Wednesday, March 7, 2012

GUEST POST: EU, BABÁ, OU CARTA PARA MINHA FILHA

Josiane é professora e me conta que demorou para perceber, ou talvez assumir, sua identidade racial. Hoje ela assume sua cor com orgulho e escreve um blog para sua filha Beatriz ler quando crescer (adoro essa ideia! Todas as mães e pais deveriam fazer o mesmo). Logo, o bonequinha fofa é pra Beatriz, não pra mim nem pra você -- não insista. Mas o post é um belo relato para tod@s nós.

Oi minha bonequinha fofa!
Filha, eu sabia que este dia chegaria! Só não sabia que a minha reação seria assim tão boba, meio inerte, com cara de besta muda. Mas foi assim que aconteceu, não dá pra mudar o passado. Nem sei se seria bom ter outro tipo de reação diferente da que tive.
Antes de você nascer, a curiosidade sobre como você seria era enorme. Seu pai se acha moreno, mas é um camarão na praia, prova infalível de brancuras negadas. Já eu sou mulata, e mesmo que esta palavra tenha uma "mula" dentro dela (e todas as implicações possíveis da palavra), não consigo achar outra mais adequada para me descrever fisicamente. Então, quando engravidei, ficou aquela questão no ar: "Pra quem ela vai puxar?" Lembro-me de uma conversa que tive neste período com uma vizinha, loira, que adotou com o marido -- também loiro -- duas meninas bem moreninhas, e dos olhares que recebiam quando as levavam para passear, olhares do tipo : "Hum... a loira pulou a cerca!" Pois aproveitei para falar sobre o meu medo de você nascer bem branca como seu pai e me confundirem com sua babá. O interessante é que na mesma hora, chegou meu pai, seu avô. A vizinha olhou para ele, que também é branco, e comentou rindo: "Se prepare então: com certeza sua filha vai ser clara". E foi o que aconteceu. Você nasceu esta beleza toda, não tão branca, mas diferente de mim. E semana passada, a profecia da babá se concretizou.
Estava eu, você e a minha assistente sobrinha fofa Jheniffer na feira da gestante e bebê. Desta vez você foi uma "lady", se comportou divinamente. Comprei só umas chupetas da única marca que você aceita, e um pacote com 36 fraldas por 9 reais. Quando voltei no dia seguinte, depois de conhecer a qualidade da fralda, para acabar com o estoque, fiquei sabendo que o preço estava errado, custava 38 reais. Bem, continuando a história: Estava eu desfilando com você, quando uma senhora, de aparentes 50 anos, chegou perto de mim e ficou te olhando. Estávamos numa barraca bem apertada e havia uma gestante atrás de mim. Então a senhora perguntou, olhando para a gestante, apontando para você:
- Quantos meses ela tem?
Eu, achando que a mulher tinha algum problema de vista, respondi:
- 8 meses.
A senhora então, soltou a pérola:
- Não, não estou perguntando pra você, estou perguntando para a mãe dela.
A gestante olhou pra mulher, olhou pra mim, e a senhora insistindo na pergunta. A gestante respondeu o óbvio, que não fazia a mínima ideia, e saiu de perto rapidinho, talvez temendo algum barraco. Eu fiquei olhando pra mulher, que fingiu não ter ouvido nada e saiu andando normalmente, enquanto uma vendedora me chamou para ver um chapeuzinho de bebê que eu tinha pedido para olhar. Na hora, não raciocinei muito sobre o que tinha acontecido, foi bem rápido. Mas depois, que revolta me deu! Por dois motivos:
1- É claro que muita gente pensa o que esta senhora pensou, mas nem todos têm a arrogância de assumir um pensamento deste em voz alta;
2- E se eu fosse a babá mesmo? Por que eu não poderia ter respondido a sua idade?
Em resumo: esta senhora ou era uma racista ("Um homem branco ter filho com uma mulata? Que mundo é este?") ou era uma elitista ("Não falo com babás!"), ou a melhor das hipóteses, a que eu assumi intimamente como verdade: ela não passava de uma senhora com graves problemas. Como todos os racistas, aliás.
Beatriz, pode parecer besteira falar sobre racismo hoje, mas só sabe a importância de reconhecer tal tipo de preconceito quem o sente na pele. E quando você é meio misturada, como eu, fica ainda mais difícil identificar atitudes racistas quando elas acontecem. Gostaria muito de lhe dizer que tudo não passa de imaginação minha, que essas coisas não existem mais. Quem dera! O racismo encontra-se no dia a dia, quando alguém fala que cabelo de negro é cabelo ruim, quando um grupo de rapazes negros são enquadrados pela polícia sem motivo algum, e em tantas outras situações! Mesmo que você continue tendo a pele clara, Beatriz, quero que lembre-se de suas raízes, e de como você é uma mistural genética genial. E que critérios de cor de pele não podem servir de parâmetros para se avaliar a importância de uma pessoa.
Embora eu ache que seu cabelo vai começar a cachear logo, logo. Ele ficará lindo, minha filha! Como todo o restante em você!
Adoro você!
Sua mãe.

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