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Wednesday, May 30, 2012

GUEST POST: GORDOFOBIA QUE VEM DE CASA

Antes e depois: Sou gorda. Me deixe em paz.

M. é muito autoconfiante, mas me enviou este email cheio de perguntas difíceis. Quem não acredita em gordofobia deveria ler seu relato duas vezes. Quero lembrar que há diferença entre discriminação e preconceito. Discriminação é algo mais tangível, como não contratar uma pessoa por ela ser gorda (o que de fato acontece, mas é dificílimo de provar). Preconceito é o que a gente vê nas caixas de comentários daqui sempre que toco no tema da gordofobia. Inclusive, negar que gordofobia existe é um tipo de preconceito. Fiquem com o relato da M.

Eu sou uma garota de 20 anos gorda. Nasci gorda e assim sou desde então. Obviamente, eu sou muito mais que isso. Estudo jornalismo na melhor instituição do país na área (ou pelo menos é o que me fizeram acreditar), falo inglês fluente com todos certificados de Cambridge possíveis e espanhol com todos certificados de Salamanca e mais um monte de outras coisas que as pessoas dizem ser muito importantes. Além disso, eu sou gorda e bem resolvida. Olha que absurdo!
Nos últimos meses, fiz o processo seletivo de duas grandes empresas de comunicação desse país e fiquei entre os finalistas em ambas. Por razões que desconheço, não fui chamada para trabalhar em nenhuma das duas. Sofri, claro. Mas preferi encarar como coisas da vida.
Acontece que, para minha família, uma explicação assim não basta. Afinal, com tanto dinheiro investido em intercâmbio, viagens para Europa, aulas disso e daquilo, ser chamada por essas empresas era o óbvio. Então, foi impossível que não fosse constatado o seguinte problema: é porque eu sou gorda. Não serei ninguém enquanto não emagrecer.
Meu pai fez questão de imprimir inúmeras pesquisas falando que ninguém quer contratar gordos. Minha mãe me implora todo dia para eu emagrecer. Diz que é saúde. Agora, eu nado cerca de 10 km facilmente no mar sempre que vou à praia, não consigo me ver como alguém sem saúde.
Então, mando esse e-mail como um desabafo: será que é uma tristeza tão horrível ter uma filha gorda? (Leia-se 75kg e 1,60m). E será que essa sociedade chegou nesse nível de podridão na qual uma pessoa, por mais capacitada, articulada que seja, não tem a chance de competir de igual para igual com as outras por questões estéticas?
Outro dia perguntei para minha mãe (a mulher que me ensinou a buscar independência, a não aceitar que nos limitem por gênero, cor ou etc) o que ela faria se eu fosse negra ou pessoa com necessidades especiais. Perguntei se ela pediria para eu embranquecer ou nascer de novo, nos moldes ditos perfeitos. Ela disse que não. Então eu lhe perguntei: por que eu tenho que emagrecer para agradá-la? Ela não soube responder ao certo.
Eu namoro um cara ótimo, tenho muitos amigos, sou super vaidosa... enfim, não faço do meu peso muleta para nada. Entretanto, parece que isso incomoda muito algumas pessoas ao meu redor. Na cabeça delas, eu TINHA que estar me esforçando para emagrecer. Não consigo compreender essa lógica. Por que eu deveria estar infeliz comigo mesma?
Espero que esse e-mail não seja muito maluco e sem sentido... é só que já me sinto íntima e queria dividir um pouco dessa história de preconceito que vem de casa.

Tuesday, April 17, 2012

"ESTOU RODEADO POR PRECONCEITUOSOS"

Para a seção de perguntas e respostas, recebi este email de um leitor. Depois do texto volto com algumas considerações.

Lola, meu nome é Augusto, tenho 17 anos, sou gay não-assumido. Desde o meio desse ano eu mudei muito, me afirmei como ateu, aceitei minha homossexualidade, passei a ler blogs feministas (e amo muito o seu). Mas tem um problema, eu não tenho coragem de me assumir assim. No meu colégio me sinto muito avançado para a minha idade. Todos que me rodeiam, homens e mulheres, expõem opiniões machistas e homofóbicas. Isso que eu estudo em um colégio aberto (antes estudei em um colégio totalmente rígido). Sempre tive amigos, as pessoas sempre gostavam de ficar perto de mim, sou um cara agradável. Mas com a mudança na minha vida passei a não gostar das pessoas. Quando qualquer um fazia uma piada machista, como não sou nem assumidamente ateu, nem gay, nem feminista, não retrucava, guardava a minha raiva e ignorava. Depois de um tempo vi que afastei todos de mim. Todos eram machistas e homofóbicos, até mesmo as meninas. Eles e elas não tinham opiniões próprias. Seguiam caras como Rafinha Bastos. Os debates na sala de aula eram unânimes, por exemplo, na invasão da USP pela polícia, todos defendiam os policiais na USP, até meus professores.
Quando passei a ignorá-los, eles começaram a falar de mim. Eu passei a descontar minha raiva em coisas bestas. Como não tinha coragem de defender meus argumentos com medo de ser julgado, passei a defender coisas torpes, como uma nota em uma prova ou uma decisão errada de um professor. Eu era irônico e sarcástico.
Até que um dia um professor me tirou de sala. Disse um montão de coisas na minha cara, que eu ficava zoando ele. Depois disso, eu rodei o colégio inteiro, defendendo o que eu acreditava, que ele agiu errado em me tirar de sala. Uma coisa boba eu fiz virar um alvoroço. Acabei discutindo novamente com ele.
Continuei levando minha vida assim. Inventava motivos pra brigar. Todos passaram a dizer que eu era rude, briguento, que eu queria tudo do meu jeito. Eles diziam: "Você é muito inteligente, por que você faz isso?" Pessoas preconceituosas falavam isso. Eu tinha vontade de falar: "Se eu sou inteligente como você diz, você deveria saber que estou fazendo a coisa certa". Internamente eu queria que eles vissem que eles todos estavam errados. Mas eles não veem isso até hoje.
Sabe, Lola, me machuca. Me machuca porque sou respeitado, e sou amado, mas é tudo uma farsa. Eu odeio todos (há poucos que se salvam), e não posso dizer isso a eles. Minha família é homofóbica, retrógrada. Eu tenho medo de perder essa estabilidade financeira. Já pensei em me matar, e não quero que esses sentimentos voltem. Odeio ver que meus problemas não têm solução. Odeio as pessoas serem tão ignorantes, pelo menos essas que me rodeiam são. E pra mim tudo é tão simples de entender, mas elas se fecham com conceitos religiosos e conservadores. E com aquelas verdades, que só são verdades pra elas.
Acabei falando demais, mas eu queria saber o que eu faço. É cruel demais mentir quem eu sou para ter essa estabilidade (esta que me mantem vivo)? Se eu realmente fosse excluir todos eles da minha vida acabaria sem ninguém. Eu acabaria excluindo todos do meu Facebook (sempre postam fotos machistas ou comentários homofóbicos que tento deixar de lado.)
Na escola briguei com meu professor nessa semana, ele foi grosseiro comigo na frente da turma e antes disso ele vivia fazendo piadas homofóbicas. Não sei como vai ser daqui para frente, minha mãe fica me cobrando ir na aula mas eu não tenho vontade de ir mais. Ela perguntou se eu queria mudar de colégio mas eu não acho que eu deveria mudar sem antes contar sobre mim (homossexualidade, ateísmo, feminismo) para ela. Não quero mudar de colégio e não resolver o problema. Eu tenho que contar, eu tenho que ser aceito e para isso eu tenho que tomar uma atitude corajosa na minha vida e enfrentar realmente os meus problemas e não escondê-los debaixo do tapete. Eu sei que esta é a coisa certa a fazer.

Minha resposta: Querido Augusto, assumir-se, ser feliz do jeito que é, ser aceito pelas pessoas próximas e pelo mundo, é a coisa certa a se fazer. Mas, sinceramente, pode não ser a coisa certa a se fazer agora. Você só tem 17 anos e mora com seus pais. Pra que falar com eles sobre a sua sexualidade neste momento? Vai chegar a hora pra isso, de preferência quando você for independente. Infelizmente, quando a gente é jovem tem que engolir muitos sapos mesmo. Talvez tenhamos que engolir sapos a vida toda, mas criamos uma casca grossa, uma proteção contra as ofensas do mundo. Você ainda está muito vulnerável.
Se sua mãe está te dando a opção de mudar de escola, mude. Mas chegue lá com outra cabeça. Nada de criar confusão à toa, como você mesmo diz que fez. Você já se deu conta que a maior parte das pessoas -- segundo você, todo mundo -- é preconceituosa. É verdade, é lamentável, e estamos lutando para mudar esse quadro. Mas vai demorar muito. Pode ser que durante a sua vida a maior parte da população ainda seja preconceituosa. Mas ficar revoltado a sua vida toda não vai ajudar em nada. É difícil, mas temos que nos desligar de vez em quando, e escolher as nossas lutas. Não dá pra enfrentar o mundo inteiro, ainda mais sozinho. Isso não quer dizer que você deve se conformar. Mas não se estresse à toa. Na sua nova escola, tente começar um núcleo de estudos de gênero, ou de crítica da mídia. Só que sem uma atitude superior de "eu sei tudo e vocês não sabem nada".
Com o tempo, você vai ir conhecendo gente que pensa como você, e verá que há um monte de pessoas que não aguentam mais os preconceitos. Até certo ponto, quando temos sorte, podemos escolher nossos relacionamentos e nossas amizades. Frequentemente nos envolvemos só com pessoas como a gente e levamos um choque de realidade ao constatar que fora da nossa bolha o mundo segue preconceituoso e cruel. Mas acho que precisamos de um refúgio. Você pode ter uma timeline no Twitter ou um grupo de amigos no Facebook que deteste CQC e afins tanto quanto você detesta. Por enquanto, por você viver numa cidade pequena, você não conhece muitas pessoas que pensem fora da caixinha. Mas vai conhecer, e a internet está aqui pra isso.
Você não precisa se assumir gay, ateu e feminista para deixar claro pras pessoas com quem convive que aquelas piadas que elas fazem te incomodam. Explique o porquê. Em vez de dizer pras pessoas que elas são preconceituosas, diga que aquilo que elas disseram foi preconceituoso. E tenha paciência para explicar pra quem quiser ouvir. Esse tipo de atitude certamente não te tornará popular, mas você tem todo o direito de se manifestar e de plantar um ponto de interrogação na cabeça dessa gente. Pode ser que as pessoas descartem seus protestos, te considerem ridículo (afinal, é "só uma piada"), mas pode ser que algumas fiquem na dúvida e reflitam e mudem de ideia. Não seja tão duro com elas. Lembre-se que somos produtos de uma época e lugar, de uma cultura, de uma ideologia dominante. Nem quer dizer que todas as pessoas preconceituosas sejam necessariamente ruins. Elas podem ser péssimas no que se refere à tolerância para a diversidade, mas podem ter lados bons (eu, como professora, jamais descarto um aluno por ele ser preconceituoso. Tento explorar os pontos de contato que temos em comum para assim, se possível, poder fazê-lo questionar suas certezas).
Boa parte das pessoas vai viver a vida toda sem nunca ter seus preconceitos contestados. Elas já têm a sua zona de conforto, já vivem nela. Cabe a nós encontrar a nossa. Quando temos uma rede de amizades que nos dá apoio, que nos proporciona bem estar, que alimenta a nossa autoestima, fica mais fácil lutar para mudar o mundo. Não se desespere -- por mais desesperador que o cenário pareça. Você é muito jovem, e tem uma vida longa pela frente pra conquistar seus (nossos) ideais. Comece já, mas vá com calma. Devagar e sempre.

P.S.: Comece assinando a PEC do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) pelo casamento civil igualitário. Nem mais, nem menos: os mesmos direitos com os mesmos nomes.

Wednesday, March 28, 2012

GUEST POST: AGRESSÃO A IDOSOS VEM DE FAMÍLIA

Luana me enviou este relato sobre um tema comum, mas que ainda não foi tratado neste blog: a agressão aos idosos. Leiam, e antes de decidirem culpar uma ou outra pessoa individualmente, pensem no todo. Na nossa sociedade, qual o valor dado a pessoas mais velhas? Na enorme maioria dos casos, a quem cabe cuidar dos idosos -- aos filhos ou às filhas?

Quando minha mãe se separou do meu pai, ela, minha irmã e eu fomos morar com meus avós e com a minha tia, irmã de minha mãe. Minha mãe sempre foi uma pessoa difícil de conviver. Amarga, vivia reclamando que seu passado havia sido difícil, trabalhando pesado no campo, e que tudo isso era culpa de minha avó, que explorava os filhos fazendo-os trabalharem como escravos. Não sei até onde isso é verdade, mas as minhas tias não reclamavam tanto desse passado como ela. A minha avó por sua vez também era uma pessoa difícil de conviver. Criada sem muito amor e também trabalhando duro desde a infância, não foi capaz de oferecer todo aquele suporte emocional para a família. Por causa disso, não fomos criados para nos dar carinho uns aos outros. Abraços eram extremamente raros e demonstrações de afeto, idem.
Como eu fui morar lá desde muito pequena, era comum todos os dias eu ouvir minha mãe gritar com a minha avó, dizer que ela cheirava mal, e que as roupas que ela usava eram ridículas. À medida que a minha avó foi envelhecendo, a situação piorou. Com a idade avançada, minha avó começou a andar mais devagar, deixar de fazer certos serviços domésticos por cansaço, e por causa disso as agressões verbais eram mais frequentes. Consequentemente, eu e a minha irmã passamos a tratar minha avó da mesma maneira. Minha irmã pegava os calçados dela para usar e não devolvia mais, empurrava ou dizia que ela precisava morrer logo, pois era uma inútil. Nenhum carinho era dado, apenas gritos e ofensas. Minha avó retrucava com as palavras dela, mas não podia fazer mais que isso, pois nós gritávamos mais alto. Meu avô e minha outra tia ficavam em silêncio, pois também não tinham muito que fazer. Um pai não iria expulsar a própria filha e as duas netas de casa, então as coisas ficavam por isso.
Os anos se passaram nessa mesma situação, e um dia, felizmente, eu acordei. Em uma briga corriqueira, minha irmã quase bateu em minha avó. E eu percebi o que muita gente que frequentava a minha casa via e ficava chocada. Éramos violentas com ela e a agredíamos em sua própria casa. A partir daí eu comecei a defender minha avó com unhas e dentes, e por isso eu e minha irmã viramos inimigas. Se minha irmã falasse alto com a minha avó, lá estava eu para mandar a minha irmã ficar quieta. Por causa dessas brigas, muitas vezes eu e minha irmã partíamos para a agressão física. A minha mãe continuava a maltratar a minha avó e dar razão para a minha irmã. As coisas tornaram-se insuportáveis para mim. Todos os dias eram cheios de brigas e nós não tínhamos nenhum clima de família. Depois de algum tempo a minha irmã casou e teve filhos, mas isso não a fez parar com as agressões; ela sempre ia em nossa casa e maltratava a minha avó.
Há cinco anos, minha mãe faleceu em um acidente de carro. A partir daí as coisas mudaram da noite para o dia. Não posso dizer que a morte da minha mãe foi boa, pois para mim foi a pior coisa que já aconteceu, mas tudo se resolveu. Minha irmã deixou de ser a pessoa violenta que era, e meus sobrinhos, que já estavam começando a maltratar a minha avó e a minha mãe, também melhoraram muito. Desde a morte da minha mãe, a minha avó também já não é mais a mesma, ela teve depressão e agora está com mal de Alzheimer, recebendo o cuidado que até pouco tempo atrás lhe era negado.
O motivo de eu estar contando essa história, além do desabafo, é para dizer que ao contrário do que as pessoas pensam, a violência contra o idoso não é caso isolado e nem praticada apenas por psicopatas ou sociopatas. Eu não sou nada disso. Sou uma pessoa boa, faço trabalhos voluntários porque quero ajudar o próximo, respeito ao máximo as pessoas e tenho carinho pelos animais. Não estou me excluindo da culpa, pelo contrário, não tem um dia sequer que eu não me arrependa de tudo, mas por anos isso foi uma coisa normal do nosso dia-a-dia. Nos foi passado pela minha mãe, assim como outros valores. Eu agradeço por ter enxergado sozinha, mas em muitas famílias nesse exato momento ainda acontecem agressões verbais, físicas, roubos de aposentadoria, e até mesmo a recusa de alimentar seus idosos, deixando-os passarem fome, deixando-os sujos em cima de uma cama. E como eles não podem se defender, não dizem nada para não apanharem ainda mais. Só esperam os dias passarem.
Grande parte da culpa também é da nossa sociedade que é levada a acreditar que velhos incomodam, não têm mais utilidade. Na China ou na Índia, eles fazem a lei da casa e são ouvidos pela família toda por serem mais sábios e experientes, mas em muitos países como o Brasil, muitos moram com os filhos e precisam se contentar com o que lhes é oferecido. Isso precisa ser mudado, e as únicas pessoas que podem fazer algo a respeito são os próprios familiares, reconhecendo a importância que o idoso representou durante toda a nossa vida e fazendo com que ele viva os seus últimos anos dignamente. Porque eu sei, por experiência própria, que as vozes deles estão abafadas demais para fazerem seus direitos serem ouvidos.

Monday, March 26, 2012

MUITO ALÉM DOS FETOS

Adorei este texto que peguei e traduzi daqui. A primeira pergunta é aquela típica que tod@s que defendemos a legalização do aborto já ouvimos. O resto é uma resposta à altura. Em forma de pergunta.

“E se o bebê que você abortou pudesse ter encontrado a cura do câncer?”
E se a pessoa trans espancada até à morte pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se o adolescente gay que se suicidou por causa de bullying pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se aquela jovem menina vendida pro tráfico sexual e morta por doenças sexualmente transmissíveis que não foram tratadas pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se um desses centenas de milhares de civis que foram mortos durante a guerra pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se aquela mulher que foi estuprada e depois morreu de complicações internas pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se todas as pessoas do planeta que não têm acesso ao ensino superior e viverão e morrerão na pobreza pudessem ter encontrado a cura do câncer?

Thursday, March 15, 2012

GUEST POST: BICHO? AJUDE AS CRIANÇAS COM FOME, ORA!

A Fiori é defensora dos animais e se chateia toda vez que sua atividade é criticada. O título deste guest post é algo que a gente ouve todos os dias, só variando o assunto: por que falar de [insira aqui o assunto que você não considera importante]? Por que não falar das criancinhas na África ou da corrupção no congresso? Isso vindo de gente que quase sempre não luta nem por um nem pelo outro...

Prezada pessoa que faz comentários especistas do tipo "tanta gente gastando com bicho tendo um monte de crianças na rua", quero lhe informar que ajudar um animal necessitado não impede ninguém de ajudar uma criança necessitada. Muito pelo contrário, as pessoas que doam seu tempo, energia e dinheiro para ajudar, não o fazem baseadas em espécie, raça, gênero etc, mas sim ajudam todos que cruzam seu caminho. Essas pessoas, que também ajudam animais, sofrem muito preconceito pela ignorância repetida incansavelmente pelas pessoas que não fazem nada por ninguém. Em contrapartida, a questão poderia ser: "tanta gente fazendo filho tendo um monte de criança nas ruas e nos abrigos precisando de adoção", e "tanta gente cruzando e vendendo cachorro de raça tendo um monte de animais abandonados nas ruas e nos abrigos precisando de adoção", mas essas são questões que a sociedade se recusa a entrar, pois é muito mais fácil dizer que a minoria que ajuda animais não deveria fazer o que faz, e que deveria fazer alguma outra coisa, do que admitir: "eu deveria estar fazendo alguma coisa também".
Enquanto 98% não assumem sua responsabilidade, e 2% assumem as próprias responsabilidades e as dos outros 98%, que são o bem estar de seus dependentes, pois crianças, idosos, pessoas com necessidades especiais e animais domesticados não invadem a casa de ninguém, eles são de responsabilidade desses seres humanos adultos. Quem abandona seu animal de estimação também abandona os pais idosos em abrigos, e quem é capaz de negar ajuda a um cão morrendo na rua, também é capaz de negar ajuda a uma criança. Eu, que já recolhi e encontrei lar para mais de 50 animais, também já recolhi da rua e levei para dentro da minha casa três pessoas desconhecidas, enquanto centenas de pessoas apenas assistiam essas pessoas morrendo. Essas pessoas foram: uma transexual que foi degolada durante a madrugada em São Paulo, um garoto viciado em crack que foi abandonado pela família, e um homem alcoólatra que precisava de um voto de confiança para poder voltar a trabalhar. Nos três casos acolhi as pessoas no mesmo dia que as conheci, e confiei nelas assim como confio que o cachorro abandonado que eu recolho nunca vai me morder. Mas o ser humano é muito diferente dos cães, e não é porque minhas tentativas de ajudar seres humanos em situações tão extremas não foram 100% bem sucedidas que irei me negar a ajudar um ser humano novamente. É por saber da dificuldade que é ajudar um ser humano, e da "facilidade" (em comparação) que é ajudar um animal, que esse discurso hipócrita que você faz me incomoda tanto, pois sei que quem é capaz de assistir um cão morrendo sozinho na rua sem fazer nada, é incapaz de ajudar criança alguma. Se muito, temos os que fazem da "filantropia" uma profissão, e podemos ver toda a mecânica disso no filme Quanto Vale ou é Por Quilo.
Uma coisa que sempre me perguntei, mesmo antes de ajudar qualquer um, foi o porquê de tanta gente se incomodar por alguém estar gastando seu dinheiro para ajudar X enquanto Y também esta precisando, e ninguém se incomodar por todos estarem gastando dinheiro indo a jogos de futebol, baladas, comprando bolsas e trocando de carro, enquanto X e Y estão precisando. Eu, como protetora de animais e de seres humanos em situação de risco, não vou a jogos de futebol e baladas, só compro vestimentas e acessórios usados e cuido muito bem do meu fusquinha, que me possibilita levar pessoas e animais a qualquer hora para hospitais, pois é apenas com esse tipo de sacrifício de vida pessoal que os 2% conseguem dinheiro para assumir as responsabilidades negligenciadas dos outros 98%, e o mínimo que esta porcentagem exorbitante poderia fazer é respeitar o nosso trabalho.
Um rapaz chamado Francisco José Papi escreveu um texto em 2005 que sanou muito bem essa minha dúvida. Reproduzo o texto na esperança que você o leia, e assim não repita mais esse tipo de ignorância.

“Por que não vão defender as crianças com fome?”
Questão interessante. Vamos ver se essa eu consigo responder de modo didático.
1) Quem faz esta pergunta admite que existem dois tipos de pessoas no mundo:
As Pessoas Que Ajudam e as Pessoas Que Não Ajudam.
Além disso, admite também que faz parte das Pessoas Que Não Ajudam, afinal, do contrário, diria “Por que não me ajudam a defender as crianças com fome?”, ou “Venham defender comigo as crianças com fome!”, ou “Não, obrigada, vou defender as crianças com fome”.
Então a pessoa se coloca claramente através de sua escolha de palavras como uma Pessoa Que Não Ajuda.
É curioso que a Pessoa Que Não Ajuda não faz nenhum esforço para ajudar, mas, sim, para tentar dirigir as ações das Pessoas Que Ajudam. É bastante interessante. Eu estaria interferindo se eu fosse até sua casa organizar sua vida financeira sob a alegação de que eu sei muito mais sobre administração familiar, mas a pessoa se sente no direito de interferir nas ações que uma pessoa resolve tomar para aliviar os problemas que ela encontra ao seu redor.
É uma Pessoa Que Não Ajuda, mas ainda assim quer decidir quem merece ajuda das Pessoas Que Ajudam. O nome disso é prepotência.
2) Pessoas Que Ajudam não vão ajudar as “crianças com fome”. Nem tampouco os “velhos”, os “doentes” ou os “despossuídos”. E sabe por quê?
Porque “crianças com fome” ou “velhos” ou qualquer outro desses é abstrato demais. Não têm face, não são ninguém. São figuras de retóricas de quem gosta de comentar sobre o estado do mundo atual enquanto beberica seu uisquezinho no conforto de sua casa.
Pessoas Que Ajudam agem em cima do que existe, do que elas podem ver, do que lhes chama atenção naquele momento. Elas não ajudam “os velhos”, elas ajudam “com 50 reais por mês os velhos do asilo X”.
Elas não ajudam “as crianças com fome”, elas ajudam “as crianças do orfanato Y com a conta do supermercado”.
Elas não ajudam “os doentes”, elas ajudam o “Instituto da Doença Z com uma tarde por semana contando histórias aos pacientes”.
Pessoas Que Ajudam não ficam esperando esses seres vagos e difusos como as “crianças com fome” baterem na porta da sua casa e perguntar se elas podem lhe ajudar.
Pessoas Que Ajudam cobram das autoridades punição contra quem maltrata uma cadela.
Pessoas Que Ajudam dão auxílio a um pai ou uma mãe que perdeu o emprego e não tem como sustentar seus filhos por um tempo.
Pessoas Que Ajudam dão aulas de graça para crianças de um bairro pobre.
Pessoas Que Ajudam levantam fundos para que alguém com uma doença rara possa ir se tratar no exterior.
Pessoas Que Ajudam não fogem da raia quando veem qualquer coisa em que elas possam ser úteis. Quem se preocupa com algo tão difuso e sem cara como as “crianças com fome” são as Pessoas Que Não Ajudam.
3) Pessoas Que Ajudam são incrivelmente multitarefa, ao contrário da preocupação que as Pessoas Que Não Ajudam manifestam a seu respeito. (Preocupação até justificada porque, afinal, quem nunca faz nada realmente deve achar que é muito difícil fazer alguma coisa, quanto mais várias).
O fato de uma Pessoa Que Ajuda se preocupar com a punição de quem burlou a lei e torturou um animal não significa que ela forçosamente comeu o cérebro de criancinhas no café da manhã. Não existe uma disputa de facções entre Pessoas Que Ajudam, tipo “humanos versus animais".
Geralmente as Pessoas Que Ajudam, até por estarem em menor número, ajudam várias causas ao mesmo tempo. Elas vão onde precisam estar, portanto muitas das Pessoas Que Ajudam que acham importante fazer valer a lei no caso de maus tratos a um animal são pessoas que ao mesmo tempo doam sangue, fazem trabalho voluntário, levantam fundos, são gentis com os menos privilegiados e batalham por condições melhores de vida para aqueles que não conseguem fazê-lo sozinhos.
Então, como dizia meu avô, “muito ajuda quem não atrapalha”. Porque a gente já tem muito trabalho ajudando animais e pessoas que precisam (algumas até poderiam ser chamadas tecnicamente de “crianças com fome”, se assim preferirem as Pessoas Que Não Ajudam).

Saturday, March 3, 2012

GUEST POST: CAUSOS QUE REVELAM NOSSO PRECONCEITO

Julia me enviou um relato gostoso, que aponta que não precisamos apenas combater os preconceitos dos outros, mas os nossos também. Vamos ao post.

Adoro seu blog, acompanho religiosamente embora comente muito pouco.
Depois de ler várias coisas interessantes, fiquei com vontade de fazer uns comentários e contar umas histórias minhas.

Causo 1. Gatas e sapatos
Eu e umas seis amigas (todas moças cultas, com boa formação e independência financeira) conversando sobre assuntos variados, quando a conversa recaiu sobre sapatos. Aí veio a sequência de relatos:
Amiga 1 - Eu adoro sapatos de salto, mas eles me machucam muito porque meu pé é gordinho, então tudo aperta.
Amiga 2 - Eu também tenho problemas com isso: meu pé é largo, meio grande, então nunca dá certo.
Amiga 3 - Meu problema sempre foi que meu pé é muito fino, então nenhum sapato ajusta direito... É um inferno! Tudo machuca.
Amiga 4 - Eu acho que tenho a pele muito fina, então sempre forma bolhas...
Amiga 2, tendo o insight - Olha... ouvindo vocês, estou chegando à conclusão de que o problema não é com nossos pés, mas com os sapatos femininos, que são feitos para machucar! E, o surpreendente não é que as empresas façam sapatos que machuquem, mas que a gente automaticamente assuma que o defeito é em nosso pé, não no sapato!

Causo 2. Vergonhas de moça
Eu estava em um churrasco com colegas da pós-graduação, e acontecem os seguintes fatos:
A certo ponto, chegam duas meninas e mais um rapaz. As meninas eu conheço, uma é mestranda e outra é pós-doutoranda; o rapaz, nunca vi. Rapidamente reparo que o rapaz é bonito, bem musculoso, relativamente mais jovem que o resto da turma (parece ter uns 22 anos) e chama a atenção porque está vestido como um "mano", calça larga, gorro na cabeça (desculpe o estereótipo). Quando me apresentam, vejo que ele tem um nome que reforça meu preconceito de classe, porque é daqueles que misturam inglês com português, preferidos por pessoas pobres.
Mais adiante, vejo a pós-doutoranda beijando o rapaz. Confesso que percebo o casal como "estranho", por causa da diferença de idade, porque o rapaz é mais bonito que ela e, também, porque ela é muito mais culta que ele... Ou seja, "não combina". Mas me acostumo com a ideia rapidamente e não penso mais no assunto.
O churrasco continua e a certo ponto vejo a moça chorando. Vou conversar com ela e ela explica que está sofrendo porque as colegas a estão tratando mal por ela ficar com um rapaz pobre e ignorante. E ela ainda continua explicando que foi gorda por muito tempo e passou anos desejando homens que não podia ter. Agora, depois da operação de estômago, ela finalmente pode ter um cara bonitão e bom de cama, então quer ser respeitada por isso.
Eu imediatamente entendo o que ela está passando e dou o maior apoio, mas não adianta muito porque ela está realmente sofrendo.
A história me fez refletir: por que quando vemos um cara com uma gostosa, achamos que ele é o bonzão? E quando vemos uma menina na mesma situação, achamos que ela está agindo mal? Como se justifica essa ingerência nos desejos alheios quando ela vem de amigos próximos, de pessoas bem educadas, de gente que supostamente é tolerante? Tão difícil entender que uma mulher possa estar feliz em uma relação que se baseia no sexo?

Monday, February 6, 2012

BINGO DA GORDOFOBIA

(clique para ampliar)

De tanto ouvir clichês sobre como emagrecer é a coisa mais fácil do mundo e sobre como vou morrer se não entrar numa dieta (surpresa: magros também morrem!), decidi fazer este bingo. Coletei várias obviedades de comentários escritos no blog. Mas são coisas que a gente ouve no dia a dia. Ah, e eu tive que me esforçar pra reduzir os lugares comuns a apenas 25.
Como jogar: na próxima discussão sobre o seu tipo físico ou sobre a epidemia da obesidade, sente-se, relaxe, e vá preenchendo o bingo. Quem completar primeiro a cartela ganha um suplemento vitalício de tortas de chocolate com chantilly.

Outros bingos já publicados aqui: Bingo anti-feminista e bingo da psicologia evolucionista.

Monday, January 30, 2012

GUEST POST: DIA DA VISIBILIDADE TRANS

Travestis e simpatizantes na Marcha da Abertura em Porto Alegre

Ontem foi Dia da Visibilidade Trans, da qual muita gente está falando hoje (porque domingo é meio que um dia de invisibilidade bloguística), através inclusive de uma blogagem coletiva. Por que é fundamental um Dia da Visibilidade Trans? Porque, sem querer entrar nas Olimpíadas da Opressão e ter que escolher o grupo mais estigmatizado e discriminado, sabemos que a sociedade é extremamente preconceituosa com travestis.
Na definição mais simplista, travestis são pessoas nascidas num corpo masculino que, através de hormônios e cirurgias plásticas, passa a ter características físicas de uma mulher, com exceção da vagina (e útero etc). Já transexuais são pessoas que fizeram ou estão pra fazer a mudança de sexo. Há várias confusões e discordâncias a respeito dessas definições.
Gente ignorante (no sentido de não saber nada do assunto) e preconceituosa costuma confundir tudo, identidade sexual (trans/mulher/homem etc) com orientação sexual (homossexual/bissexual/heterossexual etc). E uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Precisamos sair um pouco da caixinha e deixar de pensar em termos de gêneros binários (homem/mulher, geralmente nessa ordem). Claro que isso é mais fácil falar do que fazer. Mas um primeiro passo é respeitar quem é diferente (lembrando que, de uma forma ou de outra, tod@s somos diferentes). Não cabe a ninguém ser um guardião da "normalidade" e sair por aí decidindo a identidade sexual de uma pessoa. Se uma travesti adota um nome de mulher, respeite sua decisão. Chame-a pelo nome de mulher, ué. Se um transexual tem um nome masculino, chame-o pelo nome masculino. Chamar pelo nome que a pessoa escolheu é um primeiro passo até pra evitar termos pejorativos como traveco e afins. A identidade sexual é muito importante, mas não devemos ser restringidos por ela (por exemplo, eu sou mulher, mas não sou apenas uma mulher, e nem quero que todo o meu ser seja resumido a essa identidade).
Pedi a Luisa Helena Stern, mulher transexual e conhecida militante LGBTTT, para escrever sobre o Dia da Visibilidade Trans. Ela escreveu sobre o Dia Nacional da Visibilidade das Travestis, já que a comemoração, quando foi criada, oito anos atrás, referia-se apenas a travestis. Luisa explica que essa é a denominação oficial, e que incluir transexuais na mesma data comemorativa ainda depende de reuniões e encontros. Ela conta como a data foi celebrada no Fórum Social, em Porto Alegre.

O Dia Nacional de Visibilidade das Travestis é comemorado no dia 29 de janeiro, em referência ao lançamento da primeira campanha específica para esta comunidade, chamada “Travesti e Respeito”, feita pelo então Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde, em 2004.
A partir de então, a data se tornou uma referência nacional, e a cada ano se realizam dezenas de atividades pelo Brasil, sendo uma delas de repercussão nacional.
Neste ano de 2012, as atividades oficiais do Dia Nacional da Visibilidade das Travestis foram realizadas em Porto Alegre, na programação do Fórum Social Temático, sendo a principal atividade promovida pela ANTRA - Articulação Nacional de Travestis e Transexuais, com apoio da ABGLT e parceria/financiamento dos Ministérios da Saúde e dos Direitos Humanos (SDH/PR).
A entidade responsável pela organização foi a Igualdade RS - Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul, com a presença de lideranças nacionais e artistas travestis de várias regiões do Brasil.
Então, como cidadã de Porto Alegre e militante da Igualdade RS, tive a oportunidade de colaborar na organização das atividades e participar delas da maneira mais intensa, desde que esta data foi criada.
As manifestações foram as seguintes:
24/01 – Marcha de Abertura do Fórum Social Temático: as travestis portaram uma faixa com os dizeres “Sou travesti, tenho direito de ser quem eu sou” (foto acima), trazendo a sua visibilidade aos milhares de participantes do Fórum e ao público que estava assistindo.
26/01 – Mesa de Diálogos - Dia da Visibilidade das Travestis: Saúde, Educação, Segurança Pública: roda de conversa entre lideranças nacionais das travestis, representantes de vários Ministérios e de órgãos públicos estaduais e municipais, debatendo as dificuldades, prestando contas das conquistas e propondo novas soluções.
27/01 – Noite Cultural e Miss Igualdade: apresentações de artistas travestis, como Renata Perón, que gravou um CD em que canta apenas músicas de Noel Rosa e ainda interpreta várias outras canções da nossa MPB, Angela Leclerry, que com seu vozeirão de cantora lírica faz arrepiar o público e a versatilidade de Marina Garlen.
No meio de tudo isso, a entrega de troféus por Marcelly Malta, Presidenta da Igualdade RS, a diversas autoridades, personalidades e ativistas que são parceiros tradicionais das travestis na busca pela conquista da sua cidadania.
Se neste ano foi assim, pretendemos fazer muito mais em 2013, porque provavelmente o Fórum Social Mundial voltará a ser sediado em Porto Alegre, dando uma dimensão ainda maior a todos os eventos que acontecerem dentro da sua programação.
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