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Friday, June 1, 2012

FEMINISTAS, NOS DEEM UMA CHANCE

O Francisco me enviou este email. A parte dele vai ficar em itálico. Minha resposta vem depois de cada parágrafo.

Um post seu que me deixou bastante chateado por estar no seu blog foi “Uma zona de perigo chamada friendzone”. Esse post replicou um pensamento muito corriqueiro em outras passagens do seu blog e muito comum em todas as mulheres. É o pensamento de que o homem solitário que passa todo o tempo livre na internet ou jogando vídeo games e não tem habilidades com as mulheres é assim por culpa dele. De certo modo, eu entendo porque vocês são assim.

Comentário do maridão, porque eu li o email pra ele: Vocês, hein? Suas víboras!
Comentário meu: Uau! Francisco, como você sabe o que pensam todas as mulheres sobre todos os homens? Você fez uma pesquisa?

Vocês estão acostumadas a interagir com homens descolados, simpáticos, divertidos, que fazem vocês se sentirem bem na presença deles. Todo cara solitário sempre sonhou em ser esse cara divertido, e sabe por que ele não é? Porque ele não atende ao padrão: alto, bonito, forte e bombado imposto pela sociedade. O cara solitário um dia já tentou sair à rua e encarar o mundo, mas por não atender aos padrões descritos acima foi massacrado por rejeição, bullying, e constrangimento e dessa forma foi cada vez mais se isolando no mundo dele.

Fran (não vou chamá-lo de Chico porque isso lembra meu ídolo, o Buarque, aquele cara alto, forte e bombado), pessoas divertidas e simpáticas são legais. Eu gosto e às vezes (não sempre, depende do dia, depende da companhia) sou uma dessas pessoas. E digo mais: gosto não só de caras simpáticos e divertidos como de mulheres simpáticas e divertidas! Acho que o mundo seria melhor se todo mundo sorrisse mais. Já os mascus acham que rir e mesmo sorrir são sinais de fraqueza. 
Mas me explica o que ser simpático e divertido tem a ver com ser alto, bonito, forte e bombado? Você está dizendo seriamente que homens altos e bonitos não podem ser simpáticos e divertidos? Ou que todo cara simpático e divertido é alto e bonito? Sei não, mas gordos costumam ser bem divertidos, não? Um dos sujeitos mais engraçados que já conheci é gordo. Não gordinho -- gordo mesmo. E meio nerd, de óculos, espinhudo. Mas eu nunca o vi desacompanhado. Ele sempre teve namoradas, e está no seu segundo casamento. Ah, dirá você, ele é milionário! Não, não é. Ele nasceu na periferia e nunca teve uma profissão estável, nunca ganhou bem. A mulher ganha mais que ele. E mesmo assim eles se amam. Incrível, não?
E conheço um monte de caras (e de mulheres) nessa situação. Aliás, você também conhece. Tente encarar o mundo novamente: saia à rua. Olhe a sua volta. Todos os caras que você vê com mulheres são altos, bonitos, fortes e bombados? E as mulheres que você vê com os nerds, são todas Giseles? Ou são pessoas normais, gente como a gente?

Para piorar a situação, vocês mulheres descontam todos os traumas que os descolados causaram em vocês nesses caras solitários. Se o solitário, tentando ser legal, insiste em pagar uma conta, vocês dizem que ele é um machista igual a um ex-namorado rico que queria pagar suas contas para controlar você. Entretanto, se ele diz que não paga conta nenhuma, vocês dizem que ele é igual um ex-namorado descolado que não acrescentou nada na sua vida é só causou traumas. Ou seja, o cara bonzinho está sempre errado para vocês, ele é o ser mais desprezível no mundo para vocês pois além de nascer homem ele é socialmente inapto e nada fisicamente atraente. Ou seja, deles vocês mulheres não aproveitam nada.

Fran, sobre homem pagar conta, já falei disto aqui. Agora, não vejo mulher descontando “trauma” nenhum nos outros. E seu raciocínio está errado: se nós saímos apenas com caras descolados, por que cargas d'água estaríamos jantando com um carinha solitário? E que mundo maniqueísta o seu, hein? O ex-namorado rico ou descolado não podia ser um cara bonzinho? Só os solitários são legais e bonzinhos? Você realmente está tentando me convencer que os caras bonzinhos ficam sós por serem bonzinhos? Que estranho! Praticamente todos os casais amigos que conheço são feitos de homens (e mulheres também) bonzinhos. A característica em comum entre todos eles é justamente essa -– nenhum é bombado, pensando bem; alguns são divertidos, outros não; alguns têm bons empregos, outros não; mas todos são bonzinhos. Bonzinhos no sentido de serem homens éticos, sinceros, pacíficos, não preconceituosos, que acreditam em igualdade.
Pergunte pra mulherada aqui neste blog o que é um homem desprezível. Lord Anderson é homem, e ninguém o acha desprezível. Pelo contrário, da última vez que vi tinha até lésbica querendo se converter só pra sair com ele. Nós gostamos muito de homem! Mas tem uma espécie de homem que é sim desprezível: homem machista, homem que se acha merecedor de alguma coisa só por ter nascido com pênis, homem que pensa ser bonzinho mas só finge ser bonzinho pra pegar mulher (e ainda por cima reclama quando não consegue). Pra resumir: mascus.

Agora, imagine como é viver a vida inteira sendo esse zero a esquerda, sendo invisível para o sexo oposto? Você acha mesmo que o cara que passa horas jogando vídeo game não preferia estar passando um bom momento com uma garota? E quanto mais os anos passam, mais a situação vai se agravando, pois mais ele vai se isolando e desistindo de mudar, mais ele vai ficando velho e desprezível às mulheres. Você acha que alguma mulher bonita e saudável teria paciência para ajudar um homem a superar seus traumas e sua inexperiência sexual?

Ahá! Quer dizer que não basta qualquer mulher, né? Tem que ser bonita! (o saudável tá aí por conta. O que é saudável?). Olha só uma novidade pra você: tá cheio de mulher nessa situação. De repente a garota adolescente também preferiria estar passando bons momentos com um garoto, mas tá lá jogando videogame (mulher também joga), invisível pro sexo oposto (aliás, que termo escroto esse, sexo oposto. Oposto a quem? Somos tão diferentes assim?). Mas você não quer qualquer mulher. Você quer a mulher que o mundo jurou que você merece, que é a modelo da revista! Então baixa a bola, véio. Diminua as expectativas, recolha as cobranças. A Angelina Jolie não vai querer nada contigo, assim como o Tom Cruise me ignora até hoje.
Ainda assim, eu acredito piamente que pessoas “invisíveis pro sexo oposto” acabam encontrando alguém. Eu acho sim que toda panela tem sua tampa. Não creio nessa ladainha de que gorda vai ficar pra titia, ou que nerd vai ficar pro titio. E por que não? Ué, porque eu conheço um monte de gorda que tem namorado, marido, casinhos, sexo. E um monte de nerd também. Mas não pode se isolar. Tem que ser um pouquinho sociável, não transpirar ódio e rancor por todos os poros (isso afasta, sério), se comunicar com as pessoas -– e que bom que hoje existe internet!

Alguma mulher respeita um homem com quase 30 anos que faz sexo igual a um de 15 e que sofre de problemas como ejaculação precoce e disfunção erétil? Como você acha que um rapaz que sofre desses problemas se sente ao sentar em uma roda de mulheres e ouvir elas falarem que exigem que o parceiro seja ótimo na cama, que leve elas às alturas?

Ué, o que o rapaz solitário e socialmente inapto tá fazendo sentado junto a uma roda cheia de mulheres conversando sobre sexo? Ele tropeçou e caiu em cima da mesa? Você está se contradizendo, Fran. Sim, tá cheio de mulher cheia de amor pra dar e sem tantas exigências como você pensa. Quem liga pra tamanho de pênis, por exemplo, é homem, não mulher. Mas sabe o que mulher não gosta? De transar com um carinha que depois vai chamá-la de p*ta porque... ela transou com ele.

E assim muitos vão se afogando em pensamentos estranhos, auto-destrutivos, muitos descontam tudo isso no álcool e nas drogas e muitos viram psicopatas sociais que saem por aí atirando nas pessoas.

Opa, assim você me assusta, Fran. Tá muito Realengo feelings pro meu gosto. Isso parece uma ameaça: se vocês mulheres (só as bonitas e saudáveis, claro) não liberarem sexo pra nós solitários inaptos, vamos sair por aí tropeçando na mesa de mulheres falando sobre sexo e atirando nelas!

Mas aí então você vai dizer que uma das lutas das feministas é tentar destruir o padrão imposto pela sociedade de que o homem tem que ser pegador e ter várias mulheres. Mas peraí, o que vocês estão fazendo para mudar isso? Vocês estão dando uma chance para os caras socialmente inaptos?

Ah tá, agora entendi! A missão do feminismo é “dar uma chance para os caras socialmente inaptos”! Por que você não falou antes? Nós feministas temos que transar com os solitários! Assim sim o mundo será melhor! Mas peraí, da última vez que ouvi, nós feministas não éramos ogras gordas peludas e bigodudas? E vocês não queriam só as mulheres bonitas e, como é que você colocou, "saudáveis"? Pô, Fran, você não quer uma chance nossa. Sem falar que a maior parte de nós está ocupada fazendo sexo com caras bonzinhos.

Não, vocês estão descontando neles todos os traumas que tiveram com os descolados e criando assim mais ódio neles. Ou seja, o feminismo erra ao reduzir o homem a um ser que vocês descrevem usando vários preconceitos e paradigmas, que para alguns homens podem até serem verdades, mas com certeza não se aplicam a maioria masculina.

É verdade, Fran, somos nós feministas que reduzimos todos os homens a duas categorias: descolados e solitários. Ou, como preferem os mascus, alfas e betas. Releia o que escreveu e responda: tem certeza que nós feministas é que fazemos essa redução? E quem te falou que sofremos grandes traumas com os descolados? Ou com os homens em geral? Ou que odiamos homens? Fran, você acredita demais nas besteiras que lê nos blogs e fóruns mascus. Segundo eles, 20% dos homens pegam 80% das mulheres. Essa é uma estatística que não faz o menor sentido.

Portanto, encerro minha carta deixando uma sugestão: Por que você não faz mais postagens ajudando os homens a melhorarem sua auto-estima? Por que ao invés de gastar tantos posts atacando os masculinistas, você não faz alguns estimulando as mulheres a respeitar os homens do jeito que alguns deles são: baixos, gordinhos, fracotes, gagos e tímidos? Não há mundo sem homens, e a maioria dos homens, para sua surpresa, não são fortes, agressivos e opressores como você pensa. Eles são até bem inseguros como muit@s de su@s leitor@s.

Desculpe decepcioná-lo, mas meu blog é feminista, não é um blog PUA (Pick Up Artist, que "ensina" homens a pegar mulher). Por que você não pede a blogs mascus pra trocar o disco da misoginia e melhorar a autoestima dos homens? Ou você vai me dizer que a melhor maneira de melhorar a autoestima masculina é afirmando que mulheres são vadias interesseiras que só gostam de cafas? 
Aproveite e indique um post meu (não precisa ser dois, só um) em que eu estimulo mulheres a não respeitarem homens como alguns deles são (baixos, gordinhos, fracotes, gagos e tímidos, segundo você). Os únicos homens que a gente não respeita são os machistas e os misóginos e os homofóbicos e os racistas e os gordofóbicos. Ou seja, os preconceituosos em geral. Esses não merecem respeito algum, mas creio eu, ou quero acreditar, que a maior parte dos homens (e das mulheres) não é preconceituosa. Ninguém aqui quer um mundo sem homens. Isso é fantasia conspiratória sua. Neste blog você encontrará muito mais amor e respeito aos homens que nos blogs mascus (Lord Anderson que o diga).
E Fran, obrigada por me informar que existem homens inseguros. Se não fosse você, eu jamais saberia.

Thursday, April 26, 2012

“ME ACHO FEIA E MAGRICELA. ME AJUDA!”

Recebi o email abaixo, e quero aproveitá-lo para minha seção de perguntas e respostas. 

Meu nome é Laura e vim te parabenizar pelo seu blog, que é simplesmente maravilhoso! Lindo! Agora vem a parte difícil: eu queria muito a sua ajuda para um probleminha... Tenho treze anos e me acho feia e magricela, sabe? Nunca contei a ninguém porque tenho certeza que vão falar “Nossa, você é magrinha, meiguinha e ainda reclama. Tem um monte de gordinha que dava tudo para ser como você!”. Mas isso não ia me fazer sentir mais especial, sabe? Vimemos em um mundo em que a busca pela perfeição é uma rotina e já estou cansando disso. Me sinto feia e fora dos padrão... Não tenho olhos azuis ou verdes, não são tão alta digna de uma modelo e apenas estou perdida... Por favor, responda.

Minha resposta: Laura querida, queria muito poder te ajudar. Queria mesmo que uma resposta minha te resguardasse de todo o condicionamento da sociedade sobre o que é ser linda. Mas isso não é possível. Acho que já narrei uma conversa que tive com uma amiga, também feminista, doutora, e crítica da mídia: ela estava perguntando como que a gente, que está a par de toda a manipulação, que estudou e continua estudando tanto, não está a salvo de se deixar abater por um padrão de beleza que insistem em nos impor? É muito, muito difícil se autoaceitar. Somos ensinadas a odiar nossos corpos. Recebemos dezenas de lições todos os dias, vindas de todos os lados, de como nossos corpos são inadequados e vergonhosos, e de como problemas que a gente nem sabia que tinha precisam ser resolvidos com a máxima urgência (por exemplo: clareamento anal).
Não vou entrar na questão de que você provavelmente é linda, ou que você, por ser magra, já tem a vantagem de estar mais próxima do padrão de beleza vigente. Você já percebeu faz tempo que “a busca pela perfeição é uma rotina”, e, com treze anos, já está cansada. Parabéns por se cansar. Tem gente que passa a vida toda buscando essa perfeição que jamais virá -- e não se cansa, não se revolta. 
A pergunta talvez seja por que nos cobram essa busca eterna pela perfeição. Bom, a pergunta está muito inocente, muito sem sujeitos. Quem nos cobra? A mídia, nossos pais, nossos amigos, quem nos educa, todo mundo. E quem é cobrada? Certamente mulheres são cobradas pela beleza física muito mais do que homens. E quando digo “são cobradas” não excluo, de jeito nenhum, que nós mulheres fazemos enormes cobranças a nós mesmas. Aprendemos a ser implacáveis umas com as outras. Aprendemos que temos que estar sempre competindo, que o prêmio é a aceitação dos homens, e que nossas armas são a aparência física. Parece que é só isso que importa, né? Só nossa aparência, como se não tivéssemos ideias e conquistas que não dependem em nada da aparência.
Acho que há duas vertentes principais que respondem por que somos cobradas pela perfeição física. A mais óbvia é: pra consumir. Se a gente estivesse satisfeita com nossos cabelos, não gastaria um monte de dinheiro com cremes especiais, hidratação, pintura, cortes mil, chapinha, fivelinha, e sei lá o que mais se usa no cabelo. Fazer mulheres se sentirem feias dá muito dinheiro.
A outra vertente -– que não necessariamente contraria a primeira –- é que fazer com que as mulheres se preocupem unicamente com sua aparência nos distrai de pensar em coisas mais importantes, como, sei lá, mudar o mundo e ser igual a um outro gênero aí. Trata-se de uma forma de opressão extremamente eficiente. Pense em quantas meninas sabem que serão julgadas por sua aparência e, por esse motivo, evitam falar em público. Tem mulher que não vai à praia por ter vergonha do seu corpo. Se a gente pensar bem, verá que a exigência pela perfeição começou a vir com tudo num momento em que as mulheres estavam cada vez mais fortes. Foi no final dos anos 60 que o padrão de beleza ficou mais magro (e, portanto, mais impossível de se atingir). Um dado que eu considero interessantíssimo é que a celulite foi inventada nos anos 70. Não que ela não existisse antes, óbvio, é só que não era algo visto como preocupante. Não era um problema, e, portanto, não havia nome pra esse “mal” que acomete tantas mulheres. E quem é mais fácil de dominar? Alguém autoconfiante, que se gosta, ou alguém que se odeia? Imagine como deve ser acordar todo dia, se olhar no espelho, e gostar do que vê, em vez de ficar procurando mil e um defeitos? Imagine o poder que essa atitude nos dá.
Uma pergunta que você deve fazer a si mesma é: por que você quer ser linda? Por que estar fora do padrão (não ser tão alta ou ter olhos claros) te aflige? A propaganda vendida pra gente é que pessoas lindas não têm problemas, que a vida delas é perfeita. Mas ninguém acredita nisso de verdade. A contrapartida é que mulheres feias (e temos nomes pra elas que não temos pra homens: baranga, mocreia, dragão, etc) não seduzem ninguém e morrem sós. A gente também sabe que isso é mentira. Afinal, a enorme maioria das mulheres no Brasil está fora do padrão de uma Gisele ou Ana Hickman, e mesmo assim continuamos transando, namorando, casando, enfim, tendo relacionamentos afetivos e sexuais.
Logo, você não ser tão alta ou não ter olhos claros só deve te preocupar se você quiser seguir carreira de modelo ou miss. E, claro, nem toda modelo ou miss tem olhos claros, mas digamos que grande parte siga um padrão de cor, altura, magreza, pernas quilométricas, cabelo liso e tal. Aí a gente lê as entrevistas delas e quase todas dizem que, quando tinham 12, 13 anos, eram consideradas feias na escola... Você quer mesmo fazer parte de um padrão de beleza em que até as modelos ou estão fora da realidade (todas são photoshapadas à exaustão) ou são vistas como feias? Pra quê?

P.S.: Recomendo muito que você veja o documentário Miss Representation. Ele fala de como a mídia insiste que o único poder que as mulheres têm é a beleza, e como esse “poder” nos restringe de lutar por formas mais construtivas de poder, como representação política e posições de destaque na nossa vida profissional.

Monday, April 23, 2012

OS BRINQUEDOS EDUCATIVOS DE CADA GÊNERO

Menina ou menino? Ish, não dá pra saber!

Outro dia, no post sobre uma professora americana que tomou a iniciativa louvável de trabalhar gênero já com as crianças da primeira série, um leitor, o André, perguntou: “Quais seriam os benefícios que meu filho teria por brincar de boneca?”. Bom, falar de benefícios já tem um caráter muito utilitarista. Não sei quais seriam os benefícios que seu filho teria brincando de carrinho, por exemplo. Desconheço até que ponto as crianças “se beneficiam” de brincar de alguma coisa, a menos que você considere diversão um benefício (eu considero), e aí brincar de boneca e de carrinho dá na mesma — ambas podem ser divertidas. Mas o fato é que todo brinquedo é pedagógico, didático, educativo, no sentido que a criança aprende com ele (não só com ele, lógico) o seu papel no mundo, e aprende o que se espera dela e como deve se comportar. Convenhamos: não é nem um pouco de coincidência que as meninas sejam incentivadas a brincar de casinha, trocar fralda de bebê, e fazer comidinha. Na vida real, é o que se espera delas também — que elas se restrinjam ao ambiente doméstico. Isso tudo é visto como “coisa de menina” (e de mulher). E depois tem gente que fala que a situação tá mudando, porque tem marido “que ajuda” em casa!
Concordo mais com uma mãe britânica que, junto com a irmã, lançou a campanha Pinkstinks (rosa fede). Ela teve a ideia depois de ver suas duas filhas numa loja de brinquedos considerarem que animais de fazenda seriam “coisa de menino”. Para essa mãe, “estamos regredindo”. Acho que sim. Infelizmente, estamos mesmo. Na minha infância e adolescência as lojas não eram tão divididas por gênero. Rosa não era a cor oficial das garotas. Eu podia ter um caderno de escola “neutro”. Podia usar sandália sem salto. Não existia isso de meninas de 5, 8 anos se maquiarem antes de ir pra escola. Chapinha pra criança? Nem pensar. Cirurgia pra adolescentes com menos de 18 anos eram raríssimas. Hoje a idade média de cirurgias plásticas no Brasil é de 15 anos. Então sim, tá pior (e aqui noto um descompasso gigante entre o que muitas acadêmicas feministas por quem tenho o maior respeito pesquisam e escrevem sobre eliminação dos gêneros e o que se vê na vida real).
Nunca as crianças estiveram tão generizadas. Talvez isso se deva ao capitalismo estar cada vez mais voraz. Portanto, talvez compense do ponto de vista mercadológico lançar uma versão de Palavras Cruzadas ou Banco Imobiliário ou salgadinhos só para meninas. Talvez seja porque hoje consegue-se saber o sexo do bebê muito antes do nascimento. Então o bebê já é tratrado como menino ou menina ainda dentro do ventre. Quando nascer, a menina já encontrará o quarto decorado de rosa e estará pronta pra assumir seu lugar de “princesinha do papai”. O menino encontrará o quarto azul com motes esportivos e bélicos, e será preparado para protagonizar uma vida de aventuras — longe do ambiente doméstico, que isso é coisa de menina.
Uma americana fez um exercício formidável que eu gostaria que fosse feito aqui (alguém se habilita? Já tem estudo acadêmico?). Ela analisou uns trinta comerciais de TV que tentam vender brinquedos para meninos de 6 a 8 anos, e outros trinta para meninas da mesma idade, e anotou o vocabulário usado para comercializar cada produto. A lista original pode ser vista aqui. Como usei e continuo usando esses gráficos em algumas palestras, decidi traduzir as palavras. Deu mais ou menos isso para os brinquedos de meninas:Praticamente tudo relacionado à moda, estilo, aparência física, e maternidade. A palavra amor é a que a mais aparece nos comerciais, mas é só ver quem lhe faz companhia pra gente supor a que tipo de amor os publicitários se referem. Amor por consumir, né?
Este é o gráfico das palavras que mais aparecem nos comerciais pra meninos:O vocábulo mais repetido é batalha. Tem também poder, heróis, ação, derrotar, transformar, destruir etc. Amor e bebês não existem para garotos.
O Feminist Frequency também fez um vídeo em que analisa alguns desses comerciais. Concluiu que, pros meninos, estimula-se a competitividade e a agressividade, mas também a construção de coisas (nem que seja para destruí-las em seguida). Pras meninas, tudo gira em torno de prendas domésticas e da sua função decorativa. Aí a gente se pergunta por que há muito mais engenheiros que engenheiras, ou por que apenas 3% dos programadores de videogame são mulheres. Sério que com toda essa lavagem cerebral desde cedo ainda tem gente que acredita em “gosto pessoal” como fator determinante pras escolhas que fazemos na vida?
Não vou entrar na questão de que, num mundo mais humano, a propaganda para menores de 12 anos seria proibida (como é na Suécia). Ponto. Este é um assunto complexo que merece um post só pra isso, mas eu não canso de me admirar ao ver pessoas defendendo a total falta de regulamentação pro capitalismo, porque dizem — quem deve tomar as rédeas da situação e domar as crianças são os pais. Nem pensar em tornar a vida dos pais um tiquinho mais fácil? Por que fazer os pais competirem com indústrias poderosas que, só nos EUA, gastam 17 bilhões de dólares em estudos de como influenciar as crianças?
Mas, voltando ao questionamento do André sobre os benefícios do filho brincar com boneca, eu queria devolver a pergunta. Você vê algo de errado num mundo que relaciona todos os brinquedos pra meninos com poder, força bruta e guerra? Esses brinquedos, e toda a cultura de “menino não chora” em que seu filho está inserido, não guiam o modo como ele tentará resolver conflitos? E digamos que você dê o azar de ter uma filha. O que esses brinquedos ensinariam a ela? Por que brincar de boneca seria benéfico pras meninas, e não pros meninos? Que tipo de benefício têm as meninas aprendendo que é sua missão no mundo cuidar da casa? E meninos não namoram, se casam e têm filhos quando crescem?
Naquele mesmo post, um comentarista anônimo já veio com uma enorme certeza: “Se dar boneca pros meninos brincarem não é incitar o homossexualismo, então me digam o que é!”. Uau! Santa ignorância, Batman! O leitor confunde sexo biológico com orientação sexual. Bom, assim como meninas não se tornam lésbicas por brincarem de carrinho ou de espada, meninos não viram gays por, ugh!, tocarem numa boneca. E, como a gente vive num mundo em que as “incitações” à heterossexualidade são contínuas e gritantes, você não deve se preocupar. Fecho com Guacira Louro quando ela questiona: “Se a identidade heterossexual fosse, efetivamente, natural [...], por que haveria a necessidade de tanto empenho para garanti-la?” De fato, o medo que temos em combater a homofobia nas escolas (porque isso geraria toda uma multidão de gays e lésbicas!) é um sinal inequívoco da fragilidade da nossa heterossexualidade. Como é fraca a nossa identidade sexual se um menino brincar de boneca o “incitará” a ser gay!
A certeza homofóbica do leitor anônimo não tem muita salvação, mas a dúvida (vou acreditar que genuína) do André a respeito dos benefícios que seu filho teria por brincar de boneca pode ser ampliada: que benefícios teria o nosso mundo se as crianças pudessem crescer para ser tudo aquilo que quiserem ser, sem estar limitadas às amarras de seu gênero?

Tuesday, April 17, 2012

"ESTOU RODEADO POR PRECONCEITUOSOS"

Para a seção de perguntas e respostas, recebi este email de um leitor. Depois do texto volto com algumas considerações.

Lola, meu nome é Augusto, tenho 17 anos, sou gay não-assumido. Desde o meio desse ano eu mudei muito, me afirmei como ateu, aceitei minha homossexualidade, passei a ler blogs feministas (e amo muito o seu). Mas tem um problema, eu não tenho coragem de me assumir assim. No meu colégio me sinto muito avançado para a minha idade. Todos que me rodeiam, homens e mulheres, expõem opiniões machistas e homofóbicas. Isso que eu estudo em um colégio aberto (antes estudei em um colégio totalmente rígido). Sempre tive amigos, as pessoas sempre gostavam de ficar perto de mim, sou um cara agradável. Mas com a mudança na minha vida passei a não gostar das pessoas. Quando qualquer um fazia uma piada machista, como não sou nem assumidamente ateu, nem gay, nem feminista, não retrucava, guardava a minha raiva e ignorava. Depois de um tempo vi que afastei todos de mim. Todos eram machistas e homofóbicos, até mesmo as meninas. Eles e elas não tinham opiniões próprias. Seguiam caras como Rafinha Bastos. Os debates na sala de aula eram unânimes, por exemplo, na invasão da USP pela polícia, todos defendiam os policiais na USP, até meus professores.
Quando passei a ignorá-los, eles começaram a falar de mim. Eu passei a descontar minha raiva em coisas bestas. Como não tinha coragem de defender meus argumentos com medo de ser julgado, passei a defender coisas torpes, como uma nota em uma prova ou uma decisão errada de um professor. Eu era irônico e sarcástico.
Até que um dia um professor me tirou de sala. Disse um montão de coisas na minha cara, que eu ficava zoando ele. Depois disso, eu rodei o colégio inteiro, defendendo o que eu acreditava, que ele agiu errado em me tirar de sala. Uma coisa boba eu fiz virar um alvoroço. Acabei discutindo novamente com ele.
Continuei levando minha vida assim. Inventava motivos pra brigar. Todos passaram a dizer que eu era rude, briguento, que eu queria tudo do meu jeito. Eles diziam: "Você é muito inteligente, por que você faz isso?" Pessoas preconceituosas falavam isso. Eu tinha vontade de falar: "Se eu sou inteligente como você diz, você deveria saber que estou fazendo a coisa certa". Internamente eu queria que eles vissem que eles todos estavam errados. Mas eles não veem isso até hoje.
Sabe, Lola, me machuca. Me machuca porque sou respeitado, e sou amado, mas é tudo uma farsa. Eu odeio todos (há poucos que se salvam), e não posso dizer isso a eles. Minha família é homofóbica, retrógrada. Eu tenho medo de perder essa estabilidade financeira. Já pensei em me matar, e não quero que esses sentimentos voltem. Odeio ver que meus problemas não têm solução. Odeio as pessoas serem tão ignorantes, pelo menos essas que me rodeiam são. E pra mim tudo é tão simples de entender, mas elas se fecham com conceitos religiosos e conservadores. E com aquelas verdades, que só são verdades pra elas.
Acabei falando demais, mas eu queria saber o que eu faço. É cruel demais mentir quem eu sou para ter essa estabilidade (esta que me mantem vivo)? Se eu realmente fosse excluir todos eles da minha vida acabaria sem ninguém. Eu acabaria excluindo todos do meu Facebook (sempre postam fotos machistas ou comentários homofóbicos que tento deixar de lado.)
Na escola briguei com meu professor nessa semana, ele foi grosseiro comigo na frente da turma e antes disso ele vivia fazendo piadas homofóbicas. Não sei como vai ser daqui para frente, minha mãe fica me cobrando ir na aula mas eu não tenho vontade de ir mais. Ela perguntou se eu queria mudar de colégio mas eu não acho que eu deveria mudar sem antes contar sobre mim (homossexualidade, ateísmo, feminismo) para ela. Não quero mudar de colégio e não resolver o problema. Eu tenho que contar, eu tenho que ser aceito e para isso eu tenho que tomar uma atitude corajosa na minha vida e enfrentar realmente os meus problemas e não escondê-los debaixo do tapete. Eu sei que esta é a coisa certa a fazer.

Minha resposta: Querido Augusto, assumir-se, ser feliz do jeito que é, ser aceito pelas pessoas próximas e pelo mundo, é a coisa certa a se fazer. Mas, sinceramente, pode não ser a coisa certa a se fazer agora. Você só tem 17 anos e mora com seus pais. Pra que falar com eles sobre a sua sexualidade neste momento? Vai chegar a hora pra isso, de preferência quando você for independente. Infelizmente, quando a gente é jovem tem que engolir muitos sapos mesmo. Talvez tenhamos que engolir sapos a vida toda, mas criamos uma casca grossa, uma proteção contra as ofensas do mundo. Você ainda está muito vulnerável.
Se sua mãe está te dando a opção de mudar de escola, mude. Mas chegue lá com outra cabeça. Nada de criar confusão à toa, como você mesmo diz que fez. Você já se deu conta que a maior parte das pessoas -- segundo você, todo mundo -- é preconceituosa. É verdade, é lamentável, e estamos lutando para mudar esse quadro. Mas vai demorar muito. Pode ser que durante a sua vida a maior parte da população ainda seja preconceituosa. Mas ficar revoltado a sua vida toda não vai ajudar em nada. É difícil, mas temos que nos desligar de vez em quando, e escolher as nossas lutas. Não dá pra enfrentar o mundo inteiro, ainda mais sozinho. Isso não quer dizer que você deve se conformar. Mas não se estresse à toa. Na sua nova escola, tente começar um núcleo de estudos de gênero, ou de crítica da mídia. Só que sem uma atitude superior de "eu sei tudo e vocês não sabem nada".
Com o tempo, você vai ir conhecendo gente que pensa como você, e verá que há um monte de pessoas que não aguentam mais os preconceitos. Até certo ponto, quando temos sorte, podemos escolher nossos relacionamentos e nossas amizades. Frequentemente nos envolvemos só com pessoas como a gente e levamos um choque de realidade ao constatar que fora da nossa bolha o mundo segue preconceituoso e cruel. Mas acho que precisamos de um refúgio. Você pode ter uma timeline no Twitter ou um grupo de amigos no Facebook que deteste CQC e afins tanto quanto você detesta. Por enquanto, por você viver numa cidade pequena, você não conhece muitas pessoas que pensem fora da caixinha. Mas vai conhecer, e a internet está aqui pra isso.
Você não precisa se assumir gay, ateu e feminista para deixar claro pras pessoas com quem convive que aquelas piadas que elas fazem te incomodam. Explique o porquê. Em vez de dizer pras pessoas que elas são preconceituosas, diga que aquilo que elas disseram foi preconceituoso. E tenha paciência para explicar pra quem quiser ouvir. Esse tipo de atitude certamente não te tornará popular, mas você tem todo o direito de se manifestar e de plantar um ponto de interrogação na cabeça dessa gente. Pode ser que as pessoas descartem seus protestos, te considerem ridículo (afinal, é "só uma piada"), mas pode ser que algumas fiquem na dúvida e reflitam e mudem de ideia. Não seja tão duro com elas. Lembre-se que somos produtos de uma época e lugar, de uma cultura, de uma ideologia dominante. Nem quer dizer que todas as pessoas preconceituosas sejam necessariamente ruins. Elas podem ser péssimas no que se refere à tolerância para a diversidade, mas podem ter lados bons (eu, como professora, jamais descarto um aluno por ele ser preconceituoso. Tento explorar os pontos de contato que temos em comum para assim, se possível, poder fazê-lo questionar suas certezas).
Boa parte das pessoas vai viver a vida toda sem nunca ter seus preconceitos contestados. Elas já têm a sua zona de conforto, já vivem nela. Cabe a nós encontrar a nossa. Quando temos uma rede de amizades que nos dá apoio, que nos proporciona bem estar, que alimenta a nossa autoestima, fica mais fácil lutar para mudar o mundo. Não se desespere -- por mais desesperador que o cenário pareça. Você é muito jovem, e tem uma vida longa pela frente pra conquistar seus (nossos) ideais. Comece já, mas vá com calma. Devagar e sempre.

P.S.: Comece assinando a PEC do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) pelo casamento civil igualitário. Nem mais, nem menos: os mesmos direitos com os mesmos nomes.

Tuesday, March 20, 2012

É XENOFOBIA SER CONTRA COREANO COMER CARNE DE CACHORRO?

A Mayara me enviou um email (que dialoga um pouco com o último guest post) cheio de questões interessantes. Reproduzo só parte dele e, embaixo, respondo. Lá vai a parte da Mayara:

Tenho visto, ultimamente, notícias sobre apreensão de cães em freezers de restaurantes, geralmente coreanos, aqui no Brasil. Minha família é da região de Piracicaba-SP, onde há grande fábrica de uma montadora coreana. Essa montadora utiliza mão-de-obra de muitos coreanos que foram se instalar ali pela região. Pois bem, obviamente, alguns restaurantes coreanos foram abertos por lá. E a polícia de Piracicaba tem feito blitzes em alguns deles, encontrado cães mortos acondicionados em freezers, para serem servidos como alimento para os coreanos da região. Parece que mais 8 mil famílias de coreanos chegarão a Piracicaba para reforçar o trabalho na fábrica e, claro, vão precisar de mais cães.
Em São Paulo, há muitos restaurantes coreanos e vi uma reportagem, há alguns meses, que mostrava que várias famílias estavam pegando cães de rua para vender a esses restaurantes. Inclusive, uma cena triste, que mostrou a polícia entrando em uma casa de pessoas simples, mas não miseráveis, apreendendo todos os cães que ali se encontravam, porque essa família foi denunciada por recolher cães de rua para vender aos coreanos. No meio dos cães, havia dois deles que não eram para venda, mas de estimação da família. A reportagem mostrou as crianças, filhas dos donos da casa, chorando muito, desesperadas, pois aqueles dois cães, no meio dos outros apreendidos por serem destinado a comida em restaurantes, eram deles há alguns anos.
Acho que já deu pra vc entender que, agora, no Brasil, temos esse tipo de comércio que é clandestino. Há leis que punem esse tipo de coisa. É proibido por lei servir animais de estimação em restaurantes. Maus tratos são punidos com multa e cadeia, se matarem o animal, a pena é maior. Há distinção entre bichos de estimação e animais criados para abate e alimentação.
No CQC da semana passada, na bancada, o Marcelo Tas fez uma encenação, como era reestreia, de que a Globo havia mandado um presente para eles. Abriu uma grande caixa, e de lá saiu um gato preto, com cara de assutado, e eles riram, dizendo que a Globo havia mandado um gato preto como "mau agouro", desejando má sorte a eles, na reestreia. Depois, apareceram comendo churrasquinho, como se tivessem matado o gato preto azarado e o comido.
Muita gente protestou. Eu não sou de nenhuma entidade de proteção aos animais, mas achei de péssimo gosto, pra variar. O CQC sempre se superando...
Vi muita gente dizendo que quem reclama dessas coisas, sobre matar cães pra comer e servir em restaurantes coreanos ou contra esse tipo de "piada" com os bichos, é gente hipócrita, pois "come carne". E que se queremos que certos tabus caiam, por exemplo, contra homofobia, contra o machismo, não podemos alimentar outros tabus. Nossa! Fiquei meio passada. É isso mesmo? Uma coisa pode ser misturada no mesmo balaio de outra?
E fui xingada de xenófoba, assim como alguns amigos meus, por nos indignarmos que sirvam cães em restaurantes, vendam-nos para esse fim, e por dizermos que, se no Brasil é proibido fazer isso por lei, que esta deve ser cumprida.
Lola, não sou legalista dessa forma, claro que sei que há leis que devem ser peitadas, até porque, se não fossem, não teríamos nem saído da ditadura. Mas essa sobre matar bichos que são de estimação, para os brasileiros, não acho que deva ser "peitada". Se eu vou a outro país, há certos costumes que devo observar por lá, não é?
É mesmo xenofobia ser contra restaurante coreano servir carne de cachorro? Xenofobia é isso? Quebrar tabus não seria quebrar para coisas "boas", para boas causas? Enfim, eu sou contra coreanos virem ao Brasil e se acharem no direito de comer cães! Estou errada? Preciso mudar minha mentalidade?

MINHA RESPOSTA: Eu não sou a pessoa mais adequada para falar de tradições, rituais e costumes, porque estou me lixando pra eles. Modelo patriarcal de casamento (aquele em que o pai entrega a filha pro noivo) é tradição, e eu quero que acabe. Touradas, farras do boi, rinhas de galo, tudo muito tradicional -- e já deviam ter sido proibidas há décadas. Mutilação feminina para que a mulher seja aceita na sociedade? Super tradicional, e daí? Quero mais é que esses costumes morram. Eu não respeito muitas das tradições da minha própria cultura, e não vou respeitar as dos outros.
Não nasci pra ser diplomata. E quando digo isso, não é só porque não tenho apreço às tradições, mas também porque nem morta que eu iria comer alguma coisa que não gosto só pra ser educada.
Comida é algo cultural. Desde as primeiras semanas de nossas vidas, nos ensinam o que nossa cultura considera comestível e o que não considera. Bebê vai levar tudo pra boca, e é nossa cultura que vai dizer que aquele gafanhoto (pra não pensar em inseto pior) que a criança pegou não é pra ser mastigado (trocando em miúdos: "Argh! Tira isso da boca, menin@!").
É especismo sim, e também é cultural, que alguns animais sejam vistos como comida, outros como de estimação, outros como bichos nojentos. E é terrível quando a mesma cultura considera o mesmo animal comestível e de estimação. A cena mais chocante de Roger e Eu, documentário de Michael Moore sobre a falência de toda uma cidade de Michigan quando uma montadora de automóveis vai embora pra se instalar num país mais baratinho, é aquela em que uma americana pobre vende coelhos. Ela vende os mesmos coelhos para servirem de estimação ou de comida, o comprador que decide.
Eu não como coelho porque, na minha cabeça, antes de serem carne, são bichos fofinhos, orelhudos e saltitantes. Mas sei que é hipocrisia minha, porque também considero bois, vacas, porcos e galinhas -- todos bichos que eu como -- animais bonitos e queridos. Só que aí a solução, a meu ver, não é sair por aí comendo todos os bichos que encontro pela frente, e sim deixar de comer carne. Ponto. Estou ciente de como o ser humano explora os animais, odeio isso, e gostaria de ser vegana, ou pelo menos vegetariana. Mas ainda não estou pronta. Meus hábitos alimentares são ruins o suficiente pra eu não ter muito que comer se eu fosse vegana. E eu ainda adoro o gosto da carne. O que tento fazer é reduzir o consumo de carne o máximo possível. E nunca, jamais, criticar quem é mais nobre e altruísta que eu porque conseguiu deixar de comer carne. Tenho grande admiração por vegetarianos, veganos, defensores de animais em geral.
Eu contribuo com cem reais por mês com uma ONG de Fortaleza que ajuda animais abandonados. Amo cães e gatos igualmente, e jamais poderia me imaginar comendo esses animais (espero nunca ter comido churrasquinho de gato na vida). Se eu visse uma vaca antes de ser abatida, não poderia comê-la. Quando eu era bem novinha, presenciei uma vizinha matando uma galinha -- e fiquei sem comer frango por um ano. Depois de ver Babe, o Porquinho Atrapalhado, não comi presunto e afins durante meses. Creio, sinceramente, que a maior parte de nós só é capaz de comer carne se não pensar de onde vem essa carne. Imaginar animais levando uma vida infernal, confinados e explorados, e depois sendo degolados com requintes de crueldade, é de estragar qualquer apetite. Somos hipócritas.
Não acho, de jeito nenhum, que coreanos ou quem quer que seja deva poder comer cachorro. Nem aqui nem na Coreia. Como eu já disse, não é por alguma coisa ser tradição que a gente tenha que falar "amém" pra ela. Mas acho que a xenofobia não está em querer proibir coreanos de comer carne, e sim em associarmos coreanos com comedores de cães. Isso está muito longe de ser verdade. Na escola (internacional) onde estudei, em SP, convivi durante anos com um monte de coreanos. Tudo gente boa, com algumas tradições problemáticas (tipo coreano só poder se casar com coreano, e outras visões bem conservadoras), mas eram amigos simpáticos e perspicazes. Ninguém comia cachorro. Aliás, eles se ofendiam com a sugestão.
Eu comi comida coreana (que é excelente, apimentada, gostosa) inúmeras vezes, e não havia qualquer menção de
carne de cachorro no cardápio. Não sei se você lembra das matérias sobre a Copa do Mundo de 2002, realizada na Coreia do Sul. Os jornalistas de toda parte, não muito criativos, insistiam na pauta da carne canina. E os coreanos cansavam de falar que, embora aquele fosse um costume milenar, estava caindo. Jovens coreanos acham horrível a ideia de se comer cachorro, que é animal de estimação pra eles. Em Seul é praticamente impossível encontrar prato feito com cachorro. Em algumas províncias isso ainda existe, mas é cada vez mais raro. Se já na Copa de dez anos atrás os coreanos se apressavam em dizer que não comiam cães, imagina hoje...
Portanto, há várias questões. Primeiro que é exagero pensar que coreanos comem cachorro desenfreadamente, ou que todo restaurante coreano serve carne canina. São casos isolados. Segundo que, se comer carne de cão está por baixo na Coreia, não é nada legal que coreanos queiram consumi-la no Brasil -- um país que só aceita cães como animais domésticos (e que mesmo assim os trata muito mal). Vamos supor que uma família da Somália se mude pra cá, e queira continuar o costume de mutilar os genitais de suas filhas. A família deve poder fazer isso em nome da tradição? Óbvio que não! Nem na Somália, nem aqui. Mas é xenofobia pensar que todas somalis sofrem mutilação genital.
Um terceiro ponto é que o consumo de carne canina no Brasil está relacionado a status. É coisa pra coreano rico, assim como brasileiro rico vai a churrascarias chiques pra comer carne de caça. Ricos fazem essas coisas como demonstração de poder. Pra se diferenciar da gentalha. Pra provar que são especiais e que o dinheiro compra tudo. Se eu já detesto tradições, vou gostar de tradição de rico esnobe e sem empatia? Pra mim, rico querer comer carne proibida é como gostar de snuff film (aquele tipo de filme pornô que é meio lenda urbana, em que mulheres são estupradas, torturadas e mortas de verdade diante de uma câmera). Snuff film é coisa de rico. Só eles podem pagar uma vida. Só eles pra financiarem a impunidade.
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