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Saturday, May 19, 2012

GUEST POST: EU RECICLO MULHERES

Arte e foto Mundano

Selene me enviou esta mensagem com dúvidas que não sei responder. Acho que a dúvida é maior que "o que responder a um aluno que carrega mensagens equivocadas sem se dar conta?". Num mundo preconceituoso como o que vivemos, tod@s nós, em algum momento, nos pegamos pensando "o que dizer num caso assim? Aliás, será melhor dizer alguma coisa?". Espero que vocês possam se identificar com o que conta a Selene e, ao mesmo tempo, dar sugestões.

Sou formada em Artes Plásticas e dou aula de arte em uma escola particular localizada em uma região tranquila na zona leste São Paulo. Sempre digo que tenho sorte de lecionar nessa escola, que me dá total liberdade para que eu possa planejar minhas aulas da maneira que acredito. Há um ateliê bastante amplo com mesas grandes e com os materiais que eu desejar. A escola procura adotar um modo construtivista de ensino, dando ênfase em oficinas ao invés de aulas expositivas, onde se possa aprender cada vez com mais autonomia. Ou seja, os alunos que lá estudam são privilegiados por terem acesso a uma educação pensante, aberta e repleta de propostas interessantes.
Meus alunos têm entre 6 e 11 anos e as turmas têm em média 25 alunos. No ano passado, havia uma turma especialmente mais complicada de lidar, pois concentrava muitas crianças que adoravam falar o tempo todo -– o tempo todo mesmo. Era difícil que alguma proposta os cativasse, e grande parte da aula era tomada pelos pedidos de silêncio e atenção.
Em uma dessas aulas, os alunos realizavam com alarido a proposta do dia. A cada 5 minutos, eu tinha que lidar com problemas “alheios” (digo entre aspas pois encaro que não vivemos em uma bolha e frequentemente surgem questões, desvinculadas à matéria propriamente dita, que não devem ser ignoradas): “professora, não consigo trabalhar com tanto barulho; professora, o fulaninho me mandou calar a boca; professora, alguém escondeu meu material” etc. No meio disso tudo, um aluno se dirigiu até mim e, levantando a blusa do uniforme, me mostrou todo orgulhoso a camiseta que estava por baixo, ostentando os magnificentes dizeres “EU símbolo de reciclagem MULHERES”.
Eu já havia passado por situações parecidas em sala de aula; aquela situação em que você sabe que deve dizer algo muito certeiro, mas fica tão atordoado que acaba deixando passar. Só consegui perguntar duas coisas para ele: se ele sabia o que aquilo significava e onde ele tinha arranjado a camiseta. A primeira pergunta foi respondida com um simples sim e a segunda com “foi minha mãe que me deu, é do Pânico”. Logo perdi a chance de dizer mais alguma coisa. A conversa se dispersou, o garoto rapidamente estava em outra atmosfera e outras questões foram surgindo. Porém, diferentemente de outras situações que não consegui conduzir da maneira que gostaria, essa em especial não me deixou em paz. Naquele dia, voltei para casa com uma forte sensação de derrota. E hoje, meses depois, não passa um dia em que não confabulo uma conversa imaginária com aquele aluno naquele momento. O problema é que por mais que eu imagine essas conversas que não ocorreram, sempre ficam lacunas. Não sei o que diria. Não sei como explicaria para um garoto que, no auge dos seus 9 anos, carrega no peito dizeres que, provavelmente, ele só acha “engraçadinhos”, não tendo noção da dimensão daquilo. Não sei se de fato foi a mãe dele que o presenteou com a camiseta, mas certamente a mãe sabe das roupas que seu filho tem. Ela acha aquilo engraçadinho também?
Lembro que quando eu tinha mais ou menos essa idade, usava dias seguidos a mesma roupa. Não gostava de usar uniforme e uma vez levei uma advertência por ir na escola de calça preta (tinha que ser azul marinho). Eu amava aquela calça e não queria vestir nada além dela. Acredito que a camiseta estava sendo para o aluno o mesmo que a calça preta era para mim –- do contrário ele não iria usá-la por baixo do uniforme em um calor de 30 graus. Por algum motivo, ele se sentia bem carregando aquela mensagem. Como eu poderia instigar um garoto dessa idade a refletir que a frase implica na conotação de que mulheres são descartáveis, algo para ser usado e trocado? Que ele estava simplesmente repetindo um comportamento machista do “pegador”, sendo que ele nem sequer tem maturidade para vivenciar e escolher se quer mesmo ser esse tipo de cara? Que pessoas, homens e mulheres, não são recicláveis justamente por serem pessoas, e não lixo ou objetos descartáveis? Como fazer para que essas colocações façam sentido para uma criança, ainda mais para uma criança que costuma dar de ombros a qualquer coisa que um professor fale?
Sei que situações como essa ainda aparecerão. Quero estar mais preparada para que, da próxima vez, eu possa fazer mais do que perguntar se o aluno tem noção do que está dizendo. É inevitável imaginar esse garoto daqui a uns anos da pior maneira possível e, querendo ou não, deixar passar faz com que essa pior maneira possível seja responsabilidade minha também. É fácil ignorar, achar que é só bobeira de criança, que ele deve estar repetindo comportamentos dos pais e que não necessariamente será igual a eles. Mas não consigo fechar os olhos e achar que as questões impertinentes que surgem dentro do ateliê não me dizem respeito. Portanto, isso é um apelo para que me ajudem a pensar maneiras de conduzir uma conversa quando essas situações surgirem. Acredito que, quanto mais esse assunto for discutido, mais ferramentas teremos para argumentar, seja com um aluno, como foi o caso, ou com quem for.

Wednesday, May 16, 2012

GUEST POST: MEU PAI, MEU MONSTRO

A M. me mandou a sua história, que é a história de muitas crianças que sofrem violência dos pais. Sou totalmente contra palmadinhas "pedagógicas" ou "educativas", chamem como quiser. 
Pessoas que estudam comportamento infantil sabem muito bem que educar com violência só gera mais violência. E que educar pela via do medo é o pior caminho. Mas, se dar palmadinhas inofensivas é uma forma tão maravilhosa de se educar uma criança, por que deixar que apenas os pais tenham esse privilégio? Vamos deixar @ professor@ na escola bater nos alunos também! Pô, vamos liberar para que estranh@s na rua deem tapinhas nas crianças! Afinal, faz bem, é assim que se ensina, né? Ah, mas não pode ser um tapa forte, só um tapinha, e dado com amor! Sei. 
Já tratei deste assunto diversas vezes no blog, e praticamente todos os pais e mães que comentaram foram unânimes em dizer que, nas vezes em que bateram nos filhos, foi por descontrole. Descontrole, pra mim, parece ser o oposto de amor e educação. A maioria das pessoas que deixaram comentários em posts passados da violência que sofreram alegam que isso prejudicou muito o relacionamento com os pais. Então, por que insistimos numa prática covarde? Bater em criança também é violência doméstica. E tod@s nós podemos denunciar.
Muita gente sabia da violência que M. e as outras mulheres da sua família sofriam. E ninguém fez nada.


Demorou muito tempo para eu ter coragem de compartilhar a minha história. Sou uma moça de classe média, sempre estudei em colégio particular, faço uma boa faculdade hoje. Sou filha de pais com ensino superior mas nem por isso escapei de um drama que atinge milhares de mulheres no mundo, não importando a condição social: a violência doméstica.
Quando eu era pequena apanhava do meu pai pelas simples travessuras de uma criança, tanto eu como a minha irmã sete anos mais velha. Minha mãe também apanhava nas discussões com meu pai, e ela culpava o temperamento explosivo dele, mas de certo modo era conivente com esse comportamento agressivo. Ela usava desta arma para exigir obediência da gente. 
Muitos assumem que é normal uma criança apanhar quando pequena para assim ser melhor educada. Dizem que eles mesmos apanharam quando pequenos e hoje são pessoas normais. Mas as pessoas deveriam tentar ver com olhos de criança. É terrível para uma criança ver o seu pai, uma figura que era pra te proteger, bater em você, na sua irmã e na sua mãe, e, em meio a sua revolta, ver que os outros acham tudo normal. 
Eu nunca consegui compreender o porquê de suportar esta situação, e desde criança tramava sair de casa e viver a minha vida longe daquela violência. Os anos se passaram, eu e minha irmã deixamos de ser crianças, mas nem por isso as agressões pararam. Certa vez eu tinha uns 13 anos e tomei uma surra homérica, daquelas que você tem que inventar desculpas na escola depois pra explicar os roxos. O motivo só fui saber depois da surra: "Você andou entrando em sala de bate papo no computador". Quando eu disse que não entrei, ele respondeu: "Ah, então desculpa, isso vale para você não entrar". No fim descobri que tinha sido um amigo dos meus pais que tinha usado o computador e entrado na página. 
Com o passar dos anos me tornei uma jovem estudiosa obcecada em tirar notas altas com o medo de uma nota baixa desencadear mais uma surra (meu pai era muito exigente na educação; lembro de ter apanhado certa vez por ter dificuldades em matemática). Mas também me isolava do convívio social desde nova, tinha problemas em interagir socialmente, e ser uma nerd não ajudou minha vida social. Eu sofria bullying e muitas vezes recorri à violência para me defender na escola. Eu era uma aluna de excelentes notas, mas sem amigos e com problemas de conduta. 
Aos 17 anos consegui a minha deixa para sair de casa: passei numa universidade em outra cidade e fui morar fora. Minha irmã, porém, continuou em casa e aos 25 anos, já formada, recebia toda a violência do meu pai. Ela apanhava por ter ido a um bar em dia de semana, ou por esquecer de trancar a porta de casa. A situação foi extrema, até que um dia ela fugiu de casa. Não levou nada além da roupa do corpo. Ela se libertou da violência e fez o que nenhuma de nós tivemos coragem de fazer: denunciou meu pai na Delegacia da Mulher. 
Minha mãe, por incrível que pareça, ficou do lado dele, pois a ação dele na mente dela estava correta. Ainda tive que ouvir que era um absurdo a denúncia porque agora todo mundo estava sabendo. O que minha mae tanto queria proteger era a imagem de família normal, mas nunca foi possível preservar esta imagem: os vizinhos ouviam os gritos enquanto apanhávamos, e as pessoas mais próximas viam os roxos e as marcas. Dessas pessoas não escondíamos a verdade; todas sabiam, só nada faziam.
Para evitar um escândalo, minha mãe obrigou minha irmã a retirar a denúncia. Não sei se foi a denúncia em si ou o fato de minha irmã sair de casa, só sei que após esta data meu pai parou de bater em mim ou na minha mãe. Diz ele que aprendeu a se controlar, mas pra mim aprendeu tarde demais. Não consigo confiar nele como pai e temo que em algum momento ele ainda vai voltar a explodir e descontar em mim novamente.
Estou contando esta história pois sei que existem muitas outras pessoas como eu e minha irmã que sofrem caladas a violência de um pai e ficam de mãos atadas, com medo de lutar contra isso. Os traumas causados pela violência são muito maiores que as marcas roxas no corpo. Eu sei pois hoje faço tratamento psiquiátrico e psicológico e ainda não consigo perdoar meu pai pelo que fez. Ainda assim, mesmo sabendo que não tenho culpa, tenho vergonha de assumir que sofri violência. Tenho medo dos olhares e das conversas, como se a sociedade me culpasse por ter apanhado. Quantas que já sofreram algum tipo de violência não sofrem o mesmo julgamento?

Monday, March 19, 2012

PROFESSORA TRABALHA GÊNERO NA PRIMEIRA SÉRIE

Gênero (feminino/masculino) é uma questão importantíssima, mas que raramente é discutida nas escolas. Como mencionei ontem, eu fiz Pedagogia, e não me lembro de uma aula sequer em que tratamos do assunto. Gostaria de acreditar que a situação mudou dez anos depois, mas duvido. E isso que a orientação sexual (que englobaria gênero) é um dos Temas Transversais dos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) desde 1997.
Vou deixar com vocês um lindo relato de uma professora que ensina gênero na primeira série. Está em inglês, e eu fiz um resumo (mal) traduzido. Se vocês souberem de livros infantis em português apropriados pra abordar gênero com crianças, por favor, avisem nos comentários.
Era uma vez uma professora de primeira série. Na mesma escola, nos EUA, alguns anos antes, ela tinha considerado estranho uma colega falar sobre gênero no maternal. Achou exagerado, seria cedo demais! Mas depois de ter duas filhas e perceber toda a divisão que há entre os “sexos opostos” (opostos a quê? Por que essa oposição?), esta professora mudou de ideia. Ademais, ela teve uma aluna, Allison, que preferia ser chamada de Allie, que não tinha um gênero muito definido. As crianças muitas vezes se referiam a Allie como menino. A professora ligou pros pais (compreensivos) de Allie, que perguntaram a ela o que queria que fosse feito: ela, a professora, deveria corrigir quem chamasse Allie de menino, ou não dizer nada? Allie pediu pra corrigir. Quando a professora disse pra turma pela primeira vez que Allie era menina, alunos fizeram perguntas na sala: “Por que Allie se veste como menino?”, “Se você é menina, por que se parece com um menino?”
Esta professora então decidiu a começar a falar com alunos sobre gênero. Primeiro, trouxe um livro infantil sobre um menino que queria uma boneca mais do que nada (veja vídeo em inglês), contra os desejos de seu pai. Em seguida, ela fez duas colunas, meninas e meninos, e pediu que as crianças citassem brinquedos para cada gênero. Quando as duas colunas estavam cheias, ela passou a perguntar se meninas podiam brincar de Lego, por exemplo. A maior parte não viu problema nenhum nisso. Perguntou se meninos podiam brincar de boneca. Como haviam acabado de ler o livro, não houve oposição. “Será que alguma menina aqui brinca de carrinho?”. “Eu! Eu!”, algumas responderam. Só houve hesitação quando chegaram na parte de esmalte e maquiagem. Nisso as crianças pareciam irredutíveis: aquilo era só pra meninas. A professora então lembrou que alguns roqueiros usavam maquiagem. Alguns alunos começaram a se lembrar de casos, inclusive casos na família: “Meu tio pinta as unhas de preto”. E as barreiras de gênero foram se misturando.
Allie tinha vergonha de ir ao banheiro, e quase nunca ia. Nas vezes em que queria ir, a professora lhe dava a chave para um banheiro que não era nem para meninos nem para meninas. Mas o problema persistia porque, como tantas professoras, esta também pedia para as crianças fazerem duas filas, uma para cada gênero. A professora pensou em novas maneiras de fazer as crianças se dividirem em duas filas: “Quem gosta mais de gatos fica nessa fila. Quem gosta mais de cachorro, fica nesta”. Ela testou várias categorias, que eram variadas diariamente, e as crianças adoravam: leite ou suco, calor ou frio, futebol ou basquete, praia ou piscina, sorvete ou bolo. Ela também passou a adotar termos como “crianças”, em vez de “meninos e meninas”.
Como um garoto havia sido alvo de brincadeiras por ter um estojo da Hello Kitty, e sua irmã, por ter um estojo com caveiras, a professora usou alguns livros de Tudo Bem Ser Diferente (ela já havia usado outros livros da série, como Tudo Bem Usar Óculos, Tudo Bem Vir de Outro Lugar, Tudo Bem Ser de Outra Cor). Ela começou perguntando quantos já tinham ouvido que não podiam fazer determinada coisa por serem meninos ou meninas. Muitas mãos foram levantadas. Ela leu um livro em que um garoto é bullied por preferir dançar a praticar esportes. As crianças empatizaram com o personagem.
Já que a professora queria não apenas ampliar as fronteiras de gênero, mas também contestá-las e eliminá-las, ela pediu aos alunos para fazer desenhos para ilustrar o tema de “Tudo Bem Ser Diferente”. Uma aluna desenhou duas noivas. Os desenhos foram expostos no mural da escola.
Allie continuou enfrentando muitos problemas, mas pelo menos a situação na escola melhorou pra ela. E, lógico, melhorou para as outras crianças. Todo mundo ganha em viver num mundo mais tolerante, mais inclusivo.
A professora diz que seu papel não é responder perguntas como “Por quê?” ou julgar -– é ensinar, e ela não pode ensinar se as crianças estão desconfortáveis na sala. E que seu trabalho é preparar alunos para serem parte da sociedade e conviver com todos os tipos de pessoas. Ela termina o relato contando que uma manhã recebeu uma mensagem de uma mãe: “Andrew diz que quer uma boneca de ninar e ele não liga se é só pra meninas. Obrigada, Ms. Melissa!”.
Claro que em muitas escolas a reação dos pais talvez não fosse "Obrigad@!". É preciso transformar a todos, não só as crianças. Mas pra isso a gente tem que se dar conta que a segregação por gêneros, esta divisão binária e ultrapassada, é nociva pro mundo.

Sunday, March 4, 2012

PALESTRAS, AULAS, CURSO, LOLINHA PRECISANDO DE FÉRIAS

Queridas pessoas, vocês que moram no Rio estão cordialmente convidadas para irem a minha palestra e a do grupo de gênero amanhã, a partir das 18 horas (calculem umas duas horas, entre atrasos, discussões, perguntas etc), no IFCS da UFRJ. A minha palestra se chamará “Gênero e mídia: o problema dos estereótipos”, e eu tô preparando umas coisas bem legais, só que ainda falta muito, e eu não deveria estar escrevendo este post, e se eu não acabar a tempo vou ter que sapatear no palco. Palco?! Tava marcada pra uma sala, mas me falaram que a procura estava muito grande (falaram mesmo, o que me deixou preocupada e ansiosa), e pode ser que tenha sido transferida pra um auditório.
No dia seguinte, terça, das 9 às 13 horas, darei uma aula inaugural sobre gênero, educação e blogs para a especialização do Curso de Coordenação Pedagógica. Inicialmente fui convidada só pra essa aula, mas o pessoal começou a pedir uma palestra, e decidimos marcar a palestra também. Bom, a aula inaugural tem tudo pra ser muito interessante (o tema é ótimo). A professora Susana, da Faculdade de Filosofia, que é coordenadora do curso e foi quem me convidou, disse que a UFRJ não está divulgando muito essa aula, mas que o auditório é grande e quem quiser ir, pode ir. Só que é longe, no campus do Fundão -- Auditório do Centro de Tecnologia (CT), situado na Avenida Athos da Silveira Ramos n⁰ 274, Bloco A.
Meu tempo no Rio será super corrido. Chego amanhã às 4 da tarde no aeroporto e já volto pra Fortaleza às 18 h do dia seguinte. Mas espero que dê tempo pra falar com todo mundo. Quero muito conhecer todo mundo que está me mandando mensagens tão carinhosas. Eu morro de vergonha, não entendo essa empolgação toda, mas não vou negar que gosto. Obrigada por tudo, pessoal!
Aproveito pra comunicar à galera de Franca – SP que, na semana que vem (dias 12 e 13), estarei aí pra duas palestras: uma na Faculdade de Direito de Franca (a gente já definiu o título: “As faces do machismo e a relevância do movimento feminista hoje”), e outra na Unesp (“Como a mídia engessa as mulheres”). Lá será bem menos corrido que no Rio, porque ficarei duas noites. Só quero ver quando vou preparar as palestras...
E pra quem mora em Fortaleza, fica o convite pro curso de extensão Análise dos Preconceitos na Mídia. Será uma quinta-feira a cada duas semanas, das 11 às 13 h, na UFC, campus Benfica, sala de reuniões do DLE. O curso é aberto a toda comunidade (não precisa ser alun@ da UFC), é grátis, vale certificado, e é muito bacana. Mesmo. Eu tinha marcado pra começar as aulas na quinta, dia 8/3, mas terei reuniões nas próximas quintas, então adiei a primeira aula pro dia 22/3. Vá lá se inscrever na UFC.
Agora eu realmente preciso acabar de preparar tudo pra amanhã e terça... Vejo vocês lá. E quem quiser falar comigo, por favor, vá falar comigo. Lembrem-se que eu não conheço ninguém pessoalmente e que tenho péssima memória visual. Vai ser difícil eu reconhecer alguém pela fotinho do Twitter...

Thursday, March 1, 2012

GUEST POST: COMO SÃO OS FLERTES NA SUÉCIA

José Tarcísico Costa tem 25 anos, é de Campinas e está morando na Europa desde agosto de 2010. Depois de um ano na França, agora está em Estocolmo, onde cursa mestrado em Física. Em suas palavras: "Sempre tenho interesse em fazer uma imersão na cultura do país em que estou vivendo. Acho um desperdício de oportunidade morar num país diferente e ficar só focado na Física. Por essa razão procurei conhecer pessoas nativas e também estudar mais sobre a cultura local e acabei descobrindo essa disciplina voltada pra estrangeiros, na faculdade onde estou". Então vamulá. Acho que vocês vão gostar do que o Zé tem a dizer.

Acompanho seu
blog como um religioso e sempre acho muita coisa interessante. Hoje estava discutindo com uns amigos sobre a igualdade entre os sexos, machismo, feminismo e etc, quando me dei conta de que muitos homens usam a "diferença natural" dos sexos pra justificar certas atitudes machistas, algo que eu achei absurdo. Contei para eles sobre a minha experiência na Suécia e muitos não acreditaram que as coisas aqui realmente são do jeito que são. Inclusive eu não acreditava muito antes de viver aqui, então achei uma boa ideia te escrever pra contar sobre isso. Não sei se você conhece bem como as coisas funcionam aqui, mas em todo caso...
Eu sempre ouvi falar da extrema igualdade entre os sexos na Suécia, mas nunca tive ideia da real extensão disso até vir morar em Estocolmo e cursar uma disciplina chamada "Sociedade e Política Suecas" no Instituto Real de Tecnologia (KTH) e, claro, viver dentro dessa sociedade. A primeira coisa que aprendi e, não tinha a menor ideia, é que a "licença maternidade" por aqui dura 480 dias, que podem ser divididos entre os pais (sendo o mínimo de 60 dias obrigatório para cada um deles).
Entretanto, a i
gualdade aqui vai além das leis, ela já está bem imersa na cultura dos suecos devido à educação pela igualdade que eles recebem desde a infância. Eu conversei com algumas garotas mais novas do que eu, na faixa dos seus 20 anos, e perguntei como ocorria o flerte por aqui. Isto é, perguntei como elas agiam quando se interessavam por algum rapaz e a resposta foi unânime: "Vamos falar com ele, oras." Continuei e perguntei se isso não fazia com que os rapazes as vissem como fáceis ou algo do tipo, e pra isso recebi caretas de desaprovação: "Como assim? Por que eu seria julgada como sendo fácil ao conversar com um garoto que me interessa? Não é isso que eles fazem quando estão interessados em alguém?" Tentei explicar pra elas como as coisas funcionam no meu país de origem e vi que elas acharam tudo um pouco absurdo. Para ter certeza de que elas não estavam só falando isso da boca para fora, resolvi conversar com rapazes na mesma faixa da idade e, novamente por unanimidade, todos eles me confirmaram que o sistema por aqui é de mão dupla: "Se nós estamos interessados em uma garota vamos falar com ela, se elas estão interessadas em um de nós elas vêm conversar conosco. Nada de mais."
Decidido a levar o assunto um pouco mais a sério e a fundo, resolvi sair com um grupo de amigos e ir a um bar e depois a uma balada para tentar observar o comportamento das pessoas. Em princípio não vi muitas diferenças em comparação à vida noturna no Brasil ou na França (país onde eu vivia anteriormente), mas depois de algum tempo pude constatar o que tinha ouvido. As coisas por aqui realmente acontecem em mão dupla, não existe essa de mulher ter que ficar fazendo "charminho" para que o homem vá falar com ela. Se ela está realmente interessada, ela vem e conversa, e não há nenhum problema nisso. Após essa experiência, voltei a conversar sobre esse assunto com vários suecos e suecas de diferentes idades, e também com estrangeiros que vivem por aqui há algum tempo já. O que eu achei engraçado foi o depoimento que recebi de uma argentina que me disse que "a igualdade entre os sexos aqui era um saco porque acabou com o romantismo." Pedi para que ela me falasse mais sobre isso e ela me disse que um sueco não manda flores, não abre a porta do carro, etc. Levei esse assunto pra um grupo de nativos e eles me disseram que na verdade não era bem assim. Algumas garotas disseram que não viam razão para o rapaz abrir a porta do carro, uma vez que ela poderia fazer isso sozinha e, caso ele fizesse questão de fazer isso, ela faria o mesmo pra ele em algumas situações, por que não? Quanto às flores, todos disseram que na verdade eles mandam flores sim, nada impede você de fazer isso. Segundo eles, o romantismo fica até maior, porque não só os homens mandam flores, como as mulheres também.
Além disso, o homem sueco é mais participativo no lar, ele lava pratos, ele cuida das crianças, ele limpa a c
asa, sem que isso seja um problema para a sua masculinidade.
Eu achei tudo isso fantástico e, no meu ponto de vista, o mais importante é que mostra que é sim possível uma sociedade igualitária entre os sexos e que essa desculpa do "naturalmente diferentes" não cola. Reparei que existem muitas mulheres policiais por aqui, assim como muitos homens professores do maternal, coisa um pouco diferente do que acontece no Brasil.
Para finalizar, fiquei sabendo de uma escola onde a igualdade é levada mais a cabo ainda, o que gerou e ainda gera uma certa controvérsia por aqui. Nos subúrbios de Estocolmo existe uma escola chamada "Egalia" onde os professores evitam ao máximo "influenciar" a definição do gênero nos seus alunos. Nas palavras de um professor [ou professora?], Jenny Johnsson: "A sociedade espera que as meninas sejam sempre agradáveis e bonitas e os meninos viris e desinibidos. A Egalia lhes dá uma fantástica oportunidade de ser quem eles querem ser." Isso vai desde o espaço físico ao vocabulário utilizado. Em sueco han significa ele e hon significa ela; entretanto, nessa escola, foi inventado um novo termo, hen, que não existe oficialmente na língua sueca, pra ser usado em determinadas ocasiões. A diretora da escola Lotta Rajallin disse que esse termo é empregado em algumas situações como por exemplo quando um bombeiro, eletricista, policial etc vem visitar a escola. As crianças não sabem se será um profissional homem ou mulher, então a escola dizez "Hen vem amanhã nos visitar", o que, segundo Rajallin, aumenta a perspectiva das crianças. Por que dizer "ele" ou "ela" quando não se sabe o sexo da pessoa que virá?
O espaço físico também evita definições. Na sala de brinquedos podemos ver blocos de construção ao lado de fogõezinhos, assim como carrinhos misturados às bonecas. As crianças podem escolher qualquer um deles pra brincar, não existe isso de que al
guns brinquedos são de meninas e outros de meninos. Na biblioteca há livros com histórias infantis que tratam de temas como mães solteiras, casais homo e bissexuais, tudo com grande naturalidade. Cabe lembrar que essa escola é única, e esse não é o tipo generalizado de pedagogia utilizada na Suécia.
Em suma, posso dizer que a minha experiência por aqui realmente está sendo fantástica. Eu sempre fui um defensor da igualdade entre os gêneros e sempre achei fraco o argumento de "diferenças naturais". Agora vivendo por aqui, eu pude ver que realmente essas "diferenças" podem ser superadas e a igualdade sim pode ser alcançada. Não é à toa que a Suécia é o primeiro país do mundo em igualdade, e um dos primeiros em termos de qualidade de vida. Se as coisas funcionam por aqui, por que não poderiam funcionar em outros lugares?

Wednesday, February 29, 2012

COMECE BEM A FACULDADE

Continuando a seção de perguntas e respostas que quero ressuscitar (porque vocês mandam tantas perguntas por email, e tantas delas são interessantes, e eu não tenho tempo pra responder), respondo à pergunta de uma leitora muito simpática, a Letícia. Antes, o email dela:

Olá, Lola! Há algum tempo escrevi um e-mail que você publicou como "cafuné na Lolinha", e devo dizer o quão feliz fiquei com a oportunidade de ter minhas palavras no seu blog!
Devo dizer que apesar de não muito frequente nos comentários, continuo acompanhando seu blog fielmente, e, por esse motivo, queria te contar uma coisa: Por meio do Pró-Uni, consegui uma bolsa integral na PUC de Campinas, e adivinhe o curso que escolhi.... LETRAS!
Você deve estar se perguntando por que exatamente estou te contando isso, mas eu já exp
lico: sempre gostei de inglês, e ver você, doutora em literatura inglesa, tão apaixonada pela língua, me inspirou bastante no processo de escolha. Além disso, gostaria de te pedir alguns conselhos, como o que esperar de uma universidade imensa (ainda mais eu, que sempre estudei em escola pública pequena), o que posso fazer para começar com o pé direito, enfim... O que você achar que me ajudará nesse momento de transição que eu considero tão difícil, apesar de essencial.
Obrigada mais uma vez, Lolinha...

Minha resposta, que de repente pode servir pra outr@s alun@s na mesma situação:
Que legal, querida! Parabéns por conseguir bolsa! E sinto-me muito honrada por vc ter escolhido Letras!
Olha, não sei bem que conselhos eu posso te dar. Quando eu era novinha e fazia faculdade (fiz metade de Propaganda quando eu tinha 19 anos e morava em SP e era redatora publicitária), eu fui péssima aluna. Acho que eu estava saturada de estudar no ensino médio, e levei a faculdade nas coxas, até largar. Por favor, faça o que quiser, mas NÃO siga meus passos! Faculdade é pra ir até o fim. Pode até mudar de curso (deve, se não gostar), mas agora que entrou, tem que sair com um diploma de qualquer jeito. E de preferência em 4 ou 5 anos, certo? A outra faculdade que eu fiz (Pedagogia, já em Joinville), depois dos 30, eu fiz só pra poder seguir pro mestrado. E não acho isso bom, fazer faculdade pelo diploma. Aproveite sua graduação!
Hoje em dia, tem cada vez mais gente terminando a graduação e indo direto pro mestrado, e depois pro doutorado. Isso é possível. E é uma realidade pra muitos jovens. Pra gente que é de Letras, e que vai provavelmente trabalhar no meio acadêmico, é algo pra se pensar mesmo. Olha só, vc pode se tornar doutora com 30 anos. E aí conseguir um bom emprego numa faculdade, ganhando um bom salário... É uma possibilidade.
Claro, um passo de cada vez. O importante é vc estudar. Quando vc tiver que ler algo pra uma aula, LEIA. Se tiver que escrever, escreva. Se tiver que preparar algo pra apresentar, prepare. Faça tudo que te pedem. E faça mais. Leia muito, por conta própria. Leia o que te interessar. Vá adquirindo uma bagagem. Participe das aulas, faça perguntas, dê seus comentários. Professor@s ADORAM alun@s participativos. Eu, pelo menos, amo. E questionadores também. Portanto, não tenha vergonha, não seja tímida, fale mesmo. Claro, sem ser cri-cri. Seja uma pessoa legal, bem humorada, articulada, que vc fará muito sucesso entre suas/seus colegas e entre o corpo docente.
Não se diminua. Não se sinta inferior. É bem comum entrar numa faculdade (e depois num mestrado, e depois num doutorado) achando que todo mundo é um gênio, menos vc. A maior parte é gente absolutamente na média, que tem esses mesmos pensamentos que vc. Mesmo o pessoal arrogante só está sendo arrogante pra disfarçar sua insegurança.
Lógico que haverá disciplinas que serão muito mais fáceis, e outras mais difíceis. Faça o possível pra superar as difíceis, e brilhe nas fáceis.
Em vez de competir, coopere. Tem lugar pra todo mundo.
Evite ao máximo faltar às aulas.
Seja idealista. Queira mudar o mundo. Se você não quiser isso quando é jovem e tá cheia de energia, vai querer quando?
Faça contato com alun@s de outras áreas também, e até de outras universidades. Enfim, seja acessível. Faça parte do seu Centro Acadêmico, participe da política, seja representante de turma. Se houver grupos feministas ou quaisquer outros que sejam do seu interesse, entre neles. Se não houver, comece um!
Não tenha medo. Lembre-se que, apesar do ensino superior ser um desafio, é também um privilégio. Ainda existem poucos brasileiros com nível superior. E poucos jovens que estão na universidade. As universidades desejam formar alunos. Ninguém quer que o aluno desista, o que infelizmente é muito comum. A maior parte dos professor@s quer ajudar.
Bom, acho que só falei o óbvio. Ou pelo menos descrevi o tipo de estudante com quem eu gosto de conviver, e o tipo de estudante que só consegui ser a partir do mestrado.E não seja uma besta capitalista como o Manolito, tadinho. Seja Mafalda!

Friday, January 20, 2012

GUEST POST: CURSINHO PARA SER MACHISTA

Eu não me espanto mais com as besteiras que são ditas numa sala de aula. Mas ainda me espanto que cursinhos que preparam para o vestibular sejam a instituição de ensino que quase sempre paga melhor a seus professores. E que esses quase sempre empreguem professores homens, não mulheres. A Victoria, que tem 18 anos e é de São Paulo, capital, me chocou com a revelação de quanto ganha um professor de cursinho.

Descobri seu blog em meados de maio deste ano e, desde então, o tenho lido diariamente. Como venho de uma geração na qual a mulher é cada vez mais coisificada pela mídia, comecei a me interessar mais profundamente pelo feminismo, até que através de pesquisas achei o seu blog, o qual leio diariamente, aprendo e me divirto muito. O seu blog me dá muita força no dia-a-dia, porque eu me sinto profundamentde ofendida com a nossa sociedade machista e homofóbica.
Na escola sofria um bullying violento por gostar de heavy metal e não me encaixar nos padrões de beleza e comportamento (tenho corpo
de "tábua" e sou bissexual). Neste ano entrei no cursinho, lugar que SEMPRE ouvi dizer que era frequentado por gente de todo tipo, onde os professores tinham mente aberta, etc etc. Haha, tomei um baque quando descobri a realidade: nunca vi tanta ignorância concentrada. Tenho um professor de Biologia que desde o começo do ano diz coisas machistas e homofóbicas. Algumas de suas pérolas: "TODA mulher tem que ser vaidosa e delicada para agradar o MARIDO", "Mulher OBRIGATORIAMENTE tem que casar", "Dê uma flor a uma mulher que ela te dará NO MÍNIMO um beijo", "TODA mulher gosta de brutalidade, portanto seja macho com ela". Mas no início de setembro esse "educador" soltou a maior pérola de todas, disse bem assim: "Mulher não pensa." Passaram-se uns segundos, eu já estava quase explodindo, e então ele disse "Bicha também não pensa, porque tem mente feminina." Os outros alunos da minha sala, em sua maioria, jovens ignorantes e alienados, típicos "filhinhos de papai" que não estão nem aí para nada além do número de buracos de celulite que têm nas coxas das garotas e de quant@s imbecis el@s já "pegaram" morreram de rir. Sempre é assim, e o pior é que esse maldito diz essas coisas pois de fato acredita nelas. Mas eu acho que ele não deveria dizer essas idiotices nem de brincadeira. O cara é o Rafinha Bastos da Biologia...
Não adiantou fazer nenhuma reclamação com o diretor do cursinho. Fiz até por escrito, mas não adianta. O machismo impera naquela instituição. Acredita que não há NENHUMA professora mulher? O máximo que há são mulheres no Plantão de Dúvidas, trabalhando naquela mesma salinha fechada com o mesmo salário durante anos. A diferença de salário entre um professor titular e um plantonista é ABSURDA: enquanto aquele ganha uns 48 mil reais por mês (é, quando soube desse valor também fiquei embasbacada), este ganha uns dois mil. Acredite também que os professores saem com as alunas (gurias de 17, 18 anos), e inclusive tratam as alunas de modo diferente. Várias vezes fui tirar dúvidas com um professor de Matemática que não olha nem na minha cara, já para as meninas que para ele são bonitas e gostosas, ele dá toda a atenção do mundo. Eu também pago mensalidade! E minhas notas são astronomicamente melhores do que as delas! Não é ridículo uma instituição de "ensino" cuja fama é de aprovar a maioria dos alunos na USP ser retrógrada desse jeito? Mesmo o cursinho, que tem seu foco concentrado no vestibular, deveria também ensinar os alunos a serem cidadãos. Cursinho para ser machista eu tenho todos os dias, e de graça.
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