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Tuesday, May 1, 2012

LEIS DE PROPRIEDADE CANINA

Não me pergunte onde vi isso, porque já faz muito tempo e não anotei. Mas é fofinho, e só decidi traduzi-lo agora. Acho que todo mundo que ama cachorros (e bichos em geral, porque, não sei quanto a você, mas meu gatinho Calvin parece seguir essas leis de propriedade também, exceto a número 10 -- aliás, discordo da número 10; animais adoram coisas quebradas) vai se identificar. 
Estou com muitas saudades de ter um cãozinho. Meu último, o Hamlet, morreu em dezembro de 2007 com quase 16 anos, chuif. Amo cães e gatos igualmente. Não tenho preferência, não preciso escolher, posso ter os dois, não? A única coisa é que gato deve dar uns 10% do "trabalho" que dá um cachorro. E lembre-se: nunca compre um bicho de estimação. Adote um.
Bom, vamos à lista traduzida das leis de propriedade canina:
1. Se eu gosto, é meu.
2. Se está na minha boca, é meu.
3. Se posso tirá-lo de você, é meu.
4. Se eu tava com isso faz pouco tempo, é meu.
5. Se é meu, nunca deve parecer ser seu de nenhuma maneira.
6. Se estou mastigando alguma coisa, todos os pedaços são meus.
7. Se parece ser meu, é meu.
8. Se eu vejo primeiro, é meu.
9. Se você está brincando com algum troço e o larga, isso automaticamente se torna meu.
10. Se está quebrado, é seu. 
A LISTA DO QUE SE DANE
Hoje é feriado, então não espere nenhum post mais profundo. Mas eu estava vendo uns posts antigos e encontrei um bem filosófico, digamos. Lembra do filme meia boca Antes de Partir (The Bucket List)? Aquele em que Morgan Freeman e Jack Nicholson fazem o que eles consideravam importante antes de bater as botas? Pois é, na época alguém lançou um F*ck It List, ou uma lista do dane-se. Em outras palavras, de coisas que você não sentirá a menor falta se não fizer antes de morrer. A minha lista tá aqui, e eu não mudaria nadinha (pule o começo, em que eu falo que nunca entrarei no Twitter e blábláblá). Qual é a sua? Não vale incluir "Ser assaltado". Tem que ser coisas que a maior parte da sociedade considera incríveis e/ou necessárias, mas que em você não faz nem cócegas. E tem que ser coisas que você nunca fez. Portanto, exclua "Ler o blog da Lolinha". Pode incluir "Ter um bicho de estimação", se você for uma pessoa sem amor no coração.

Saturday, April 7, 2012

GUEST POST: VIZINHO QUE MATA ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

Problemas com vizinhos são constantes, e praticamente todo mundo que tem vizinhos já teve algum tipo de problema com eles. Mas o que fazer quando uma pessoa é defensora de animais, e seu vizinho decide ameaçar e até matar os bichos dela? Algo do tipo aconteceu com uma amiga minha de Joinville, que teve alguns de seus gatos envenenados e mortos (e como é horrível ver um gato morrendo envenenado!). Ela sabia quem era o vizinho que estava cometendo esse crime, mas não tinha como provar. Então ela decidiu colocar bilhetes anônimos nas caixas de correio de todos os vizinhos, dizendo que aquele vizinho era um assassino cruel de animais, que estaria cometendo um crime ambiental, e que todos deveriam ter cuidado com seus bichos, porque havia um serial killer entre eles. Por sorte, ela vivia numa vizinhança em que matar animais não era socialmente aceitável, e aquele vizinho passou a ser muito mal visto por todos. Ele acabou se mudando (não estou recomendando que alguém faça isso, só contando o que minha amiga me contou).
São poucas as histórias que têm final feliz. Outro dia li que a vida média de um cão domiciliado no Brasil é de irrisórios três anos de idade. Imagine: três anos de vida para cães que têm a sorte de ter casa e comida! É absurda a forma como tratamos nossos animais. Trate bem os bichinhos, e denunciem sempre que algum animal seja vítima de maus tratos. Fiquem com o relato da Carla.

Eu me chamo Carla e estudo Letras na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Resgato animais das ruas para cuidar, dar carinho, alimentação, entre outros cuidados especiais -- cuidados estes que todo animal merece e deve ter por direito. A questão deste texto é que há algum tempo meus animais vêm sofrendo violência através de um vizinho. Ele vem ameaçando envenenar os meus cães. O motivo? Eles ''latem demais'' (estranho seria se miassem). Este mesmo vizinho já possui um péssimo histórico de crueldade contra animais. A penúltima cadelinha que ele trouxe da rua, ele acorrentou e espancou durante aproximadamente vinte minutos. Quando estava nos seus dias de ''mau humor'', ele chutava a pobrezinha. A última cadela vivia solta pelas ruas, em péssimo estado: suja, doente, com fome. Por diversas vezes dei-lhe ração aqui na porta da minha casa. Por fim, a Princesa (como ironicamente a nomearam) morreu no meio da rua, magra de fome.
Na semana passada o pior aconteceu: um dos meus gatos foi assassinado a pauladas por esse vizinho que, ainda não satisfeito, jogou o corpo em meu quintal. Minha mãe viu o ato, e no dia seguinte, fomos à polícia e registramos tudo. Mais tarde, para completar o roteiro, ocorreu uma enorme discussão entre ele e minha mãe. Ele disse com todas as letras, em alto e bom som, que iria ''dar uma coça" nela.
Acreditamos, porque algumas vezes, infelizmente, ouvimos insultos e gritos de sofrimento, pois ele agride sua própria mulher. Quem é cruel com animais quase sempre é cruel com humanos também.
O autor de todo esse mal constante cometeu dois crimes: o primeiro crime que está sob a Lei Federal nº. 9.605 de 1998 (Crime Ambiental) e o outro crime que está sob a Lei nº. 11.340 de 2006 (a famosa Lei Maria da Penha).
Estamos lutando para que ocorra justiça. Felizmente, temos o apoio de um delegado da DEAM (Delegacia da Mulher), que até está sendo gentil com o nosso caso. Mas eu quero resultados rápidos. Ontem, cheguei em casa e a Margot, um outro filhote que eu havia pegado da rua para cuidar, foi roubada da minha varanda. Até quando?
Agora terei que colocar grades na minha varanda para que meu sofrimento e toda essa covardia acabe. Não irei me amargurar, pelo contrário, agora mesmo é que irei defender com unhas e dentes o direito desses seres que nos enchem de orgulho e ao mesmo tempo de vergonha, pois conseguem ser bem melhores do que alguns humanos que encontramos por aí.

Tuesday, March 20, 2012

É XENOFOBIA SER CONTRA COREANO COMER CARNE DE CACHORRO?

A Mayara me enviou um email (que dialoga um pouco com o último guest post) cheio de questões interessantes. Reproduzo só parte dele e, embaixo, respondo. Lá vai a parte da Mayara:

Tenho visto, ultimamente, notícias sobre apreensão de cães em freezers de restaurantes, geralmente coreanos, aqui no Brasil. Minha família é da região de Piracicaba-SP, onde há grande fábrica de uma montadora coreana. Essa montadora utiliza mão-de-obra de muitos coreanos que foram se instalar ali pela região. Pois bem, obviamente, alguns restaurantes coreanos foram abertos por lá. E a polícia de Piracicaba tem feito blitzes em alguns deles, encontrado cães mortos acondicionados em freezers, para serem servidos como alimento para os coreanos da região. Parece que mais 8 mil famílias de coreanos chegarão a Piracicaba para reforçar o trabalho na fábrica e, claro, vão precisar de mais cães.
Em São Paulo, há muitos restaurantes coreanos e vi uma reportagem, há alguns meses, que mostrava que várias famílias estavam pegando cães de rua para vender a esses restaurantes. Inclusive, uma cena triste, que mostrou a polícia entrando em uma casa de pessoas simples, mas não miseráveis, apreendendo todos os cães que ali se encontravam, porque essa família foi denunciada por recolher cães de rua para vender aos coreanos. No meio dos cães, havia dois deles que não eram para venda, mas de estimação da família. A reportagem mostrou as crianças, filhas dos donos da casa, chorando muito, desesperadas, pois aqueles dois cães, no meio dos outros apreendidos por serem destinado a comida em restaurantes, eram deles há alguns anos.
Acho que já deu pra vc entender que, agora, no Brasil, temos esse tipo de comércio que é clandestino. Há leis que punem esse tipo de coisa. É proibido por lei servir animais de estimação em restaurantes. Maus tratos são punidos com multa e cadeia, se matarem o animal, a pena é maior. Há distinção entre bichos de estimação e animais criados para abate e alimentação.
No CQC da semana passada, na bancada, o Marcelo Tas fez uma encenação, como era reestreia, de que a Globo havia mandado um presente para eles. Abriu uma grande caixa, e de lá saiu um gato preto, com cara de assutado, e eles riram, dizendo que a Globo havia mandado um gato preto como "mau agouro", desejando má sorte a eles, na reestreia. Depois, apareceram comendo churrasquinho, como se tivessem matado o gato preto azarado e o comido.
Muita gente protestou. Eu não sou de nenhuma entidade de proteção aos animais, mas achei de péssimo gosto, pra variar. O CQC sempre se superando...
Vi muita gente dizendo que quem reclama dessas coisas, sobre matar cães pra comer e servir em restaurantes coreanos ou contra esse tipo de "piada" com os bichos, é gente hipócrita, pois "come carne". E que se queremos que certos tabus caiam, por exemplo, contra homofobia, contra o machismo, não podemos alimentar outros tabus. Nossa! Fiquei meio passada. É isso mesmo? Uma coisa pode ser misturada no mesmo balaio de outra?
E fui xingada de xenófoba, assim como alguns amigos meus, por nos indignarmos que sirvam cães em restaurantes, vendam-nos para esse fim, e por dizermos que, se no Brasil é proibido fazer isso por lei, que esta deve ser cumprida.
Lola, não sou legalista dessa forma, claro que sei que há leis que devem ser peitadas, até porque, se não fossem, não teríamos nem saído da ditadura. Mas essa sobre matar bichos que são de estimação, para os brasileiros, não acho que deva ser "peitada". Se eu vou a outro país, há certos costumes que devo observar por lá, não é?
É mesmo xenofobia ser contra restaurante coreano servir carne de cachorro? Xenofobia é isso? Quebrar tabus não seria quebrar para coisas "boas", para boas causas? Enfim, eu sou contra coreanos virem ao Brasil e se acharem no direito de comer cães! Estou errada? Preciso mudar minha mentalidade?

MINHA RESPOSTA: Eu não sou a pessoa mais adequada para falar de tradições, rituais e costumes, porque estou me lixando pra eles. Modelo patriarcal de casamento (aquele em que o pai entrega a filha pro noivo) é tradição, e eu quero que acabe. Touradas, farras do boi, rinhas de galo, tudo muito tradicional -- e já deviam ter sido proibidas há décadas. Mutilação feminina para que a mulher seja aceita na sociedade? Super tradicional, e daí? Quero mais é que esses costumes morram. Eu não respeito muitas das tradições da minha própria cultura, e não vou respeitar as dos outros.
Não nasci pra ser diplomata. E quando digo isso, não é só porque não tenho apreço às tradições, mas também porque nem morta que eu iria comer alguma coisa que não gosto só pra ser educada.
Comida é algo cultural. Desde as primeiras semanas de nossas vidas, nos ensinam o que nossa cultura considera comestível e o que não considera. Bebê vai levar tudo pra boca, e é nossa cultura que vai dizer que aquele gafanhoto (pra não pensar em inseto pior) que a criança pegou não é pra ser mastigado (trocando em miúdos: "Argh! Tira isso da boca, menin@!").
É especismo sim, e também é cultural, que alguns animais sejam vistos como comida, outros como de estimação, outros como bichos nojentos. E é terrível quando a mesma cultura considera o mesmo animal comestível e de estimação. A cena mais chocante de Roger e Eu, documentário de Michael Moore sobre a falência de toda uma cidade de Michigan quando uma montadora de automóveis vai embora pra se instalar num país mais baratinho, é aquela em que uma americana pobre vende coelhos. Ela vende os mesmos coelhos para servirem de estimação ou de comida, o comprador que decide.
Eu não como coelho porque, na minha cabeça, antes de serem carne, são bichos fofinhos, orelhudos e saltitantes. Mas sei que é hipocrisia minha, porque também considero bois, vacas, porcos e galinhas -- todos bichos que eu como -- animais bonitos e queridos. Só que aí a solução, a meu ver, não é sair por aí comendo todos os bichos que encontro pela frente, e sim deixar de comer carne. Ponto. Estou ciente de como o ser humano explora os animais, odeio isso, e gostaria de ser vegana, ou pelo menos vegetariana. Mas ainda não estou pronta. Meus hábitos alimentares são ruins o suficiente pra eu não ter muito que comer se eu fosse vegana. E eu ainda adoro o gosto da carne. O que tento fazer é reduzir o consumo de carne o máximo possível. E nunca, jamais, criticar quem é mais nobre e altruísta que eu porque conseguiu deixar de comer carne. Tenho grande admiração por vegetarianos, veganos, defensores de animais em geral.
Eu contribuo com cem reais por mês com uma ONG de Fortaleza que ajuda animais abandonados. Amo cães e gatos igualmente, e jamais poderia me imaginar comendo esses animais (espero nunca ter comido churrasquinho de gato na vida). Se eu visse uma vaca antes de ser abatida, não poderia comê-la. Quando eu era bem novinha, presenciei uma vizinha matando uma galinha -- e fiquei sem comer frango por um ano. Depois de ver Babe, o Porquinho Atrapalhado, não comi presunto e afins durante meses. Creio, sinceramente, que a maior parte de nós só é capaz de comer carne se não pensar de onde vem essa carne. Imaginar animais levando uma vida infernal, confinados e explorados, e depois sendo degolados com requintes de crueldade, é de estragar qualquer apetite. Somos hipócritas.
Não acho, de jeito nenhum, que coreanos ou quem quer que seja deva poder comer cachorro. Nem aqui nem na Coreia. Como eu já disse, não é por alguma coisa ser tradição que a gente tenha que falar "amém" pra ela. Mas acho que a xenofobia não está em querer proibir coreanos de comer carne, e sim em associarmos coreanos com comedores de cães. Isso está muito longe de ser verdade. Na escola (internacional) onde estudei, em SP, convivi durante anos com um monte de coreanos. Tudo gente boa, com algumas tradições problemáticas (tipo coreano só poder se casar com coreano, e outras visões bem conservadoras), mas eram amigos simpáticos e perspicazes. Ninguém comia cachorro. Aliás, eles se ofendiam com a sugestão.
Eu comi comida coreana (que é excelente, apimentada, gostosa) inúmeras vezes, e não havia qualquer menção de
carne de cachorro no cardápio. Não sei se você lembra das matérias sobre a Copa do Mundo de 2002, realizada na Coreia do Sul. Os jornalistas de toda parte, não muito criativos, insistiam na pauta da carne canina. E os coreanos cansavam de falar que, embora aquele fosse um costume milenar, estava caindo. Jovens coreanos acham horrível a ideia de se comer cachorro, que é animal de estimação pra eles. Em Seul é praticamente impossível encontrar prato feito com cachorro. Em algumas províncias isso ainda existe, mas é cada vez mais raro. Se já na Copa de dez anos atrás os coreanos se apressavam em dizer que não comiam cães, imagina hoje...
Portanto, há várias questões. Primeiro que é exagero pensar que coreanos comem cachorro desenfreadamente, ou que todo restaurante coreano serve carne canina. São casos isolados. Segundo que, se comer carne de cão está por baixo na Coreia, não é nada legal que coreanos queiram consumi-la no Brasil -- um país que só aceita cães como animais domésticos (e que mesmo assim os trata muito mal). Vamos supor que uma família da Somália se mude pra cá, e queira continuar o costume de mutilar os genitais de suas filhas. A família deve poder fazer isso em nome da tradição? Óbvio que não! Nem na Somália, nem aqui. Mas é xenofobia pensar que todas somalis sofrem mutilação genital.
Um terceiro ponto é que o consumo de carne canina no Brasil está relacionado a status. É coisa pra coreano rico, assim como brasileiro rico vai a churrascarias chiques pra comer carne de caça. Ricos fazem essas coisas como demonstração de poder. Pra se diferenciar da gentalha. Pra provar que são especiais e que o dinheiro compra tudo. Se eu já detesto tradições, vou gostar de tradição de rico esnobe e sem empatia? Pra mim, rico querer comer carne proibida é como gostar de snuff film (aquele tipo de filme pornô que é meio lenda urbana, em que mulheres são estupradas, torturadas e mortas de verdade diante de uma câmera). Snuff film é coisa de rico. Só eles podem pagar uma vida. Só eles pra financiarem a impunidade.

Thursday, March 15, 2012

GUEST POST: BICHO? AJUDE AS CRIANÇAS COM FOME, ORA!

A Fiori é defensora dos animais e se chateia toda vez que sua atividade é criticada. O título deste guest post é algo que a gente ouve todos os dias, só variando o assunto: por que falar de [insira aqui o assunto que você não considera importante]? Por que não falar das criancinhas na África ou da corrupção no congresso? Isso vindo de gente que quase sempre não luta nem por um nem pelo outro...

Prezada pessoa que faz comentários especistas do tipo "tanta gente gastando com bicho tendo um monte de crianças na rua", quero lhe informar que ajudar um animal necessitado não impede ninguém de ajudar uma criança necessitada. Muito pelo contrário, as pessoas que doam seu tempo, energia e dinheiro para ajudar, não o fazem baseadas em espécie, raça, gênero etc, mas sim ajudam todos que cruzam seu caminho. Essas pessoas, que também ajudam animais, sofrem muito preconceito pela ignorância repetida incansavelmente pelas pessoas que não fazem nada por ninguém. Em contrapartida, a questão poderia ser: "tanta gente fazendo filho tendo um monte de criança nas ruas e nos abrigos precisando de adoção", e "tanta gente cruzando e vendendo cachorro de raça tendo um monte de animais abandonados nas ruas e nos abrigos precisando de adoção", mas essas são questões que a sociedade se recusa a entrar, pois é muito mais fácil dizer que a minoria que ajuda animais não deveria fazer o que faz, e que deveria fazer alguma outra coisa, do que admitir: "eu deveria estar fazendo alguma coisa também".
Enquanto 98% não assumem sua responsabilidade, e 2% assumem as próprias responsabilidades e as dos outros 98%, que são o bem estar de seus dependentes, pois crianças, idosos, pessoas com necessidades especiais e animais domesticados não invadem a casa de ninguém, eles são de responsabilidade desses seres humanos adultos. Quem abandona seu animal de estimação também abandona os pais idosos em abrigos, e quem é capaz de negar ajuda a um cão morrendo na rua, também é capaz de negar ajuda a uma criança. Eu, que já recolhi e encontrei lar para mais de 50 animais, também já recolhi da rua e levei para dentro da minha casa três pessoas desconhecidas, enquanto centenas de pessoas apenas assistiam essas pessoas morrendo. Essas pessoas foram: uma transexual que foi degolada durante a madrugada em São Paulo, um garoto viciado em crack que foi abandonado pela família, e um homem alcoólatra que precisava de um voto de confiança para poder voltar a trabalhar. Nos três casos acolhi as pessoas no mesmo dia que as conheci, e confiei nelas assim como confio que o cachorro abandonado que eu recolho nunca vai me morder. Mas o ser humano é muito diferente dos cães, e não é porque minhas tentativas de ajudar seres humanos em situações tão extremas não foram 100% bem sucedidas que irei me negar a ajudar um ser humano novamente. É por saber da dificuldade que é ajudar um ser humano, e da "facilidade" (em comparação) que é ajudar um animal, que esse discurso hipócrita que você faz me incomoda tanto, pois sei que quem é capaz de assistir um cão morrendo sozinho na rua sem fazer nada, é incapaz de ajudar criança alguma. Se muito, temos os que fazem da "filantropia" uma profissão, e podemos ver toda a mecânica disso no filme Quanto Vale ou é Por Quilo.
Uma coisa que sempre me perguntei, mesmo antes de ajudar qualquer um, foi o porquê de tanta gente se incomodar por alguém estar gastando seu dinheiro para ajudar X enquanto Y também esta precisando, e ninguém se incomodar por todos estarem gastando dinheiro indo a jogos de futebol, baladas, comprando bolsas e trocando de carro, enquanto X e Y estão precisando. Eu, como protetora de animais e de seres humanos em situação de risco, não vou a jogos de futebol e baladas, só compro vestimentas e acessórios usados e cuido muito bem do meu fusquinha, que me possibilita levar pessoas e animais a qualquer hora para hospitais, pois é apenas com esse tipo de sacrifício de vida pessoal que os 2% conseguem dinheiro para assumir as responsabilidades negligenciadas dos outros 98%, e o mínimo que esta porcentagem exorbitante poderia fazer é respeitar o nosso trabalho.
Um rapaz chamado Francisco José Papi escreveu um texto em 2005 que sanou muito bem essa minha dúvida. Reproduzo o texto na esperança que você o leia, e assim não repita mais esse tipo de ignorância.

“Por que não vão defender as crianças com fome?”
Questão interessante. Vamos ver se essa eu consigo responder de modo didático.
1) Quem faz esta pergunta admite que existem dois tipos de pessoas no mundo:
As Pessoas Que Ajudam e as Pessoas Que Não Ajudam.
Além disso, admite também que faz parte das Pessoas Que Não Ajudam, afinal, do contrário, diria “Por que não me ajudam a defender as crianças com fome?”, ou “Venham defender comigo as crianças com fome!”, ou “Não, obrigada, vou defender as crianças com fome”.
Então a pessoa se coloca claramente através de sua escolha de palavras como uma Pessoa Que Não Ajuda.
É curioso que a Pessoa Que Não Ajuda não faz nenhum esforço para ajudar, mas, sim, para tentar dirigir as ações das Pessoas Que Ajudam. É bastante interessante. Eu estaria interferindo se eu fosse até sua casa organizar sua vida financeira sob a alegação de que eu sei muito mais sobre administração familiar, mas a pessoa se sente no direito de interferir nas ações que uma pessoa resolve tomar para aliviar os problemas que ela encontra ao seu redor.
É uma Pessoa Que Não Ajuda, mas ainda assim quer decidir quem merece ajuda das Pessoas Que Ajudam. O nome disso é prepotência.
2) Pessoas Que Ajudam não vão ajudar as “crianças com fome”. Nem tampouco os “velhos”, os “doentes” ou os “despossuídos”. E sabe por quê?
Porque “crianças com fome” ou “velhos” ou qualquer outro desses é abstrato demais. Não têm face, não são ninguém. São figuras de retóricas de quem gosta de comentar sobre o estado do mundo atual enquanto beberica seu uisquezinho no conforto de sua casa.
Pessoas Que Ajudam agem em cima do que existe, do que elas podem ver, do que lhes chama atenção naquele momento. Elas não ajudam “os velhos”, elas ajudam “com 50 reais por mês os velhos do asilo X”.
Elas não ajudam “as crianças com fome”, elas ajudam “as crianças do orfanato Y com a conta do supermercado”.
Elas não ajudam “os doentes”, elas ajudam o “Instituto da Doença Z com uma tarde por semana contando histórias aos pacientes”.
Pessoas Que Ajudam não ficam esperando esses seres vagos e difusos como as “crianças com fome” baterem na porta da sua casa e perguntar se elas podem lhe ajudar.
Pessoas Que Ajudam cobram das autoridades punição contra quem maltrata uma cadela.
Pessoas Que Ajudam dão auxílio a um pai ou uma mãe que perdeu o emprego e não tem como sustentar seus filhos por um tempo.
Pessoas Que Ajudam dão aulas de graça para crianças de um bairro pobre.
Pessoas Que Ajudam levantam fundos para que alguém com uma doença rara possa ir se tratar no exterior.
Pessoas Que Ajudam não fogem da raia quando veem qualquer coisa em que elas possam ser úteis. Quem se preocupa com algo tão difuso e sem cara como as “crianças com fome” são as Pessoas Que Não Ajudam.
3) Pessoas Que Ajudam são incrivelmente multitarefa, ao contrário da preocupação que as Pessoas Que Não Ajudam manifestam a seu respeito. (Preocupação até justificada porque, afinal, quem nunca faz nada realmente deve achar que é muito difícil fazer alguma coisa, quanto mais várias).
O fato de uma Pessoa Que Ajuda se preocupar com a punição de quem burlou a lei e torturou um animal não significa que ela forçosamente comeu o cérebro de criancinhas no café da manhã. Não existe uma disputa de facções entre Pessoas Que Ajudam, tipo “humanos versus animais".
Geralmente as Pessoas Que Ajudam, até por estarem em menor número, ajudam várias causas ao mesmo tempo. Elas vão onde precisam estar, portanto muitas das Pessoas Que Ajudam que acham importante fazer valer a lei no caso de maus tratos a um animal são pessoas que ao mesmo tempo doam sangue, fazem trabalho voluntário, levantam fundos, são gentis com os menos privilegiados e batalham por condições melhores de vida para aqueles que não conseguem fazê-lo sozinhos.
Então, como dizia meu avô, “muito ajuda quem não atrapalha”. Porque a gente já tem muito trabalho ajudando animais e pessoas que precisam (algumas até poderiam ser chamadas tecnicamente de “crianças com fome”, se assim preferirem as Pessoas Que Não Ajudam).

Sunday, January 22, 2012

NADA MAIS LINDO QUE ESSE GATO

Eu pro Calvin: Você é tão deslumbrantemente lindo e eu te amo. E pode ser que exista um gato mais bonito que você, eu que não conheço. Também, eu quase não saio. Mas sabe, há outras espécies que também são lindas. Você tem um pouquinho de concorrência. Porque outro dia eu vi um vídeo de um guaxinim que...
[Calvin se espreguiça e remaneja-se, agora deitado de barriga pra cima].Tá, eu retiro o que disse. Você não tem concorrentes. Nem aquela imagem de uma mão acariciando uma coruja.Nem o panda abraçando a perna de alguém.Nem o bebê coala.Nada se compara a você, Calvin.

Thursday, July 28, 2011

GUEST POST: ESPECISMO DEVE SER TEMA DAS LUTAS DAS MULHERES

Anúncio de macarrão: carne pronta para consumo

Não há dúvida que o consumo de carne na nossa sociedade é vendido como algo masculino. Afinal, mulher tem que gostar de salada; homem, de churrasco. Como nossa cultura relaciona o consumo voraz de carne ao apetite sexual (e esse apetite, como estamos cansadas de saber, não cai bem para as mulheres certinhas), a propaganda faz tudo para ligar carne à masculinidade, como se estivéssemos ainda no tempo das cavernas, em que nossos valentes antepassados saíam com suas travas para caçar Tiranossauros Rex (é, tem gente que acha que Flintstones é documentário). Há inúmeros exemplos na propaganda desse clichê. Ainda hoje o homem é pintado como um eterno caçador, que sai à noite à caça de carne, cerveja, mulher. Animais ganham outro nome quando são comidos (não comemos boi nem vaca, comemos bife); mulheres são reduzidas a meros nacos de carne.
O especismo indiscutivelmente passa pelo machismo. Há pelo menos um livro importante sobre o assunto, chamado The Sexual Politics of Meat: A Feminist-Vegetarian Critical Theory, de Carol J. Adams (a Deborah traduziu um pedaço na segunda metade do seu FAQ Vegan). A opressão e a exploração dos animais tem muito a ver com a opressão das minorias humanas, como mulheres e negros (veja, por exemplo, o Vegans of Color, que trata de lutas raciais e anti-especistas).
A Deborah, que já havia nos agraciado com um excelente guest post sobre veganismo, desta vez se junta a Patrícia Nardelli para escrever um texto cujo tema, a meu ver, deve ser pensado em todas as nossas lutas
.

[Deborah] Quem afaga um cão e come uma picanha “sangrenta” é “mau”? Não, mas é de fato especista, ou seja, alguém que trata determinados animais como “coisas” e outros enquanto “indivíduos”, o que é muito similar ao machismo: “É claro que não sou machista! Amo minha mãe, minha filha e minha irmã! O que não defendo é mulher que não se dá o respeito!”.

[Patrícia] O especismo se define exatamente por isso: é a consideração de que uma espécie é superior às outras e, portanto, detém direitos sobre ela. Não à toa, é bem parecido com o racismo e o sexismo. Quem assistiu ao documentário Terráqueos (veja aqui) ou leu Libertação Animal do Peter Singer (sem entrar aqui no mérito da discussão bem-estarismo x abolicionismo) sabe que a comparação é proposital e filosoficamente embasada. Para ficar mais claro, a definição da Wikipédia é muito bem resumida:
Especismo é a atribuição de valores ou direitos diferentes a seres dependendo da sua afiliação a determinada espécie. O termo foi cunhado e é usado principalmente por defensores dos direitos animais para se referir à discriminação que envolve atribuir a animais sencientes diferentes valores e direitos baseados na sua espécie, nomeadamente quanto ao direito de propriedade ou posse. De modo similar ao sexismo e ao racismo, a discriminação especista pressupõe que os interesses de um indivíduo são de menor importância pelo mero feito de se pertencer a uma determinada espécie. De acordo com a igual consideração de interesses, de qualquer que seja a espécie os interesses semelhantes devem ser respeitados.
Deste modo não se trata, como se equivocam muitas pessoas, de atribuir igualdade entre as espécies. Nós abolicionistas não somos cegos, reconhecemos que as espécies diferem entre si, que suas diferenças são, oras, específicas. Dentre elas está a que nos torna humanos, nossa capacidade específica de produzir cultura da maneira como produzimos. E de modificá-la. Entendemos, portanto, que é do interesse do animal senciente manter-se vivo e não sentir dor. Deste modo, temos o dever de respeitar este interesse, pois ele não deve valer menos do que o meu interesse em, por exemplo, saborear uma picanha. Não é do nosso interesse impedir que raposas matem galinhas, por exemplo, mas é do nosso interesse insistir em uma mudança em nossa própria cultura, que cria galinhas em massa sob condições cruéis para serem utilizadas por nós. Eu acho sim, que há uma enorme diferença entre mim e uma raposa. Ela nem precisa de uma faca para comer a galinha, afinal.

[Deborah] Neste vídeo o chef Jamie Oliver mostra para um grupo de crianças como os nuggets são feitos. O nojo inicial é substituído por apetite quando ele usa forminhas para dar-lhes bom aspecto, e depois de fritos ninguém os recusa. Acostumamos com a aparência dos alimentos, e se não comemos olhos de bode é porque não nos acostumamos com isso desde as primeiras refeições. Há quem julgue exótico e tenha nojo de assistir degustação de insetos, sem saber que biscoitos de morango, sorvetes, balas e diversos alimentos com a cor vermelha, rosa ou roxa utilizam um corante de insetos esmagados: cochonilha.
As divisões são muito claras entre o que é comestível ou repulsivo: coração de galinha, pata, joelho, orelha, língua e demais partes do porco são permitidas, enquanto um espeto com corações de gatos ou uma feijoada canina gerariam ondas de protestos.

[Patrícia] Edmund Leach, em seu texto Aspectos Antropológicos da Linguagem: Categorias Animais e Insulto Verbal, atenta para o fato dos nomes animais serem modificados depois de mortos para fins alimentares, em especial no que diz respeito aos animais de grande porte: “Assim, quando morto, bullock (novilho) torna-se beef (carne), pig (porco) torna-se pork (carne de porco), sheep (carneiro) torna-se mutton (carne de carneiro), calf (bezerro) torna-se veal (vitela) e deer (veado) torna-se venison (carne de veado)”. É pertinente a citação no sentido que ilustra o distanciamento existente entre o animal que foi morto e a comida em questão. Distanciamento também relacionado à lógica de consumo capitalista ocidental, onde a relação de reciprocidade e de convívio com o animal, típica da economia com base familiar, é quebrada. O documentário A carne é fraca (veja aqui) atenta para o caráter alucinatório da propaganda de carne, na qual o/a protagonista, no caso do frango, para dar um exemplo, é muitas vezes um frango sorridente que anuncia a própria carne (o blog Suicide Food, comida suicida, traz inúmeros exemplos). A propaganda mascara a realidade da produção tanto da carne quanto dos derivados animais através da divulgação de animais sadios e satisfeitos, criados com carinho e dedicação.
Leach também coloca que do ponto de vista de um “eu” masculino as mulheres são divididas nas seguintes categorias (a referência são parâmetros culturais ingleses): 1) As muito próximas, uma categoria fortemente incestuosa; 2) Parentes, mas não muito próximas, com quem o casamento é proibido ou desaprovado, mas relações sexuais são toleradas ou esperadas; 3) Vizinhas/amigas não parentes, uma categoria daonde podem sair esposas e 4) Estrangeiras distantes, com quem não se têm relações sociais. As categorias pelas quais são divididos os animais também são quatro e compatíveis, a saber: 1) Aqueles muito próximos, fortemente não comestíveis (como animais de estimação, por exemplo); 2) Domesticados, mas não tão próximos, como animais de fazenda, normalmente comestíveis se novos ou castrados; 3) Caça, onde se alternam sentimentos de amizade e hostilidade, e 4) Animais selvagens distantes, que não são comida.
O ponto aqui é chamar a atenção para o que queremos afirmar quando dizemos que nós mulheres somos tratadas como pedaços de carne. A categorização entre a comestibilidade e o parentesco é tão próxima que nós, mulheres, somos vistas como coisas, propriedades, dos homens.
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