Sunday, May 27, 2012

“JOGUEM SUAS REDES DE ARRASTO PARA OS CÉUS”

Capa do cd OQuadro, por Izolag e Ananda Nahu


 

“(...) Soltem foguetes pro seu caminho vão
 Voltem para casa com medo e sem razão
Joguem suas redes de arrasto para os céus
Velem para o cais que o mar não tá pra peixe, não! (...)”

 (Fogos de artifício para um precipício à vista. Ricô OQuadro, Jef).


Por: Daniela Galdino

É com esse espírito que os moços d’O Quadro impactam a cena hip hop. No último dia 23 de maio o grupo de Ilhéus (Bahia) lançou (virtualmente) o primeiro cd oficial. Gravado no estúdio Coaxo do Sapo (Salvador, BA), o disco reúne o que a banda produziu nesses quinze anos de batalha no campo cultural. Essa estréia traz o aval de Buguinha Dub (um mago da engenharia de som), que assina a produção e mixagem, e Gustavo Lenza, responsável pela masterização (Lenza é produtor do cd "Vagarosa", Céu, e coprodutor do último do Cordel, "Transfiguração", para citar alguns trabalhos).
A boa nova vai além, afinal, o disco conta com participações especiais de Guilherme Arantes, da Mc Lurdez Da Luz e do Mc Dimak. O nome de Arantes, somado aos demais que fortalecem esse trabalho, é uma grata surpresa. Eu mesma, que tanto já escutei as suas composições, gostei de sabê-lo conectado com outras linguagens. Não posso deixar de observar a influência do cineasta baiano Edgard Navarro nesse disco. A faixa “Tropeços/percalços” traz um inusitado sample do filme “SuperOutro” (1989): “acorda, humanidadeeeeeeeeeeeee!”(é o grito daquele herói indigente que possui fartos recursos imaginativos).
O Quadro, Teatro Castro Alves (Salvador- BA)
Isso mostra uma das principais características d’OQuadro: a capacidade de reapropriação, o cruzamento de complexas influências... sinal que, a partir das brenhas da Mata Atlântica, o grupo  paraboliciza, sidera. O cd já nasce na duplicidade: um certo sulbaianismo cosmopolita. Estão lá, diluídos em arranjos e letras: Mãe Ilza (ialorixá ilheense), o alto da Conquista ( bairro ilheense com maior população negra), Bagdá, Nova Iorque, Bush pai, Bush filho, Hiroshima, Kabul, os petrodólares. E aquele helicóptero "sobrevoando" a faixa "Planeta Diário"? Seria "The End", dos Doors, naquela cena de "Apocalipse Now" (Coppola, 1979)? 
Eis o “cosmopolitismo do pobre”, para dialogar com o crítico literário Silviano Santiago. E em que consiste esse cosmopolitismo do pobre? O questionamento da ineficiência discursiva das elites; a produção de valor cultural a partir da periferia; uma crítica radical ao estado nacional; um modo subversivo de enunciação; o diálogo entre culturas marginalizadas, dentre outras estratégias. Talvez seja até aquela “volta do cipó de aroeira/ no lombo de quem mandou dar” (como diria Vandré).
O Quadro, Teatro Castro Alves (Salvador - BA)
Pancada certeira. Pau na moleira mesmo. Força e primor. OQuadro segue, “decifrando códigos e labirintos”. Dub, Afrobeat, Jazz, Rock negro, Samba, Ijexá... “Tá amarrado! Em nome d’OQuadro!” . Há dois dias não consigo parar de escutar esse cd, já estava pensando se tinha sido acometida e isolada por uma crise de TOC... mas aí, passeando pelas redes sociais, descobri outros seres que estão na mesma... "seres do planeta O Quadro"... que tem "a mente como escudo". O melhor depoimento que encontrei foi o do conterrâneo Gabriel Barros (também músico): “Querido Diário, há 3 dias não consigo parar de ouvir o CD de uns cabras da região cacaueira”. A essa altura Fela Kuti deve ter mandado um recado para Mulatu Astake: ambos sacaram (mesmo em planos diferentes) que estão em alguma parte desse disco d’OQuadro.
"Minha terra tem palmares" (lembrando Oswald de Andrade) e, como artista sulbaiana, preciso dizer publicamente: esse disco d’OQuadro me encheu de satisfação e orgulho. Então... sei que esses moços atuam nas margens (levaram um considerável tempo juntando grana para gravar, contam com a solidariedade virtual para divulgar o cd), sei também que compactuo com a guerrilha do conhecimento e da fruição (criar alternativas para socializar – e não conter – o que temos acesso). Por isso, este blog indica.

Para escutar o cd OQuadro, acesse:
Para fazer download gratuito, acesse:

OQuadro no facebook:


 “Em letras cortantes, temas perfurantes, um sonzaço seminal…Delírio total. O Quadro é um quebra-coco arrasa-quarteirão , está com um trabalho que vai matar a pau!De minha parte, estou pra lá de contente vendo esse fenômeno germinar !”     (Guilherme Arantes)

 

Ficha Técnica:

Título: OQuadro

Equipe técnica
Mixagem – Buguinha Dub
Masterização – Gustavo Lenza
Técnicos Estúdio – Pedro Arantes / Gabriel Martini
Capa – Izolag e Ananda Nahú – Firme & Forte records
Arte final – Filipe Cartaxo
Produção Executiva – Edson Ramos / Ricardo “Ricô” Barreto
Produzido por Buguinha Dub e OQuadro / Gravado na produtora Coaxo do Sapo

Esse disco foi aprovado pelo programa FAZCULTURA e contemplado no edital Conexão Vivo 011.


O Quadro, Teatro Castro Alves (Salvador - BA)

 

 



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