Tuesday, March 13, 2012

POR QUE SOU UM HOMEM FEMINISTA

Eu sou a Lolinha, e sou mulher, com muito orgulho, se bem que às vezes é mais difícil definir o que é ser mulher do que o que é ser feminista. Mas uma leitora, a Nina, me enviou um link muito interessante por email. Já li alguns livros e artigos de homens feministas, e a história deles é sempre bastante parecida. É gente que um dia se deu conta de seus privilégios masculinos e decidiu lutar por igualdade. O que eles dizem sobre comportamento, sobre como homens devem agir no feminismo, também é parecido: um homem precisa engolir a arrogância, sua tendência ao homexplicanismo, sentar e ouvir. Sua atuação é de coadjuvante. Se você acha isso absurdo, pense como seria estúpido se eu, branca, entrasse no ativismo pró-negro dizendo que sei mais sobre os problemas negros que eles mesmos. Ou se eu, hétero, me juntasse ao ativismo LGBTTT querendo dar ordens. Homens podem (e devem!) ser feministas. Mas não é possível que até num movimento de luta feminina eles queiram manter seus privilégios.
Byron Hurt, um documentarista americano, é negro. Ele conta que, durante sua infância, nunca viu seu pai bater em sua mãe. Mas acompanhava e ouvia as brigas acaloradas dos pais, e notava que seu pai sempre tinha a última palavra. Era dele o berro final que encerrava a discussão. E Byron pensava: por quê? O que fazia seu pai tão especial? Por mais que Byron amasse seu pai tanto quanto amava sua mãe, algo naquele ambiente lhe parecia errado. Não havia igualdade.
Quando Byron cresceu, passou a tratar as namoradas da mesma forma. Ele se tornava verbalmente abusivo sempre que era criticado, e usava seu tamanho para intimidar.
Depois de se formar na faculdade, procurou emprego num programa que recrutava mentores para prevenção da violência. Chegou lá sem saber que o programa lidava com violência doméstica, e quase foi embora ao perceber que tratava-se de educar jovens para combater a violência contra as mulheres. Mas aí o fundador do programa lhe perguntou como a violência dos negros americanos contra as negras americanas contribuía para melhorar a comunidade negra americana. E Byron começou a se tocar. Ninguém nunca lhe havia feito aquela pergunta. Ele sempre esteve muito envolvido com questões raciais, mas não de gênero. Diz ele: “Nunca tinha pensado sobre como abuso emocional, espancamento, abuso sexual, assédio nas ruas e estupro podem afetar toda uma comunidade, assim como o racismo afeta”.
No dia seguinte, ele foi a um workshop oferecido pelo fundador do curso, que começou com uma pergunta: “Homens, o que vocês fazem para se proteger de serem estuprados ou abusados sexualmente?”. Nenhum homem fazia nada. Aquela pergunta era alienígena pra eles. Privilégio é isso: você nem se dar conta que um problema existe. Mas, quando o fundador fez a mesma pergunta às mulheres, praticamente todas elas deram exemplos: “eu não faço contato visual com homens quando saio à rua”, “eu não paro de segurar o meu copo nas festas”, “eu peço para uma amiga me ligar quando saio para um encontro”, “eu atravesso a rua quando vem um grupo de caras na minha direção”, “eu uso minhas chaves como possível arma”, “eu carrego spray de pimenta”, “eu tomo cuidado com o que visto”. Etc etc etc.
Byron ouviu tudo aquilo e ficou chocado. Pensou na sua mãe, na sua irmã, nas suas namoradas, e em como possivelmente todas elas passaram e passam por isso. Ele aceitou o emprego, e passou a ler teoria feminista escrita por ativistas negras (e maravilhosas) como bell hooks, Patricia Hill Collins, e Angela Davis.
Ele conta que, como tantos homens, também acreditava no estereótipo que feministas eram brancas lésbicas ogras que odiavam os homens. Logo ele viu que feministas amam homens: “Porém, assim como meu pai silenciava minha mãe durante as discussões para que ele não precisasse ouvir suas reclamações, os homens silenciam feministas, depreciando-as para que possamos nos desviar de ouvir verdades sobre quem somos nós”.
A teoria feminista ajudou Byron a entender seu lugar no mundo e suas origens: “A análise das feministas sobre cultura masculina e comportamento masculino me ajudou a ver o patriarcado do meu pai num contexto social muito maior, e também me ajudou a me entender melhor”. Continua ele: “Não só o feminismo dá voz às mulheres, como também abre o caminho para que homens se libertem da camisa de força da masculinidade tradicional. Quando machucamos as mulheres em nossas vidas, nos machucamos, e também machucamos a nossa comunidade”.
É comovente ler isso, inclusive porque morei um ano nos EUA e fiquei espantada com a misoginia de parte da comunidade negra. Como se pode lutar contra discriminação racial e fingir que a discriminação por gênero não existe, ou que essa discriminação por gênero não afeta a luta contra a discriminação racial? Como se pode achar que uma comunidade vai melhorar se metade da sua população continua sendo oprimida?
Mas a descoberta de Byron de que a situação que presenciou em seu lar não era algo individual, e sim estrutural e coletivo, e de que homens devem fazer sua parte para eliminar o sexismo, vai muito além da questão racial. Pense em como seria um mundo sem violência doméstica. Sem estupro. Sem mulheres sendo espancadas e mortas por homens que se consideram seus donos. Um mundo desses não seria melhor apenas para as mulheres. Seria um mundo melhor pra todo mundo, ponto. Inclusive pra você.

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