Religiosos (todos homens) se transportam da Idade Média para os dias de hoje para protestar contra o aborto de anencéfalos.O placar para que o Supremo Tribunal Federal legalize o aborto de anencéfalos está favorável em 5 a 1. Hoje os ministros vão continuar votando e, se tudo der certo, o aborto
de fetos sem cérebro será liberado (o que não significa, de forma alguma, que a mulher que queira seguir com a gravidez até o fim não possa fazê-lo. É direito dela. Assim como deveria ser direito de toda mulher abortar diante de uma gravidez indesejada). Sou a favor da legalização do aborto para todos os casos, como acontece naqueles países ricos que a gente vive tentando copiar. Mas vai demorar, e não é isso que está em discussão agora. No momento trata-se apenas de algo meio medieval até, e que nem sei se consiste em aborto, exatamente. Afinal, sem cérebro não há vida (quando há morte cerebral os médicos desligam os aparelhos, se a família quiser). Então qual vida está sendo abortada no caso de um feto que não tem cérebro, e que vai “viver” apenas por alguns minutos fora do ventre da mãe? É extremament
e cruel forçar mulheres a se submeterem a isso. Não dá nem pra acreditar que o Brasil ainda exija essa maldade em pleno século 21. Somos o quarto país do mundo em número de partos de fetos anencefálicos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, só países muçulmanos e alguns na América Latina proíbem o aborto de fetos sem cérebro (este post super esclarecedor do ano passado explica tudo). Nesse quesito e em tantos outros relacionados ao aborto, nós estamos do lado do atraso. Obrigamos mulheres a carregar cadáveres em seus ventres! Eu fico muito indignada com as pessoas que consideram
o ventre um receptáculo e que dão mais importância ao “direito à vida” de um ser sem vida que a uma mulher. No excelente guest post da Amana publicado anteontem, ela sugeriu que a discussão sobre o aborto saia da dicotomia entre “pró-vida” (muitas aspas aí) e pró-escolha, e abranja um debate sobre a responsabilidade coletiva que é ter um filho. O post atraiu todo tipo de troll e de gente que, por algum milagre, parece ter sobrevivido à falta de cérebro. Mas também rendeu comentários importantes. Gostaria de compartilhar dois deles (ambos anônimos) com vocês.
Comentário 1
Eu só queria c
omentar uma coisa com vcs sobre como é o aborto nesse caso de anencefalia, porque meu irmão passou por isso com a esposa dele, então eu acompanhei a história.No caso dele não precisou de justiça, o médico atestou, fez a carta de aborto e o plano cobriu tudo, sem problemas. Mas foi assim: como o diagnóstico veio um pouco tarde, 15 pra 16 semanas (com 12 os médicos já falavam que tinha um problema, mas a minha cunhada quis confirmar) e até o aborto ser feito levou um tempinho também (coisa de uma se
mana), já não é mais aquele fetinho pequenininho que dá pra fazer curetagem, então o nome "antecipação de parto" é bem correto porque de fato acontece um parto.A mulher do meu irmão foi internada e o parto induzido com remédio, e a mulher fica acordada o tempo todo. É como um parto qualquer de natimorto e a mãe pode escolher ver ou não o filho.
É tudo muito cruel e, de verdade, acaba com a vida da mulher, do marido, dos avós... porque a gente tá faland
o aqui de uma gravidez que se não foi planejada, era desejada, era tão desejada que a mulher faz pré-natal, compra roupinha, escolhe nomes pra daí descobrir essa novidade terrível.Por enquanto eles falam que não vão tentar outro filho, daí se nota que foi bem traumático.
Agora imaginem vocês obrigar uma mulher a completar NOVE MESES sabendo que é isso que vai acontecer no final? Muito cruel.
Que o Supremo atue com a razão pelo menos dessa vez.
Comentário 2Lola, acompanho seu blog há algum tempo, às vezes concordo com você, às vezes não (acho natural, não?).
Quis dei
xar meu ponto de vista e minha história e assinei como anônimo porque realmente não quero me identificar. Eu tive um filho com uma malformação severa que sobreviveu até os 7 meses de vida dentro da UTI, e a minha impressão é que as pessoas têm uma visão muito romanceada do que é passar seus dias com um filho malformado. Não é tão bonito nem sentimental quanto parece. A família abandona mesmo -- o primeiro da lista a sumir é o pai, em vários níveis, desde simplesmente não aborrecer muito e deixar a mãe cuidar da criança, até tornar a vida da mãe um inferno e (finalmente!) ir embora. Em 7 meses (até que tive sorte!) conheci 1 (UM) pai que realmente se importava com a filha internada. O resto da família abandona também. Não se iludam.Talvez apareçam para uma visitinha de 15 minutos no final da semana, e se você tiver sorte alguém fica lá por meia hora para você correr e tomar um banho em casa. Le
mbro de uma mãe que me contou, quando o filho foi internado, que a mãe dela (avó da criança) disse que sentia muito, mas claro que não ia poder ajudar daquela vez porque ela tinha viagem marcada para Bariloche. A grande revolta dessa mãe era pensar que se qualquer um dos outros netos dela, crianças saudáveis e normais, estivessem dentro de uma UTI, a avó com certeza cancelaria a viagem e ficaria ali ao lado. Mas como é o menino doente mesmo... Outra dificuldade enfrentada é o julgamento dos outros. Você já está fragilizada e ainda as pessoas desconhecidas resolvem se meter na sua vida. Você tem culpa, de alguma forma, pela tragédia que está passando, lógico. Se tivesse orado mais, comido mais, comido menos, se estressado menos, tomado mais ou menos vitaminas etc, etc. Imagina eu, que sou ateia, o que ouvi. Falta Deus na minha vida, lógico. E minha paciência não estava das melhores.Alguém pergunto
u se uma mãe abortaria um filho se soubesse que ele não teria chances. A minha resposta: se eu soubesse que meu filho nasceria com essa malformação, que passaria por 3 cirurgias inúteis, que viveria ligado em aparelhos, que precisaria fazer exames de sangue todos os dias e levaria em média 10 picadas por vez, que faria controle de dextro de 3 em 3 horas, que teria 13 septicemias e que no fim morreria afogado no próprio sangue que inundou seus pulmões, eu abortaria sem pensar duas vezes.Para quem disse que nem um animal aborta, vale lembrar que os animais abandonam ou matam os filhotes que nascem doentes.
Eu gostaria de ter feito esse texto soar um pouco menos agressivo, mas acreditem que a intenção não foi agredir ninguém. Foi só expor friamente como é a vida quando é seu pé que o sapato aperta o calo.

E, se me permitem um conselho, para todos aqueles que são favoráveis à manutenção das gestações de fetos com graves malformações: tirem um tempo, talvez uma ou duas horas por semana, e se proponham a cuidar de uma dessas crianças/adolescentes/adultos que dependem da MÃE 24 horas por dia, para que essa mãe possa sair, relaxar, ir ao cinema, sei lá. Lembrem-se que essas mães não têm vida.
Abraço a tod@s.














