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Wednesday, May 30, 2012

GUEST POST: GORDOFOBIA QUE VEM DE CASA

Antes e depois: Sou gorda. Me deixe em paz.

M. é muito autoconfiante, mas me enviou este email cheio de perguntas difíceis. Quem não acredita em gordofobia deveria ler seu relato duas vezes. Quero lembrar que há diferença entre discriminação e preconceito. Discriminação é algo mais tangível, como não contratar uma pessoa por ela ser gorda (o que de fato acontece, mas é dificílimo de provar). Preconceito é o que a gente vê nas caixas de comentários daqui sempre que toco no tema da gordofobia. Inclusive, negar que gordofobia existe é um tipo de preconceito. Fiquem com o relato da M.

Eu sou uma garota de 20 anos gorda. Nasci gorda e assim sou desde então. Obviamente, eu sou muito mais que isso. Estudo jornalismo na melhor instituição do país na área (ou pelo menos é o que me fizeram acreditar), falo inglês fluente com todos certificados de Cambridge possíveis e espanhol com todos certificados de Salamanca e mais um monte de outras coisas que as pessoas dizem ser muito importantes. Além disso, eu sou gorda e bem resolvida. Olha que absurdo!
Nos últimos meses, fiz o processo seletivo de duas grandes empresas de comunicação desse país e fiquei entre os finalistas em ambas. Por razões que desconheço, não fui chamada para trabalhar em nenhuma das duas. Sofri, claro. Mas preferi encarar como coisas da vida.
Acontece que, para minha família, uma explicação assim não basta. Afinal, com tanto dinheiro investido em intercâmbio, viagens para Europa, aulas disso e daquilo, ser chamada por essas empresas era o óbvio. Então, foi impossível que não fosse constatado o seguinte problema: é porque eu sou gorda. Não serei ninguém enquanto não emagrecer.
Meu pai fez questão de imprimir inúmeras pesquisas falando que ninguém quer contratar gordos. Minha mãe me implora todo dia para eu emagrecer. Diz que é saúde. Agora, eu nado cerca de 10 km facilmente no mar sempre que vou à praia, não consigo me ver como alguém sem saúde.
Então, mando esse e-mail como um desabafo: será que é uma tristeza tão horrível ter uma filha gorda? (Leia-se 75kg e 1,60m). E será que essa sociedade chegou nesse nível de podridão na qual uma pessoa, por mais capacitada, articulada que seja, não tem a chance de competir de igual para igual com as outras por questões estéticas?
Outro dia perguntei para minha mãe (a mulher que me ensinou a buscar independência, a não aceitar que nos limitem por gênero, cor ou etc) o que ela faria se eu fosse negra ou pessoa com necessidades especiais. Perguntei se ela pediria para eu embranquecer ou nascer de novo, nos moldes ditos perfeitos. Ela disse que não. Então eu lhe perguntei: por que eu tenho que emagrecer para agradá-la? Ela não soube responder ao certo.
Eu namoro um cara ótimo, tenho muitos amigos, sou super vaidosa... enfim, não faço do meu peso muleta para nada. Entretanto, parece que isso incomoda muito algumas pessoas ao meu redor. Na cabeça delas, eu TINHA que estar me esforçando para emagrecer. Não consigo compreender essa lógica. Por que eu deveria estar infeliz comigo mesma?
Espero que esse e-mail não seja muito maluco e sem sentido... é só que já me sinto íntima e queria dividir um pouco dessa história de preconceito que vem de casa.

Friday, May 18, 2012

COMECE UMA REVOLUÇÃO: AME O SEU CORPO

Nossa. Adorei esta coluna de conselhos que encontrei. Uma mulher com mais de 50 anos, casada com o mesmo homem durante décadas, se separa. E começa a se preocupar com o que encontrará pela frente em termos de vida sexual, e como lidará com seu corpo, que não é mais jovem. Esta é a resposta da colunista, que vale pra todas as pessoas de todas as idades. Minha tradução pífia. Leia tudo aqui.

“Você não tem que achar uma maneira de fazer com que seu futuro amante pense que você parece a Angelina Jolie. Você tem que aceitar o fato que você não se parece nem nunca se parecerá com ela.  […] Você não tem que ser jovem. Você não tem que ser magra. Você não tem que ser 'gostosa' da maneira que um senso comum estreito construiu essa palavra. Você não tem que ter pele lisa ou uma bunda dura ou um conjunto de seios eternamente empinados. Você tem que encontrar um jeito de habitar o seu corpo enquanto realiza seus desejos mais profundos. Você tem que ter coragem suficiente pra construir a intimidade que você merece. Você tem que tirar todas as suas roupas e dizer, Estou bem aqui.
Há tantas revoluções minúsculas numa vida, um milhão de maneiras que temos de crescer e mudar e ficar bem. E talvez o corpo seja nossa fronteira final. É o único lugar que não podemos escapar. Estamos lá até acabar. A maior parte das mulheres e alguns homens passam suas vidas tentando modificá-lo, embelezá-lo, fazer com que seja o que não é, ou escondê-lo pelo que é. Mas e se não fizéssemos isso?
É essa questão que você precisa responder. É isso que trará seus desejos profundos pra sua vida. Não: será que os velhos homens caídos vão aceitar e amar o meu corpo velho e caído? E sim: o que há do outro lado dessa revolução minúscula e gigantesca em que eu passo do ódio ao amor a minha própria pele? Que frutos essa liberação em particular proporcionaria?
Não sabemos -– como uma cultura, como um gênero, como indivíduos, você e eu. O fato de não sabermos é o verdadeiro fracasso do feminismo. Nós nos responsabilizamos pela ação, nos demos a autoridade, colhemos os elogios, mas nunca paramos de nos preocupar sobre como nossas bundas ficam no jeans. Há muitos motivos pra isso, um bando de Grandes Coisas Sexistas Que Podemos Culpar Com Razão. Mas no final, como tudo, a mudança depende de nós. […]
Sei que nós mulheres estamos sempre sendo queimadas pela chama constantemente acesa da beleza pornô e de Hollywood, mas na minha vida real descobri que os homens com que vale a pena transar estão muito mais abertos ao corpo feminino em suas variadas formas, muito mais do que pensamos. Nua e sorridente -– esses são os únicos requisitos que um amigo meu quer numa amante. Talvez isso aconteça porque homens também são pessoas com corpos cheios de medos e inseguranças e defeitos. Encontre um desses homens. Um que faça você pensar e rir e gozar. Convide-o para sua pequena revolução do seu belo mundo novo”.

Saturday, May 12, 2012

GUEST POST: ESTOU MAIS SEGURA

As god is my witness, eu raramente publico elogios que recebo. Publico muito mais desaforos e insultos do que declarações de amor. Só que a proporção dos afagos é, olha, não sei os dados estatísticos com certeza, de pelo menos dez pra um. Então permitam-me publicar este aqui, que foi mandado pela D. já faz um tempinho. 

Conheci seu blog por acaso há pouco tempo e me apaixonei!
Tenho 20 anos e acho que como a grande maioria, eu tinha uma ideia oposta do feminismo, mas através dos seus textos e de outros blogs que passei a visitar, abri meus olhos pra uma outra realidade. Fui notando como eu era e ainda sou cheia de preconceitos, como criticava aquelas mulheres "que ficavam com todo mundo" e como meus pais ainda acreditam no patriarcado e me criaram pra ser "moça pra casar".
Nunca me achei muito bonita, sempre tive uns problemas com a minha aparência, pois não poderia escapar da ascendência portuguesa e sou peludinha, hehe, e como várias outras, queria ser mais magra. Mas lendo mais sobre o feminismo, comecei a me sentir bem na minha própria pele. E hoje passei por uma situação que me impulsionou a escrever pra você. Estou saindo com um cara bem legal, inteligente, mas que não é nenhum modelo de beleza, ele é daqueles nerds, sabe, e foi isso o que me atraiu nele, o conteúdo e não só o exterior. E pra mim, ele pensava da mesma forma.
Durante uma conversa esta tarde, ele me falou que eu tenho um certo "bigode" e que eu deveria me depilar... com frequência. Eu achei algo estranho, vindo de um cara culto e bem-educado, mas eu não abaixei a cabeça e não fui correndo pra uma pinça mais próxima. Me senti ofendida, porém percebi que se não fosse o feminismo e seu blog pra me fazerem sentir linda do jeito que sou, iria desabar em lágrimas e provavelmete mudar algo que, na verdade, nunca me incomodou.
Por isso escrevo este email pra você, pra agradecer por ter me tornado uma pessoa mais segura. Acredito que ainda tenho um longo caminho pela frente pra me aceitar plenamente e deixar de lado certos preconceitos tão arraigados em mim.
Por favor, continue com seu blog maravilhoso para que muitas outras meninas por aí comecem a amar o que papai-do-céu nos deu. [Nota: D, se deus existe, o que não acredito, deus é mãe].
Um beijo enorme! E obrigada!

Sunday, April 22, 2012

DE CIMA PRA BAIXO

Pessoas queridas, discorram sobre o assunto do momento: a capa da Veja, que muitos vêm chamando de eugenista por ela supor que o suprassumo da civilização é o homem alto... que, evidentemente, está bem longe de ser o protótipo do brasileiro.
E claro que a Veja, revista campeã em vender dietas fajutas, não podia apenas opor um homem alto a um homem baixo. Não, o homem baixo tem também que ser gordo!
Já vi várias pesquisas (não conseguirei citar nenhuma agora) que mostra que os altos recebem salários maiores que as outras pessoas. E que os salários dos gordos são sempre piores. Mas isso, pra mim, é uma das provas de que a gordofobia existe, e é bem fortinha. Acho incrível como o mesmo pessoal que adora zombar de gordos nega veementemente que qualquer coisa parecida com gordofobia exista...
Gostaria de ficar aqui e papear com vocês, mas daqui a pouquinho pego avião pra Salvador. De lá vou de ônibus pra Jacobina, que fica a uns 330 km da capital. Pensei que seria mais próximo. Vou sair daqui de Fortaleza às 14 horas e só chegar em Jacobina perto da meia noite! Amanhã e quarta darei um minicurso e uma palestra na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). E as duas coisas serão em inglês! Pena que o tempo será corridíssimo. Duvido que sobre alguma horinha pra conhecer cachoeiras e quetais...
Terça bem no final da noite estarei de volta, pronta pra dar um monte de aulas na quarta, já de manhã. Tem posts programados pra todos os dias. Espero que vocês gostem do de amanhã. Abraços e até breve!

Tuesday, April 3, 2012

MANIFESTO DA LIBERTAÇÃO DAS GORDAS

Outro dia me deparei com este manifesto escrito em 1973. Nem sabia que naquela época já existiam movimentos de Fat Acceptance (aceitação da gordura; prefiro usar um termo mais abrangente: aceitação do corpo). Pensei que fosse um fenômeno muito mais recente. O interessante de pesquisar este tema é que a gente começa a ver não apenas inúmeras conexões entre o feminismo e o movimento de aceitação do corpo, como também entre fat e queer (que significa homossexual, no caso, lésbica, já que a cobrança pelo corpo perfeito é muito mais frequente para mulheres que homens; portanto, há bem mais mulheres entre ativistas de movimentos de aceitação do corpo do que homens. Mas queer não se resume apenas à homossexualidade. Inclui também ser diferente). Tanto gord@s quanto gente queer são pessoas à margem, o que torna ainda mais errado que tantos gays sejam gordofóbicos. Bom, o manifesto não fala nisso. Tomei a liberdade de traduzi-lo. Escandalizem-se:

1. Acreditamos que as pessoas gordas têm todo o direito ao respeito e ao reconhecimento humanos.
2. Estamos zangadas com o mau tratamento devido a interesses comerciais e sexistas. Esses têm explorado nossos corpos como objetos do ridículo, criando assim um mercado imensamente lucrativo que vive de vender a falsa promessa que esse ridículo pode ser evitado ou aliviado.
3. Vemos nossa luta como aliada de outros grupos oprimidos contra classismo, racismo, sexismo, preconceito etário (ageism), exploração financeira, imperialismo, e outros.
4. Exigimos direitos iguais para pessoas gordas em todos os aspectos da vida, conforme prometido pela Constituição dos EUA. Exigimos igual acesso a bens e serviços na esfera pública, e um fim à discriminação contra nós nas áreas de emprego, educação, instalações públicas, e serviços de saúde.
5. Destacamos como nosso principal inimigo a assim chamada indústria de “redução”. Esta inclui clubes de dieta, spas, médicos de dieta, livros de dieta, comida de dieta, suplementos de comida, procedimentos cirúrgicos, inibidores de apetite, drogas e equipamentos de redução. Exigimos que essa indústria se responsabilize pelas suas promessas falsas, reconheça que seus produtos são perigosos à saúde pública, e publique estudos de longo prazo provando qualquer eficácia estatística dos seus produtos. Fazemos essa exigência sabendo que mais de 99% de todos os programas de perda de peso, quando avaliados num período superior a cinco anos, fracassam totalmente, e também sabendo dos perigos extremos e comprovados de mudanças frequentes no peso [o efeito sanfona].
6. Nós repudiamos a “ciência” mistificada que falsamente afirma que não somos saudáveis. Isso tem criado e mantido discriminação contra nós, em conluio com os interesses financeiros das empresas de seguro, da indústria da moda, das indústrias de redução, das indústrias de comida e medicamentos, e das instituições médicas e psiquiátricas.
7. Recusamos ser subjugadas aos interesses de nossos inimigos. Queremos retomar o poder sobre nossos corpos e nossas vidas. Estamos comprometidas a buscar esses objetivos juntas. Pessoas gordas do mundo, uni-vos! Não temos nada a perder.

Saturday, March 24, 2012

GUEST POST: A INSISTÊNCIA EM DOMAR CABELO CRESPO

Por que o segundo tipo é tido como o padrão aceitável?

Adorei este comentário que a Yssy deixou no post Feio é o seu racismo, e decidi reproduzi-lo aqui. Ele trata do padrão de beleza racista que determina que só um tipo de cabelo é bonito, e como isso afeta a autoestima de montes de meninas. Aproveitando o tema, ontem recebi vários tweets de leitoras indignadas com o novo anúncio de uma marca de lingerie.Vamos boicotar a marca, pessoal. Esta e todas as outras que insistem em ser racistas num país em que mais de 50% da população é negra ou parda. Não devemos tolerar racismo e outros preconceitos em lugar nenhum, menos ainda num país com maioria negra. Temos poder como consumidor@s e cidad@s. Da próxima vez que ouvir a expressão cabelo ruim, critique.

Lola, este post me tocou especialmente porque eu cresci exatamente com esse padrão de beleza martelando a minha vida e isso trouxe sérios danos em todo o processo de formação da minha autoestima.
Tenho a pele clara e o cabelo muito crespo mas um pouco claro também, o que as pessoas chamam de "Sarará". Minha mãe é branca de cabelo liso. Eu nunca tive contato com meu pai, que já faleceu e era negro.
Fui levada por todos os lados a acreditar que eu era feia por causa do meu cabelo, que era “de preto”, “ruim”, e vivi muitos anos em luta com ele. Eu não saía na rua quando ele estava natural, alisei o cabelo sistematicamente desde os nove anos de idade, usei até ferro de passar roupa para alisá-lo (como muita gente) e fiquei careca duas vezes por alisamentos com soda cáustica, uma dessas vezes no dia da minha “formatura” da quarta série, aos dez anos de idade.
Quando eu era menor, queria ser paquita. E minha mãe, que também era muito nova, chorava porque sabia que eu nunca seria paquita, afinal, eu não era uma menina branca, loira de cabelos lisos! Como minha mãe e toda a família dela são brancos, eu não tinha nenhuma referência, e achava que eu era simplesmente feia.
Eu demorei décadas para perceber que o que eu sofri na infância na verdade era racismo! Estudei em uma escola pequena, privada, classista e racista -- que só tinha um aluno negro, bolsista, claro. E as crianças lá cantavam para mim a música “Reggae Night” e eu não percebia na época porque aquilo para eles era uma ofensa e porque eu realmente me ofendia tanto.
Minha mãe conta que, quando eu nasci, uma das primeiras coisas que falaram pra ela foi “Ainda bem que nasceu branquinha”… E outras pessoas da família da minha mãe falavam que meu cabelo era crespo por causa da idade, hormônios da adolescência, ou de uma influência sei lá daonde (nunca negra!).
Enfim, hoje, aos vinte e cinco anos, com o cabelo crespíssimo, totalmente natural, formada em Antropologia e morando na África, em Moçambique, eu olho para trás e percebo quantas formas e diferentes expressões o racismo pode adquirir na nossa sociedade, principalmente nessa fábula da miscigenação que é o Brasil e na formação de uma auto-estima feminina, o que por si só já é um processo complicado nesse bombardeio de padrões que a sociedade machista nos impõe.
Fico revoltada por imaginar quantas crianças, principalmente meninas, da minha e de tantas outras gerações cresceram sem imaginar que podiam ser consideradas bonitas -– por elas e pelos outros!
Por outro lado, vejo uma luzinha no fim do túnel em algumas coisas como o clipe da Willow Smith de uma música chamada “Whip my Hair”. Tudo bem, sei que não é uma coisa lá muito progressista e reproduz vários clichês, mas é a linguagem da molecada mostrando uma menina negra, de cabelo crespo, trançado como a “popular”, incentivando as outras crianças a “whip your hair” seja lá como ele for… Precisamos de mais expressões desse tipo no Brasil, que ajudem a empoderar as crianças negras, fazê-las ter orgulho se sua origem e sentirem-se lindas e poderosas com seus cabelões!
Quem sabe o fato de a maioria da população brasileira já ter “coragem” de se auto-intitular parda ou negra seja também um indício de que esta caminhada contra o racismo pode começar a andar a passos um pouco mais largos… porque o caminho ainda é muito longo!

Friday, March 16, 2012

TENHA UMA IMAGEM POSITIVA DO SEU CORPO

- Sabe, talvez você não precise que o mundo inteiro te ame. Talvez vc só precise que uma pessoa te ame.

Adorei isto que encontrei aqui, e decidi traduzi-lo. Espero que você goste também.

Vinte coisas que pessoas com imagem positiva do corpo sabem
1) Que é importante cuidar bem do seu corpo.
2) Que nosso corpo faz muito por nós, mesmo quando o insultamos sem parar.
3) Que exercício físico deve ser prazeroso, assim vc só pratica as atividades físicas que são divertidas e que verdadeiramente te fazem bem.
4) Que haverá dias em que vc provavelmente vai odiar seu corpo e sua vida. E tudo bem.
5) Que os seus pensamentos negativos não são ações. Portanto, só porque vc se sente mal com seu corpo e quer restringir sua comida, ou abusar dos exercícios, ou não ir àquele encontro com amigos, não quer dizer que vc fará isso. É só um pensamento. Vc pode decidir se quer que isso se torne uma ação ou não.
6) Que uma imagem positiva do seu corpo significa mais que gostar das suas coxas, nádegas e barriga. Que isso engloba não só cuidar bem de vc mesm@ mas também honrar o seu corpo, respeitando suas fronteiras e indo ao médico para check ups regulares, e quando vc está doente.
7) Que dormir faz muito bem ao corpo e à mente.
8) Que vc sempre tem tempo para cuidar de si.
9) Que vc é mais que partes do corpo. Vc é um pacote completo e incrível.
10) Que vc é valoros@ e merece respeito em qualquer tamanho, formato e peso em que se encontra.
11) Que perder peso não é um elixir mágico para tudo que está errado na sua vida.
12) Que anúncios e revistas são fotoshopados à exaustão, tanto que as atrizes e modelos da vida real não são assim. É por isso que elas precisam “praticar” tanto para seus desfiles de moda. (E quando digo praticar, quer dizer adquirir hábitos nada saudáveis).
13) Que comer é flexível e prazeroso.
14) Que vc pode vestir o que quiser, não só roupas que te façam parecer mais magra ou blusas folgadas.
15) Que vc não tem que perder peso para poder ir atrás dos seus sonhos. Vc pode ir atrás agora mesmo (e espero que vc vá).
16) Que pessoas que fazem comentários maldosos sobre o seu corpo são cretinas, e os comentários delas são mais sobre elas que sobre você.
17) Que só porque tudo a seu redor seja sobre entrar numa dieta não quer dizer que é a coisa mais saudável a fazer.
18) Que seus sentimentos não são assustadores ou devem ser evitados a qualquer custo. Pelo contrário, eles te dão informação valiosa sobre suas necessidades e as ações que vc pode querer seguir.
19) Que ter uma imagem positiva do seu corpo é um processo. Diário. Pode parecer impossível no início, mas vá aos poucos, que a imagem melhora.
20) Que você pode amar seu corpo em qualquer tamanho, forma e peso!
(Na foto ao lado: "Comece uma revolução. Pare de odiar o seu corpo").

Monday, March 12, 2012

NINGUÉM VAI INVADIR MINHA PRAIA

Rolou uma discussão muito interessante nos comentários do guest post da Blanca, que foi o primeiro que publiquei de uma moça magra reclamando que, mesmo magrinha, não se encaixava no padrão, por não ter peito e bunda. Blanca nunca disse que ser magra era tão ou mais difícil que ser gorda. Acho que não tem muita discussão: gordas hoje são as párias da sociedade, praticamente sinônimo de feias. Só que, sem entrar nas Olimpíadas da Opressão, que não são saudáveis pra ninguém, podemos concordar que o padrão de beleza é inatingível pra praticamente todas as mulheres, e isso é proposital. Imagine se todas nós andássemos com um sorriso no rosto e nos amando -– que creminhos a gente iria passar no rosto? Que dieta da moda (pra emagrecer ou engordar ou firmar ou sei lá o quê) iríamos fazer? Sentiríamos necessidade de torturar nossos cabelos? Toda propaganda depende de tornar aquilo que você não precisa em um objeto de desejo imprescidível. A gente vai do “não sabia que isso existia” pro “não posso viver sem isso” num instante.
Desculpe, gente, mas haverá algum exemplo melhor pra esses desejos produzidos que a moda do clareamento anal? É sério. Nos EUA chama-se anal bleaching e a moda tá pegando a todo vapor, ainda que os cremes contenham substâncias que podem provocar de queimaduras a câncer. E num caso desses eu não acredito mesmo na ladainha de “eu fiz por mim, pra eu me sentir melhor!”. Sinceramente, acho que nem contorcionista consegue ver o próprio ânus. Mas é um (novo) padrão imposto em parte pela força da pornografia. Se nos filmes pornôs todas as atrizes têm o c* rosa, então óbvio que todo o resto da população feminina no planeta deve ter também. Outra coisa é que é uma cobrança meio racista. Muitos homens dizem que é o jeito de diferenciar falsas loiras de loiras verdadeiras. A supremacia ariana começa pelo seu c*, entende? Tudo bem, eu tampouco. E chega de falar de c* por hoje.
O fato é que ninguém é perfeito. E quem quiser encontrar defeito em você, vai encontrar, fácil. Portanto, por que se preocupar? Magra, alta, baixa, gorda, cabelo liso, cabelo crespo, bunduda, sem bunda -- quem quiser criticar sempre encontrará ótimos motivos. Se você não faz nada pra seguir o padrão, você é desleixada, irresponsável, sem vaidade, nada feminina. Se você faz tudo pra seguir o padrão, você é perua, exagerada, obcecada, siliconada. De um jeito ou de outro, você nunca vai ganhar. So why worry? Be happy. Quer dizer: lógico que não se deixar afetar pelo preconceito não significa que a discriminação desaparecerá. Gordas continuarão sendo recusadas em entrevistas de emprego. Continuarão sendo pessimamente atendidas (quando são atendidas) por médicos. E precisamos seguir lutando contra isso (mesmo se você não for gord@). Mas é possível lutar sem ficar com a autoestima lá embaixo. Aliás, é mais fácil lutar tendo como aliada uma bela autoestima.
Eu não tenho a menor dúvida que, se eu não fosse gorda, seria simplesmente xingada de outra coisa. Se eu fosse a cara e o corpo da Gisele, haters, trolls, mascus ainda diriam que eu sou a mulher mais horrenda do universo. Porque não tem a ver comigo. Tem a ver com eles. Eles acham que mulher deve ser avaliada pela aparência, sempre. Que uma mulher só pode se realizar se for bonita. É a nossa função decorativa. Então, eles só conseguem nos desqualificar pela aparência também. Ok, há vezes que meus detratores usam outras ofensas da Turma da Mônica pra me descrever -– feia, chata, burra. E é só isso. Ninguém nunca se aprofunda e tenta explicar sua discordância. Só o gorda e burra e chata já são suficientes pra me desqualificar. Pra que entrar em detalhes, né?
Então, vale a pena dar ouvidos pra essa gente? Basear nossa opinião acerca de nós mesmas baseada em quem nos odeia? Não me parece uma decisão sensata. Será que realmente devemos nos deixar abater por opiniões estúpidas sobre nossa aparência?
Outro dia eu estava na praia, flutuando no paraíso, no meio de uma lagoinha, e pensando em como eu me sentia livre. Ninguém olhava pra mim. Acho que ninguém olhava pra ninguém. Bom, podia até olhar, mas não ficava encarando nem nada. Não havia ninguém lá julgando meu corpo. Inclusive, havia montes de corpos parecidos com o meu. Corpos de todas as formas, cores, idades, nenhum lembrando o que a gente vê na mídia, porque no espaço público e democrático que é a praia não há photoshop. Há muitos corpos, e todos são lindos em suas imperfeições. E aí pensei nas leitoras que me contam que não vão à praia, que não saem, que não se desnudam pros seus amores, que deixam de ter amores, tudo isso por medo do julgamento alheio.
Dane-se o julgamento e a patrulha da sociedade. Quem é ela pra nos julgar? Venham ser livres e compartilhar a praia comigo, lindonas. Tem espaço pra todo mundo.

Monday, March 5, 2012

CRITÉRIOS PARA SER UMA GORDINHA FELIZ

Uma leitora anônima deixou um comentário interessante no post do bingo da gordofobia, que rendeu boas discussões.

Lola, descobri seu blog não tem muito tempo mas já aprendi a adorar. Seus posts sempre me fazem pensar...quero deixar aqui uma opinião que espero que te faça refletir também...
Em um outro post você falava de como os mascus são frustrados porque só querem meni
nas tipo Sandy. Que as gordinhas e as feinhas não eram notadas. E que as meninas tipo Sandy só queriam caras bonitões também... Vc mesma, de alguma forma, classificou-se como menos atraente/sensual do que uma menina padrão. Claro que é possível não seu padrão e ser tão sensual/atraente (ou seja lá o que for) quanto uma Sandy. O importante é vc se sentir bonita. A Sofia Loren já dizia que nada torna uma mulher tão bonita quanto ela mesma se achar irresistível. Então eu te pergunto, você se acha bonita? Se acha sensual? Se a resposta for "sim", então vc é uma gordinha feliz. Se a resposta for "não", aí temos um problema.
É engraçado como a maioria das pessoas que todo mundo gosta de sacanear são pessoas que
já tem a auto-estima baixa. Tenho uma amiga que é gordinha e não vejo ninguém enchendo o saco dela com isso, tampouco a vejo reclamando disso. Vale dizer que essa amiga é super-estilosa, e é referencia de estilo para outras amigas. Aprendi com ela a me maquiar mais, inclusive.
Ser gordinha, ter os traços brutos, ser bai
xa, não ter bunda, ter peitão, todo mundo tem defeitos. A diferença é a importancia que vc dá a esses defeitos. E antes que o povo aqui me ataque, eu gostaria de dizer que na minha vida, ser sensual e bonita é importante para MIM. Não é uma questão de atrair homens ou admiração alheia. É uma questão de me olhar no espelho e gostar do que vejo.

Querida Anônima, acho que você não entendeu muito bem o que eu disse, porque eu não disse nada do que você diz que eu disse. Pra começar, nem sei o que é uma “menina tipo Sandy”. É uma moça virgem? É branca? É bonitinha e meio sem sal? Não faço ideia. Segundo, mascus são frustados por uma série de motivos (um deles é a incapacidade em rediscutir masculinidade num mundo em transformação), mas o principal é que eles não pegam ninguém, e culpam as mulheres (que, segundo eles, só gostam de ricos ou cafas) para explicar seu fracasso. Agora, gordinhas são muito notadas pelos mascus! Eles não falam em outra coisa. Gordas são alvos preferenciais de mascus, uma de suas obsessões. A raiva deles é que “até” gordas (que, para eles, estariam no último degrau da atração sexual) pegam homens, enquanto eles, machos honrados que são, ficam na mão. E são ignorados até pelas gordas! Ah, e tampouco falei que meninas tipo Sandy (que não sei o que são) querem só caras bonitões.
Eu não me classifiquei como menos atraente ou sensual que uma menina padrão. Eu estou fora do padrão de beleza, não só pelo meu peso, mas também pela minha idade (44 anos). Como não acho a Sandy sensual ou atraente (pra mim), bem, eu me sinto muito mais sensual e atraente do que ela. Minha opinião, lógico. Pois é, em geral eu me sinto atraente, mas depende do dia. Acho bastante difícil que alguém se sinta lind@ o tempo todo. É como felicidade -– alguém é feliz full time?
Discordo totalmente do seu critério para avaliar quem é ou não uma gordinha feliz. Então só quem se sente atraente é feliz? Por que alguém que se sente inteligente não pode ser feliz? Não estou dizendo que quem é bonit@ não pode ser inteligente, nada disso. Só dando um exemplo. Por que alguém que se sente engraçada não pode ser feliz? A beleza física não tem o mesmo peso pra todo mundo. Pra algumas pessoas, é a coisa mais importante do mundo. Pra outras, há várias outras características mais relevantes. Eu acho o maridão lindo e sexy, mas o que mais me atraiu a ele foi seu senso de humor. Ou, sei lá, um conjunto de motivos.
Tudo é tão relativo... É um clichê, mas é verdade. Não existe um selo de unanimidade pra nada, nem pra quem está dentro do padrão de beleza. Tem gente que não acha o Brad Pitt bonito, tem quem não ache a Angelina bonita. Ok, é bem provável que a maior parte do mundo ocidental os ache lindos. Mas o gosto não é o mesmo. E isso vale tanto pra beleza quanto pra “feiúra”. O que é feio pra muita gente pode ser lindo pra outras. É isso que mascus, trolls, e demais fiscais da normalidade tentam impedir. Assim, não basta insultar a gorda -– tem que insultar o namorado ou marido da gorda, que ousou gostar de alguém que, para eles, não têm nenhum valor (pois o único valor que uma mulher pode ter é o decorativo).
Em geral, o que costuma ser visto como atraente nem é tanto beleza, e sim autoconfiança. É aquele fenômeno que tanta gente já experimentou: por que, quando a gente tá sozinh@, @s pretendentes são minguad@s? Aí basta a gente começar a namorar pra chover na nossa horta. Raramente a gente muda de rosto ou de corpo por causa de um namoro, então como se explica? É que quando a gente está num relacionamento saudável a gente fica mais feliz, sente-se bem, flutua no ar, ri mais, sorri mais. E tudo isso chama a atenção.
O chato é que é muito difícil fingir que se tem alta autoestima. Mas acho que a gente está tão bitolada pelo que nos ditam que acha que só dá pra ter autoestima por causa da aparência física. Por que isso deveria ter um peso maior que outras qualidades? E se você quiser exalar autoconfiança por ser super competente no trabalho, ou por ser uma boa ouvinte, ou por fazer as pessoas rirem, ou por ser uma ótima mãe/pai, ou por ser uma aluna brilhante, ou por ter muitos amigos, ou por tratar bem pessoas e animais, ou até por ter um blog influente? Você não precisa convencer todo mundo que é inteligente, porque isso, assim como a beleza e tudo na vida, é super relativo. O importante é você se sentir inteligente. Algumas pessoas vão te achar inteligente, outras vão pensar que você é completamente idiota. Aposto que Einstein passava por isso. Aposto que Einstein não se achava inteligente todo santo dia. Aposto que Einstein era inteligente pra um monte de coisas, e meio tapadinho pra várias outras.
Também discordo sobre as pessoas sacanearem quem já tem autoestima baixa. Claro, quem não têm autoestima vira um alvo mais fácil. Só que as pessoas também atacam pra derrubar. Eu não tenho autoestima baixa e sou atacada a torto e a direito. As pessoas atacam também pra se sentirem parte de um clubinho. É um tipo de elo de ligação odiar alguém ou um grupo. E quem tá cheio de ódio ataca totais desconhecidos. Pensa só numa gordinha caminhando na rua, se exercitando. Aí passa um nojentão num carro e grita “Sua baleia horrorosa!”, ou algo assim. O cara nem conhece a moça. Ela só está andando, e não vamos cair no clichê que toda gorda tem baixa autoestima ou anda encurvada ou sei lá o quê. A verdade é que atacar diz muito mais sobre a pessoa que ataca do que sobre quem é atacada. Sério, você pode imaginar que a vida de alguém que sente a necessidade mórbida de insultar uma completa desconhecida seja um mar de rosas?
Quando nós nos gostamos, criamos uma casca grossa. Ficamos menos vulneráveis aos ataques. Vemos que a vida infeliz não é a da moça gorda que se exercita na rua, e sim daquele que a xinga. Fica tudo muito mais simples, sabe?
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