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Tuesday, May 29, 2012

DUAS OU TRÊS OPINIÕES CONTROVERSAS SOBRE ESTUPRO

Esta vem do blog I Blame the Patriarchy, de um post de 2006 (eu li faz um tempão, achei interessante, traduzi, e o esqueci numa dessas gavetas também conhecidas como arquivo de computador):
“Estupro não é um apenas um conjunto de incidentes cometidos por um contingente de psicopatas. É, como disse Susan Brownmiller, 'um processo consciente pelo qual todos os homens mantêm todas as mulheres num estado de medo'.
Se você é um homem, e não estupra mulheres, bom pra você, mas se você me mandar um comentário elaborando como o seu autocontrole nobre e pessoal invalida a afirmação de Brownmiller, você estará apenas se envergonhando. Independente do tipo de homem que você é, você se beneficia de mil formas diferentes da subordinação feminina perante a violência sexual. Os estupradores de verdade criam o choque e o espanto, mas eles são apenas a infantaria; cabe a você acabar o trabalho.
Você faz isso demonizando feministas, alugando mulheres para lap dances, deixando que os estupradores sejam absolvidos em corte, comprando lingerie sexy pra sua mulher, parabenizando sua namorada na plástica pros seios que fez, ignorando estupros em massa em lugares onde há guerra, passando o endereço virtual do último vídeo-sensação pornô, encarando sem parar a menina no ponto de ônibus, deixando que sua mãe lave sua roupa, “dando” sua filha em casamento, votando em gente que quer controlar os úteros, pressionando sua namorada a fazer anal porque todos seus amigos fazem, tendo uma opinião sobre o tamanho dos lábios vaginais, argumentando que striptease dá poder às mulheres [...], por sua inabilidade em conceber sexo sem dominação, e pela recusa, mesmo após trinta anos de mulheres inteligentes e estudadas te falando o contrário, em conceder que você não vê verdadeiramente as mulheres como você vê a si mesmo.
Mas a situação pras mulheres, você pode querer discutir, já que ouviu falar que homens começaram a compartilhar o trabalho doméstico, melhorou muito. Você acha? Então por que uma mulher americana é estuprada a cada dois minutos, e como 78% dos estupradores são maridos, namorados, ou paqueras? Menos de 16% desses estupros são notificados. O tempo médio que os poucos condenados cumprem de pena: onze meses.”

Se você achou o pedaço do post acima provocativo, espere até ler este, que é de um post de 2008 de outro blog feminista radical americano, Rage Against the Man-chine. Uma feminista sugere, apenas como exercício de pensamento (não pra levar a cabo), que, em casos de estupro, a lei seja mudada. Ao invés da vítima ter que provar que foi estuprada (o que em muitos casos não dá pra provar), o acusado é que deveria ter que provar que não estuprou:
“Há um perigo inerente nesse sistema que alguns homens inocentes seriam punidos, e isso é lastimável. Não é mais lastimável, porém, que o fato dos homens estuprarem com impunidade em proporções epidêmicas simplesmente porque suas vítimas não conseguem provar a uma sala cheia de misóginos que elas não consentiram a um ato sexual. As vítimas determinarão se um crime ocorreu, não os réus. Isso pode assustar os homens, e alguns deles dirão que as mulheres usarão a lei para puni-los, só por vingança. Isso pode acontecer raramente, mas a intenção é proteger o máximo de pessoas possíveis, e acusações falsas de estupro representam um centésimo dos estupros que não são punidos.”
Ela apresenta a ideia revolucionária de que, assim, os homens só poderiam fazer sexo com as mulheres que querem fazer sexo com eles: “estupro é uma punição por ser mulher”.
Como você pode imaginar, muitos comentaristas sentiram-se ultrajados por sua sugestão. E isso realmente é uma constante em qualquer discussão sobre estupro: os homens sentem-se acusados, acuados, dizem que não têm nada a ver com o tema, que não são estupradores e acabou. Não seria mais interessante canalizar essa revolta não contra quem te lembra que estupro existe, mas contra o crime do estupro em si? Nos EUA, por exemplo, há grupos de Men Can Stop Rape (Homens Podem Parar com o Estupro). Espero que sejam muito mais numerosos que grupos de Acusações Falsas de Estupro, quase sempre formados por mascus (pra eles, todas as acusações de estupro são falsas. Estupros só acontecem nas cadeias, entre prisioneiros. E quem liga pra eles? Não os mascus).
Este comentário entre os 202 deixados no post da Rage deve ter sido escrito por um mascu: “Se as mulheres não querem ser estupradas elas deveriam parar de beber. Sinto muito que homens são mais fortes e podem estuprar mulheres mas isso é genético e foi Deus quem quis assim”. Aham. Pelo menos ele sente muito.
Isto também é um pouco antigo, mas talvez sirva de inspiração pro grupo (já com mais de 270 membros) iniciado poucas semanas atrás pra combater in loco a propaganda sexista. Sei que vocês não fazem apologia à pichação, meninas. Foi assim: uma empresa acostumada a fazer comerciais e anúncios machistas, a American Apparel, teve que trocar um de seus outdoors nos EUA. Ele mostrava uma mulher sem rosto em pose insinuante.
Um carinha passou lá, viu o anúncio, ficou indignado com o tratamento que a propaganda dá às mulheres, foi pra casa, pegou tinta grafitti, voltou pro local, esperou até as 4 da manhã, e deixou lá o seu protesto: “Gee, I wonder why women get raped?” (“Puxa, eu me pergunto por que as mulheres são estupradas”). A empresa teve que trocar o outdoor. Detalhe: o presidente da empresa já foi acusado cinco vezes de assédio sexual.

Thursday, May 24, 2012

XUXA, MINHA SOLIDARIEDADE

Como estava em SP sem internet, alheia ao mundo, só fiquei sabendo na manhã de terça da entrevista da Xuxa ao Fantátisco e sua incrível repercussão. E quem me contou foi a deputada Manuela Dávila, antes do evento na USP.
Pois é, sou muito chique! A deputada federal mais votada do RS por dois mandatos consecutivos e atual candidata à prefeitura de Porto Alegre, além de ser uma pessoa encantadora e revelar-se leitora do meu blog, me falou da sua indignação com o que andava lendo sobre Xuxa (Manuela, que também tem um blog, escreveu sobre o caso). Ela me disse que já andou perto de Xuxa, e que não fazemos ideia do fanatismo que é. Manuela disse que já esteve ao lado de Pelé, de Lula, e que não tem comparação -– que as pessoas se jogam pra tocar em Xuxa, que ela é A Celebridade. E que a reação de Xuxa (como seria de quase qualquer um) é de susto, de medo, de encolher-se diante de um assédio tão arrebatador.
Assim como Manuela, eu não tenho nenhuma simpatia por Xuxa. Absolutamente nenhuma. Felizmente, cresci  nos anos 70 vendo Vila Sésamo, não Xou da Xuxa. Já na década de 80 meu pai trazia a Manchete pra casa e as capas sofriam revezamento entre Xuxa, Luiza Brunet, Roberta Close, e alguma princesa de Mônaco. Nunca vi nenhum filme infantil com a rainha dos baixinhos. Sempre achei péssimo como ela (entre outras apresentadoras) estimula(va)m o consumismo e a sexualidade precoce das meninas. 
Até considerei ousado que ela tenha feito uma “produção independente” (ter filho sem casar). Espumei de raiva quando, em pleno dia de privataria das teles, o Jornal Nacional dedicou sua edição ao nascimento de Sasha. Mas, convenhamos, se não fosse a Xuxa, a Rede Globo pegaria outra inocente útil pra alienar os espectadores. Enfim, não tenho procuração pra defender a Xuxa.
Só que o que pega é que, no domingo, Xuxa deu uma entrevista de 25 minutos pro Fantástico. E, a partir dos 18 minutos (depois de falar de coisas que não me interessam nem um pouco, como seu namoro com Pelé, com Senna, seu encontro com Michael Jackson etc), ela, que já fez campanha contra bater em criança (excelente iniciativa, certo?), revela (minha transcrição):

“Alguém conhecido dentro de casa que acabou abusando sexualmente dessa criança e ela resolve sair de casa, mas pra ela poder comer, ela acaba fazendo isso nas ruas [se prostituindo]. Isso me dá um embrulho no estômago porque eu consigo não só me colocar no lugar delas como eu abracei essas causas todas porque eu vivi isso, na minha infância, na minha, até minha adolescência, até meus 13, 13 anos de idade, foi a última vez. Pelo fato de eu ser muito grande, eu chamar a atenção, eu fui abusada, então eu sei o que é, o quê que uma criança sente, sabe. A gente sente vergonha, a gente não quer falar sobre isso, a gente acha que a gente é culpada, […] eu sempre achei que eu tava fazendo alguma coisa, ou era minha roupa, ou era o que eu fazia que chamava a atenção, porque não foi uma pessoa, foram algumas pessoas que fizeram isso, e em situações diferentes, em momentos diferentes da minha vida, então ao invés de eu falar pras pessoas eu tinha vergonha, me calava, me sentia mal, me sentia suja, me sentia errada […].
Só que eu não falei pra minha mãe. Eu não tinha essa coragem de falar, e que a maioria das crianças, dos adolescentes, que passam por isso não falam. Eu não me lembro direito, eu sei que era muito nova. Eu me lembro do cheiro. Tinha cheiro de álcool, tinha cheiro de alguma coisa, e eu não sei quem foi. E depois aconteceram muitas vezes. Parou aos 13 anos, quando eu consegui fugir. Agora, tem essas coisas que pra mim me dói, me machuca, me dá vontade de vomitar, quando eu lembro que tudo isso aconteceu e eu não pude fazer nada, porque eu não sabia, eu não tinha experiência, o que uma criança tem de experiência, o que ela pode fazer? Eu tinha medo de falar pro meu pai e meu pai achar que era eu que tava fazendo isso, porque uma das vezes que aconteceu foi com o melhor amigo dele, que queria ser meu padrinho. Eu não podia falar pra minha mãe porque uma das vezes também foi com o cara que ia casar com a minha avó. Então a errada era eu? […]
Professores, um professor chegou pra mim e disse, não adianta você falar, porque entre a palavra de um professor e de uma aluna, eles vão acreditar no professor, não no aluno. E até hoje, se você me perguntar, porque aconteceu essas coisas comigo, eu acho, eu ainda acho, que foi minha culpa, e a gente não pode pensar assim. Porque a criança não tem culpa, a criança não sabe. […] Talvez eles deveriam ter notado que quando eu não tava falando muito, eu que sou de falar demais, é porque tava acontecendo uma coisa comigo […]. Por que que você acha que eu, que de repente eu, que eu não consigo ficar, sei lá, casar, ficar muito tempo com uma pessoa, deve ter uma explicação, né? Quem sabe não deve ser tudo isso que eu vivi? O fato de eu me achar horrível, de eu me achar feia, […] deve ter a ferida ali, aquela coisa, que eu... Eu nunca falei assim pra ninguém, porque eu achava que as pessoas iam me olhar diferente, nào vão entender, ou vão entender da maneira delas. […] Talvez eu tivesse que passar por tudo isso pra hoje chegar e dizer: eu quero lutar por elas, sabe. Eu tenho o sonho de um dia nenhuma criança sofrer.”

Não sei quanto a você, mas eu fiquei bastante comovida. Fico tocada com a dor das pessoas. E tenho como princípio não duvidar de quem narra seu abuso. Porque é raríssimo uma pessoa nessas condições mentir. Pelo contrário –- a maior parte sequer denuncia. São pouquíssimas as pessoas que denunciam. E, quando elas têm essa coragem, o que fazemos? Duvidamos delas. As chamamos de vitimistas. Dizemos que elas só querem aparecer. Que estão mentindo.
Ontem mesmo publiquei o guest post de uma mulher que foi estuprada trinta e poucos anos atrás e só agora resolveu contar o que sofreu, num suspiro, sem revisão, num email. Foi pura coincidência. Recebi o email em fevereiro, e o post já estava agendado, ilustrado e tal, desde a semana passada. E não foi o primeiro (nem será o último) post sobre estupro que publico aqui. Leia o guest post de ontem, os outros posts, e veja como a história que Xuxa conta se parece com todos esses casos. O que elas relatam é comum. Acontece direto, acontece com muita gente, e ainda assim a gente insiste em não acreditar, insiste em culpar a vítima. A gente não aprende nunca.
Quase sempre, quando publico um post desses, vem alguém me chamar de sensacionalista. Já me chamaram de Ratinho das Feministas ou algo assim. Tem feminista que não fala em abuso, em violência, em assuntos desagradáveis, porque acha que isso é se vitimizar. Então preferem ficar falando em como, sei lá, o funk, a pornografia e a prostituição empoderam as mulheres. Eu discordo. Acho que por pra fora nossas histórias de horror pode ser muito liberador. Saber que outras pessoas passaram pela mesma coisa pode ser empoderador. Não se calar, denunciar, protestar, criar uma rede de camaradagem, de consultoria jurídica, é extremamente importante. A outra opção é a gente cobrar silêncio absoluto, olhar pra baixo e fingir que estupros não existem. Assim, quem sabe, eles vão embora.
Eu fico feliz quando uma celebridade conta sua tragédia em horário nobre. Porque isso vai influenciar muito mais gente do que um mero bloguinho. Desde que Xuxa falou com o Fantástico, 285 mil denúncias foram feitas pro Disque 100, que lida com violência contra a criança e adolescente. Um aumento de 30% no número de ligações. Alguém me explica como isso pode ser negativo. Foi ótimo a nadadora Joanna Maranhão ter quebrado o silêncio em 2008 e acusado seu ex-treinador. Quer dizer, não foi nada bom pra ela, que foi processada (o crime prescreveu) e viu a mídia se obcecar pela sua história. Mas, graças a Joanna, foi aprovada uma lei (aguardando sanção presidencial) com seu nome que muda o prazo da prescrição dos crimes. Ele passa a contar a partir do instante que a vítima completa 18 anos. Isso só foi possível porque uma pessoa famosa contou sua história de horror.
Ah sim, tem muita gente falando do “filme pornô que Xuxa fez”, insinuando que a abusadora de crianças era ela. Quanta estupidez! Sei que o filme é antigo, de 1979 (lançado apenas em 82), mas pelamor! Seguinte: Amor Estranho Amor é uma entre várias obras do Walter Hugo Khouri. Que sempre fazia o mesmo filme (e não tinha nada a ver com pornochanchada; era drama, pretensioso, chatinho, com diálogos estranhos diálogos e péssima direção de atores), sobre a (hetero)sexualidade de seu alterego, sempre cercado de lindas mulheres -– todas querendo levá-lo pra cama, lógico. Lembro bem de Amor porque foi das primeiras fitas seladas a serem lançadas no Brasil (pela Globo Vídeo), e eu trabalhava numa locadora.
No filme, Xuxa faz uma prostituta de 16 anos que transa com o protagonista, um garoto de 10 ou 12 anos. Se não ficou claro, repito: Amor Estranho Amor não é um documentário. É um filme de ficção. Xuxa era apenas uma atriz, e longe de ser a principal (que era a Vera Fischer). Dizer que ela abusou de um menino porque fez esse papel é mais ou menos como dizer que Heath Ledger explodiu prédios e matou e torturou pessoas porque ele interpretou o Coringa, sabe?
E tem que ser meio ignorante, não saber nada sobre comportamento de pessoas abusadas, para perguntar “Ué, se ela foi abusada, por que fez um filme em que abusava de um menino?”. Bom, fora a diferença entre realidade e ficção (Xuxa não abusou de ninguém na vida real), existem estatísticas que apontam que boa parte dos abusadores foram abusados. Assim como boa parte dos homens que batem nas mulheres cresceram em lares em que apanhavam e viam o pai bater na mãe.
Ah, mas por que Xuxa só contou agora, trinta e poucos anos depois? Ela diz porquê: porque sentiu vergonha. Ainda sente. Ainda sente-se culpada. Como, aliás, a esmagadora maioria das vítimas de abuso. E talvez porque ela sabia que iria ser apedrejada.
Apedrejada pelo abuso que sofreu. Típico.

Wednesday, May 23, 2012

GUEST POST: UMA LEMBRANÇA DE HORROR

Não consigo nem começar a descrever como este relato enviado pela L. me encheu de raiva e pena.

Acabei de ler o relato Mais uma História de horror para sua coleção, e gostaria de por para fora o horror pelo qual também passei. Eu nunca tive coragem de contar pra ninguém, nunca verbalizei o horror de que fui vitima. Eu tentei apagar isso das minhas lembranças, mas é impossivel.
Eram meados da década de 70. Eu tinha 20 anos e estudava numa universidade no interior do Paraná. Morava numa república com mais algumas estudantes, minha família morava numa pequena cidade do interior, e naquela época a gente saía de casa para estudar.
Bem, eu costumava frequentar o Diretório Acadêmico que promovia uns bailinhos no final de semana. O dinheiro era curto, eu não pagava a escola, mas tinha que trabalhar pra pagar o aluguel, e esses bailinhos eram o único lazer de que dispunha.
Eu era bonita, e sempre tinha parceiro para dançar. Apesar de ter 20 anos, ainda era virgem e o máximo de carinhos que tinha recebido de um homem eram uns beijinhos.
Eu cursava Ciências Economicas e os estudantes não se misturavam. Os de Humanas andavam com os de Humanas, os de Exatas com os de Exatas, e assim por diante. Um dia, fui além dos domínios do corredor de humanas e conheci um rapaz, o Paulo, que estudava Engenharia. Conversamos e ele me convidou pra ir no baile no próximo sábado. Eu disse sim, que nos encontrrariamos lá. Só que nesse interim, um garoto pelo qual eu era apaixonada (vamos dizer que ela chama Jorge) veio falar comigo. Eu fiquei muito feliz, eu andava arrastando as asas pra ele desde o começo do ano, e agora ele percebia que eu existia. Pois bem, quando chegou o sábado, lá no Diretório eu falei para o Paulo que eu não podia ficar com ele, que eu iria ficar com o fulano, contei que era apaixonada, essas coisas. Ele foi super compreensivo, e o resto da noite foi tranquila. Dancei a noite toda com o Jorge e fui pedida em namoro por ele. Não cabia em mim de tanta felicidade...
Na segunda feira eu estava chegando na escola e encontrei o Paulo. Muito simpático, ele me cumprimentou, perguntou como estava, se estava feliz, dava mostras que compartilhava a minha felicidade. Contou que estava triste, que precisava de alguém pra conversar. Eu, que estava feliz, achei que não custava nada dar um pouco de atenção pra uma pessoa que estava precisando de conforto. E ele foi de tal forma me convencendo, que aceitei entrar no carro dele, uma caminhonete último modelo naquela época. 
Foi só eu entrar no carro que a fisionomia dele mudou. Ele trancou a porta, arrancou com o veiculo e rumou pra um lugar deserto, no meio do mato. Começou a me bater, mordeu meu ombro, mordeu de quase tirar um pedaço, mandou eu tirar a roupa, me chamava de vadia, dizia que eu o havia humilhado, que eu era uma pobre e ele um cara rico, que nunca ninguém o tinha recusado. Eu implorava, dizia que era virgem. Parecia que minhas súplicas o deixavam mais excitado e nervoso. Eu me recusava e colaborar e ele me batia. Nem lembro quanto tempo durou, mas só de lembrar hoje, passados três décadas e meia, ainda sinto o cheiro dele, a dor no meu ombro, a minha vergonha.
Quando ele conseguiu o que queria, disse que não iria me matar, mas que eu aprendesse a lição. Me levou até o portão da minha casa, e eu entrei com a minha vergonha e minha dor.
Nunca falei disso pra ninguém, nem com minhas amigas, nem com meu marido (fui casada durante trinta anos), nem como a terapeuta quando fiz análise por conta de uma doença que tive.
E depois disso, eu ainda o via na faculdade. Tive vergonha de denunciá-lo. Se hoje em dia ainda culpam as mulheres, imagine naquela época?
Depois da faculdade mudei de cidade e nunca mais soube dele. Ainda lembro seu nome, mas nunca tive coragem de por o nome dele no Google pra saber por onde anda.
O que isso fez com a minha vida? Isso não me impediu de seguir em frente, mas o sexo pra mim esteve sempre associado a dor, vergonha, medo.
Contar isso talvez possa pesar menos... ou não. Só sei que vivo com essa lembrança de horror.
Escrevi isso de um jato só, não tenho coragem de reler ou de  corrigir, pois se lê-lo talvez nem tenha coragem de enviar. [Eu fiz algumas correções mínimas].

Monday, May 21, 2012

CAMISETAS FAZEM APOLOGIA AO ESTUPRO?

Semana passada o Fabiano me enviou este link para vendas da camiseta com a “fórmula do amor”. Eu tuitei a seguinte pergunta: “Que nível de babaquice alguém precisa atingir para usar camisetas de apologia ao estupro?”
Pra mim não resta muita dúvida que uma camiseta dessas faça apologia ao estupro, pois ela está dizendo que, se a mulher se embebedar, isso renderá muito “amor”. Infelizmente, este tipo de “piada” está se tornando cada vez mais comum. Os rapazes riem, esquecendo-se que fazer sexo com alguém que não está consciente é estupro de vulnerável. Tenho visto clipes de música no YouTube (não vou linká-los aqui) passando essa “dica” (embebede sua parceira até ela cair) como estratégia de paquera (cansei de usar aspas, mas não parênteses).
E tenho recebido cada vez mais emails de mulheres que passaram por esse pesadelo. Uma das provas da nossa desigualdade é que, enquanto essa experiência é uma história de horror pra algumas, é uma camiseta divertida pra outros. 
A Globo, pra variar, deu um péssimo exemplo com o caso do BBB 12. Ainda que o escândalo tenha acabado em pizza (Monique repentinamente mudou sua versão após receber a visita de advogados da emissora), o Ministério Público Federal em SP decidiu que a Globo deve ser mais responsável. Como concessão pública, ela não pode veicular o que quiser, ainda mais cenas de um reality show que a maior parte do público que viu pensou tratar-se de uma pessoa transando com outra desacordada (ou seja, estupro de vulnerável). O pior, pior mesmo é que, mesmo com todo o país em comoção só falando do suposto estupro, Pedro Bial apareceu no dia seguinte com sua sentença: “O amor é lindo”.
Pois é, amor. Igualzinho aos corações que aparecem na camiseta depois que a mulher bebe.
Pouco depois de tuitar a mensagem da camiseta, recebi um comentário anônimo: “Preciso acreditar que a referencia ali foi àquela velha frase de que 'não existe mulher feia, você é que não bebeu demais'. É machista, é babaca, mas não é apologia ao estupro de vulnerável. Tô avisando porque já já alguém vai vir encher seu saco sobre isso”.
Ninguém veio me encher o saco, ninguém mais fez essa referência, só o anônimo. E aí, você acha que ele pode ter razão? Eu acho difícil, até porque outra camiseta vendida no mesmo site é esta aqui, “Beba até me querer”, que acho que vai na mesma linha da apologia ao estupro. E também porque, apesar dos meus minguados conhecimentos matemáticos, pra que o raciocínio do anônimo esteja correto, a bebida multiplicada não poderia estar no mesmo parênteses da mulher. Teria que ser homem vezes muita bebida, não?
De todo jeito, a camiseta é horrível. E não há fórmula correta: se umas das pessoas está desacordada ou não consentiu, não deve haver sexo. Ponto. Isso posto, não consigo entender por que essa modalidade de estupro está cada vez mais popular. Eu sempre penso assim: se eu visse alguém desmaiando na minha frente por estar passando mal, o que eu faria -- roubaria seu dinheiro ou tentaria ajudá-lo? E tô falando de estranhos! Como um “amigo” pode fazer isso com uma amiga? Não sei se tem a ver com a divulgação dessa besteira chamada friendzone. Será que realmente há um monte de jovens revoltados porque, segundo eles, as amigas só querem sua amizade, e eles merecem mais? (afinal, quem é que vai querer ser amigo de uma mulher, né? Argh). E então, na primeira oportunidade, o “amigo” tão bonzinho decide se aproveitar da guria que já deixou claro que só o quer como amigo?
E lembrando sempre: estupro é crime. Beber não é crime. Beber até cair não é crime. E a responsabilidade é sempre de quem comete o crime, nunca da vítima. Mas também não quero fazer apologia a beber até cair. Não acho isso legal, não acho liberador. Não sei a que nível chegamos que meninas precisem ter cuidado com o que outras pessoas vão despejar em seus copos quando não estiverem prestando atenção. Mas me parece, e isso me preocupa muito, que estamos vivendo uma situação em que boa parte da população pensa que tudo bem transar com alguém desacordada. E que isso não é estupro. E que vale tudo pra deixar a menina naquela condição.

Monday, May 7, 2012

ASSÉDIO SEXUAL POR PARTE DE MÉDICOS

 Paciente denuncia Dr. Paulo, em Caxias do Sul

Não sei exatamente por que assédio ou abuso sexual da parte de médicos entrou na pauta do dia, mas na sexta uma leitora de SP me enviou essa sugestão: “Acho um tema interessante para ser explorado pois os abusos nem sempre chegam ao estupro de fato (relação de conjunção carnal) -- esse sim explorado pela mídia quando descoberto, como no caso do Abdelmassih em São Paulo, e nas fotos que as câmeras pegaram no Hospital das Clínicas com um anestesista estuprando uma mulher inconsciente. Mas passam em branco diversas condutas que vão desde toques inapropriados a comentários do médico a respeito do corpo da mulher. O número real de abusos deve ser bem assustador! Eu mesma já passei por duas situações nas quais acho que o ginecologista e o médico que realizavam exame em uma laboratório aqui em SP extrapolaram a conduta médica aceitável, e não denunciei, na época nem saberia como”.
Esta leitora recomendou uma matéria da Nova feita sobre o assunto (ok, quase nenhum@ de nós gosta da revista, o que não quer dizer que ela não pode ter reportagens bastante completas de vez em quando). A revista conta que, em poucas horas, recebeu dezenas de relatos de mulheres que ora afirmam categoricamente, ora suspeitam, que o médico com quem se consultaram agiu de modo inapropriado. Segundo a Nova, "A primeira pesquisa brasileira sobre o tema, feita pelo pneumologista Júlio Cezar Meirelles Gomes, mostra que, entre os ofensores, 20% são ginecologistas, 8,2% clínicos-gerais, 7,9% ortopedistas e 5,5% psiquiatras. O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) alerta ainda que o molestador tem, na maioria das vezes, entre 40 e 60 anos, é casado e adota discurso religioso.”  Por que não estou surpresa?
Comigo nunca aconteceu nada do tipo, felizmente. Mas fico desconfortável diante de exames ginecológicos, porque é uma situação incômoda alguém ficar enfiando instrumentos na gente (sem falar que eu sempre penso em Gêmeos, Mórbida Semelhança). Devo acrescentar que os papanicolaus mais tranquilos que já fiz foram realizados em Joinville, e não por médic@s, mas por enfermeiras, e no SUS. Pra marcar consulta, tinha que passar por uma curta palestra em que as enfermeiras falavam de métodos anticoncepcionais e doenças venéreas e mostravam pra gente como seria feito o papanicolau, e os instrumentos usados no exame. Isso ajudava muito.
A Nova, baseada no que diz o Conselho de Medicina, alega que nunca é necessário que uma mulher fique completamente nua diante do médico (quando é pra se despir, deve usar aquele aventalzinho), e que o ideal é que uma enfermeira ou alguém de confiança da paciente esteja presente à consulta.
Sem entrar em paranoia (afinal, é comum médico tocar na paciente, mas acho que boa parte de nós sabe diferenciar toques de bolinações, ou palavras gentis de cantadas), se acontecer com você, e você se sentir abusada, denuncie. Primeiro, ao Conselho Regional de Medicina do seu estado. Em seguida, à delegacia. A denúncia é fundamental porque um médico que realmente assedia suas pacientes sexualmente quase nunca o faz com apenas uma mulher. Portanto, com a denúncia, você poderá estar impedindo que outras mulheres passem pelo inferno que você passou. Além do mais, quando há mais denúncias sobre o mesmo médico, elas tendem a ser levadas mais a sério. 
Pense em quantas denúncias contra o então aclamado Roger Abdelmassih, pioneiro da fertilização in vitro no Brasil, tiveram que ser feitas antes que alguém pensasse: opa, é muita gente, pode ser verdade! O número de denúncias passou de 60. Ele foi acusado de 56 estupros, condenado a 278 anos de prisão em 2010, e hoje está foragido no Líbano. É um caso revoltante. Mas casos de abusos médicos podem ser mais comuns do que se pensa. E raramente são punidos. Ainda assim, denuncie sempre. A denúncia pode ser feita online, e não pode ser anônima.
Na sexta-feira uma outra leitora me enviou a notícia de um outro caso revoltante. Tentei encontrar mais informações, mas praticamente tudo que aparece é de um só jornal, O Pioneiro, de Caxias do Sul. E as notícias vão só até novembro do ano passado.
Vamos começar com o relato de uma das vítimas do Dr. Paulo:

“Conforme o relato da vítima, que é agricultora, o médico foi indicado para o tratamento de coluna, pois ela sentia fortes dores no local. Ele é especialista em cirurgias da coluna. Ela, na ocasião, tinha 49 de idade. Narrou que o réu pediu que ela ficasse de costas e baixasse a calça e a calcinha, segurando seus braços para trás, imobilizando-a.
Depois de apalpar as costas e nádegas da paciente, o médico informou que 'teria que fazer um exame e que ela poderia sentir um pouco de dor, mas não deveria se mover nem virar-se'.
O médico colocou luva em uma das mãos e passou gel na coluna, pernas e vagina da vítima, afirmando que seria para 'amenizar a dor'. A aplicação teria deixado a paciente anestesiada topicamente nos locais da aplicação.
A seguir o médico apoiou-se na paciente, que passou a desconfiar do procedimento. Passando a sentir muita dor e sem conseguir se mover, a agricultora pediu que ele parasse, mas o réu teria dito que ele 'ainda não tinha terminado o serviço'.
O médico teria dito que estava fazendo uma inspeção na coluna da paciente, a partir da introdução de um instrumento em sua genitália. Alguns segundos depois, desconfortável, a agricultora olhou para trás e viu o médico penetrando-a.
Quando ela finalmente conseguiu se desvencilhar e virar-se, deparou-se com o homem com as calças e cueca abaixadas, com o pênis ereto.
A paciente entrou em desespero e começou a chorar, tendo o médico pedindo que ela se acalmasse, afirmando não ser 'nada que ela estava pensando e que ela não podia deixar o consultório naquele estado'.
Ainda, conforme o depoimento da vítima, o médico Paulo dos Santos Dutra teria dito que 'ela era muito nova para não ter mais relações sexuais'. A seguir deu-lhe uma água para beber, a qual ela suspeitou que tivesse outra substância, pois estranhou o gosto.
A paciente retirou-se do consultório e, imediatamente, procurou a polícia, sendo encaminhada para a Delegacia da Mulher.”

É um relato detalhado do que aconteceu numa consulta de 2009. Em março de 2010, Paulo dos Santos Dutra foi preso durante alguns dias. Já havia três queixas contra ele, mais duas de mulheres ainda indecisas se formalizavam ou não a acusação (a delegada disse que o tipo físico das vítimas era parecido. Em geral, suas vítimas eram -- são? -- mulheres simples com poucas instrução formal). Ele foi condenado por "posse sexual mediante fraude, diferente de estupro por não envolver violência ou ameaça". Hã? Tudo isso narrado pela paciente não foi estupro? 
A defesa alegou que o médico "realizou somente um exame físico, não havendo provas das alegações da paciente". E tentou argumentar que a agricultora tomava diversos remédios psiquiátricos e que "sua doença pode prejudicar sua avaliação da realidade".
A "avaliação da realidade" é que havia várias provas: o tal gel foi encontrado na calcinha da vítima, assim como resquícios de esperma. Como o médico se negou a ceder amostras do seu DNA para efeitos de comparação, uma juíza expediu mandato de segurança pra que essa amostra fosse retirada de uma escova de dentes dele. E o DNA do esperma encontrado no corpo da vítima (retirado no exame de corpo de delito) foi igual ao DNA do médico (segundo a perícia, uma escova de dentes é o melhor objeto pra se colher DNA, porque raramente é compartilhada com outras pessoas). Que outra prova é necessária?
Em novembro do ano passado, a pena foi aumentada para três anos de reclusão em regime aberto. Mas, como o médico já havia sido preso preventivamente em 2010 (por alguns dias, e em cela única, por ter diploma superior), a pena foi substituída por serviços à comunidade e pagamento de cestas básicas. Só isso. Por ter estuprado uma paciente, perdão, por tê-la possuído sexualmente mediante fraude!
O médico traumatologista continua exercendo seu ofício normalmente em Caxias do Sul. Em fevereiro do ano passado, o presidente do Cremers (Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul) deu uma entrevista dizendo que a cassação do registro do Dr. Paulo pode não acontecer: “A condenação na Justiça criminal ou cível não interfere absolutamente em nada. Nossa condenação é ética. [...]. A cassação serve para abuso sexual comprovado, cirurgias inadequadas e erros grosseiros, entre outros". O julgamento do Cremers pode levar dois anos e, enquanto isso, o médico está atuando, com convênio com planos de saúde e tudo.
Termino este gigantesco post com a mensagem que uma leitora anônima enviou ao presidente do Cremers (esta leitora deixou a mensagem aqui no blog, no sábado):

“Bom dia!
O Dr Paulo dos Santos Dutra continua ativo neste conselho e clinicando na cidade, mesmo tendo sido condenado segundo provas materiais cientificamente comprovadas por estupro e abuso sexual de pacientes dentro do consultório durante uma consulta? Isto é prática comum entre os médicos deste estado? É apenas um acidente de percurso, um leve deslize moral e ético dos médicos filiados a este conselho? O senhor e os demais médicos continuam indicando e dando boas referências a quem pergunta sobre a idoneidade deste médico? Devo supor que teremos que ir à polícia consultar a ficha policial de cada médico que visitarmos para ter certeza de que não seremos molestadas no consultório? Um médico se prepara 20 anos para o exercício de uma profissão de elite mas não tem sanidade mental suficiente para manter o pênis dentro das calças quando vê uma mulher simples do 'seu tipo sexual' sozinha dentro de seu consultório e este egrégio Conselho defende o direito deste em continuar servindo a população DE PORTA FECHADA? É isto mesmo ou eu entendi errado, Presidente?
Estou enojada. Este estuprador está contaminando o Conselho que o senhor preside. Desculpe a minha petulância em perguntar, mas devo supor que são todos farinha do mesmo saco? Que não tem a menor importância um estuprozinho de vez em quando porque está dentro do previsto etica e profissionalmente falando? O que me diz, senhor Presidente?

Wednesday, May 2, 2012

GUEST POST: FUI ESTUPRADA E PRECISO DE AJUDA

Ontem recebi um email desesperado de A. Eu ainda não sei se A, que me mandou os emails, é que foi estuprada, ou se foi uma amiga dela. Mas não importa, o desespero e o desamparo são iguais. Tenho recebido vários emails deste tipo recentemente. Acompanhem e digam como podemos ajudar.

A: Uma das piadas dele durante a viagem foi relacionada a um post na internet de um assunto que envolvia estupro.
Ele tentou me agarrar uma vez no começo da noite, mas não correspondi, fiquei dura e me afastei. Mantive um certo nível de consciência a noite toda, somente perdi a noção quando estava voltando pra casa, no carro dele. Ele me ofereceu bebidas a noite toda.
Acordei com a pior dor que já senti, dentro do carro dele, mas ainda assim não consegui distinguir exatamente o que estava acontecendo, há quanto tempo ele estava ali. Lembro que saí do carro com tudo e que tive um ataque dos nervos em casa. Atirei todas as minhas coisas no chão, andei em círculos, chorei, gritei.
Após acordar no domingo, não conseguia entender ainda o que estava acontecendo. Sentia perfeitamente que havia sido abusada, mas me mantive na cama quase o dia todo. Com dores por todo o corpo, especialmente no ânus.
No dia seguinte ainda não sabia o que devia fazer, me esforcei para fazer o que tinha que fazer, mas passei o dia todo com muita dor por todo o corpo, principalmente para andar. Tive crises de raiva e de choro, enjoo e vômito. Mas ainda não havia me tocado o que realmente poderia ser essa situação.
Passei todo esse tempo sentindo culpa. Qualquer pessoa que eu dividisse isso consideraria que a culpada da situação sou eu, que bebi. Tive hoje um dia de muita dor e humilhação, sofrimento solitário que eu tenho certeza que pode durar pra sempre. Agora percebi que ele pode ter feito tudo isso de propósito, que já havia premeditado que se aproveitaria de mim. Ele praticamente me obrigou a sair com ele, disse que passaria em casa e ficou me rondando para ver se eu estava me arrumando. A princípio eu não tinha a intenção de sair, tentei desconversar, mas ele insistiu. Já conversávamos a um tempo pela internet, porém nunca havíamos saído, tínhamos amigos e eu não tinha planos. Acabei cedendo.
Estou desesperada, passei o dia de hoje me esforçando a fazer minhas coisas. Esta semana era uma semana crucial para minha vida profissional. Apesar de todas as crises que tive e dor, eu tentei de alguma forma não perder o foco. Sentia que isso não ia dar em nada e botaria tudo a perder se me rendesse. Sou alguém que sofre de depressão e de certa forma já está acostumada a viver em meio a dias cinzentos. Mas conforme o dia ia passando a dor só ia piorando. Tudo que vejo agora é que perdi o dia útil seguinte ao abuso e com isso se foram provas e tempo. Como vou conseguir resolver qualquer coisa no feriado?
Só preciso saber se eu posso ter razão. Não estou conseguindo me comunicar com ninguém no momento. Passei o dia fingindo estar cansada, doente, sumida, quieta. Só sei que de uma forma ou de outra estou entrando em profunda depressão. Tenho renda para cobrir um advogad@, preciso de ajuda.
Escrevo em meio a lágrimas.

Eu respondi:  Não conheço muitos advogad@s, muito menos que lidem com estupro. Mas posso perguntar. Em que cidade do Brasil isso aconteceu? Acho que seria melhor ter um advogado da mesma cidade.
Não sei se esse relato aconteceu contigo, mas é importantíssimo que a vítima faça um exame de corpo de delito e denuncie. Não deixe o caso "pra lá". O estuprador precisa ser criminalizado e punido. Já recebi vários emails com relatos quase idênticos e em todos as vítimas não denunciaram, por estarem com medo e não terem certeza do que aconteceu. E em todo os casos o estuprador entrou em contato com elas pouco depois para dizer que não sabe o que aconteceu, o que deu nele... Parece que é mais pra checar mesmo se a vítima vai ou não denunciá-lo, porque o cara SABE que foi estupro. Isso daí vale como prova também. Portanto, se ele entrar em contato por email, msm ou telefone (ao vivo é perigoso), a vítima pode tentar fazer perguntas, tirar mais informações, para que ele chegue perto de uma confissão. Grave a conversa, que ela pode ajudar no processo.
É importante também que a vítima não culpe a si mesma. Isso podia ter acontecido -- e acontece -- com qualquer mulher. Aliás, este tipo de estupro, cometido por conhecidos da vítima, é muito mais comum do que o clichê do estupro que todas somos ensinadas a temer (o estuprador desconhecido numa rua escura e deserta). E é também o tipo de estupro que raramente é denunciado, porque a mulher se sente culpada e com medo, já que conhece o estuprador. Esse tipo de estuprador não costuma estuprar apenas uma conhecida ou amiga, mas várias. Vou publicar um artigo na semana que vem que fala desse tipo de estuprador.
Toda força a você ou sua amiga.

Ela continuou: Ele entrou em contato, tentou ligar uma vez, mas não foi atendido. Tirando isso enviou várias msms, mesmo sem eu responder. Não sei se é possível realizar exame de corpo e delito mais. Até ontem tinham algumas marcas claras, mas nenhum procedimento foi realizado, as marcas já melhoraram.
O caso é de São Paulo.
[Mais tarde]. Foi realizado o exame de corpo e delito, assim como a denúncia. Espero que eu possa te ajudar com esse texto, sinta-se livre para usar meus relatos.
Ainda houve a dificuldade de ser um feriado, as Delegacias da Mulher de São Paulo estavam todas fechadas. Liguei e fui aconselhada a ir numa DP. Chegando lá a falta de um delegado fez com que eles simplesmente me mandassem voltar para casa. Fiquei um tempo na frente da DP, com um amigo, decidindo o que eu deveria fazer. Desespero, medo de não dar em nada, mais a preocupação com a vida cotidiana, se deveria interrompê-la por conta de um caso que nem sei se seria levado a sério.
Felizmente, a escrivã teve empatia, entrou em contato com o delegado contando o que eu já havia relatado. Ele autorizou o BO e ela me chamou novamente para dentro da DP. Feito o BO fui encaminhada para o Hospital Pérola Byington - Centro de Referência da Saúde da Mulher, e fui atendida pelo Projeto Bem Querer Mulher. Realizei o exame sexológico (corpo de delito) e recebi todo o coquetel de retrovirais, algo que irá ocupar minha vida ainda durante meses. Ainda tive de ouvir de uma enfermeira que se fosse filha dela ia tomar uma injeção de um lado e um tapa de um outro (se referindo ao fato de eu estar bêbada durante o abuso).
Aguardo agora quando for chamada novamente para prestar depoimento, além do laudo dos exames. Procuro ainda por um advogad@, pois acho que será necessário futuramente. Mesmo uma mulher que tem informação não sabe como se comportar diante de uma situação dessas. O medo e o julgamento da sociedade é o que primeiramente nos vem a cabeça, sentimos o peso da impunidade antes mesmo que ela aconteça.
A internet pouco ajuda na informação para a mulher nesses casos. São tópicos confusos e notícias aleatórias. Espero que possamos fazer um guia para instruir outras fiquem desnorteadas em meio a essas situações.

Eu de novo: Nos outros pedidos de ajuda que recebi por email, entrei em contato com uma promotora de Brasília. Mas tanto eu quanto ela sentimos falta de um blog ou site na internet que responda dúvidas e oriente vítimas em casos de estupro. Cursos de Direito, mobilizem-se! Que tal algumas universidades entrarem com um projeto de extensão para poderem oferecer este importante serviço? E vamos criar uma lista de advogad@s que tenham experiência em condenações de casos de estupro? Podemos ver claramente que vivemos numa cultura de estupro quando é mais fácil encontrar filmes pornô simulando estupro e piadas de estupro e anúncios estimulando o estupro do que ajuda a vítimas reais de estupro. Até quando?


Recapitulando...O que este post gerou, além de vários comentários cheios de ódio de mascutrolls, já deletados: Duas advogadas de SP me passaram seus emails, que eu passei pra A. Tamara, uma estudante de Direito da Universidade Federal do Pará, se pôs à disposição para, em seu blog, orientar vítimas de violência sexual. Dandara, o coletivo feminista de Direito da USP, informou que mulheres da região de SP podem procurar a União de Mulheres ou a SOF (Sempreviva Organização Feminista). A Su passou um guia de assistência a mulheres e adolescentes das regiões metropolitanas de SP, Recife e Porto Alegre. Virginia criou um bloge um grupo de apoio no Google para que sobreviventes de qualquer tipo de violência possam ajudar umas às outras. Conceição, Amanda e outras blogueiras já tinham iniciado um blog de suporte. E isto é só o começo. Espero, de coração, que as mulheres desesperadas que venham à internet saber o que fazer em casos de estupro tenham um pouco mais de apoio. Porque isso é o mínimo que se pode esperar de um mundo que se diz igualitário e humano.
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