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Wednesday, May 23, 2012

GUEST POST: UMA LEMBRANÇA DE HORROR

Não consigo nem começar a descrever como este relato enviado pela L. me encheu de raiva e pena.

Acabei de ler o relato Mais uma História de horror para sua coleção, e gostaria de por para fora o horror pelo qual também passei. Eu nunca tive coragem de contar pra ninguém, nunca verbalizei o horror de que fui vitima. Eu tentei apagar isso das minhas lembranças, mas é impossivel.
Eram meados da década de 70. Eu tinha 20 anos e estudava numa universidade no interior do Paraná. Morava numa república com mais algumas estudantes, minha família morava numa pequena cidade do interior, e naquela época a gente saía de casa para estudar.
Bem, eu costumava frequentar o Diretório Acadêmico que promovia uns bailinhos no final de semana. O dinheiro era curto, eu não pagava a escola, mas tinha que trabalhar pra pagar o aluguel, e esses bailinhos eram o único lazer de que dispunha.
Eu era bonita, e sempre tinha parceiro para dançar. Apesar de ter 20 anos, ainda era virgem e o máximo de carinhos que tinha recebido de um homem eram uns beijinhos.
Eu cursava Ciências Economicas e os estudantes não se misturavam. Os de Humanas andavam com os de Humanas, os de Exatas com os de Exatas, e assim por diante. Um dia, fui além dos domínios do corredor de humanas e conheci um rapaz, o Paulo, que estudava Engenharia. Conversamos e ele me convidou pra ir no baile no próximo sábado. Eu disse sim, que nos encontrrariamos lá. Só que nesse interim, um garoto pelo qual eu era apaixonada (vamos dizer que ela chama Jorge) veio falar comigo. Eu fiquei muito feliz, eu andava arrastando as asas pra ele desde o começo do ano, e agora ele percebia que eu existia. Pois bem, quando chegou o sábado, lá no Diretório eu falei para o Paulo que eu não podia ficar com ele, que eu iria ficar com o fulano, contei que era apaixonada, essas coisas. Ele foi super compreensivo, e o resto da noite foi tranquila. Dancei a noite toda com o Jorge e fui pedida em namoro por ele. Não cabia em mim de tanta felicidade...
Na segunda feira eu estava chegando na escola e encontrei o Paulo. Muito simpático, ele me cumprimentou, perguntou como estava, se estava feliz, dava mostras que compartilhava a minha felicidade. Contou que estava triste, que precisava de alguém pra conversar. Eu, que estava feliz, achei que não custava nada dar um pouco de atenção pra uma pessoa que estava precisando de conforto. E ele foi de tal forma me convencendo, que aceitei entrar no carro dele, uma caminhonete último modelo naquela época. 
Foi só eu entrar no carro que a fisionomia dele mudou. Ele trancou a porta, arrancou com o veiculo e rumou pra um lugar deserto, no meio do mato. Começou a me bater, mordeu meu ombro, mordeu de quase tirar um pedaço, mandou eu tirar a roupa, me chamava de vadia, dizia que eu o havia humilhado, que eu era uma pobre e ele um cara rico, que nunca ninguém o tinha recusado. Eu implorava, dizia que era virgem. Parecia que minhas súplicas o deixavam mais excitado e nervoso. Eu me recusava e colaborar e ele me batia. Nem lembro quanto tempo durou, mas só de lembrar hoje, passados três décadas e meia, ainda sinto o cheiro dele, a dor no meu ombro, a minha vergonha.
Quando ele conseguiu o que queria, disse que não iria me matar, mas que eu aprendesse a lição. Me levou até o portão da minha casa, e eu entrei com a minha vergonha e minha dor.
Nunca falei disso pra ninguém, nem com minhas amigas, nem com meu marido (fui casada durante trinta anos), nem como a terapeuta quando fiz análise por conta de uma doença que tive.
E depois disso, eu ainda o via na faculdade. Tive vergonha de denunciá-lo. Se hoje em dia ainda culpam as mulheres, imagine naquela época?
Depois da faculdade mudei de cidade e nunca mais soube dele. Ainda lembro seu nome, mas nunca tive coragem de por o nome dele no Google pra saber por onde anda.
O que isso fez com a minha vida? Isso não me impediu de seguir em frente, mas o sexo pra mim esteve sempre associado a dor, vergonha, medo.
Contar isso talvez possa pesar menos... ou não. Só sei que vivo com essa lembrança de horror.
Escrevi isso de um jato só, não tenho coragem de reler ou de  corrigir, pois se lê-lo talvez nem tenha coragem de enviar. [Eu fiz algumas correções mínimas].

Saturday, May 19, 2012

GUEST POST: EU RECICLO MULHERES

Arte e foto Mundano

Selene me enviou esta mensagem com dúvidas que não sei responder. Acho que a dúvida é maior que "o que responder a um aluno que carrega mensagens equivocadas sem se dar conta?". Num mundo preconceituoso como o que vivemos, tod@s nós, em algum momento, nos pegamos pensando "o que dizer num caso assim? Aliás, será melhor dizer alguma coisa?". Espero que vocês possam se identificar com o que conta a Selene e, ao mesmo tempo, dar sugestões.

Sou formada em Artes Plásticas e dou aula de arte em uma escola particular localizada em uma região tranquila na zona leste São Paulo. Sempre digo que tenho sorte de lecionar nessa escola, que me dá total liberdade para que eu possa planejar minhas aulas da maneira que acredito. Há um ateliê bastante amplo com mesas grandes e com os materiais que eu desejar. A escola procura adotar um modo construtivista de ensino, dando ênfase em oficinas ao invés de aulas expositivas, onde se possa aprender cada vez com mais autonomia. Ou seja, os alunos que lá estudam são privilegiados por terem acesso a uma educação pensante, aberta e repleta de propostas interessantes.
Meus alunos têm entre 6 e 11 anos e as turmas têm em média 25 alunos. No ano passado, havia uma turma especialmente mais complicada de lidar, pois concentrava muitas crianças que adoravam falar o tempo todo -– o tempo todo mesmo. Era difícil que alguma proposta os cativasse, e grande parte da aula era tomada pelos pedidos de silêncio e atenção.
Em uma dessas aulas, os alunos realizavam com alarido a proposta do dia. A cada 5 minutos, eu tinha que lidar com problemas “alheios” (digo entre aspas pois encaro que não vivemos em uma bolha e frequentemente surgem questões, desvinculadas à matéria propriamente dita, que não devem ser ignoradas): “professora, não consigo trabalhar com tanto barulho; professora, o fulaninho me mandou calar a boca; professora, alguém escondeu meu material” etc. No meio disso tudo, um aluno se dirigiu até mim e, levantando a blusa do uniforme, me mostrou todo orgulhoso a camiseta que estava por baixo, ostentando os magnificentes dizeres “EU símbolo de reciclagem MULHERES”.
Eu já havia passado por situações parecidas em sala de aula; aquela situação em que você sabe que deve dizer algo muito certeiro, mas fica tão atordoado que acaba deixando passar. Só consegui perguntar duas coisas para ele: se ele sabia o que aquilo significava e onde ele tinha arranjado a camiseta. A primeira pergunta foi respondida com um simples sim e a segunda com “foi minha mãe que me deu, é do Pânico”. Logo perdi a chance de dizer mais alguma coisa. A conversa se dispersou, o garoto rapidamente estava em outra atmosfera e outras questões foram surgindo. Porém, diferentemente de outras situações que não consegui conduzir da maneira que gostaria, essa em especial não me deixou em paz. Naquele dia, voltei para casa com uma forte sensação de derrota. E hoje, meses depois, não passa um dia em que não confabulo uma conversa imaginária com aquele aluno naquele momento. O problema é que por mais que eu imagine essas conversas que não ocorreram, sempre ficam lacunas. Não sei o que diria. Não sei como explicaria para um garoto que, no auge dos seus 9 anos, carrega no peito dizeres que, provavelmente, ele só acha “engraçadinhos”, não tendo noção da dimensão daquilo. Não sei se de fato foi a mãe dele que o presenteou com a camiseta, mas certamente a mãe sabe das roupas que seu filho tem. Ela acha aquilo engraçadinho também?
Lembro que quando eu tinha mais ou menos essa idade, usava dias seguidos a mesma roupa. Não gostava de usar uniforme e uma vez levei uma advertência por ir na escola de calça preta (tinha que ser azul marinho). Eu amava aquela calça e não queria vestir nada além dela. Acredito que a camiseta estava sendo para o aluno o mesmo que a calça preta era para mim –- do contrário ele não iria usá-la por baixo do uniforme em um calor de 30 graus. Por algum motivo, ele se sentia bem carregando aquela mensagem. Como eu poderia instigar um garoto dessa idade a refletir que a frase implica na conotação de que mulheres são descartáveis, algo para ser usado e trocado? Que ele estava simplesmente repetindo um comportamento machista do “pegador”, sendo que ele nem sequer tem maturidade para vivenciar e escolher se quer mesmo ser esse tipo de cara? Que pessoas, homens e mulheres, não são recicláveis justamente por serem pessoas, e não lixo ou objetos descartáveis? Como fazer para que essas colocações façam sentido para uma criança, ainda mais para uma criança que costuma dar de ombros a qualquer coisa que um professor fale?
Sei que situações como essa ainda aparecerão. Quero estar mais preparada para que, da próxima vez, eu possa fazer mais do que perguntar se o aluno tem noção do que está dizendo. É inevitável imaginar esse garoto daqui a uns anos da pior maneira possível e, querendo ou não, deixar passar faz com que essa pior maneira possível seja responsabilidade minha também. É fácil ignorar, achar que é só bobeira de criança, que ele deve estar repetindo comportamentos dos pais e que não necessariamente será igual a eles. Mas não consigo fechar os olhos e achar que as questões impertinentes que surgem dentro do ateliê não me dizem respeito. Portanto, isso é um apelo para que me ajudem a pensar maneiras de conduzir uma conversa quando essas situações surgirem. Acredito que, quanto mais esse assunto for discutido, mais ferramentas teremos para argumentar, seja com um aluno, como foi o caso, ou com quem for.

Wednesday, May 16, 2012

GUEST POST: MEU PAI, MEU MONSTRO

A M. me mandou a sua história, que é a história de muitas crianças que sofrem violência dos pais. Sou totalmente contra palmadinhas "pedagógicas" ou "educativas", chamem como quiser. 
Pessoas que estudam comportamento infantil sabem muito bem que educar com violência só gera mais violência. E que educar pela via do medo é o pior caminho. Mas, se dar palmadinhas inofensivas é uma forma tão maravilhosa de se educar uma criança, por que deixar que apenas os pais tenham esse privilégio? Vamos deixar @ professor@ na escola bater nos alunos também! Pô, vamos liberar para que estranh@s na rua deem tapinhas nas crianças! Afinal, faz bem, é assim que se ensina, né? Ah, mas não pode ser um tapa forte, só um tapinha, e dado com amor! Sei. 
Já tratei deste assunto diversas vezes no blog, e praticamente todos os pais e mães que comentaram foram unânimes em dizer que, nas vezes em que bateram nos filhos, foi por descontrole. Descontrole, pra mim, parece ser o oposto de amor e educação. A maioria das pessoas que deixaram comentários em posts passados da violência que sofreram alegam que isso prejudicou muito o relacionamento com os pais. Então, por que insistimos numa prática covarde? Bater em criança também é violência doméstica. E tod@s nós podemos denunciar.
Muita gente sabia da violência que M. e as outras mulheres da sua família sofriam. E ninguém fez nada.


Demorou muito tempo para eu ter coragem de compartilhar a minha história. Sou uma moça de classe média, sempre estudei em colégio particular, faço uma boa faculdade hoje. Sou filha de pais com ensino superior mas nem por isso escapei de um drama que atinge milhares de mulheres no mundo, não importando a condição social: a violência doméstica.
Quando eu era pequena apanhava do meu pai pelas simples travessuras de uma criança, tanto eu como a minha irmã sete anos mais velha. Minha mãe também apanhava nas discussões com meu pai, e ela culpava o temperamento explosivo dele, mas de certo modo era conivente com esse comportamento agressivo. Ela usava desta arma para exigir obediência da gente. 
Muitos assumem que é normal uma criança apanhar quando pequena para assim ser melhor educada. Dizem que eles mesmos apanharam quando pequenos e hoje são pessoas normais. Mas as pessoas deveriam tentar ver com olhos de criança. É terrível para uma criança ver o seu pai, uma figura que era pra te proteger, bater em você, na sua irmã e na sua mãe, e, em meio a sua revolta, ver que os outros acham tudo normal. 
Eu nunca consegui compreender o porquê de suportar esta situação, e desde criança tramava sair de casa e viver a minha vida longe daquela violência. Os anos se passaram, eu e minha irmã deixamos de ser crianças, mas nem por isso as agressões pararam. Certa vez eu tinha uns 13 anos e tomei uma surra homérica, daquelas que você tem que inventar desculpas na escola depois pra explicar os roxos. O motivo só fui saber depois da surra: "Você andou entrando em sala de bate papo no computador". Quando eu disse que não entrei, ele respondeu: "Ah, então desculpa, isso vale para você não entrar". No fim descobri que tinha sido um amigo dos meus pais que tinha usado o computador e entrado na página. 
Com o passar dos anos me tornei uma jovem estudiosa obcecada em tirar notas altas com o medo de uma nota baixa desencadear mais uma surra (meu pai era muito exigente na educação; lembro de ter apanhado certa vez por ter dificuldades em matemática). Mas também me isolava do convívio social desde nova, tinha problemas em interagir socialmente, e ser uma nerd não ajudou minha vida social. Eu sofria bullying e muitas vezes recorri à violência para me defender na escola. Eu era uma aluna de excelentes notas, mas sem amigos e com problemas de conduta. 
Aos 17 anos consegui a minha deixa para sair de casa: passei numa universidade em outra cidade e fui morar fora. Minha irmã, porém, continuou em casa e aos 25 anos, já formada, recebia toda a violência do meu pai. Ela apanhava por ter ido a um bar em dia de semana, ou por esquecer de trancar a porta de casa. A situação foi extrema, até que um dia ela fugiu de casa. Não levou nada além da roupa do corpo. Ela se libertou da violência e fez o que nenhuma de nós tivemos coragem de fazer: denunciou meu pai na Delegacia da Mulher. 
Minha mãe, por incrível que pareça, ficou do lado dele, pois a ação dele na mente dela estava correta. Ainda tive que ouvir que era um absurdo a denúncia porque agora todo mundo estava sabendo. O que minha mae tanto queria proteger era a imagem de família normal, mas nunca foi possível preservar esta imagem: os vizinhos ouviam os gritos enquanto apanhávamos, e as pessoas mais próximas viam os roxos e as marcas. Dessas pessoas não escondíamos a verdade; todas sabiam, só nada faziam.
Para evitar um escândalo, minha mãe obrigou minha irmã a retirar a denúncia. Não sei se foi a denúncia em si ou o fato de minha irmã sair de casa, só sei que após esta data meu pai parou de bater em mim ou na minha mãe. Diz ele que aprendeu a se controlar, mas pra mim aprendeu tarde demais. Não consigo confiar nele como pai e temo que em algum momento ele ainda vai voltar a explodir e descontar em mim novamente.
Estou contando esta história pois sei que existem muitas outras pessoas como eu e minha irmã que sofrem caladas a violência de um pai e ficam de mãos atadas, com medo de lutar contra isso. Os traumas causados pela violência são muito maiores que as marcas roxas no corpo. Eu sei pois hoje faço tratamento psiquiátrico e psicológico e ainda não consigo perdoar meu pai pelo que fez. Ainda assim, mesmo sabendo que não tenho culpa, tenho vergonha de assumir que sofri violência. Tenho medo dos olhares e das conversas, como se a sociedade me culpasse por ter apanhado. Quantas que já sofreram algum tipo de violência não sofrem o mesmo julgamento?

Saturday, May 12, 2012

GUEST POST: ESTOU MAIS SEGURA

As god is my witness, eu raramente publico elogios que recebo. Publico muito mais desaforos e insultos do que declarações de amor. Só que a proporção dos afagos é, olha, não sei os dados estatísticos com certeza, de pelo menos dez pra um. Então permitam-me publicar este aqui, que foi mandado pela D. já faz um tempinho. 

Conheci seu blog por acaso há pouco tempo e me apaixonei!
Tenho 20 anos e acho que como a grande maioria, eu tinha uma ideia oposta do feminismo, mas através dos seus textos e de outros blogs que passei a visitar, abri meus olhos pra uma outra realidade. Fui notando como eu era e ainda sou cheia de preconceitos, como criticava aquelas mulheres "que ficavam com todo mundo" e como meus pais ainda acreditam no patriarcado e me criaram pra ser "moça pra casar".
Nunca me achei muito bonita, sempre tive uns problemas com a minha aparência, pois não poderia escapar da ascendência portuguesa e sou peludinha, hehe, e como várias outras, queria ser mais magra. Mas lendo mais sobre o feminismo, comecei a me sentir bem na minha própria pele. E hoje passei por uma situação que me impulsionou a escrever pra você. Estou saindo com um cara bem legal, inteligente, mas que não é nenhum modelo de beleza, ele é daqueles nerds, sabe, e foi isso o que me atraiu nele, o conteúdo e não só o exterior. E pra mim, ele pensava da mesma forma.
Durante uma conversa esta tarde, ele me falou que eu tenho um certo "bigode" e que eu deveria me depilar... com frequência. Eu achei algo estranho, vindo de um cara culto e bem-educado, mas eu não abaixei a cabeça e não fui correndo pra uma pinça mais próxima. Me senti ofendida, porém percebi que se não fosse o feminismo e seu blog pra me fazerem sentir linda do jeito que sou, iria desabar em lágrimas e provavelmete mudar algo que, na verdade, nunca me incomodou.
Por isso escrevo este email pra você, pra agradecer por ter me tornado uma pessoa mais segura. Acredito que ainda tenho um longo caminho pela frente pra me aceitar plenamente e deixar de lado certos preconceitos tão arraigados em mim.
Por favor, continue com seu blog maravilhoso para que muitas outras meninas por aí comecem a amar o que papai-do-céu nos deu. [Nota: D, se deus existe, o que não acredito, deus é mãe].
Um beijo enorme! E obrigada!

Wednesday, May 9, 2012

GUEST POST: PAI DE MENINA

Uma leitora me enviou o link para o post de um amigo (que foi publicado no Mídia e Educação no final do mês). Gostei muito, achei que dialogava com este post que escrevi, e pedi permissão pra reproduzir o relato aqui. Então. O autor deste guest post, Cezar Tridapalli, é coordenador de Midia/educação no Colégio Medianeira, em Curitiba, e escritor, autor do romance Pequena Biografia de Desejos. (As fotos, meramente ilustrativas, não são da sua filha).

Eu sou pai de uma menina. Ela ainda é bebê.
Era uma vez uma festa entre amigos. Naquela confluência de vozes, conversas com início e sem fim, brincadeiras de toda ordem, tentativas de engatar papos sérios, você conversa com um ouvindo a conversa do outro, eis que vem um amigo, pai de menino, com o seu bebê no colo e diz para ele, referindo-se a mim: “filho, o nome desse tio é sogro”. Eu ri, evidentemente, e não vi qualquer mau gosto no tipo de insinuação brincante que havia no modo como ele me apresentava ao filho menino.
Mas há casos diferentes. Outra vez, já outra era a ocasião, minha filha zanzava em uma sala com outros bebês, meninos e meninas. Um dos meninos, talvez sem ter feito dois anos, se aproximou dela e, incentivado pelos pais, abraçou a minha pequena. Tudo muito cuti-cuti, é claro, mas o discurso vindo dos adultos me deixou com uma pulga atrás de cada orelha. Veja se exagero ou se há alguma razão no que digo: o que vi junto com a tentativa de abraço foi o pai do menino insinuando — insinuando nada, falando às claras — que seu filho já demonstrava todos os indícios de que seria pegador (uma criança de dois anos abraçando um bebê de um ano e meio, alguma novidade?) e que era melhor eu começar a proteger a minha “princesinha”.
Já noutra oportunidade, quando me levantei de uma cadeira para assistir a alguma cena de abraço e beijo similar (todos estavam olhando, ficaria até chato se eu me mostrasse indiferente), vi um coro de vozes se dirigindo a mim: “ah, olha o pai ciumento já querendo proteger a filha” e outras vozes esparsas sugerindo que ela teria muitas dificuldades e que eu não mediria esforços para salvaguardá-la das garras dos lobos maus.
Talvez seja divertido pensar em um pai com espingarda em punho obrigando um sujeito a casar com sua filha. Mas isso lá no casamento caipira das festas juninas.
Vou confessar uma coisa da qual me envergonho: critico algumas posturas exageradas, mas sou admirador das lutas feministas. Porém, aí vem o motivo da minha vergonha, eu não reparava tanto assim no quanto elas ainda são vistas como seres-objeto sem vontade, sem pensamento próprio. Parece mesmo que não há um sujeito consciente nesse ser de carnes e ossos, e cérebro. E estou falando para além do clichê mulher-garota-propaganda-de-cerveja.
Estou falando de bebês com um ano e meio, dos quais os meninos já parecem prontos para anunciar seu futuro predador quando, na verdade, estão demonstrando um afeto comum em qualquer bebê, às vezes genuíno, às vezes automático, seguindo a cartilha e o comando de voz dos adultos. E às meninas, as tais “princesinhas” (tenho uma cisma muito grande com essa expressão, mas isso é tema para outro post), fica reservado o posto de passivas e indefesas, que dependem de uma figura paterna e, portanto, masculina, para, tal qual a figura do lenhador viril, caçar lobos e restaurar a paz.
Se nenhum adulto falará tão bem uma língua como fala a sua língua materna, talvez haja uma relação entre os valores que aprende já na chamada tenra idade (pura e mera e deslavada especulação minha, ok?). Se bebês já crescem ouvindo que seus papéis biológicos e sociais são pré-definidos e já estão formatados, qualquer outra postura e comportamento na vida adulta só será capaz de ser assumida com muita dor e causando muito choque moralista. Talvez outro clichê, aquele que sempre termina dizendo “vem do berço”, seja bastante aplicável aqui.
Crianças de todo o mundo, uni-vos, abraçai-vos, beijai-vos, transmiti vossos vírus de gripe e vossos piolhos umas às outras, mas não vos deixeis cair na tentação de transmitir o vírus dos estereótipos, dos mitos de fragilidade sem cérebro e da brutalidade viril — e também sem cérebro —, incapazes de se abrirem para a ternura e para o discernimento entre o comportamento humano, social e natural, e o comportamento bestializado dos preconceitos, estes também humanos, mas nem um pouco naturais.

Saturday, May 5, 2012

GUEST POST: UMA PARÁBOLA

Priscila, uma estudante de SP, deixou este comentário num post. Não é difícil descobrir a que a parábola se refere.

Era uma vez um casal no meio do deserto. O homem e a mulher que formavam aquele casal concordaram em cavar um poço para conseguir água e saciar a sede. Mal sabiam eles que naquele local iria emergir uma nascente de um grande rio. Após saciar a sede surgiu uma nascente e ali nasceu o início do rio. Eles então seguiram caminho, mas o rio traçava um caminho rente a eles, e com o passar do tempo, este rio ia se tornando maior e mais largo. O rio caminhava em direção ao mar, e o casal caminhava junto em direção a um castelo dos sonhos onde tudo era perfeito. Até que um dia eles encontram uma figura de um castelo do outro lado da margem do rio.
"Maldito rio! Ele tinha que estar entre eu e meu sonho?" exclamou o homem.
"Que tal construirmos um barco e seguir o curso do rio? Quem sabe iremos chegar lá depois de um tempo. Você me ajuda?"
"Não vou te ajudar, a culpa do rio estar aqui é toda sua! Eu não quero mais seguir o caminho ao seu lado. Vou procurar outro caminho para conseguir chegar ao castelo. Se vire com o rio que o rio é seu!"
Atônita, a mulher começou a indagar: "Devo construir um barco sozinha, velejar sozinha, e passar por todos os percursos tortuosos sozinha? Ou devo construir uma barragem sozinha e romper com o caminho do rio aqui mesmo, antes que ele tome outros rumos?"
Ela escolheu a segunda opção. Construiu a barragem e o rio evaporou, foi encerrado. Finalmente ela pôde chegar ao castelo, mas descobriu que ele não era tão perfeito assim, pois havia a lembrança de que o rio poderia fertilizar vários solos, poderia saciar a sede de várias pessoas, e conseguir por fim chegar ao seu destino, a imensidão do mar. Ela fez a sua escolha, e ninguém se dispôs a ajudá-la quando ela mais precisava. Depois deste ato ela foi bastante humilhada por várias pessoas que recriminaram sua barragem do percurso do rio. Mas ela retrucou: "Caso o rio seguisse caminho, ele também correria a chance de ser poluído pela sujeira humana e sua ignorância tóxica. Que garantia tenho que este rio ia ser amado e cuidado pelas pessoas?"

Eu: Não preciso nem dizer a que se refere esta parábola, né? Ela foi deixada num post sobre aborto. Discordo do moralismo no final -- não é toda mulher que sente remorso por abortar, e, ainda que fosse, o aborto deveria ser descriminalizado, porque cabe à mulher decidir. Também não é todo homem que abandona a parceira no caso de uma gravidez indesejada. Digamos apenas que isso é muuuuito mais comum que o sujeito insistir para que a moça continue a gravidez. Enfim, é uma parábola. E todas as parábolas são um pouco simples. Mas eu achei bem ilustrativa.

Wednesday, May 2, 2012

GUEST POST: FUI ESTUPRADA E PRECISO DE AJUDA

Ontem recebi um email desesperado de A. Eu ainda não sei se A, que me mandou os emails, é que foi estuprada, ou se foi uma amiga dela. Mas não importa, o desespero e o desamparo são iguais. Tenho recebido vários emails deste tipo recentemente. Acompanhem e digam como podemos ajudar.

A: Uma das piadas dele durante a viagem foi relacionada a um post na internet de um assunto que envolvia estupro.
Ele tentou me agarrar uma vez no começo da noite, mas não correspondi, fiquei dura e me afastei. Mantive um certo nível de consciência a noite toda, somente perdi a noção quando estava voltando pra casa, no carro dele. Ele me ofereceu bebidas a noite toda.
Acordei com a pior dor que já senti, dentro do carro dele, mas ainda assim não consegui distinguir exatamente o que estava acontecendo, há quanto tempo ele estava ali. Lembro que saí do carro com tudo e que tive um ataque dos nervos em casa. Atirei todas as minhas coisas no chão, andei em círculos, chorei, gritei.
Após acordar no domingo, não conseguia entender ainda o que estava acontecendo. Sentia perfeitamente que havia sido abusada, mas me mantive na cama quase o dia todo. Com dores por todo o corpo, especialmente no ânus.
No dia seguinte ainda não sabia o que devia fazer, me esforcei para fazer o que tinha que fazer, mas passei o dia todo com muita dor por todo o corpo, principalmente para andar. Tive crises de raiva e de choro, enjoo e vômito. Mas ainda não havia me tocado o que realmente poderia ser essa situação.
Passei todo esse tempo sentindo culpa. Qualquer pessoa que eu dividisse isso consideraria que a culpada da situação sou eu, que bebi. Tive hoje um dia de muita dor e humilhação, sofrimento solitário que eu tenho certeza que pode durar pra sempre. Agora percebi que ele pode ter feito tudo isso de propósito, que já havia premeditado que se aproveitaria de mim. Ele praticamente me obrigou a sair com ele, disse que passaria em casa e ficou me rondando para ver se eu estava me arrumando. A princípio eu não tinha a intenção de sair, tentei desconversar, mas ele insistiu. Já conversávamos a um tempo pela internet, porém nunca havíamos saído, tínhamos amigos e eu não tinha planos. Acabei cedendo.
Estou desesperada, passei o dia de hoje me esforçando a fazer minhas coisas. Esta semana era uma semana crucial para minha vida profissional. Apesar de todas as crises que tive e dor, eu tentei de alguma forma não perder o foco. Sentia que isso não ia dar em nada e botaria tudo a perder se me rendesse. Sou alguém que sofre de depressão e de certa forma já está acostumada a viver em meio a dias cinzentos. Mas conforme o dia ia passando a dor só ia piorando. Tudo que vejo agora é que perdi o dia útil seguinte ao abuso e com isso se foram provas e tempo. Como vou conseguir resolver qualquer coisa no feriado?
Só preciso saber se eu posso ter razão. Não estou conseguindo me comunicar com ninguém no momento. Passei o dia fingindo estar cansada, doente, sumida, quieta. Só sei que de uma forma ou de outra estou entrando em profunda depressão. Tenho renda para cobrir um advogad@, preciso de ajuda.
Escrevo em meio a lágrimas.

Eu respondi:  Não conheço muitos advogad@s, muito menos que lidem com estupro. Mas posso perguntar. Em que cidade do Brasil isso aconteceu? Acho que seria melhor ter um advogado da mesma cidade.
Não sei se esse relato aconteceu contigo, mas é importantíssimo que a vítima faça um exame de corpo de delito e denuncie. Não deixe o caso "pra lá". O estuprador precisa ser criminalizado e punido. Já recebi vários emails com relatos quase idênticos e em todos as vítimas não denunciaram, por estarem com medo e não terem certeza do que aconteceu. E em todo os casos o estuprador entrou em contato com elas pouco depois para dizer que não sabe o que aconteceu, o que deu nele... Parece que é mais pra checar mesmo se a vítima vai ou não denunciá-lo, porque o cara SABE que foi estupro. Isso daí vale como prova também. Portanto, se ele entrar em contato por email, msm ou telefone (ao vivo é perigoso), a vítima pode tentar fazer perguntas, tirar mais informações, para que ele chegue perto de uma confissão. Grave a conversa, que ela pode ajudar no processo.
É importante também que a vítima não culpe a si mesma. Isso podia ter acontecido -- e acontece -- com qualquer mulher. Aliás, este tipo de estupro, cometido por conhecidos da vítima, é muito mais comum do que o clichê do estupro que todas somos ensinadas a temer (o estuprador desconhecido numa rua escura e deserta). E é também o tipo de estupro que raramente é denunciado, porque a mulher se sente culpada e com medo, já que conhece o estuprador. Esse tipo de estuprador não costuma estuprar apenas uma conhecida ou amiga, mas várias. Vou publicar um artigo na semana que vem que fala desse tipo de estuprador.
Toda força a você ou sua amiga.

Ela continuou: Ele entrou em contato, tentou ligar uma vez, mas não foi atendido. Tirando isso enviou várias msms, mesmo sem eu responder. Não sei se é possível realizar exame de corpo e delito mais. Até ontem tinham algumas marcas claras, mas nenhum procedimento foi realizado, as marcas já melhoraram.
O caso é de São Paulo.
[Mais tarde]. Foi realizado o exame de corpo e delito, assim como a denúncia. Espero que eu possa te ajudar com esse texto, sinta-se livre para usar meus relatos.
Ainda houve a dificuldade de ser um feriado, as Delegacias da Mulher de São Paulo estavam todas fechadas. Liguei e fui aconselhada a ir numa DP. Chegando lá a falta de um delegado fez com que eles simplesmente me mandassem voltar para casa. Fiquei um tempo na frente da DP, com um amigo, decidindo o que eu deveria fazer. Desespero, medo de não dar em nada, mais a preocupação com a vida cotidiana, se deveria interrompê-la por conta de um caso que nem sei se seria levado a sério.
Felizmente, a escrivã teve empatia, entrou em contato com o delegado contando o que eu já havia relatado. Ele autorizou o BO e ela me chamou novamente para dentro da DP. Feito o BO fui encaminhada para o Hospital Pérola Byington - Centro de Referência da Saúde da Mulher, e fui atendida pelo Projeto Bem Querer Mulher. Realizei o exame sexológico (corpo de delito) e recebi todo o coquetel de retrovirais, algo que irá ocupar minha vida ainda durante meses. Ainda tive de ouvir de uma enfermeira que se fosse filha dela ia tomar uma injeção de um lado e um tapa de um outro (se referindo ao fato de eu estar bêbada durante o abuso).
Aguardo agora quando for chamada novamente para prestar depoimento, além do laudo dos exames. Procuro ainda por um advogad@, pois acho que será necessário futuramente. Mesmo uma mulher que tem informação não sabe como se comportar diante de uma situação dessas. O medo e o julgamento da sociedade é o que primeiramente nos vem a cabeça, sentimos o peso da impunidade antes mesmo que ela aconteça.
A internet pouco ajuda na informação para a mulher nesses casos. São tópicos confusos e notícias aleatórias. Espero que possamos fazer um guia para instruir outras fiquem desnorteadas em meio a essas situações.

Eu de novo: Nos outros pedidos de ajuda que recebi por email, entrei em contato com uma promotora de Brasília. Mas tanto eu quanto ela sentimos falta de um blog ou site na internet que responda dúvidas e oriente vítimas em casos de estupro. Cursos de Direito, mobilizem-se! Que tal algumas universidades entrarem com um projeto de extensão para poderem oferecer este importante serviço? E vamos criar uma lista de advogad@s que tenham experiência em condenações de casos de estupro? Podemos ver claramente que vivemos numa cultura de estupro quando é mais fácil encontrar filmes pornô simulando estupro e piadas de estupro e anúncios estimulando o estupro do que ajuda a vítimas reais de estupro. Até quando?


Recapitulando...O que este post gerou, além de vários comentários cheios de ódio de mascutrolls, já deletados: Duas advogadas de SP me passaram seus emails, que eu passei pra A. Tamara, uma estudante de Direito da Universidade Federal do Pará, se pôs à disposição para, em seu blog, orientar vítimas de violência sexual. Dandara, o coletivo feminista de Direito da USP, informou que mulheres da região de SP podem procurar a União de Mulheres ou a SOF (Sempreviva Organização Feminista). A Su passou um guia de assistência a mulheres e adolescentes das regiões metropolitanas de SP, Recife e Porto Alegre. Virginia criou um bloge um grupo de apoio no Google para que sobreviventes de qualquer tipo de violência possam ajudar umas às outras. Conceição, Amanda e outras blogueiras já tinham iniciado um blog de suporte. E isto é só o começo. Espero, de coração, que as mulheres desesperadas que venham à internet saber o que fazer em casos de estupro tenham um pouco mais de apoio. Porque isso é o mínimo que se pode esperar de um mundo que se diz igualitário e humano.

Saturday, April 28, 2012

GUEST POST: "TU É FILHA DAQUELE NÊGO?"

Como faço com comentários que se destacam, guardei este da Cândido no post Feio é o seu racismo. Já faz um tempinho que ela o escreveu, mas gostaria de compartilhá-lo com vocês. Ele vem a calhar numa semana marcada pela decisão unânime do Supremo Tribunal Federal de que as cotas raciais adotadas por 42% das universidades federais no Brasil (só 42%?!) são, sim, constitucionais. Talvez este relato pessoal da Cândido ajude o pessoal que não acredita na existência do racismo (ou que pensa que, se racismo existe, ele não influencia diretamente a vida das pessoas) a refletir um pouco.

Leio seu blog já faz muitos meses, gosto muito dos seus textos, nunca havia comentado nada, mas hoje vim falar um pouquinho porque essa questão do racismo sempre foi algo muito presente na minha vida.
Bem, sou filha de pai negro (por mais que todo mundo adore dizer que ele é "só um poquinho mais escuro") e mãe branca.
Nasci super branquinha, com sardas e um cabelão MARAVILHOSO, bem cacheadão, crespo, que quando criancinha era loiro e com o tempo foi escurecendo, chegando na adolescência a ter todas as cores e tamanhos possíveis dada a minha "rebeldia" de não me render aos alisamentos constantes a que era pressionada por minha família de pai (pasmem, a negra) a fazer. Não tenho traços tão afilados como os da minha mãe; na verdade sou a cara do meu pai. Tenho uma irmã mais escura e um irmão da minha cor. Todos de cabelos crespos.
Quando era criança não conseguia entender muito bem como a família do meu pai que era negra odiava tanto o fato de eu e minha irmã termos "cabelos de negros". No meu caso esse comentário sempre vinha junto com o "não sei como tu tão branca nasceu com esse cabelo ruim de nêgo". Tipo, pra minha irmã era de se esperar pela cor, MAS EU... um absurdo, que deveria ser corrigido com um alisamento assim que eu crescesse um pouco. E pro meu irmão, ah! era só raspar, né?
Sempre me sentia mal quando ia passar os fins de semana na casa dessa minha família. Fui crescendo, estudando e aprendendo sobre a história da escravidão negra no Brasil e então fui entendendo que esses tipos de visões, comportamentos, atitudes da minha família eram herança da nossa sociedade escravocrata. Eles nem sonham que são racistas, eles perseguiram um ideal de beleza branco a vida inteira, e eles não vão mudar. O que tento fazer hoje é educar meus priminhos mais novos a não repetirem esse tipo de comportamento.
Era muito ruim escutar das pessoas quando saía com meu pai: "Nossa, essa menina é tua filha? Tem certeza?" Era pela cor? Era duvidando da minha mãe? Horrível. Meu pai deve ter sofrido muito por isso.
Um tempo desses fui na casa de uma amiga e ao me apresentar ao seu pai ele me perguntou de quem eu era filha (coisa de cidade pequena). Quando eu disse de quem eu era filha, ele falou: "Mentira! Tu é filha daquele nêgo feio? Pode não..."
Péssimo, né? Sempre fico sem jeito, mas algo que sempre me surpreende é que quando as pessoas descobrem que meu pai é auditor fiscal da Fazenda ele fica "moreninho"!
Essa questão da "morenidade" é bem complexa, mas explica muitas situações de racismo velado. Ler Gilberto Freyre com um olhar bem crítico sobre sua "democracia racial" e o "mito da morenidade" é bom pra entender algumas situações. Jessé Souza também consegue explicar a partir de uma leitura bem particular de Freyre como se deu a "modernização" do Brasil. É interessante a explicação dele pra porque a gente tenha absorvido somente alguns aspectos do que vem a ser modernidade ocidental (racionalidade, estado, etc) e como a questão racial, principalmente do negro, ficou nisso tudo.

Wednesday, April 25, 2012

GUEST POST: SUPEREI UM CASAMENTO MACHISTA

Uma leitora muito querida, que vou identificar apenas como C., me enviou este relato.

Sou fã de carteirinha do seu blog. Sou professora e muitas vezes recomendo a leitura de seus posts nas minhas aulas. Vários deles já foram marcados no facebook e fico super feliz quando entro no face e vejo que uma aluna minha marcou uma publicação tua. Isso porque eu trabalho em um pré comunitário e muitas das minhas alunas são criadas em culturas machistas e repressoras. Quando elas repassam pras outras as suas publicações é como se você estivesse quebrando os tijolos daqueles muros de verdades absolutas no qual elas cresceram. Obrigada pela tua ajuda.
Venho de uma família de classe média. Sempre me considerei uma pessoa bem resolvida, de mente aberta e crítica. Ou seja, tinha crenças totalmente ilusórias ao meu respeito. Vivia no doce mundo das fadas.
Comecei a namorar aos 20 anos de idade, e namorei por 8 anos. Meu namoro era uma coisa meio indefinida, só nós encontrávamos aos fins de semana, geralmente para fazermos programas que meu namorado escolhia. Eu tinha uma postura muito passiva em relação a esse relacionamento e nas poucas vezes que colocava minhas vontades na frente dele eu encontrava um muro, uma negação ou uma postura infantil de cara amarrada e "vou fazer mas estou contrariado". Eu me submeti a isso, me submeti porque achava que precisava dele, que não era bonita, que ninguém iria olhar pra mim, que sem ele eu ficaria sozinha.
Como cheguei a isso? Hoje, depois de muita terapia sei que foi tudo construído ao longo da minha adolescência, onde eu era considerada a menina esquisita da escola: muito pálida, cabelo preto que geralmente escondia meu rosto, e livros, muitos livros. Eu era tímida e tinha os livros como amigos fiéis. Meus apelidos carinhosos eram "bruxa" ou "sapatona". Dentro de um grupo burguês de classe média eu era considerada totalmente fora dos padrões estabelecidos. Nem preciso dizer que demorei até os 16 anos pra beijar na boca. Minhas inseguranças eram enormes.
Na faculdade elas melhoraram um pouco, comecei a sair mais, a ficar com outros caras e a me sentir melhor comigo mesma. Porém, ao contrário das minhas colegas, eu não tinha um namorado. Elas, como boas moças de classe média, tinham seus namoradinhos de escola, e eu ainda era virgem aos 20 anos. Um absurdo e uma esquisitice. Então, quando conheci meu namorado e ele se mostrou apaixonado, eu fiquei encantada, apaixonada, de olhinhos brilhantes: eu era alguém!
Engraçado como a vida nos prega peças e nos tornamos os prisioneiros da caverna de Platão, vivemos vendo as sombras e acreditamos que elas são reais. Eu era infeliz mas acreditava que a vida era assim mesmo e, apesar de ser consciente, de trabalhar desde os 18 anos, eu via mas não enxergava.
Durante esses oito anos meu namorado terminou duas vezes comigo. As duas foram por telefone, e depois eu soube que ele terminou porque estava me traindo. Eu voltei pra ele as duas vezes.
O problema é que eu era a menina perfeita pra casar, de boa família, trabalhadora e tinha acabado de passar no mestrado aos 21 anos de idade. Na cabeça machista dele eu era a mulherzinha perfeita, aquela que ele iria enrolar mas que sempre seria dele. E eu fui, por 9 anos eu fui isso, aceitei tudo, mesmo sabendo das traições e mesmo sendo infeliz eu voltei com ele e menti, menti pra mim mesma e disse que era feliz.
Eu era uma pessoa com duas vidas, no campo profissional era uma mulher segura, alegre e "bem resolvida", e no campo afetivo eu era uma "mulherzinha".
Apesar de tudo eu casei (importante dizer que minha família foi contra e que eles enxergavam o que eu não queria ver) e tentei. Durante quase dois anos fiz tudo pro casamento dar certo. Minha infelicidade era uma coisa apertada no meu peito, algo que eu não conseguia definir. Admitir que meu casamento não me fazia feliz era admitir um grande fracasso como mulher: afinal, eu ia fazer 30 anos, eu tinha que começar a pensar em filhos e não ficar chorando pelos cantos e sendo uma chata de galochas.
Engordei. Fiz dieta. O problema é que à medida que eu perdia peso eu comecei a ter dores, dores nos ombros, no pescoço, enxaquecas. Eu vivia com dor. Fui ao médico e me viraram do avesso, nem preciso falar que não encontraram nada, afinal meu problema não era físico. Meu pai, que é médico, já tinha sacado o que eu não queria admitir: meu problema era depressão. Ele me levou a um colega e eu comecei a tomar antidepressivos. Me senti horrível, sempre fui agitada e brincalhona, e o remédio me deixava sonolenta. Era uma cópia sem graça de mim mesma.
Meu marido achava que eu estava ficando maluca, era o que ele falava pras pessoas. Um dia consegui tomar coragem para falar pra ele que eu era infeliz, falar tudo que estava sentindo. Ele se mostrou compreensivo, e no dia seguinte ligou pro meu pai. A pergunta que ele fez é se o remédio tinha mudado meu comportamento, se eu tinha virado outra pessoa. Meu pai, morrendo de raiva, respondeu que o remédio só tinha me dado forças pra falar o que sentia. Os dois nunca mais se falaram, meu marido passou a criticar muito meu pai. O nome dele era proibido lá em casa, assim como o da minha mãe. Pra estar casada eu tinha que ter uma vida dividida em que minha família e meu marido não combinavam.
Pouco depois saí de casa e voltei pros meus pais. Passei um fim de semana chorando sem parar. Minha mãe, em desespero, conseguiu o telefone de uma terapeuta e marcou uma consulta: foi a melhor coisa que eu fiz.
Voltei pra casa pra terminar direito aquele casamento, eu devia isso pra mim. Saber que não tinha mais volta.
Depois de encerrado o casamento, saí de casa e voltei pra casa dos meus pais. Voltei me sentindo livre, voltei jogando fora a cartela e remédios e com a certeza de que não preciso mais, voltei conhecendo a mim mesma, voltei sabendo que sou capaz de muitas coisas e que sou dona da minha vida. Voltei a ser feliz.
Nem preciso dizer que meu ex não entendeu nada, que me chama de maluca, frígida, diz que eu tinha um amante etc. Muitas pessoas acreditam nele, muitos "amigos" me julgam e concordam com ele. Aparentemente eu estou bem demais e feliz demais. Sei que pra essas pessoas eu sou um mau exemplo, pois admiti que não quero ser infeliz casada (como tantas pessoas fazem) e que sou dona da minha felicidade. Pra essas pessoas eu desisti fácil.
Lola, escrevo isso porque sei que muitas mulheres vivem o que eu vivi e não têm a sorte que eu tive: de contar com uma família maravilhosa que me apoiou muito. Escrevo isso porque olho pra minha história e penso que ela poderia ter sido escrita por uma mulher da década de 1950, 60 ou 70, mas que foi escrita por mim, uma mulher independente e crítica. Uma mulher que apesar de tudo não conseguia enxergar que estava presa nas amarras de uma sociedade machista e que reproduzia conceitos que abomino.
Chego ao fim desse relato com um agradecimento pra ti, você com seus textos foi capaz de abrir meus olhos. Foi conversando sobre um post seu (o da menina estuprada numa boate) e ouvindo a opinião do meu ex-marido que eu pensei de maneira clara: que diabos estou fazendo com esse MACHISTA?
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