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Monday, May 28, 2012

EU, MAQUIAGEM, E MINHA CARA DE PAU LAVADA

Ally Sheedy antes de se transformar em princesinha

Eu sou uma que não uso maquiagem, e tenho certeza que é uma imposição social pras mulheres usar maquiagem. Se duvida, pense em todas as reportagens que você vê de “Estrelas flagradas sem maquiagem!” (tem site só pra isso, né?). Elas parecem querer dizer “Olha só, essas beldades são gente como a gente, precisam de muita produção pra ficar com essa cara”, mas no fundo estão dizendo “Você também não se deve deixar flagrar sem maquiagem".
Não me acho mais ou menos feminista por não usar maquiagem. E nem menos feminina. Mas acho que cabe às feministas criticar todas as formas de imposição social. Que, lógico, vem de vários lados. Tem por exemplo esse estudo financiado pela indústria da beleza que o New York Times reproduz alegremente. O que diz o estudo? Ah, que mulheres que usam mais maquiagem são vistas como mais competentes. Uma dessas pesquisas feitas sob encomenda.
Lembra de Clube dos Cinco, clássico dos anos 80? Lá tem uma personagem rebelde, sensível, maravilhosa, interpretada pela Ally Sheedy, que acaba conquistando o coração do atleta. Aí no final do filme aparece uma cena que não tem nada a ver com nada, que é da princesinha embelezando a patinho feio e fazendo com que ela vire cisne. E o atleta olha pra ela e suspira: “Uau”. E ela sorri, toda tímida e maquiada. E aquilo depõe contra todo o filme, porque a mensagem até aquela momento era –- pra todos os personagens -– que as pessoas devem ser aceitas como são. Ela é a única que precisa mudar pra ser aceita. A mensagem pra todas as espectadoras passa a ser a mesma que nossas mães e tias falam pras filhas inconformadas: “Viu como dá pra ficar bonita com um tiquinho de esforço?”
No entanto, como desgraça pouca é bobagem, as mulheres não só têm de usar maquiagem, como têm de usar a dosagem certa. Nada de aplicar camadas de maquiagem à la Lady Gaga! Até eu, que não entendo absolutamente nada de pintura facial, sei que o truque é usar maquiagem sem parecer que você está usando maquiagem. Eu acho que, ficando de cara lavada, eu já salvo um tempão.
Por outro lado, já ouvi falar, não sei se é verdade, provavelmente não é, que Walter Salles, Waltinho para os íntimos, o diretor de Central do Brasil e herdeiro do Unibanco, antes de casar, faz a futura mulher assinar um contrato jurando que nunca usará maquiagem. Ou seja, ele odeia maquiagem tanto assim. Quer dizer, vai saber quantas vezes o rapaz já casou, e se seus casamentos acabaram porque a esposa em questão foi flagrada colocando blush.
Espero que você não esteja esperando alguma coisa linear, inteligente e/ou conclusiva dessas notas randômicas. Pra não se decepcionar.
Como já falei noutro post, eu sempre tive olheiras. Elas fazem parte de mim. Já gritei pra elas “Saiam deste corpo que não lhe pertence”, mas elas me ignoram solenemente. Já passei por todo o ritual de fazer compressinhas de chá de camomila, que eu acho um pé no saco, porque se você tá com troço nos olhos você tem que ficar de olhos fechados, o que significa que não dá pra ler, ver um filme, acho que nem pra fazer sexo dá, porque você tem que ficar lá, deitada, perfeitamente imóvel. E eu sempre tenho mais coisa pra fazer, mas, enfim, já cumpri todo o ritual. Saquinhos de chá, pedaços de algodão molhados, rodelas de pepino. 
E não adiantou nada. Já comprei e usei montes de creminhos que prometem o fim das olheiras em 48 horas, e nada (aliás, creminhos, bah! Mostre-me um creme que cumpre o que promete e eu te mostro uma indústria sem nenhuma regulamentação. O crime compensa).  Eu estou completamente habituada ao meu panda-look, mas as pessoas insistem em associar olheiras com doenças e falta de dormir (e é verdade que nos últimos dois anos tenho dormido quatro irrisórias horas por noite, em média, mas eu juro que já tinha olheiras quando eu não trabalhava tanto e conseguia dormir seis ou sete). 
E eu sempre tive problemas em colocar qualquer coisa perto dos olhos (a menos que eu vá dormir). Rímel, nem pensar. Algumas amigas tentaram fazer isso em mim, e eu achei que iam furar meus olhos, daí concluí que, por incrível que pareça, dou preferência a minha visão que à estética. Sobrancelhas postiças? Faz-me rir. Como que se chama aquele troço que se põe nas pálpebras? Falta-me vocabulário, você já deve ter notado. O rímel é o troço preto aplicado com pincel que fura os olhos, certo? Eu gosto das minhas pálpebras da cor que são. Sem falar que, como meus olhos estão quase sempre abertos, minhas pálpebras não aparecem tanto. 
E alguém me explica como se pode usar maquiagem num lugar de calor tropical permanente como Fortaleza. Teve um dia aqui que eu usei maquiagem, porque fui gravar um vídeo pra uma disciplina virtual que elaborei, e o professor conteudista precisa dar umas palavrinhas pros seus discípulos online. E fui com uma outra professora. 
E chegando lá no estúdio pra gravar o único funcionário e cameraman disse que minha pele estava oleosa e brilhante (e brilhante me parece ser sempre uma palavra positiva, enquanto oleosa é sempre pejorativa). Como não havia um único papel higiênico por lá, a professora perguntou se eu queria me maquiar, e me passou seu estojo de maquiagem. Eu fiquei olhando pra ela, olhando pro estojo, e pensando se ela imaginava se 1) eu sei me maquiar, e 2) se sei me maquiar sem olhar prum espelho. Então ela me maquiou, e eu nem vi como ficou. Fui a vários outros lugares depois com aquela cara pintada, e Fortaleza é quente, e eu transpiro, e eu acho que a maquiagem vai escorrendo. Ainda assim bastante gente achou que eu estava linda e maravilhosa e me fez cara de “Viu como dá pra você ficar bonita com um tiquinho de esforço?”
E por dentro eu gritava: Waltinho, cadê você?
Como este texto interminável ainda está na metade, vou publicar o resto outro dia. Em breve. E com uma grande revelação: agora estou usando uma espécie de corretivo pra disfarçar as olheiras. Às vezes. Quando me lembro de colocar.

Friday, May 18, 2012

COMECE UMA REVOLUÇÃO: AME O SEU CORPO

Nossa. Adorei esta coluna de conselhos que encontrei. Uma mulher com mais de 50 anos, casada com o mesmo homem durante décadas, se separa. E começa a se preocupar com o que encontrará pela frente em termos de vida sexual, e como lidará com seu corpo, que não é mais jovem. Esta é a resposta da colunista, que vale pra todas as pessoas de todas as idades. Minha tradução pífia. Leia tudo aqui.

“Você não tem que achar uma maneira de fazer com que seu futuro amante pense que você parece a Angelina Jolie. Você tem que aceitar o fato que você não se parece nem nunca se parecerá com ela.  […] Você não tem que ser jovem. Você não tem que ser magra. Você não tem que ser 'gostosa' da maneira que um senso comum estreito construiu essa palavra. Você não tem que ter pele lisa ou uma bunda dura ou um conjunto de seios eternamente empinados. Você tem que encontrar um jeito de habitar o seu corpo enquanto realiza seus desejos mais profundos. Você tem que ter coragem suficiente pra construir a intimidade que você merece. Você tem que tirar todas as suas roupas e dizer, Estou bem aqui.
Há tantas revoluções minúsculas numa vida, um milhão de maneiras que temos de crescer e mudar e ficar bem. E talvez o corpo seja nossa fronteira final. É o único lugar que não podemos escapar. Estamos lá até acabar. A maior parte das mulheres e alguns homens passam suas vidas tentando modificá-lo, embelezá-lo, fazer com que seja o que não é, ou escondê-lo pelo que é. Mas e se não fizéssemos isso?
É essa questão que você precisa responder. É isso que trará seus desejos profundos pra sua vida. Não: será que os velhos homens caídos vão aceitar e amar o meu corpo velho e caído? E sim: o que há do outro lado dessa revolução minúscula e gigantesca em que eu passo do ódio ao amor a minha própria pele? Que frutos essa liberação em particular proporcionaria?
Não sabemos -– como uma cultura, como um gênero, como indivíduos, você e eu. O fato de não sabermos é o verdadeiro fracasso do feminismo. Nós nos responsabilizamos pela ação, nos demos a autoridade, colhemos os elogios, mas nunca paramos de nos preocupar sobre como nossas bundas ficam no jeans. Há muitos motivos pra isso, um bando de Grandes Coisas Sexistas Que Podemos Culpar Com Razão. Mas no final, como tudo, a mudança depende de nós. […]
Sei que nós mulheres estamos sempre sendo queimadas pela chama constantemente acesa da beleza pornô e de Hollywood, mas na minha vida real descobri que os homens com que vale a pena transar estão muito mais abertos ao corpo feminino em suas variadas formas, muito mais do que pensamos. Nua e sorridente -– esses são os únicos requisitos que um amigo meu quer numa amante. Talvez isso aconteça porque homens também são pessoas com corpos cheios de medos e inseguranças e defeitos. Encontre um desses homens. Um que faça você pensar e rir e gozar. Convide-o para sua pequena revolução do seu belo mundo novo”.

Sunday, May 6, 2012

COMO SOBREVIVEMOS ATÉ AGORA SEM A DEPILAÇÃO ARTÍSTICA?

Anúncio de creme depilador mostra o que acontece quando um homem se defronta com uma vagina peluda

Pessoas queridas, esta semana algumas fotos da atriz Carolina Dieckman nua vazaram, e o grande escândalo foi que -– pasmem! -– ela não raspa totalmente sua vagina, como todas as mulheres de bem deveriam fazer (assim nos ensinou a pornografia). Juro que voltarei ao assunto de como eu acho uma demência total esse modismo de querer que mulheres sejam seres sem pelos (em nome da higiene!), principalmente nos seus países baixos.
Mas, na onda dos “problemas que nem sabíamos que tínhamos viram defeitos urgentes a serem corrigidos”, fiquei sabendo de uma nova modalidade. É a de depilação artística.
Agora você, minha antenada leitora, pode passar por uma modalidade de tortura muito mais eficaz. Você gasta mais tempo e dinheiro pra pagar alguém pra fazer desenhinhos nos seus pêlos e, assim, “apimentar a relação”. Mon dieu, a relação não deve estar andando muito bem se a mocinha precisa colocar uma seta apontando pra baixo no seu monte de Vênus!
Mas eu gostei da “sorte grande”. Acho que aquilo lá é um trevo.
Cuidado quanto estiver usando biquini para que mulheres cabeludas não fiquem atrás de vc
E estou ansiosa pra conhecer a Moda Depilação Artística pra Homens. Porque, né, não parece um enorme desperdício lucrar em cima das inseguranças de apenas metade da população?

Wednesday, March 21, 2012

GUEST POST: A ESCRAVIDÃO DA APARÊNCIA, O MACHISMO INVISÍVEL

A Ariane, que é psicóloga, não gostou quando meu cabelo foi criticado e me enviou algumas considerações fascinantes baseadas no livro O Machismo Invisível, da psicóloga mexicana Marina Castañeda. De lá pra cá, outras leitoras mencionaram o livro, que já entrou pra minha listona de Coisas Pra Ler. Muito interessante tudo isso que Ariane coloca.

O trabalho de Marina Castañeda é extremamente importante. Nele ela investiga aspectos psicológicos do machismo. Uma das tarefas d@ psicólog@ é detectar certas formas de pensar e de sentir, pausas de comunicação, formas de relação, que costumam permanecer ocultas; são habituais e involuntárias. Ela faz um debate no livro sobre teorias psicológicas e biológicas no machismo (por exemplo: a tal psicologia evolucionista, que não tem argumentação fortemente embasada e pode com traquilidade ser questionada por alguém que tenha um pensamento mais crítico).
A psicologia, que por muito tempo contribuiu para perpetuar a dominação masculina, possui hoje, no meu ponto de vista, a grande tarefa de denunciá-la. Os impactos psíquicos do machismo são catastróficos e é no psiquismo que ele se perpetua, na formação da subjetividade. Escutamos na televisão ou lemos em pesquisas que depressão e outras afecções emocionais são problemas que atingem mais as mulheres, e que estas procuram serviços psicoterápicos com mais frequência. Óbvio que isso é um problema social grave que atinge o psiquismo da mulher; no entanto, tudo isso é mascarado, e muitos discursos já foram fabricados para esse problema: mulheres são muito difíceis de entender, são muito emocionais, são complicadas, são irracionais, são os hormônios. Depressão pós-parto não é somente um problema orgânico: é a maternidade que é amplamente divulgada como algo maravilhoso e que deve ser natural da identidade da mulher.
Lola, não existe nenhuma explicação biológica realmente fundamentada e comprovada para explicar nosso comportamento, nossos costumes, nossa psique. O que existeo respostas biológicas de processos psíquicos e ativação cerebral que os neurocientistas correlacionam aos processos psíquicos, mas isso é teoria, ou seja, sem comprovação ainda.
Sobre a relação entre machismo e imagem feminina e masculina, existe uma assimetria fundamental entre as auto-imagens masculina e feminina, sendo que esta última gira em torno dos homens durante grande parte da vida das mulheres. Seja com o propósito de seduzir ou simplesmente chamar a atenção, o respeito, a estima, a amizade, isso representa um esforço constante que os homens não precisam fazer em relação às mulheres. Se o intuito não é seduzir alguém em particular, os homens não fazem nenhum esforço especial para atrair a atenção do sexo "oposto" -- eles já contam com ela de qualquer maneira. Projetar uma imagem masculina é certamente um objetivo direcionado a outros homens e não às mulheres. É muito comum, por exemplo, numa mesa de bar, um homem dominar a conversa, não no intuito de impressionar as mulheres, pois seus verdadeiros interlocutores são outros homens; a virilidade é algo que precisa ser constantemente reforçada para os seus congêneres. Diante desse público, não existe necessidade de estar bonito e bem-arrumado: a meta masculina é projetar uma imagem de êxito e poder. Um exemplo: um homem que chega no restaurante não coloca mais o revólver sobre a mesa, coloca o celular porque está esperando "uma ligação muito importante”. Existem muitas maneiras de se impor e “impor respeito” entre homens.
Em nossa sociedade quem decide o que é sexy ou atraente nas mulheres são os homens: a definição de beleza sempre foi um privilégio masculino. Isso se dá tanto no âmbito individual, quando as mulheres se arrumam para os homens ao seu redor, quanto no âmbito social, quando os profissionais da moda decidem qual será o look do momento. Sabemos que essa é uma questão fortíssima aqui no Brasil, basta estar atent@ à rápida e ampla aceitação feminina das novas tendências da moda. A mulher que não segue as orientações muitas vezes é considerada não somente antiquada e pouco sexy, mas também pouco feminina. Um homem que não segue a moda é excêntrico, original; a mulher na mesma situação é “desleixada”. Para homens também existem exigências da moda, mas certamente não seguí-las não tem para eles grandes consequências. Para vários homens, não seguir a moda é justamente uma prova de independência viril.
Muitas vezes a falta de asseio pessoal se torna parte do look masculino -- uma barba por fazer, roupas desalinhadas, não são algo muito surpreendente. Conforme expõe Castañeda em O Machismo Invisível, “mostrar-se ao natural, em qualquer contexto e sem cuidado algum com a aparência, sempre foi uma prerrogativa masculina. No fundo, essa atitude equivale a dizer ‘Eu sou assim, e não me importa o que os outros pensem’: é uma declaração de autonomia, uma afetação de indiferença que poucas mulheres poderiam adotar impunemente na vida pessoal, social ou profissional”.
Somos educadas para nos enfeitarmos desde muito pequeninas, chegando mesmo a introjetar uma atitude de vergonha em relação ao próprio corpo e suas funções naturais: odores, arrotos, flatulências, são proibidos, e muito mais tolerados nos meninos. E hoje temos o absurdo de sabonetes “íntimos”, como se o cheiro natural da vagina fosse algo ruim, cremes clareadores para as axilas, depilação à brasileira... fica óbvio que nosso corpo, longe de ser natural, é constantemente fabricado através de diversas tecnologias, produzidas por um regime de consumo.
Desde a infância os homens se acostumam a ocupar muito espaço, coisa que não percebem, porque lhes parece natural. Não estamos falando em tamanho físico, mas de posições corporais: quando sentam de pernas abertas, ocupam duas ou três vezes mais espaço que uma mulher. Muitas vezes a posição física de um homem (sentar de pernas abertas e desalinhado) denota uma atitude de desprezo, de indiferença pelas pessoas ao seu redor; os pés sobre a mesa e as mãos cruzadas atrás da cabeça reproduzem uma posição clássica de autoridade. Não há dúvidas de que muitos homens, se indagados sobre isso, dirão que buscam unicamente conforto, mas então perguntamos por que essas posturas não são aceitáveis em uma mulher e tão pouco seriam para um homem em posição subordinada. A liberdade de movimento masculina, longe de natural, é uma expressão de poder; não está muitas vezes em função de seu tamanho, mas de sua posição hierárquica na sociedade.
A mesma lib
erdade assimétrica também aparece na permissão que muitos se outorgam em encostar nas mulheres. Segurar pelo braço, empurrar levemente o ombro, segurar-lhes as mãos. As mulheres não encostam nos homens com a mesma facilidade, e muito menos os homens se encostam dessas formas. No outro lado da moeda, as mulheres são educadas desde cedo para ocupar o menor espaço possível, as roupas -– saia, sapatos incômodos para caminhar depressa e correr -– refletem e reforçam a restrição dos movimentos. Em geral aprecia-se que mulheres sejam pequenas, com mão e pés pequenos e movimentos comedidos.
Em suma, enquanto homens se acostumam desde pequenos ao conforto e movimento livre, as mulheres são ensinada desde a infância a utilizar o corpo como instrumento de sedução: aprendem a cuidar dele e a embelezá-lo de acordo com os cânones masculinos. Não existe uma só parte da anatomia feminina que escape aos requisitos desse desejo de agradar: dos cabelos às unhas dos pés, passando pelas orelhas, o rosto, o colo, as axilas, as mãos, os seios, o púbis e as pernas [e hoje em dia até o ânus], cada parte do corpo é alvo de cuidados puramente estéticos, sem nenhuma relação com saúde ou higiene, mas unicamente com uma concepção de beleza orientada para os homens. Os homens sempre contam com maneiras neutras de se vestir e se apresentar em público: roupas, sapatos, corte de cabelo e ausência de maquiagem nada indicam sobre sua disponibilidade sexual ou sobre seu estado civil, e certamente, não indicam nada sobre sua masculinidade.
Nas palavras da Castañeda: “não resta dúvida de que a moral dupla da aparência corporal favorece enormemente o homem, respeitando sempre sua liberdade de decisão e de ação, ao passo que limita a da mulher”.
Muitos pensarão depois de ler tudo isso que hoje esses padrões estão ficando obsoletos, que existe uma demanda de consumo de estética crescente entre os homens também. Porém, é necessário sempre avaliar bem as situações, pois fazendo isso entendemos que a publicidade direcionada aos homens nessa esfera tem sentido completamente diferente: mulheres devem seguir diretrizes da moda para atrair homens, ao passo que no caso deles a meta é mais uma vez projetar uma imagem de sucesso na vida. A publicidade para o homem promete êxito, riqueza, e muitas mulheres. Para a mulher, a publicidade promete o homem de sua vida (e um só).
As repercussões para a saúde mental das mulheres são gravíssimas. Não dá mais para negar que os "distúrbios alimentares" são problemas que atingem em esmagadora maioria as mulheres. Mas, como afirma Castañeda, machismo é ainda um tabu social, uma forma de relação ainda invisível de efeitos catastróficos para a liberdade e subjetividade de mulheres e homens.

Monday, March 12, 2012

NINGUÉM VAI INVADIR MINHA PRAIA

Rolou uma discussão muito interessante nos comentários do guest post da Blanca, que foi o primeiro que publiquei de uma moça magra reclamando que, mesmo magrinha, não se encaixava no padrão, por não ter peito e bunda. Blanca nunca disse que ser magra era tão ou mais difícil que ser gorda. Acho que não tem muita discussão: gordas hoje são as párias da sociedade, praticamente sinônimo de feias. Só que, sem entrar nas Olimpíadas da Opressão, que não são saudáveis pra ninguém, podemos concordar que o padrão de beleza é inatingível pra praticamente todas as mulheres, e isso é proposital. Imagine se todas nós andássemos com um sorriso no rosto e nos amando -– que creminhos a gente iria passar no rosto? Que dieta da moda (pra emagrecer ou engordar ou firmar ou sei lá o quê) iríamos fazer? Sentiríamos necessidade de torturar nossos cabelos? Toda propaganda depende de tornar aquilo que você não precisa em um objeto de desejo imprescidível. A gente vai do “não sabia que isso existia” pro “não posso viver sem isso” num instante.
Desculpe, gente, mas haverá algum exemplo melhor pra esses desejos produzidos que a moda do clareamento anal? É sério. Nos EUA chama-se anal bleaching e a moda tá pegando a todo vapor, ainda que os cremes contenham substâncias que podem provocar de queimaduras a câncer. E num caso desses eu não acredito mesmo na ladainha de “eu fiz por mim, pra eu me sentir melhor!”. Sinceramente, acho que nem contorcionista consegue ver o próprio ânus. Mas é um (novo) padrão imposto em parte pela força da pornografia. Se nos filmes pornôs todas as atrizes têm o c* rosa, então óbvio que todo o resto da população feminina no planeta deve ter também. Outra coisa é que é uma cobrança meio racista. Muitos homens dizem que é o jeito de diferenciar falsas loiras de loiras verdadeiras. A supremacia ariana começa pelo seu c*, entende? Tudo bem, eu tampouco. E chega de falar de c* por hoje.
O fato é que ninguém é perfeito. E quem quiser encontrar defeito em você, vai encontrar, fácil. Portanto, por que se preocupar? Magra, alta, baixa, gorda, cabelo liso, cabelo crespo, bunduda, sem bunda -- quem quiser criticar sempre encontrará ótimos motivos. Se você não faz nada pra seguir o padrão, você é desleixada, irresponsável, sem vaidade, nada feminina. Se você faz tudo pra seguir o padrão, você é perua, exagerada, obcecada, siliconada. De um jeito ou de outro, você nunca vai ganhar. So why worry? Be happy. Quer dizer: lógico que não se deixar afetar pelo preconceito não significa que a discriminação desaparecerá. Gordas continuarão sendo recusadas em entrevistas de emprego. Continuarão sendo pessimamente atendidas (quando são atendidas) por médicos. E precisamos seguir lutando contra isso (mesmo se você não for gord@). Mas é possível lutar sem ficar com a autoestima lá embaixo. Aliás, é mais fácil lutar tendo como aliada uma bela autoestima.
Eu não tenho a menor dúvida que, se eu não fosse gorda, seria simplesmente xingada de outra coisa. Se eu fosse a cara e o corpo da Gisele, haters, trolls, mascus ainda diriam que eu sou a mulher mais horrenda do universo. Porque não tem a ver comigo. Tem a ver com eles. Eles acham que mulher deve ser avaliada pela aparência, sempre. Que uma mulher só pode se realizar se for bonita. É a nossa função decorativa. Então, eles só conseguem nos desqualificar pela aparência também. Ok, há vezes que meus detratores usam outras ofensas da Turma da Mônica pra me descrever -– feia, chata, burra. E é só isso. Ninguém nunca se aprofunda e tenta explicar sua discordância. Só o gorda e burra e chata já são suficientes pra me desqualificar. Pra que entrar em detalhes, né?
Então, vale a pena dar ouvidos pra essa gente? Basear nossa opinião acerca de nós mesmas baseada em quem nos odeia? Não me parece uma decisão sensata. Será que realmente devemos nos deixar abater por opiniões estúpidas sobre nossa aparência?
Outro dia eu estava na praia, flutuando no paraíso, no meio de uma lagoinha, e pensando em como eu me sentia livre. Ninguém olhava pra mim. Acho que ninguém olhava pra ninguém. Bom, podia até olhar, mas não ficava encarando nem nada. Não havia ninguém lá julgando meu corpo. Inclusive, havia montes de corpos parecidos com o meu. Corpos de todas as formas, cores, idades, nenhum lembrando o que a gente vê na mídia, porque no espaço público e democrático que é a praia não há photoshop. Há muitos corpos, e todos são lindos em suas imperfeições. E aí pensei nas leitoras que me contam que não vão à praia, que não saem, que não se desnudam pros seus amores, que deixam de ter amores, tudo isso por medo do julgamento alheio.
Dane-se o julgamento e a patrulha da sociedade. Quem é ela pra nos julgar? Venham ser livres e compartilhar a praia comigo, lindonas. Tem espaço pra todo mundo.

Thursday, February 9, 2012

GUEST POST: PADRÃO, ESSE MOÇO BIPOLAR

Uns dias atrás, publiquei o bingo da gordofobia, e veio gente dizer que as magras também sofrem. Acredito plenamente. O padrão de beleza cria expectativas irreais, impossíveis de serem alcançadas. E é justamente esse o objetivo: fazer com que mulheres eternamente insatisfeitas consumam tudo que vêem pela frente pra tentar chegar a uma beleza impossível (quem duvida pode ler como Adriana Lima se prepara para desfilar de lingerie, e ver se dá pra conseguir esse ideal sem ter muito dinheiro e viver exclusivamente pra isso).
Bom, no final do ano passado uma garota muito simpática me enviou este email, que publico agora em forma de post: "Meu nome é Blanca, tenho 15 anos e moro no Rio, cidade. Adoro o seu blog, gosto de absolutamente todos os posts. Você deveria me pagar, porque o divulgo demais, mulher!". Zeus lhe pague, Blanca!

Muitos posts falam sobre como é difícil ser gordinha ou gorda, e que magreza é sempre o padrão a ser alcançado. Óbvio que é; é o que a gente vê por aí e tal. Nunca me mandaram emagrecer -- tenho 1.70 e pouco de altura e 55kg. Sou magra, sempre fui, dificilmente vou deixar de ser, minha família toda é. Vejo muita gente reclamando que é muito difícil ser magra, e é difícil de acreditar até pra mim, que me incomodo às vezes com meu peso. Expliquemos:
Aqui no Brasil, apesar de a Gisele ser uma tábua sem quadril, nos é cobrado esse negócio de ser magra, porém curvilínia. Não sei de onde tiraram isso, porque a Gisele até tem bastante peito para alguém com o peso dela, mas ela não tem quadril. Nem bunda. Nem cintura.
Eu tenho o corpo parecidíssimo com o dela, tirando o peito. Tenso, né? Porque se ela já não tem curvas, imagina eu. Eu não tenho cintura nem quadril, tenho pouquíssimo peito, já fui até a uma agência de modelos (me descobriram na rua, veja só, risos), mas a moça me vomitou b*sta demais -- que eu teria que operar o nariz, botar silicone, usar toneladas de maquiagem -- e eu tinha só 13 anos, acho. Voltando.
Ser magra me tira um peso danado (não era pra ser um trocadilho, mas acabou sendo, haha), mas as pessoas me cobram coisas que não são naturais em mim. Minha genética não me deu quadris largos, bunda e seios avantajados. Não é natural da minha família. Não passou pra mim.
Ser magra sem traços de gostosura não é muito o padrão não, viu, Lola. Ok, até é. Mas não é como se um dia eu tivesse ganhado concurso de beleza da classe. As que ganhavam eram todas magras, mas com quadril, seios maiores, entende?
Fico triste demais ao ver minhas amigas gordinhas dizendo que meu corpo é o corpo dos sonhos. Pode até ser nas revistas, mas fora delas não existe perfeição.
Eu compararia esse problema das magras sem curvas com o problema das gordinhas não "gostosas". Estudei com uma garota que era considerava bem gostosa. Ela era gordinha. Ninguém mandava a guria emagrecer. Por quê? Porque ela tinha bastante peito, bunda, quadril e zero -- ZERO -- de barriga. Ela corria bastante em volta do Maracanã ou coisa assim, mas não era um esforço tremendo, a família dela toda se exercitava. É da genética dela ter todas as curvas e, com pouco esforço, ter zero de barriga.
Às vezes eu acho que o padrão mesmo é você ter pouca barriga e, de resto, ter bastante, tudo firme. Sei que parece bizarro, mas é isso que noto. Minhas amigas gordinhas com peito, quadril e barriga sofrem. Mas as sem muita barriga são as gostosas.
Qual o problema da mídia com barriga?
E isso tudo foi só pra dizer que, pra essa entidade indecifrável, a Mídia, nada nunca está bom. Tô cansada desse "magra, porém curvilínea". Amig@, posso fazer nada se nasci assim, de boa. Sou muito saudável e tal. Não venha querer me impor coisas que só deslocando os ossos vou conseguir.
E eu disse no início do post que só às vezes me incomodo com meu tipo físico porque acredito firmemente que sofro muito menos que gordinhas, apesar de tudo dito anteriormente. Sou magra, ponto. As mulheres em geral querem muito emagrecer, e não engordar. Então estou dentro de um padrão, ao menos. Mas não tá fácil pra ninguém.

Tuesday, January 17, 2012

TREINANDO NOSSO OLHAR PRA BELEZA

Talvez haja bastante gente que conheça esse projeto do fotógrafo Nicholas Nixon, de Detroit. Durante 36 anos, entre 1975 e 2010, ele documentou quatro irmãs, conhecidas como as irmãs Brown. Uma delas, Bebe (a mais velha, a terceira da esquerda pra direita) é a mulher dele. Elas foram fotografadas a cada ano, sempre na mesma ordem. E o efeito é fascinante. É um retrato de como o tempo passa, a gente muda, mas no fundo, na minha opinião, nem muda tanto assim.
Na primeira foto, de 1975, elas tinham entre 15 e 25 anos.Esta é a útima, de 2010. Recentemente recebi um desses emails-corrente falando das fotos. A mensagem era estranha. Dizia: “Pode-se perceber claramente algo que tentamos esquecer: o tempo é impiedoso para todos. […] Está vendo como o tempo caminha rápido? E... tem pessoas que perdem tempo com: Ódio, raiva, inveja, futricas, etc”. Ok, esta é a conclusão óbvia a que chegamos. O senso comum dita que as irmãs envelheceram. Nesta sociedade em que juventude (principalmente para mulheres) é sempre sinônimo de beleza, alguns machistas diriam até que as irmãs “embarangararam” (que termo escrotossauro, blargh). Eu proponho treinar o olhar. Ver nuances. Encontrar beleza onde o padrão dita que ela não mais existe. Sério mesmo que essas mulheres só podem ser vistas como lindas nos primeiros vinte, trinta anos de suas vidas? Por quê? Quem disse? Você tem que fazer tudo que te mandam?Eu não proponho esse exercício de reeducar nosso olhar por mim. É, eu tenho 44 anos. É, sou gorda. É, tenho muitos cabelos grisalhos se não tingi-los. Mas não é por mim. É por você. É, você também, com sorte, vai chegar e passar dos 40, 50, 60. As pessoas que você ama e por quem você se sente sexualmente atraíd@ também, se zeus quiser, irão avançar em anos. Você vai parar de amá-las, vai parar de se amar, só porque o que você vê não tem mais relação com o que você vê na mídia? (e alguma vez já teve?).
E aí? Você realmente quer viver num mundo em que a beleza tem prazo de validade, como se fosse uma mercadoria? Você quer um mundo em que nosso conceito de beleza é tão limitado?
Eu digo não. Prefiro expandir meus horizontes, não demarcá-los cada vez mais.
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