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Saturday, May 5, 2012

GUEST POST: UMA PARÁBOLA

Priscila, uma estudante de SP, deixou este comentário num post. Não é difícil descobrir a que a parábola se refere.

Era uma vez um casal no meio do deserto. O homem e a mulher que formavam aquele casal concordaram em cavar um poço para conseguir água e saciar a sede. Mal sabiam eles que naquele local iria emergir uma nascente de um grande rio. Após saciar a sede surgiu uma nascente e ali nasceu o início do rio. Eles então seguiram caminho, mas o rio traçava um caminho rente a eles, e com o passar do tempo, este rio ia se tornando maior e mais largo. O rio caminhava em direção ao mar, e o casal caminhava junto em direção a um castelo dos sonhos onde tudo era perfeito. Até que um dia eles encontram uma figura de um castelo do outro lado da margem do rio.
"Maldito rio! Ele tinha que estar entre eu e meu sonho?" exclamou o homem.
"Que tal construirmos um barco e seguir o curso do rio? Quem sabe iremos chegar lá depois de um tempo. Você me ajuda?"
"Não vou te ajudar, a culpa do rio estar aqui é toda sua! Eu não quero mais seguir o caminho ao seu lado. Vou procurar outro caminho para conseguir chegar ao castelo. Se vire com o rio que o rio é seu!"
Atônita, a mulher começou a indagar: "Devo construir um barco sozinha, velejar sozinha, e passar por todos os percursos tortuosos sozinha? Ou devo construir uma barragem sozinha e romper com o caminho do rio aqui mesmo, antes que ele tome outros rumos?"
Ela escolheu a segunda opção. Construiu a barragem e o rio evaporou, foi encerrado. Finalmente ela pôde chegar ao castelo, mas descobriu que ele não era tão perfeito assim, pois havia a lembrança de que o rio poderia fertilizar vários solos, poderia saciar a sede de várias pessoas, e conseguir por fim chegar ao seu destino, a imensidão do mar. Ela fez a sua escolha, e ninguém se dispôs a ajudá-la quando ela mais precisava. Depois deste ato ela foi bastante humilhada por várias pessoas que recriminaram sua barragem do percurso do rio. Mas ela retrucou: "Caso o rio seguisse caminho, ele também correria a chance de ser poluído pela sujeira humana e sua ignorância tóxica. Que garantia tenho que este rio ia ser amado e cuidado pelas pessoas?"

Eu: Não preciso nem dizer a que se refere esta parábola, né? Ela foi deixada num post sobre aborto. Discordo do moralismo no final -- não é toda mulher que sente remorso por abortar, e, ainda que fosse, o aborto deveria ser descriminalizado, porque cabe à mulher decidir. Também não é todo homem que abandona a parceira no caso de uma gravidez indesejada. Digamos apenas que isso é muuuuito mais comum que o sujeito insistir para que a moça continue a gravidez. Enfim, é uma parábola. E todas as parábolas são um pouco simples. Mas eu achei bem ilustrativa.

Thursday, April 12, 2012

DEPOIMENTOS SOBRE ANENCEFALIA E BEBÊS MALFORMADOS

Religiosos (todos homens) se transportam da Idade Média para os dias de hoje para protestar contra o aborto de anencéfalos.

O placar para que o Supremo Tribunal Federal legalize o aborto de anencéf
alos está favorável em 5 a 1. Hoje os ministros vão continuar votando e, se tudo der certo, o aborto de fetos sem cérebro será liberado (o que não significa, de forma alguma, que a mulher que queira seguir com a gravidez até o fim não possa fazê-lo. É direito dela. Assim como deveria ser direito de toda mulher abortar diante de uma gravidez indesejada).
Sou a favor da legalização do aborto para todos os casos, como acontece naqueles países ricos que a gente vive tentando copiar. Mas vai demorar, e não é isso que está em discussão agora. No momento trata-se apenas de algo meio medieval até, e que nem sei se consiste em aborto, exatamente. Afinal, sem cérebro não há vida (quando há morte cerebral os médicos desligam os aparelhos, se a família quiser). Então qual vida está sendo abortada no caso de um feto que não tem cérebro, e que vai “viver” apenas por alguns minutos fora do ventre da mãe? É extremamente cruel forçar mulheres a se submeterem a isso. Não dá nem pra acreditar que o Brasil ainda exija essa maldade em pleno século 21. Somos o quarto país do mundo em número de partos de fetos anencefálicos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, só países muçulmanos e alguns na América Latina proíbem o aborto de fetos sem cérebro (este post super esclarecedor do ano passado explica tudo). Nesse quesito e em tantos outros relacionados ao aborto, nós estamos do lado do atraso. Obrigamos mulheres a carregar cadáveres em seus ventres! Eu fico muito indignada com as pessoas que consideram o ventre um receptáculo e que dão mais importância ao “direito à vida” de um ser sem vida que a uma mulher.
No excelente guest post da Amana publicado anteontem, ela sugeriu que a discussão sobre o aborto saia da dicotomia entre “pró-vida” (muitas aspas aí) e pró-escolha, e abranja um debate sobre a responsabilidade coletiva que é ter um filho. O post atraiu todo tipo de troll e de gente que, por algum milagre, parece ter sobrevivido à falta de cérebro. Mas também rendeu comentários importantes. Gostaria de compartilhar dois deles (ambos anônimos) com vocês.

Comentário 1
Eu só queria comentar uma coisa com vcs sobre como é o aborto nesse caso de anencefalia, porque meu irmão passou por isso com a esposa dele, então eu acompanhei a história.
No caso dele não precisou de justiça, o médico atestou, fez a carta de aborto e o plano cobriu tudo, sem problemas. Mas foi assim: como o diagnóstico veio um pouco tarde, 15 pra 16 semanas (com 12 os médicos já falavam que tinha um problema, mas a minha cunhada quis confirmar) e até o aborto ser feito levou um tempinho também (coisa de uma semana), já não é mais aquele fetinho pequenininho que dá pra fazer curetagem, então o nome "antecipação de parto" é bem correto porque de fato acontece um parto.
A mulher do meu irmão foi internada e o parto induzido com remédio, e a mulher fica acordada o tempo todo. É como um parto qualquer de natimorto e a mãe pode escolher ver ou não o filho.
É tudo muito cruel e, de verdade, acaba com a vida da mulher, do marido, dos avós... porque a gente tá falando aqui de uma gravidez que se não foi planejada, era desejada, era tão desejada que a mulher faz pré-natal, compra roupinha, escolhe nomes pra daí descobrir essa novidade terrível.
Por enquanto eles falam que não vão tentar outro filho, daí se nota que foi bem traumático.
Agora imaginem vocês obrigar uma mulher a completar NOVE MESES sabendo que é isso que vai acontecer no final? Muito cruel.
Que o Supremo atue com a razão pelo menos dessa vez. Comentário 2
Lola, acompanho seu blog há algum tempo, às vezes concordo com você, às vezes não (acho natural, não?).
Quis deixar meu ponto de vista e minha história e assinei como anônimo porque realmente não quero me identificar. Eu tive um filho com uma malformação severa que sobreviveu até os 7 meses de vida dentro da UTI, e a minha impressão é que as pessoas têm uma visão muito romanceada do que é passar seus dias com um filho malformado. Não é tão bonito nem sentimental quanto parece. A família abandona mesmo -- o primeiro da lista a sumir é o pai, em vários níveis, desde simplesmente não aborrecer muito e deixar a mãe cuidar da criança, até tornar a vida da mãe um inferno e (finalmente!) ir embora. Em 7 meses (até que tive sorte!) conheci 1 (UM) pai que realmente se importava com a filha internada. O resto da família abandona também. Não se iludam.
Talvez apareçam para uma visitinha de 15 minutos no final da semana, e se você tiver sorte alguém fica lá por meia hora para você correr e tomar um banho em casa. Lembro de uma mãe que me contou, quando o filho foi internado, que a mãe dela (avó da criança) disse que sentia muito, mas claro que não ia poder ajudar daquela vez porque ela tinha viagem marcada para Bariloche. A grande revolta dessa mãe era pensar que se qualquer um dos outros netos dela, crianças saudáveis e normais, estivessem dentro de uma UTI, a avó com certeza cancelaria a viagem e ficaria ali ao lado. Mas como é o menino doente mesmo... Outra dificuldade enfrentada é o julgamento dos outros. Você já está fragilizada e ainda as pessoas desconhecidas resolvem se meter na sua vida. Você tem culpa, de alguma forma, pela tragédia que está passando, lógico. Se tivesse orado mais, comido mais, comido menos, se estressado menos, tomado mais ou menos vitaminas etc, etc. Imagina eu, que sou ateia, o que ouvi. Falta Deus na minha vida, lógico. E minha paciência não estava das melhores.
Alguém perguntou se uma mãe abortaria um filho se soubesse que ele não teria chances. A minha resposta: se eu soubesse que meu filho nasceria com essa malformação, que passaria por 3 cirurgias inúteis, que viveria ligado em aparelhos, que precisaria fazer exames de sangue todos os dias e levaria em média 10 picadas por vez, que faria controle de dextro de 3 em 3 horas, que teria 13 septicemias e que no fim morreria afogado no próprio sangue que inundou seus pulmões, eu abortaria sem pensar duas vezes.
Para quem disse que nem um animal aborta, vale lembrar que os animais abandonam ou matam os filhotes que nascem doentes.
Eu gostaria de ter feito esse texto soar um pouco menos agressivo, mas acreditem que a intenção não foi agredir ninguém. Foi só expor friamente como é a vida quando é seu pé que o sapato aperta o calo.
E, se me permitem um conselho, para todos aqueles que são favoráveis à manutenção das gestações de fetos com graves malformações: tirem um tempo, talvez uma ou duas horas por semana, e se proponham a cuidar de uma dessas crianças/adolescentes/adultos que dependem da MÃE 24 horas por dia, para que essa mãe possa sair, relaxar, ir ao cinema, sei lá. Lembrem-se que essas mães não têm vida.
Abraço a tod@s.

Tuesday, April 10, 2012

GUEST POST: ABORTO, ALÉM DO PRÓ-VIDA X PRÓ-ESCOLHA

Durante a semana, o aborto estará na pauta do dia. O Supremo Tribunal Federal irá decidir amanhã, depois de oito anos de espera, se mulheres grávidas de fetos anencéfalos podem abortar sem ter que entrar na justiça. Que até numa questão dessas (em que o bebê morre logo depois de nascer) existam grupos religiosos querendo forçar as mulheres a manter a gravidez até o fim mostra como ainda temos muito que caminhar na discussão. Pedi pra Amana Mattos, professora (que tive o prazer de conhecer pessoalmente em março e pude comprovar como ela é brilhante) de Psicologia da UERJ, desenvolver um comentário que ela havia deixado num outro post, e olha o que ela me entrega: não só uma reflexão fascinante sobre as limitações do discurso da individualidade, como também um convite para que pensemos, junt@s, os desafios do feminismo hoje. Espero que vocês sintam-se provocad@s por este guest post tanto quanto eu estou me sentindo. Obrigada, Amana!

Nesta quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal vai decidir sobre a legalidade do aborto para mulheres que estejam grávidas de um feto com anencefalia, sem que a mulher precise recorrer à justiça para ter acesso ao aborto. A discussão sobre esses casos, como em todos os debates sobre o aborto, recai, invariavelmente, em argumentos “pró-vida” -- que entendem que o feto é um ser que merece viver (na maioria das vezes por justificativas religiosas) –- e argumentos “pró-escolha”, que afirmam que é a mulher que tem de ter o direito de decidir se vai ou não levar a gravidez adiante. No caso da decisão do Supremo de amanhã, a discussão se dá em torno da vida de um feto que não tem chances de sobreviver após, ou mesmo antes, do parto. Sugiro a leitura deste texto para quem quiser entender melhor a questão.
A situação do feto anencéfalo aparentemente facilita a decisão, por envolver uma situação em que a mãe está carregando um nascituro que não tem condições de tornar-se um ser vivo independente após o parto (e, em muitos casos, o feto morre ainda durante a gravidez). Entretanto, mesmo nessas condições, os partidários “pró-vida” argumentam que ninguém tem o direito de interromper uma vida em curso, e que a mulher deve levar essa gravidez até o fim. Para além de convicções pessoais, os partidários dessa perspectiva querem estender sua opinião, através do Estado, a todas as mulheres do país.
A reflexão que eu gostaria de propor aqui pretende se colocar para além da oposição “pró-vida” x “pró-escolha”. Como vou argumentar, essa dicotomia está fundada em noções que podem se tornar prejudiciais para a própria luta feminista por valores que não oprimam as mulheres nem outras minorias. Para isso, é preciso pensar criticamente um conceito que é tão caro ao direito e à teoria liberal/individualista, assim como aos defensores da vida: a noção de autonomia.
Como já discuti em um outro guest post aqui no blog da Lola, as ideias de individualidade e de autonomia surgem num mundo profundamente patriarcal, machista e opressor para com as mulheres. Nos acostumamos a pensar que uma “pessoa racional”, capaz de pensar por si mesma, isto é, autônoma, é alguém que não depende de ninguém (afetiva, física e economicamente falando), sabe controlar suas emoções, argumentar razoavelmente, é madura o suficiente para fazer suas escolhas e se responsabilizar (moral e juridicamente) por elas. Isso é uma pessoa autônoma, certo? Entretanto... não é curioso que, em nossa sociedade ocidental (que, certamente, é múltipla e heterogênea, mas hegemonicamente patriarcal), aqueles que estão mais aptos a ocupar esse lugar de “pessoa autônoma” sejam os homens? E não apenas os homens, mas homens adultos, brancos, de classes econômicas superiores, letrados (leiam aqui uma discussão mais detalhada dessa questão).
Parece que, se falamos de independência e autonomia, sempre falta algo às mulheres. De fato, essa falta é disfarçada como algo positivo: em nossa sociedade, é a mulher que é sexuada, é a mulher que tem um corpo –- que se faz notar no dia a dia pelo perigo do estupro, pela menstruação, pela gravidez, pela amamentação.... Não estou dizendo que homens não têm corpos, absolutamente. Mas a socialização de meninos e meninas, desde muito pequenos, demarca diariamente que meninas precisam cuidar de seus corpos para que eles sejam atraentes, belos, agradáveis e suaves. E meninos precisam ser confiantes, agressivos e vencedores. E estas características consideradas “masculinas” se dão justamente na superação do corpo, e não na relação e na intimidade com ele. Assim, vivemos num mundo em que as mulheres têm corpos -– ou mesmo, são reduzidas a corpos que precisam se enquadrar num padrão inalcançável de perfeição. E os homens precisam ter sucesso, dinheiro, independência... precisam se desvencilhar de limitações corporais para ser alguém.
Mas voltemos à questão do aborto. Sempre me intrigou que a discussão sobre o aborto recaísse numa defesa a qualquer preço da individualidade do ser, seja da mãe, que dá o corpo para que o feto se desenvolva, que provê o alimento, o cuidado, e por isso, tem o direito de decidir; seja do feto, que mesmo ainda não existindo, tem o direito à vida, às condições materiais que lhe permitam se tornar uma pessoa no futuro. Essa aposta no argumento da individualidade do sujeito –- seja da mulher que escolhe, seja do sujeito-futuro do feto -– tem me incomodado há tempos. Foi preciso que eu lesse algumas feministas falando diretamente sobre esse problema para perceber que esse incômodo não é só meu.
O individualismo é a base do apelo aos “direitos do indivíduo”. E -– aí está a origem de meu desconforto –- a luta pelos direitos dos indivíduos sustenta tanto os argumentos “pró-vida” quanto os “pró-escolha”, dependendo de onde localizemos esses direitos: na defesa da humanidade porvir do feto, ou na defesa do livre arbítrio da mulher. O que fica de fora dessa discussão, e esse é o ponto que eu quero ressaltar aqui, é que os sujeitos (atuais ou em potência) em questão nesse debate estão sempre imbricados num sistema de relações sociais, de diferenças e de desigualdades de posições. Pensar essas relações é politizar o debate, para além da afirmação de individualidades estanques.
Sem pensarmos positivamente as relações de dependência em nossas vidas, vamos reduzir o problema do aborto -– assim como de tantas outras questões sociais –- a um problema de direitos individuais. Assim, vejam que estranha agonística, o feto surge como um intruso, um alien no corpo. E não é em qualquer corpo: é no corpo da mulher. Não é no corpo masculino, não é no corpo do religioso, nem no corpo social. É o corpo da mulher que será invadido por esse ser usurpador do futuro, da escolha, da liberdade da mulher. Assim como, na outra via, o corpo da mãe passa a ser visto, no debate sobre o aborto, como um empecilho, um obstáculo à vida e à sobrevivência do feto. Para se tornar um indivíduo, o feto precisa se desvencilhar desse corpo, sobreviver a ele, e se afirmar enquanto um ser separado. Estranha retórica para uma situação em que os limites entre os sujeitos em questão não são nada rígidos, não acham?
A pergunta que eu gostaria de fazer é: por que nossa sociedade insiste em pensar a reprodução como um problema das mulheres? Seja no que diz respeito à sedução, à evitação de uma relação sexual forçada (estupro), à contracepção, à decisão de levar ou não uma gravidez adiante, de amamentar ou não uma criança, de educar -- todos esses temas são de responsabilidade quase que exclusivamente feminina. Quando os homens são convocados a opinar, o fazem de um lugar supostamente metassituado, não implicado, responsabilizando as mulheres –- sempre as mulheres! -- pela gravidez, por provocarem a relação sexual, por serem imaturas e irracionais, por não saberem o que querem...
Da maneira como venho pensando e entendendo o problema da autonomia, o encerramento dos sujeitos numa suposta individualidade não tem nos ajudado a decidir questões importantíssimas, simplesmente porque nos recusamos a ver a complexidade e o contexto dos problemas para além da dimensão individual.
Quando discutimos sobre a possibilidade de uma mulher abortar, nós pensamos realmente nas condições que nossa sociedade oferece para que ela tenha essa criança? Como se dá o acompanhamento da gravidez, a divisão do trabalho doméstico, as relações no trabalho, ou mesmo a perspectiva de conseguir um trabalho nessas condições? Será que apenas dizer que, justamente porque a mulher passa por tudo isso, é ela que tem que ter o direito de decidir, não é pouco para o feminismo? Eu entendo perfeitamente que vivemos num mundo profundamente conservador e retrógrado, em que muitas vezes é preciso lutar por muito pouco, quase nada, diante de tantas e tantas opressões. Mas acho que é preciso olhar para além da questão individualizante. Ao contrário do que a retórica liberal quer nos fazer crer, nós não somos seres independentes. Não somos individualidades destacadas do mundo e das relações. Nós dependemos uns dos outros sempre -– ainda que minimizemos essas relações de dependência no dia a dia, ainda que elas nos incomodem tanto.
Na história do pensamento ocidental, as ideias de autonomia e de independência se construíram sobre a aniquilação e o silenciamento de muitas culturas, muitas vozes. Há uma continuidade sinistra entre o surgimento do sujeito racional, senhor de si, e a hegemonia (sempre violenta) de alguns poucos sobre muitos (povos, grupos, gêneros, espécies). Por essa razão, não acredito que a defesa de que a mulher “deve ser responsável por sua escolha” seja o melhor dos caminhos para discutirmos o aborto em nossa sociedade. Como e se serão concebidas, cuidadas, educadas as crianças de nosso mundo é um problema que concerne a tod@s, tenham ou não tenham filhos. E por mais que eu defenda que as mulheres, hoje, devem ser as primeiras a serem consultadas sobre a questão do aborto, sonho com um mundo em que essa questão não seja jogada a nós como um fardo e uma culpa que tenhamos que carregar sozinhas.

Monday, March 26, 2012

MUITO ALÉM DOS FETOS

Adorei este texto que peguei e traduzi daqui. A primeira pergunta é aquela típica que tod@s que defendemos a legalização do aborto já ouvimos. O resto é uma resposta à altura. Em forma de pergunta.

“E se o bebê que você abortou pudesse ter encontrado a cura do câncer?”
E se a pessoa trans espancada até à morte pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se o adolescente gay que se suicidou por causa de bullying pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se aquela jovem menina vendida pro tráfico sexual e morta por doenças sexualmente transmissíveis que não foram tratadas pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se um desses centenas de milhares de civis que foram mortos durante a guerra pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se aquela mulher que foi estuprada e depois morreu de complicações internas pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se todas as pessoas do planeta que não têm acesso ao ensino superior e viverão e morrerão na pobreza pudessem ter encontrado a cura do câncer?

Tuesday, December 6, 2011

HOMEM, SUA VEZ DE LUTAR CONTRA A VIOLÊNCIA

Hoje é o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres. Ontem a Lu deixou um comentário aqui no blog falando da Campanha Laço Branco, que ocorre em vários países e mostra que existem outras formas de "ser homem". Um pouco da história da campanha:
“No dia 6 de dezembro de 1989, um rapaz de 25 anos (Marc Lepine) invadiu uma sala de aula da Escola Politécnica, na cidade de Monteral, Canadá. Ele ordenou que os homens (aproximadamente 48) se retirassem da sala, permanecendo somente as mulheres. Gritando: 'você são todas feministas!?', esse homem começou a atirar enfurecidamente e assassinou 14 mulheres, à queima roupa. Em seguida, suicidou-se. O rapaz deixou uma carta na qual afirmava que havia feito aquilo porque não suportava a idéia de ver mulheres estudando engenharia, um curso tradicionalmente dirigido ao público masculino. O crime mobilizou a opinião pública de todo o país, gerando amplo debate sobre as desigualdades entre homens e mulheres e a violência gerada por esse desequilíbrio social. Assim, um grupo de homens do Canadá decidiu se organizar para dizer que existem homens que cometem a violência contra a mulher, mas existem também aqueles que repudiam essa atitude. Eles elegeram o laço branco como símbolo e adotaram como lema: jamais cometer um ato violento contra as mulheres e não fechar os olhos frente a essa violência”.
O Blogueiras Feministas traz um post muito completo sobre o assunto.

Ou seja, esta é uma data importante, mas sabe qual o assunto do dia na internet? (eu pelo menos ando recebendo montes de mensagens pelo Twitter e por email). É o “bolsa-estupro”. Só que a notícia que está sendo veiculada é... de 2007. De quatro anos atrás. Por que logo hoje?
Enfim, como nunca falei dessa aberração, aproveito pra falar aqui. Mesmo que a matéria não seja atual, o projeto de lei continua tramitando no Congresso (ano passado, ele foi aprovado pela Comissão de Seguridade Social da Câmara), junto com no mínimo outros cinco projetos que visam controlar ainda mais o corpo da mulher, esse sítio indomável que necessita de tanto controle externo. O CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria) aponta nada menos que 46 propostas legislativas para criminalizar ainda mais o aborto no país! Estamos vivendo uma época de grandes transformações e protestos, e isso faz com que a retaliação conservadora seja forte.
O “bolsa-estupro” é um enorme retrocesso. A legislação atual sobre aborto (fraquíssima, super atrasada em relação a qualquer país rico) permite -– desde 1940! -– que vítimas de estupro possam abortar. Até a maior parte das pessoas que é contra o aborto concorda que, neste caso, e também em caso de risco de vida para a mulher, ela deve poder escolher se quer aborta. Claro que ainda tem troglodita que vem com aquele discursinho de “o bebê é inocente”, insinuando que a mulher estuprada tem culpa no cartório, mas, em geral, a população concorda que estupro é um crime hediondo e que a vítima não deve ser punida carregando por nove meses um ser que não deseja, e que a lembra da violência que sofreu. Isso é questão básica de direitos humanos (e não venha comparar os direitos de um feto, um ser em formação, com os de uma mulher). Pra piorar, o deputado evangélico (que -- vergonha! -- já foi do PT, e hoje, após "conflitos ideológicos", encontra-se no PV do Acre) inclui em seu projeto que psicólogos pagos pelo Estado convençam as vítimas a não abortarem. Imagino como os psicólogos devem estar se sentindo ao verem que uma lei quer obrigá-los a abandonar os princípios éticos de sua profissão.
É terrível que uma proposta assim seja sequer avaliada num estado que deveria ser laico. Esses projetos se baseiam apenas em preceitos religiosos. É óbvio que, se uma mulher religiosa for estuprada e ela quiser prosseguir com a gravidez, é direito dela fazê-lo (digo isso apenas porque tem muita gente que confunde legalizar o aborto a obrigar todas as mulheres a abortar). Mas é inconcebível que isso faça parte de uma lei. No fundo, o que esse projeto quer é tirar mais um direito da mulher, pagando-lhe por sua consciência. É “Olha só, vamos te dar um salário mínimo durante dezoito anos para que você faça o que a minha religião diz que você deve fazer, que é não abortar jamais, nem em caso de estupro”. Lembra quando aquele arcebispo que queria proibir a menina de 9 anos estuprada pelo padrasto de abortar (9 anos, correndo risco de vida, vítima de estupro) disse que, para deus, aborto é pior que estupro? Pois é, o deputado autor do projeto pensa assim também. Só pode. Seu projeto praticamente afirma isso.

Mas voltando ao dia 6 de dezembro do ano corrente. Querido homem, todo dia é dia de combater todos os tipos de violência (verbal e física). Mas é preciso atenção especial à violência contra a mulher, porque é esta a que mais ocorre no ambiente doméstico, e a que costuma ter os efeitos mais perversos em toda sociedade. Sugiro que você comente aqui (e fale com seus amigos) não sobre como o homem também sofre violência, ou como mulher também comete violência, ou (muito menos, please) como mulher merece a violência que recebe, e sim como você pode ajudar no combate a essa violência contra a mulher. Você já ajuda? O que você faz? Já dialoga com seus colegas e amigos? Já abandonou termos que condenam a sexualidade feminina, como vagaba, vadia, piranha, galinha etc? Já parou de assediar grosseiramente mulheres na rua? Já vestiu as sandálias da humildade e parou de homexplicar?
O mundo é nosso, de mulheres e homens. Precisamos uns dos outros, e não estamos em competição. Ninguém quer tirar os seus direitos. Minha dica para reflexão é que você pense sobre o que é ser homem nos dias de hoje. Veja se suas ideias estão estacionadas no tempo e no espaço, e, se estão, o quanto elas contribuíram para o mundo injusto e violento que temos há tantos séculos. O mundo é nossa única casa. Cabe a nós, tod@s nós, mudá-lo. Hoje começa por você.

Thursday, September 29, 2011

OS PRÓ-VIDA QUEREM QUE OS PRÓ-ESCOLHA MORRAM

Nem todos são tão cheios de compaixão como este pró-vida

Ontem foi o Dia Latinoamericano pela Legalização do Aborto na América Latina e Caribe. Como eu estava viajando, só lembrei (ou lembraram pra mim) da data na hora. E como quarta é um dos meus dias mais frenéticos na universidade, passei poucas horas no Twitter (mais no horário do almoço e após às 19 horas). Mas foi o suficiente pra me posicionar a favor da legalização do aborto... e receber uns setenta tweets muito, muito revoltados.Tá feia a coisa, viu? Acho que o segundo turno das eleições presidenciais do ano passado fez com que a luta pela legalização regredisse uns dez anos. O nível obscurantista da discussão, bem caça às bruxas, bem Idade Média mesmo, contagiou várias pessoas. Os argumentos dessa gente são abaixo da cintura. Simplesmente não há argumentos. Decidi compilar e comentar, bem sucintamente, alguns dos tweets que me foram enviados. Aviso um: estou sem tempo, então só falo dos que chegaram a mim. Acredito piamente que outras feministas que se manifestaram pela legalização tenham recebido insultos piores. E não tive coragem de clicar nos TTs, que ficaram com a hashtag #legalizaroaborto lá em cima durante horas. Aviso dois: sei o que alguns podem pensar -- que estou sendo desleal e selecionando apenas as mensagens mais escabrosas. Infelizmente, todas que recebi foram neste nível. Eles não têm um só argumento consistente. É estarrecedor. E é um choque de realidade também, porque no meu mundo as pessoas 1) são mais inteligentes; e 2) sabem debater com um pouquinho mais de finesse.Este foi um dos campeões de audiência. Há muitas variações sobre o mesmo tema, mas o tweet acima, embora tenha se esquecido de um verbo, foi o mais resumido. E o que dá pra dizer contra uma contestação tão rasinha? Sim, de fato, meu jovem, é mais fácil falar depois que se nasce. Antes, quando somos um amontoado de células, falar é bem mais difícil. Dizem que nem os mais precoces conseguem.Se minha mãe tivesse escolhido a morte pra mim, você não teria o que ver. Nem eu. Nem minha mãe. Eu nem existiria. Ah bom, se deus não gosta, quem sou eu pra ser contra, né?Sabe outra coisa que não faria falta? Pontos de interrogação e exclamação em excesso.Pena que o pró-vida não disse logo o que eu mereço por apoiar a legalização do aborto -- a pena de morte, perhaps?Este me lembrou da música do Casseta: "Mãe é mãe / Paca é paca / Mulher é tudo vaca!". Hmm... Devo fazer plástica ou me matar? São tantas escolhas! Mas juro que não entendo direito essa equação de "quem é a favor da legalização do aborto é feia (e chata e boba)". Tipo assim, essa gente realmente acha que mulher bonita não aborta?
Teve uma hora em que, cansada de ler os obscurantistas se referirem ao embrião como criança, escrevi um tweet dizendo: "Pros anti-aborto: embrião é tão criança qto ovo é galinha, semente é árvore, tijolo é casa...". Descobri que essas pessoas têm uma ligeira dificuldade em interpretação de textos.Por que fico fazendo essas comparações sem anexo, né?A moça continua tratando embrião como criança, e eu continuo, ahn, matando casas. Já foram cinco hoje!Eu sei que escrevi o tweet no horário do almoço, mas esse pessoal bem que podia esquecer o estômago roncando de vez em quando! Tipo, quem falou em comida?
É, ontem quiseram que eu me matasse (43 membros), que eu fosse assassinada, surrada com urtiga, e frita em óleo quente. Se tem uma coisa que não pode ser dita sobre os pró-vida é que eles não têm muito amor no coração! O amor deles é transbordante... ao menos pelos que ainda não nasceram. Claro que, depois de fora do ventre da mãe, é cada um por si. Fim da comiseração. Nasceu? Ótimo! Agora morra!Mas nem tudo esteve perdido. Um senhor religioso me enviou um tweet agressivo, no melhor estilo "sua mãe devia ter te abortado, sua baranga", ou algo assim. E a descrição dele dizia que ele era um homem que prega a paz e o respeito. Eu mandei o seguinte tweet pra ele:Em questão de segundos, ele respondeu:
Espero que todos os pró-vida possam refletir também. Porque, sinceramente, se dependesse do seu nível de argumentação pra ganhar uma discussão, o aborto já estaria legalizado no Brasil faz tempo.
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