Monday, April 2, 2012

GUEST POST: NOSSO BARULHO É PERMANENTE. E O SEU MACHISMO?

Tod@s nós observamos, consternad@s, o episódio da semana passada envolvendo a faculdade de Direito da UFPR, quando um dos partidos acadêmicos do curso lançou um "manual do calouro" muito machista. Diante da repercussão, os autores disseram o de sempre: "foi só uma brincadeira". Incrível como nossa sociedade é brincalhona, não é?
Mais uma vez, as pessoas que querem derrubar um modelo arcaico provaram que toda ação gera uma reação. Hoje em dia, os preconceituosos já não podem mais fazer seus chistes sem ouvirem críticas. Aprendam. Isso não vai mudar. Estejam preparados. Pelo menos não façam essa cara de surpresa quando são confrontados, porque isso é de uma hipocrisia colossal.
Fiquei muito contente
e honrada que o grupo de gênero da UFPR me perguntou se poderia escrever um texto para ser publicado neste humilde blog. Eis o texto, que publico com orgulho. Ele é uma construção coletiva do grupo de gênero da UFPR (a maior parte composta por estudantes de Direito). Na quarta-feira, dia 4 de abril, em Curitiba, este grupo fará um ato por uma universidade sem machismo. A concentração será às 11:30 na Praça Santos Andrade. Pessoal de Curitiba, participe! Mais informações no blog do grupo. Parabéns pela mobilização, pessoal!

“Foi só uma brincadeira”. É difícil dizer quantas vezes tivemos que ouvir isso durante essa última semana pelos corredores da faculdade de direito da UFPR. O Partido Democrático Universitário (PDU) -– um dos partidos acadêmicos existentes no curso –- distribuiu na primeira semana de aulas seu próprio manual do calouro, paralelamente ao produzido pelo centro acadêmico. Nesse material, são usados artigos do Código Civil pra ajudar os garotos a “resolverem problemas sentimentais”. Segundo nossos colegas do PDU, se vamos para o quarto com o cara, mas não queremos transar, ele pode invocar o “Código Civil – art. 233. Obrigação de dar: A obrigação de dar coisa certa abrange os acessórios dela, embora não mencionados” . A objetificação da mulher não poderia ser mais explícita: somos colocadas como mero objeto sexual a ser utilizado. A nossa sexualidade, o nosso direito ao próprio corpo, nosso desejo, nada mais são que um “acessório”. Mas tudo bem, foi só uma brincadeira, né?
Nós, do grupo de gênero, achamos que não. Por isso, assim que tivemos conhecimento da existência desse manual, publicamos uma nota de repúdio, apoiada por grupos internos e por diversas organizações externas à UFPR, várias delas de âmbito nacional. O caso também chamou atenção da mídia; reportagens foram publicadas, inclusive em veículos de circulação nacional. Dentro da faculdade não se falava de outra coisa. O caso foi ganhando proporções maiores e os ânimos foram aumentando na mesma medida. A primeira resposta dos autores e autoras do manual, adivinhem só, foi que tudo não passava de uma brincadeira. Para eles, o problema foi uma falha de interpretação nossa, e eles pediram desculpas CASO mais alguém também tivesse interpretado mal e se ofendido. Depois nos atacaram dizendo que estávamos sujando o nome da nossa instituição nacionalmente. Em sua última manifestação, disseram que não se retratariam, pois nunca se pode pedir desculpas por uma piada, que nós é que deviamos desculpas à comunidade acadêmica por termos sujado o nome da universidade. Tudo foi feito para que não se prestasse atenção no verdadeiro problema, o machismo.
Mas não é a primeira vez que piadinhas de conteúdo misógino circulam por nossa faculdade, sempre cercadas do discurso da brincadeira. Entendemos que brincadeira também é discurso, reflete os valores de uma sociedade. Se achamos que não tem nada de mais “brincar” de objetificar mulheres em discursos, como podemos nos importar quando esse discurso se materializa? É impressionante perceber como as violências físicas e psicológicas com as mulheres têm como fundo o sentimento de posse dos violentadores sobre as violentadas. Aí aparecem nossos “caros colegas” dizendo que é “só brincadeira”, dizendo que temos a “obrigação de dar, inclusive os acessórios não mencionados”. Bom, e o discurso que toda brincadeira tem um fundo de verdade, como é que fica?
Em alguns veículos de comunicação, o discurso da brincadeira também se repetiu. Em um jornal matinal local, uma bancada comentou a notícia. Fomos atacadas de promotor@s da “ditadura do politicamente correto”. Uma das integrantes da bancada sugeriu, em tom de piada, que fizéssemos nosso próprio manual, colocando o que queríamos dos homens. Queremos RESPEITO, será que é tão difícil de entender?
Mas esse fato lamentável também gerou bons frutos. Nunca a questão de gênero esteve tão na pauta do dia na universidade, apesar dos esforços em se desviar o foco da questão. Nossa luta não se limita a esse manual -- ela é contra toda a opressão de gênero. Estamos organizando diversas atividades sobre o tema, criamos um blog e uma página no Facebook para divulgar e trocar informações, sempre com o objetivo de fortalecer a luta. Aos que se incomodaram com nosso barulho durante a semana, sentimos dizer que ele é permanente.

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