégia de paquera (cansei de usar aspas, mas não parênteses).
E tenho recebido cada vez mais emails de mulheres que passaram por esse pesadelo. Uma das provas da nossa desigualdade é que, enquanto essa experiência é uma história de horror pra algumas, é uma camiseta divertida pra outros. 
A Globo, pra variar, deu um péssimo exemplo com o caso do BBB 12. Ainda que o escândalo tenha acabado em pizza (Monique repentinamente mudou sua versão após receber a visita de advogados da emissora), o Ministério Público Federal em SP decidiu que a Globo deve ser mais responsável. Como concessão pública, ela não pode veicular o que quiser, ainda mais cenas de um reality show que a maior parte do público que viu pensou tratar-se de uma pessoa transando com outra desacordada (ou seja, estupro de vulnerável). O pior, pior mesmo é que, mesmo com todo o país em comoção só falando do suposto estupro, Pedro Bial apareceu no dia seguinte com sua sentença: “O amor é lindo”.
Pois é, amor. Igualzinho aos corações que aparecem na camiseta depois que a mulher bebe.
Pouco depois de tuitar a mensagem da camiseta, recebi um comentário anônimo: “Preciso acreditar que a referencia ali foi àquela velha frase de que 'não existe mulher feia, você é que não bebeu demais'. É machista, é babaca, mas não é apologia ao estupro de vulnerável. Tô avisando porque já já alguém vai vir encher seu saco sobre isso”.
Ninguém veio me encher o saco, ninguém mais fez essa referência, só o anônimo. E aí, você acha que ele pode ter razão? Eu acho difícil, até porque outra camiseta vendida no mesmo site é esta aqui, “Beba até me querer”, que acho que vai na mesma linha da apologia ao estupro. E também porque, apesar dos meus minguados conhecimentos matemáticos, pra que o raciocínio do anônimo esteja correto, a bebida multiplicada não poderia estar no mesmo parênteses da mulher. Teria que ser homem vezes muita bebida, não?
De todo jeito, a camiseta é horrível. E não há fórmula correta: se umas das pessoas está desacordada ou não consentiu, não deve haver sexo. Ponto. Isso posto, não consigo entender por que essa modalidade de estupro está cada vez mais popular. Eu sempre penso assim: se eu visse alguém desmaiando na minha frente por estar passando mal, o que eu faria -- roubaria seu dinheiro ou tentaria ajudá-lo? E tô falando de estranhos! Como um “amigo” pode fazer isso com uma amiga? Não sei se tem a ver com a divulgação dessa besteira chamada friendzone. Será que realmente há um monte de jovens revoltados porque, segundo eles, as amigas só querem sua amizade, e eles merecem mais? (afinal, quem é que vai querer ser amigo de uma mulher, né? Argh). E então, na primeira oportunidade, o “amigo” tão bonzinho decide se aproveitar da guria que já deixou claro que só o quer como amigo?
E lembrando sempre: estupro é crime. Beber não é crime. Beber até cair não é crime. E a responsabilidade é sempre de quem comete o crime, nunca da vítima. Mas também não quero fazer apologia a beber até cair. Não acho isso legal, não acho liberador. Não sei a que nível chegamos que meninas precisem ter cuidado com o que outras pessoas vão despejar em seus copos quando não estiverem prestando atenção. Mas me parece, e isso me preocupa muito, que estamos vivendo uma situação em que boa parte da população pensa que tudo bem transar com alguém desacordada. E que isso não é estupro. E que vale tudo pra deixar a menina naquela condição.

Wednesday, May 16, 2012

GUEST POST: MEU PAI, MEU MONSTRO

A M. me mandou a sua história, que é a história de muitas crianças que sofrem violência dos pais. Sou totalmente contra palmadinhas "pedagógicas" ou "educativas", chamem como quiser. 
Pessoas que estudam comportamento infantil sabem muito bem que educar com violência só gera mais violência. E que educar pela via do medo é o pior caminho. Mas, se dar palmadinhas inofensivas é uma forma tão maravilhosa de se educar uma criança, por que deixar que apenas os pais tenham esse privilégio? Vamos deixar @ professor@ na escola bater nos alunos também! Pô, vamos liberar para que estranh@s na rua deem tapinhas nas crianças! Afinal, faz bem, é assim que se ensina, né? Ah, mas não pode ser um tapa forte, só um tapinha, e dado com amor! Sei. 
Já tratei deste assunto diversas vezes no blog, e praticamente todos os pais e mães que comentaram foram unânimes em dizer que, nas vezes em que bateram nos filhos, foi por descontrole. Descontrole, pra mim, parece ser o oposto de amor e educação. A maioria das pessoas que deixaram comentários em posts passados da violência que sofreram alegam que isso prejudicou muito o relacionamento com os pais. Então, por que insistimos numa prática covarde? Bater em criança também é violência doméstica. E tod@s nós podemos denunciar.
Muita gente sabia da violência que M. e as outras mulheres da sua família sofriam. E ninguém fez nada.


Demorou muito tempo para eu ter coragem de compartilhar a minha história. Sou uma moça de classe média, sempre estudei em colégio particular, faço uma boa faculdade hoje. Sou filha de pais com ensino superior mas nem por isso escapei de um drama que atinge milhares de mulheres no mundo, não importando a condição social: a violência doméstica.
Quando eu era pequena apanhava do meu pai pelas simples travessuras de uma criança, tanto eu como a minha irmã sete anos mais velha. Minha mãe também apanhava nas discussões com meu pai, e ela culpava o temperamento explosivo dele, mas de certo modo era conivente com esse comportamento agressivo. Ela usava desta arma para exigir obediência da gente. 
Muitos assumem que é normal uma criança apanhar quando pequena para assim ser melhor educada. Dizem que eles mesmos apanharam quando pequenos e hoje são pessoas normais. Mas as pessoas deveriam tentar ver com olhos de criança. É terrível para uma criança ver o seu pai, uma figura que era pra te proteger, bater em você, na sua irmã e na sua mãe, e, em meio a sua revolta, ver que os outros acham tudo normal. 
Eu nunca consegui compreender o porquê de suportar esta situação, e desde criança tramava sair de casa e viver a minha vida longe daquela violência. Os anos se passaram, eu e minha irmã deixamos de ser crianças, mas nem por isso as agressões pararam. Certa vez eu tinha uns 13 anos e tomei uma surra homérica, daquelas que você tem que inventar desculpas na escola depois pra explicar os roxos. O motivo só fui saber depois da surra: "Você andou entrando em sala de bate papo no computador". Quando eu disse que não entrei, ele respondeu: "Ah, então desculpa, isso vale para você não entrar". No fim descobri que tinha sido um amigo dos meus pais que tinha usado o computador e entrado na página. 
Com o passar dos anos me tornei uma jovem estudiosa obcecada em tirar notas altas com o medo de uma nota baixa desencadear mais uma surra (meu pai era muito exigente na educação; lembro de ter apanhado certa vez por ter dificuldades em matemática). Mas também me isolava do convívio social desde nova, tinha problemas em interagir socialmente, e ser uma nerd não ajudou minha vida social. Eu sofria bullying e muitas vezes recorri à violência para me defender na escola. Eu era uma aluna de excelentes notas, mas sem amigos e com problemas de conduta. 
Aos 17 anos consegui a minha deixa para sair de casa: passei numa universidade em outra cidade e fui morar fora. Minha irmã, porém, continuou em casa e aos 25 anos, já formada, recebia toda a violência do meu pai. Ela apanhava por ter ido a um bar em dia de semana, ou por esquecer de trancar a porta de casa. A situação foi extrema, até que um dia ela fugiu de casa. Não levou nada além da roupa do corpo. Ela se libertou da violência e fez o que nenhuma de nós tivemos coragem de fazer: denunciou meu pai na Delegacia da Mulher. 
Minha mãe, por incrível que pareça, ficou do lado dele, pois a ação dele na mente dela estava correta. Ainda tive que ouvir que era um absurdo a denúncia porque agora todo mundo estava sabendo. O que minha mae tanto queria proteger era a imagem de família normal, mas nunca foi possível preservar esta imagem: os vizinhos ouviam os gritos enquanto apanhávamos, e as pessoas mais próximas viam os roxos e as marcas. Dessas pessoas não escondíamos a verdade; todas sabiam, só nada faziam.
Para evitar um escândalo, minha mãe obrigou minha irmã a retirar a denúncia. Não sei se foi a denúncia em si ou o fato de minha irmã sair de casa, só sei que após esta data meu pai parou de bater em mim ou na minha mãe. Diz ele que aprendeu a se controlar, mas pra mim aprendeu tarde demais. Não consigo confiar nele como pai e temo que em algum momento ele ainda vai voltar a explodir e descontar em mim novamente.
Estou contando esta história pois sei que existem muitas outras pessoas como eu e minha irmã que sofrem caladas a violência de um pai e ficam de mãos atadas, com medo de lutar contra isso. Os traumas causados pela violência são muito maiores que as marcas roxas no corpo. Eu sei pois hoje faço tratamento psiquiátrico e psicológico e ainda não consigo perdoar meu pai pelo que fez. Ainda assim, mesmo sabendo que não tenho culpa, tenho vergonha de assumir que sofri violência. Tenho medo dos olhares e das conversas, como se a sociedade me culpasse por ter apanhado. Quantas que já sofreram algum tipo de violência não sofrem o mesmo julgamento?

Saturday, April 14, 2012

GUEST POST: A PSICOPATIA ESTÁ POR PERTO

Quando penso em relacionamentos abusivos, sempre lembro daquele filme com a Julia Roberts, Dormindo com o Inimigo. Apesar de ser ficção (e de nem ser um bom filme), ele mostra um comportamento que costuma se repetir e que muitas vezes acaba em tragédia. No começo o sujeito é o namorado ideal, atencioso, romântico, se bem que arrogante (ele se acha muito especial e moralmente superior a todos). Mas pouco a pouco vão surgindo problemas que a gente deixa passar. São pequenas coisas no início, ceninhas de ciúme, um pouco de controle demais, mas que visam separar a mulher do convívio com amigos e com a família. Em pouco tempo, a mulher sente que ele é só o que tem -- e é isso mesmo que ele quer que ela sinta. Com a mulher emocionalmente e, em vários casos, financeiramente dependente, começam os abusos. E, se a mulher tenta se afastar ou procurar ajuda, vem as ameaças (ameaças que tantas vezes terminam em assassinato, já que dez mulheres são mortas por dia no Brasil, quase sempre por parceiros ou ex-parceiros). E o pior é que este é um padrão -- o homem que age dessa forma com uma mulher provavelmente agirá assim em todos seus relacionamentos.
U
ma leitora, a Talita, teve uma experiência dessas, sobreviveu, e decidiu escrever para nos alertar sobre como age um namorado psicopata.

Recentemente passei por uma situação horrível e imaginei que você poderia alertar outras pessoas sobre essa questão em seu blog: me envolvi com um psicopata. Fui enganada de diversas formas, traída, humilhada, agredida física e verbalmente, depois que descobri suas falcatruas e tentei expô-lo às outras pessoas, que ele também enganava. Ele se aproveitou de minha situação vulnerável, pois sou uma mulher sozinha, sem família e amigos por perto, morando em uma cidade nova. Ninguém acreditou em mim. Pelo menos descobri tudo rápido e me livrei. Outras podem não ter a mesma sorte.
Descrevo aqui algumas formas de identificar um psicopata, baseada na minha experiência pessoal com o cara, e que cai como uma luva com as descrições da doença contidas na Wikipédia. Suas atitudes, no mês e meio em que moramos juntos, me confundiam; ele parecia uma pessoa completamente diferente daquela que conheci e com quem namorava havia 6 meses. Se eu tivesse tido informação sobre o assunto antes, teria me poupado. Talvez você tenha colegas psiquiatras que possam ajudar numa exposição mais adequada sobre esse assunto. De qualquer forma, fica aqui minha advertência, na esperança que outras também saibam identificá-los e livrem-se deles, antes que o pior possa acontecer.
Quando uma coisa é boa demais pra ser verdade, é porque geralmente não é verdade. Se o seu namorado parece príncipe ou santo, cuidado: ele pode ser um psicopata. Parece tema de novelinha, coisa de mau gosto que só acontece com a prima da vizinha da avó. Mas não é. Desconfio dos rótulos psiquiátricos e da frequência das suas aplicações, mas os “psicopatas comunitários”, ou casos “leves”, podem não ser assassinos, mas produzem muitos estragos e parecem representar até 4% da população. 3% é de homens.
Apesar de manipuladores egoístas, incapazes de amar e passíveis das maiores mentiras e maldades, eles parecem o homem que você pediu a deus. Isso porque são charmosos, têm uma tremenda lábia, sabem o que você quer e adaptam-se com perfeição aos seus desejos, te fazendo sentir a mulher mais amada/desejada/linda do mundo. Fazem-se de “corretos”, “íntegros” e “honrados” socialmente e podem adorar usar essas palavras para se descreverem (até parece papo de mascu). São amigáveis e profissionais exemplares. E porque eles mentem com muita calma e olhando nos olhos, as pessoas custam a acreditar que se trata de um sacripanta, mesmo quando existem provas de suas mentiras. Por causa de tudo isso, pode demorar um pouco para notar que existe algo errado com ele (além da perfeição excessiva) e, em muitos casos, você pode descobrir a verdadeira natureza do sanguessuga social apenas depois de estarem vivendo juntos e a sós. Pra evitar isso, informe-se, fique atenta, nunca confie cegamente e tenha um longo namoro, sem meter os pés pelas mãos num compromisso apressado. Sempre vale lembrar que príncipe encantado não existe e que a gente tem que seguir o coração, mas levar o cérebro junto. Seguem umas dicas:
Seja observadora quanto a contradições do bom-mocismo inicial -- possessividade, grude, chantagem emocional, vitimização, choro fácil (teatro). A agressividade costuma vir depois (principalmente quando você começar a questionar pequenas contradições, querer sair com amig@s, usar saias curtas). Passado familiar e amoroso conturbado (abandono de filhos e de mulheres grávidas são injustificáveis, e péssimos sinais). Fazer-se de coitadinho e falar mal da mãe e das ex, também. Se a própria mãe dele achar que ele não presta, talvez você deva acreditar. E não seja uma tapada competitiva, ouça as ex namoradas/mulheres do "apaixonado perfeito": se mais de uma disser que ele é cafajeste, acredite (isso também vale pra identificar o mau caráter comum. As pessoas têm capacidade de mudar até certo ponto). E se acha que com você será diferente, sente-se ultra-segura porque ele te faz sentir a última bolacha do pacote, não se deixe iludir, PSICOPATIA NÃO TEM CURA e você também poderá ser enganada, traída e agredida como as outras, ou coisa pior. Essa doença é, entre outros fatores, genética, então sejamos também responsáveis para não fazer um mal pra humanidade e botar outro psicopatinha no mundo.
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