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Sunday, May 27, 2012

“JOGUEM SUAS REDES DE ARRASTO PARA OS CÉUS”

Capa do cd OQuadro, por Izolag e Ananda Nahu


 

“(...) Soltem foguetes pro seu caminho vão
 Voltem para casa com medo e sem razão
Joguem suas redes de arrasto para os céus
Velem para o cais que o mar não tá pra peixe, não! (...)”

 (Fogos de artifício para um precipício à vista. Ricô OQuadro, Jef).


Por: Daniela Galdino

É com esse espírito que os moços d’O Quadro impactam a cena hip hop. No último dia 23 de maio o grupo de Ilhéus (Bahia) lançou (virtualmente) o primeiro cd oficial. Gravado no estúdio Coaxo do Sapo (Salvador, BA), o disco reúne o que a banda produziu nesses quinze anos de batalha no campo cultural. Essa estréia traz o aval de Buguinha Dub (um mago da engenharia de som), que assina a produção e mixagem, e Gustavo Lenza, responsável pela masterização (Lenza é produtor do cd "Vagarosa", Céu, e coprodutor do último do Cordel, "Transfiguração", para citar alguns trabalhos).
A boa nova vai além, afinal, o disco conta com participações especiais de Guilherme Arantes, da Mc Lurdez Da Luz e do Mc Dimak. O nome de Arantes, somado aos demais que fortalecem esse trabalho, é uma grata surpresa. Eu mesma, que tanto já escutei as suas composições, gostei de sabê-lo conectado com outras linguagens. Não posso deixar de observar a influência do cineasta baiano Edgard Navarro nesse disco. A faixa “Tropeços/percalços” traz um inusitado sample do filme “SuperOutro” (1989): “acorda, humanidadeeeeeeeeeeeee!”(é o grito daquele herói indigente que possui fartos recursos imaginativos).
O Quadro, Teatro Castro Alves (Salvador- BA)
Isso mostra uma das principais características d’OQuadro: a capacidade de reapropriação, o cruzamento de complexas influências... sinal que, a partir das brenhas da Mata Atlântica, o grupo  paraboliciza, sidera. O cd já nasce na duplicidade: um certo sulbaianismo cosmopolita. Estão lá, diluídos em arranjos e letras: Mãe Ilza (ialorixá ilheense), o alto da Conquista ( bairro ilheense com maior população negra), Bagdá, Nova Iorque, Bush pai, Bush filho, Hiroshima, Kabul, os petrodólares. E aquele helicóptero "sobrevoando" a faixa "Planeta Diário"? Seria "The End", dos Doors, naquela cena de "Apocalipse Now" (Coppola, 1979)? 
Eis o “cosmopolitismo do pobre”, para dialogar com o crítico literário Silviano Santiago. E em que consiste esse cosmopolitismo do pobre? O questionamento da ineficiência discursiva das elites; a produção de valor cultural a partir da periferia; uma crítica radical ao estado nacional; um modo subversivo de enunciação; o diálogo entre culturas marginalizadas, dentre outras estratégias. Talvez seja até aquela “volta do cipó de aroeira/ no lombo de quem mandou dar” (como diria Vandré).
O Quadro, Teatro Castro Alves (Salvador - BA)
Pancada certeira. Pau na moleira mesmo. Força e primor. OQuadro segue, “decifrando códigos e labirintos”. Dub, Afrobeat, Jazz, Rock negro, Samba, Ijexá... “Tá amarrado! Em nome d’OQuadro!” . Há dois dias não consigo parar de escutar esse cd, já estava pensando se tinha sido acometida e isolada por uma crise de TOC... mas aí, passeando pelas redes sociais, descobri outros seres que estão na mesma... "seres do planeta O Quadro"... que tem "a mente como escudo". O melhor depoimento que encontrei foi o do conterrâneo Gabriel Barros (também músico): “Querido Diário, há 3 dias não consigo parar de ouvir o CD de uns cabras da região cacaueira”. A essa altura Fela Kuti deve ter mandado um recado para Mulatu Astake: ambos sacaram (mesmo em planos diferentes) que estão em alguma parte desse disco d’OQuadro.
"Minha terra tem palmares" (lembrando Oswald de Andrade) e, como artista sulbaiana, preciso dizer publicamente: esse disco d’OQuadro me encheu de satisfação e orgulho. Então... sei que esses moços atuam nas margens (levaram um considerável tempo juntando grana para gravar, contam com a solidariedade virtual para divulgar o cd), sei também que compactuo com a guerrilha do conhecimento e da fruição (criar alternativas para socializar – e não conter – o que temos acesso). Por isso, este blog indica.

Para escutar o cd OQuadro, acesse:
Para fazer download gratuito, acesse:

OQuadro no facebook:


 “Em letras cortantes, temas perfurantes, um sonzaço seminal…Delírio total. O Quadro é um quebra-coco arrasa-quarteirão , está com um trabalho que vai matar a pau!De minha parte, estou pra lá de contente vendo esse fenômeno germinar !”     (Guilherme Arantes)

 

Ficha Técnica:

Título: OQuadro

Equipe técnica
Mixagem – Buguinha Dub
Masterização – Gustavo Lenza
Técnicos Estúdio – Pedro Arantes / Gabriel Martini
Capa – Izolag e Ananda Nahú – Firme & Forte records
Arte final – Filipe Cartaxo
Produção Executiva – Edson Ramos / Ricardo “Ricô” Barreto
Produzido por Buguinha Dub e OQuadro / Gravado na produtora Coaxo do Sapo

Esse disco foi aprovado pelo programa FAZCULTURA e contemplado no edital Conexão Vivo 011.


O Quadro, Teatro Castro Alves (Salvador - BA)

 

 



Friday, September 23, 2011

NOS SETEMBRAIS DE JUNIO BARRETO


Por: Belisa Parente e Daniela Galdino

“Tu reinas vasta nas cheias de cada maré”
(Setembro. Junio Barreto)
Junio Barreto. Divulgação


Talvez a raiz interiorana influencie a profundidade simples das reflexões, matuto é o pensador do Sertão. Junio Barreto é de Caruaru (PE), mas criou-se no Recife e mora em São Paulo. Se pudéssemos transformar o seu novo cd, Setembro, em uma imagem poética, diríamos que ele é um ipê rosa frondoso. O verde aos poucos começa a florir entre galhos e as flores cobrem a rua com um tapete.
O disco foi lançado recentemente (20 de setembro) no site do artista e será prensado em cd e vinil – a foto da capa tem mesmo cara de compacto. Com produção de Pupillo (Nação Zumbi), foi mixado em Paris por Pedja Babic e, o mais interessante, foi gravado com a associação de todos os instrumentos  ao mesmo tempo, dispensando os recursos técnicos de edição – assim soa melhor aos nossos corações.
Setembro tem uma sonoridade delicada e marcante, além de a poesia borbulhar em todas as faixas, como em “Jardim Imperial”: “Me refiz do abalo/ Que essa moça causou em mim/Duro foi despregar/ Os cravos que havia no meu coração/ E ela ainda pisava/ Nas marcas de suprimir a dor”.
Jardim Imperial” parece um domingo quase angelical em Olinda... “Passione” (Junio Barreto, Jorge Du Peixe) lembra a sonoridade da banda Eddie, com uma letra faceira e bailante: “Passione, tenho por tu/Tanto guardadinho amor/ Agressive não/ Safada, és meu vício/ Morro em você/ Pra viver em mim”. Tudo num sotaque apaixonante. Rótulos são mesquinhos, Junio Barreto faz Música Popular Brasileira com gafieira, bossa, samba, eletrobeat, cumbia, brega. Há um toque de carnaval na quarta-feira de cinzas… “marco zero: início e o fim – recomeço”[1].
Capa de "Setembro", de Junio Barreto.
 Ramalhete das delicadezas esse disco de Junio Barreto. Mais uma vez o artista consegue conferir poeticidade às composições, revelando, sobretudo, as singelezas que saltam aos olhos na amplidão dos diminutivos.  São expressões que conferem leveza às dores e, ao mesmo tempo, nos convidam a observar as realidades pulsantes nos mínimos fragmentos. E atentar para esses diminutivos nos expande, torna-se um exercício de perceção do que há de suave.

Estes são os setembrais de Junio Barreto: a congregação de espaços simbólicos por onde transita o que há de mais humano em nós. Não são lugares mal iluminados pela dor como castigo, não há espaço para as necroses dos sentimentos e dos seres. Os setembrais são dimensões simbólicas onde a dor torna-se combustível para os ciclos do reflorescimento do ser, são espaços encharcados pelas águas que lavam tudo, movendo os ciclos das renovações. Água, princípio da vida. E vida é reconstrução incessante. “Nos impérios que o mar rege/ serenada solidão/ ribeirinho de sossego/ adormece são sagrado/ resta aguardar alvorada em mim” (Serenada solidão. Junio Barreto)
Fugindo de uma leitura biográfica, vale dizer que há um desafio diluído ou condensado nesse novo disco de Junio Barreto: consagrar o instante e transformar as linguagens (verbal e musical) de tal forma que o resultado não seja um mero registro das dores individuais. Mergulhado no movimento de superação do comum que só a arte pode proporcionar, Junio Barreto executa, com maestria, o que nos ensina o poeta Paulo Leminski: “Amor, então,/ também, acaba?/ Não, que eu saiba./ O que eu sei/ é que se transforma/ numa matéria-prima/ que a vida se encarrega/ de transformar em raiva./Ou em rima”. A transformação em rima é o que nos arrebata e nos convida a transitar pelos setembrais.


[1] Daniela Galdino. “Bromélia Flutuante” (poema).


Ouça Setembro, o novo disco de Junio Barreto, em:





Belisa Parente, recifense de Exu, é jornalista, cronista, poetisa e editora da Revista Zena. Atualmente vive em Recife.
Link Revista Zena: http://revistazena.com.br/





Daniela Galdino, baiana de Itabuna, é poetisa, professora e pesquisadora de Literatura na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Mantém o blog “operariadasruinas”. Vive nas fronteiras.
Email: operariadasruinas@gmail.com











[1] Daniela Galdino. “Bromélia Flutuante” (poema).

Saturday, June 18, 2011

MEMÓRIAS DO RIO CACHOEIRA


PROJETO REGISTRA MEMÓRIAS DO RIO CACHOEIRA





Rio Cachoeira à noite - Itabuna / BA. Foto: Victor Aziz


Aos 101 anos de emancipação a cidade de Itabuna ganha um presente: o projeto Memórias do Rio Cachoeira (MRC). Com o objetivo de registrar a memória cultural da cidade, especialmente a sua relação com o Rio Cachoeira, o projeto faz uso de três linguagens: a poesia de autores itabunenses, a música da banda Manzuá e um documentário audio-visual realizado pela parceria entre o NúProArt e a Panorâmica Produções.
A proposta é transformar 12 poemas de autores da cidade em canções que irão compor dois produtos finais: um CD com todas as faixas na íntegra e um documentário que as traz como trilha sonora. A escolha dos poemas já foi feita e conta com obras de Daniela Galdino, Ruy Póvoas, Cyro de Mattos, Iana Carolina e Lorenza Mucida, dentre outros.



Banda Manzuá. Divulgação.
A tarefa de musicá-los é da banda Manzuá, outro fruto da arte grapiúna. O grupo é atuante no cenário musical da região, já ganhou vários prêmios e participou de inúmeros eventos universitários e culturais.
Cinco músicos dividem o palco na atual formação, que está solidificada desde 2009: Laísa Eça e Brisa Aziz (vocais), Marcelo Weber (baixo e violão), João Solari (guitarra e violão) e Mither (voz, bateria e percussão).
O nome Manzuá faz alusão à história da região sul da Bahia, pois denomina um engradado artesanal de pesca usado na captura de pitu e camarão. Sendo assim, a banda já nasceu com alma de rio, trazendo consigo uma sonoridade distinta, que reflete uma gama de gêneros, como o maracatu, blues, ijexá, reggae, queto, funk, samba-rock, rock, além de utilizar largamente a linguagem poética em suas apresentações.
O CD está em fase de pré-produção, com ensaios periódicos da banda para acertos finais dos arranjos.
O MRC também prevê a gravação de um documentário sobre aspectos da história do rio e a sua relação com a história de Itabuna. O documentário está em fase de produção de roteiro e a gravação tem início no segundo semestre deste ano.
O Memórias do Rio Cachoeira visa contribuir para o enriquecimento do acervo áudio e visual local. É uma realização do Núcleo de Produções Artísticas (NúProArt), da Panorâmica Produções e da banda Manzuá.  É vencedor do edital nº 05/2009 de Apoio à Produção de conteúdo em música no Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura - SECULT, Fundo de Cultura da Bahia e da Fundação Cultural do Estado da Bahia – FUNCEB.

Para mais informações, acesse: www.memoriasdocachoeira.blogspot.com

Monday, March 28, 2011

“NÃO SE MATA O QUE É FEIO COM O ESPANTO ... NEM SE CHORA OU AGOURA O QUE É BONITO”



Por Daniela Galdino

           

            Eu não suporto homenagens póstumas. Esse agraciamento tardio – que celebrizou Augusto dos Anjos, Lima Barreto, Emily Dickinson, Antônio Conselheiro e tantas outras figuras – tem o seu duplo sentido: de um lado, quando realizada, por vezes representa uma espécie de  mea culpa, um atestado de que a crítica especializada nem sempre reúne condições de compreender os tais “efeitos de ruptura” identificados em obras ou ações no momento em que elas ocorrem. Por outro lado, pode ganhar os ares da bajulação momentânea, da falsa valorização do que foi condenado ao limbo cultural, e do agraciamento – somente a partir da morte – de quem merecia o reconhecimento em vida.



Foto Sergio Figueiredo (Folha Press)
            
           Por pensar nessas questões, fiquei exitando em escrever este texto e fazê-lo circular, à procura de leitores. Não queria as minhas reflexões engrossando o repertório das homenagens post mortem. No entanto, ao ser surpreendida, ontem, com a notícia do falecimento do artista (múltiplo) pernambucano Lula Côrtes, senti uma vontade arretada de escrever algo. Passei um certo tempo perdida em pensamentos e sensações, afinal, desde a primeira vez em que escutei o estonteante álbum Paêbirú - O Caminho da Montanha do Sol (1975), o arrebatamento cedeu lugar à curiosidade e esta, ao desejo de falar a respeito. Mas não me considerando uma pessoa de fala autorizada - afinal, não tenho formação técnica musical -, preferi guardar as todas sensações provocadas pelo lendário trabalho de Lula Côrtes e Zé Ramalho.
            Ainda hoje pouco se disse a respeito desse álbum. E o que eu tenho a dizer, agora, não passa das impressões de uma fiel “escutadeira” de música. A partir desse lugar, posso falar reviver a presença e a permanência de Lula Côrtes. Isso também me leva até Augusto dos Anjos (paraibano, assim como Zé Ramalho) que, ao falar da sua lira, celebrizou um testamento digno de outros artistas provocativos:
“[…] Quando eu for misturar-me com as violetas,
Minha lira, maior que a Bíblia e a Fedra,
Reviverá, dando emoção à pedra,
Na acústica de todos os planetas! […]” ( “Os doentes”)

            Arrisco-me a dizer uma obviedade: Paêbirú não representa o registro de um momento específico – anos 70, cenário artístico pernambucano, nordestino; redescoberta de valores culturais nossos; experimentação de efeitos lisérgicos; contestações ao campo artístico e etc. Considero o trabalho de Lula Côrtes e Zé Ramalho um elo entre as marcas pré-históricas deixadas na Pedra do Ingá, as profecias de Antônio Vicente Mendes Maciel (ou Antônio Conselheiro) e a massa sonora do Cordel do Fogo Encantado (isso fica evidente nas faixas  Nas Paredes da Pedra Encantada Maracás de Fogo). Nesse largo espaço temporal cabem outras intersecções. E as relações se refazem, comprovando a atemporalidade da obra. Eis uma outra obviedade.



Zé Ramalho e Lula Côrtes - contracapa de Paêbirú

            Segundo o próprio Zé Ramalho, Paêbirú – que contou com a participação de Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Robertinho de Recife e tantos outros artistas –  “foi totalmente artesanal. Aquele ali foi ‘costurado a mão’ em 1974”. Nesses termos, o disco se mantém como registro histórico de uma legião de artistas destemidos vencendo as limitações técnicas da época e ampliando as possibilidades oferecidas pelo famoso estúdio Rozenblit, de Recife. É também o primeiro registro de Zé Ramalho assumindo os vocais de todo um trabalho.  E nisso reside a beleza do disco: confere, de forma espetacular, rudeza, leveza, força, mistério e grandiosidade ao trabalho. Há  também os improvisos vocais de Alceu Valença, lembrando ladainhas, cantos mouriscos, lamentos sertanejos, sobretudo na faixa Maracás de Fogo. No salto tecnológico de 37 anos que nos separam das gravações de Paêbirú, há muitos aspectos que nos reaproximam da proposta – seja como produtores ou espectadores das atuais tendências musicais do cenário pernambucano e nordestino. A fusão de gêneros, a reapropriação da cultura popular, os elementos locais irmanados  com tons cosmopolitas são apenas alguns deles.




Capa de Paêbirú

            Há, ainda, um ramalhete de sentidos místicos em torno desse álbum. As pétalas místicas encontram-se misturadas aos acordes, às distorções, ao encontro de elementos aparentemente diversos, às letras. Estão, também, na louvação a Iemanjá e na visita do “viajante lunar” que “desceu num raio laser ... pelo radar” (Trilha de Sumé). Estão nos traços de presença indígena. Estão nas referências aos misteriosos desenhos da Pedra do Ingá (Paraíba). O disco, que na verdade é um álbum duplo composto por 11 canções, divide-se em quatro partes, cada uma delas como ref(v)êrencia aos elementos da natureza. Talvez aí resida uma tentativa de articular como cada uma das pétalas místicas dialogam com a terra, o ar, o fogo e a água. Tudo em conjunção para provocar o arrebatamento dos sentidos.
            Não estou falando de um álbum em “formato comercial”, certamente é um raro e apurado trabalho de que se tem notícia no cenário musical brasileiro. Geralmente, numa perspectiva burguesa sobre as produções artísticas, o valor de distinção de quem “consome” a obra diminui na medida em que esta – a partir do valor de divulgação - tem o seu acesso ampliado. Ou seja, quanto maior o acesso e a depender do perfil social de quem tem acesso, maior a desvalorização da obra, por conta da sua “popularização”. Não é essa ética que está em jogo aqui, nestas reflexões.
Enquanto importante produção do acervo musical brasileiro, Paêbirú deve ser conhecida pelas novas gerações. Nesse sentido, a internet (download gratuito) pode ser uma importante ferramenta (ainda que boa parte das famílias brasileiras não tenha acesso à rede), até porque, um dos mistérios que cercam a história do referido álbum é o fato de a maior parte da sua tiragem ter desaparecido nas águas do Capibaribe, na enchente de 75, restando apenas 300 cópias que estavam sob a guarda do casal Lula Côrtes e Kátia Mesel (responsável pela arte gráfica do álbum). Hoje, com a reedição em CD, um exemplar do álbum tem valor monetário acima da média. Paêbirú é, sim, uma raridade, pelo caráter multirreferencial e arrojado da proposta, mas, definitivamente, não deve sobreviver apenas como peça de acervo de colecionadores.
Em tempo: no dia 06 de março deste ano Lula Côrtes fez um show no Pátio de São Pedro, no carnaval multicultural de Recife. Talvez essa tenha sido a sua última aparição artística. Infelizmente, naquela noite Lula foi bastante prejudicado – não pela enfermidade, o câncer contra o qual vinha lutando – mas pelo equipamento de som. Para muitos artistas, a baixa qualidade do equipamento de som do Pátio de São Pedro se tornou um grande desrespeito a quem por lá se apresentou – e esse problema ficou acentuado no momento da apresentação de Lula. Tive o prazer de assistir a um fragmento do show – não fosse o mal estar físico provocado pela ingestão de uma cachaça local, teria ficado até o fim da apresentação. Não posso dizer que haverá uma próxima vez, já que Lula vestiu a camisa cosida pela costureira funerária (parafraseando Augusto dos Anjos). Trago, então, uma das criações de Lula Côrtes, para que a lira sobreviva na acústica de todos os planetas:

Não existe molhado igual ao pranto (autoria: Lula Côrtes)

Não se escuta na terra quem for santo
Não se encobre um só rosto com dois mantos
Não se cura do mal quem só tem pranto
Nenhum canto é mais triste que o final

Não se ouve nos ares nenhum canto
Nem nos cantos da noite nenhum grito
Não se mata o que é feio com o espanto
Nem se chora ou agoura o que é bonito

Não se pode entender sabendo pouco
Não se dá nota aguda estando rouco
Não se encontra o que é duro aonde é oco
Nem silêncio onde só existe o grito
           
Discografia de Lula Côrtes:
  • Satwa (1973)

  • Paêbirú (1975)

  • Rosa de Sangue (1980)

  • A Mística do Dinheiro

  • O Gosto Novo da Vida (1980)

  • Bom Shankar Bolenajh - Lulac & Jarbas Mariz (1988)

  • Lula Cortes & Má Companhia (1995)

  • A Vida Não é Sopa - & Má Companhia (2006)  


Alguns trechos da entrevista de Zé Ramalho para o International Magazine podem ser lidos em:
http://somossom.blogspot.com/2006/02/paebir-entrevista-com-z-ramalho.html



Artigo interessante sobre Paêbirú:
http://www.rollingstone.com.br/edicoes/24/textos/3426/ 


Trechos do documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, sobre Paêbirú:

Wednesday, February 16, 2011

Sapiranga no portal OI NOVO SOM




O lançamento do CD Segredos do Tempo tem previsão para o mês de março de 2011. No entanto, já estão disponíveis (para audição) algumas músicas que compõem o álbum.

Acesse http://www.oinovosom.com.br/sapiranga#



Saturday, February 5, 2011

SEGREDOS DO TEMPO - entrevista com o músico Sapiranga

Antonio Raimundo Sapiranga ou simplesmente (densamente) Sapiranga, natural de Gandu (região sul da Bahia, Brasil), atualmente reside em Salvador (Bahia). Como andarilho e artista, já transitou por linguagens outras e diversas paragens. A esta altura da caminhada Sapiranga se prepara para trazer ao público o seu álbum Segredos do Tempo, com previsão de lançamento para março de 2011. O trabalho tem Produção Musical e Fonográfica de Sapiranga; Direção Musical de Bráulio Villares Barral; Arranjos de Sapiranga e Bráulio Villares; além de contar com um texto de apresentação escrito pelo músico Xangai.

Trajetória
Foto: Andréa Etter
 Sapiranga acumula na bagagem mais 10 anos de carreira musical , em 2005 gravou o Pássaro Noturno, o seu Disco (CD) de estréia, lançado inicialmente em São Paulo e depois pelo interior do Brasil (produção Independente). Sapiranga tem em seu currículo apresentações em diversos espaços no país, tais como: Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA-USP), Teatro Clara Nunes (Diadema-SP), Concha Acústica do Teatro Castro Alves (Salvador-BA), Praças do Pelourinho (Salvador, Bahia), Cinelândia (Rio de Janeiro-RJ), Festival de Inverno de Paranapiacaba-SP (evento que reuniu nomes como o  guitarrista norte-americano Stanley Jordan, Wagner Tiso, o grupo de percussão Uakti, o violonista Yamandú Costa). Participou de espetáculos em Jundiaí, cidade que patrocinou o primeiro CD do Artista. Ainda em Jundiaí desenvolveu o projeto Ventos Solares no Museu Histórico e Cultural da cidade, o Solar do Barão, evento que aconteceu em 2005. Sapiranga também esteve se apresentando ao lado de nomes como Eugênio Avelino (Xangai), Margareth Menezes,  Almir Sater, José de Ribamar Viana (Papeti),  Zé Geraldo, o bandolinista e compositor Armandinho, o Maestro João Omar, Raimundo Sodré, Roberto Mendes, Mário Ulloa, entre outros.
Em 2009 esteve em cartaz no Goethe Café (Salvador), com o projeto Sapiranga ConVida. No ano seguinte o projeto aconteceu no Tom do Sabor, na mesma cidade. Nas várias edições do projeto, além de divulgar a sua música da zona da mata, Sapiranga  contou com a participação especial de músicos, poetas e cantadores. Essas parcerias, ao lado da receptividade do público, representam o reconhecimento do trabalho de Sapiranga no cenário soteropolitano. Agora ele se prepara para o vôo mais alto. É o que fica registrado nesta entrevista.


OPERÁRIA DAS RUÍNAS – Você está em fase final dos preparativos para o lançamento do disco Segredos do tempo. O que representa esse trabalho na sua trajetória de artista?

Sapiranga - A outra margem! Neste momento eu consigo mostrar um arcabouço que norteia a minha caminhada artística. Falo em relação aos gêneros, estilos e linguagens contidas no Disco. Ele é uma parte de minha bússola sonora e humana. Nele, está o meu olhar sobre o mundo em que vivo. Este CD traz elementos, texturas e sons que integram a minha vida. Um pouco do que escutei e li. Segredos do Tempo é o meu pequeno caleidoscópio.


OPERÁRIA DAS RUÍNAS - Segredos do Tempo, além de identificar o disco, também é o título de uma canção que compõe o álbum. Parece que a sua filha Clarinha, aos 3 anos de idade, foi quem deu os primeiros versos dessa canção. Em quais circunstâncias isso aconteceu?

Sapiranga -  “A infância é um momento no paraíso”.  Nós morávamos em São Paulo e eu senti a necessidade de voltar para casa (Bahia). Vinha com alguns sonhos para realizar e buscas para fazer. Gravar um Disco na Bahia era um dos sonhos! O meu avô (Dodozinho) morava em Valença, eu tinha algumas economias e pude ficar por lá durante um tempo. Clara Marina estava comigo, desde cedo eu já percebia nela umas nuances sensitivas em relação à arte. As crianças em geral têm essa ligação. A música surgiu em momento bem simples - coisas de compositores - na casa de meu avô, na sala... A harmonia me chegava, a melodia também, eu solfejava enquanto conversávamos sobre o que representava voltar pra casa naquele momento. Eu pedi a Clarinha que  dissesse ao Avô por que tinha vindo para a Bahia, ela disse: “passô tantas istradas, eu vim, foi meu pai que chamô”. Nasceu ali a canção. Realizei alguns sonhos e venho encontrando o que busco!


OPERÁRIA DAS RUÍNAS - Outro episódio interessante se relaciona com um sonho que você teve com o cantor e compositor Chico César, daí surgiu outra canção que também compõe o álbum Segredos do Tempo. Como se deu essa história?

Sapiranga - Isso foi bem engraçado! Foi em Sampa, n’aquelas noites geladas da terra da garoa! Chico César... ele é um grande poeta e músico... inventivo, criador! Estava eu, lá no meu sonho tranqüilo, quando de ‘repente’ aparece aquela figura exótica e singular me dizendo esses versos num ambiente quase indizível, por sobre prédios imensos caminhávamos, mas nós também éramos imensos. Lembro bem suas palavras: A princesa pop do mundo carrega a espada e seu corte. Acordei assustado com a cena e com os versos, ao meu lado o violão também dormia, acordei-o e já comecei a compor, dizendo: Espalhando canyons profundos entre uma e outra civilização, reviver babilônia é um remorso que pesa em todos no coração.
O que me chama a atenção, além do passeio que faço, na letra, por alguns momentos da humanidade, é a sua batida em células percussivas de capoeira (o violão presente como se fosse o berimbau e depois, como a viola dos cantadores repentistas). A música é um misto de capoeira com um canto ibérico. Como é bonito de se perceber os registros que fazem nossa memória...


OPERÁRIA DAS RUÍNAS - Considerando esses episódios, você relaciona sentidos místicos ao seu processo de criação artística?

Sapiranga - Misticismo? Mystikos - Isso vem de uma iniciação em uma religião misteriosa, sendo a busca da comunhão com a identidade, com o consciente ou consciência de uma realidade, divindade, verdade espiritual ou Deus, através da experiência direta ou intuitiva. Sendo assim, considero! Há uma beleza na forma Mística das coisas, porém, prefiro usar o termo Mistérios. É mais possível desvendar os Mistérios do que entender a forma Mística. Quer exemplo? Ouça direito os Segredos do Tempo e desvende os Mistérios! (risos).


OPERÁRIA DAS RUÍNAS - Quais as suas maiores influências como artista? Em que medida elas estão presente em Segredos do Tempo?

Sapiranga - Minhas influências são tantas... Eu gosto do radar que tenho. Com ele busco sonoridades e texturas, isso me faz ver beleza em quase tudo que há. E, de maneira surreal, vou somando e dando forma a outra realidade sonora e até textual. Digo isso porque gosto das buscas pela poética. Com isso não quero dizer que fico em peregrinação querendo alcançar um ‘verso novo’. O que faço é espontâneo! Não estou querendo inventar nenhuma roda ou alfabeto. Simplesmente gosto da palavra quando dita com sotaques diferentes e outros sentidos. Os sentidos estão em quem diz mas, sobretudo, em quem ouve ou lê. A minha principal influência se chama Raul Seixas (atitude). Raul tem uma coisa fantástica que é esse “parentealismo” que nos aproxima dele. A gente, que gosta de Raul, o tem como se ele fosse alguém muito querido, da família... Raul é um artista raro, sei que isso ocorreu com Bob Dylan também e com alguns outros artistas. Gosto de muitos outros, mas estou muito ligado a Raul, Dylan, Luiz Gonzaga e Xangai (O Menestrel de todas as Eras). Falo isso movido pelo sentimento da atitude que eles tiveram. Os cantadores de minha região fazem também parte da construção do meu Eu artista. Hoje, já não vejo a palavra ‘influência’ como o que vem delinear o meu caminho, e sim, ‘confluência’, eu prefiro.


OPERÁRIA DAS RUÍNAS - Você identifica o seu trabalho como som da zona da mata. Como se dá a articulação entre a intensa identificação com a sua terra de origem e esse seu lado desenraizado, de cidadão de todas as partes?

Sapiranga - A Música da Zona da Mata é o meu conceito quanto a algumas canções que faço e se voltam para o tema principal, ou seja, a Mata Atlântica e o lugar onde nasci (Gandu, Bahia). Passeio por muitos gêneros musicais, mas eu sou um Matêro – Homem da Mata (com um radar). Quando eu era menino, a BR-101 estava já passando por minha cidade, cortando-a ao meio. Ali, nos anos 80, todo o progresso também passava. Toda a modernidade tinha a minha cidade como caminho, isso deve ter alguma relação com esse radar, pois eu absorvia de alguma maneira essas impressões. Mas tem outro detalhe, que é o fato de estarmos no Nordeste, esse lado geográfico e poético, estamos ao mesmo tempo com um pé na idade média e o outro no futuro (em alguns aspectos). Eu vejo assim! Para mim a modernidade existente na literatura de cordel e seus versos fantásticos é o que há. Augusto dos Anjos e sua função modernopoética é brilhante. Paulo Freire é o inventor do bom futuro! Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, é futurista e belo. Quinteto Violado, Milton Santos, Chico Science... Como não sermos cosmopolitas?
Tudo isso são partículas plantadas no imaginário... Eu sou, sim, um verso nessa imensidão. Telúrico. Todos são...


OPERÁRIA DAS RUÍNAS - No atual contexto de produção musical para rápido consumo, como o seu trabalho se fortalece, consolida e demarca diferenças?

Sapiranga - Isso tudo ainda é muito novo para mim. Pois sou um artista que, por exemplo, preciso vender CDs para seguir adiante. Como vender CDs no mundo da facilidade da ‘Copiaria’? Mas, ainda estou neste momento. Eu não disponibilizo minhas musicas gratuitamente na internet. Não estou podendo fazer isso. Busco ter um controle quanto a essa questão. É um momento realmente delicado, pois nós, cantores e compositores, nos vemos vulneráveis a esse imenso rolo compressor que é o grande mercado, que mesmo sofrendo abalos, domina, lidera, pois o capitalismo tem a sua roupa forte e mutante. Porém, vejo o futuro de maneira bastante otimista. Eu sou artista empreendedor, desses que tem disco para vender dos anos 2000 para cá, então não sofre com a transição maior da indústria fonográfica. Mas, ao mesmo tempo, sei que me dói essa banalização do CD, ou seja, no mesmo momento que é bom termos tecnologia ao alcance de todos, temos também um número bem maior de música sem qualidade ocupando espaços e, o pior, ocupando a mente das pessoas. Mas isso um dia acaba, o futuro vem renovar e trazer de volta o respeito às tradições, sem perdermos os rumos das eras modernas (isso é bem Chico Science) Mesmo com o advento da internet, não são todos os artistas emergentes que se projetam de forma mais relevante com na Net, tem que persistir e buscar ter um bom trabalho. Venho buscando esse lugar de me fortalecer.


Discografia:
Sapiranga Pássaro Noturno (2005)
Sapiranga Segredos do Tempo (2011)


Ouça algumas músicas do primeiro álbum de Sapiranga, Pássaro Noturno, em:

Assista ao vídeo Pássaro Noturno:


Thursday, December 9, 2010

WILSON ARAGÃO: POETA CANTADOR, "VIRADO NO DIABO" E "RETADO COM VOCÊ"

 

 

Aqui, a re-publicação da entrevista realizada com o artista Wilson Aragão, compositor da música “Capim Guiné”, gravada por Raul Seixas nos anos 80. Um agradecimento aos companheiros Paulo Magalhães e Paulo Magalhães Filho, que gentilmente autorizaram a postagem da entrevista, a qual foi originalmente divulgada  no site http://www.brasildefato.com.br/, em 2008

 

 Por: Paulo A. Magalhães, Paulo A. Magalhães Fº e Vagner Carneiro, de Salvador (BA)

Wilson Aragão

ARTISTA IDEALISTA, pedagogo e engajado na luta do povo, o sem-terra Wilson Aragão é natural de Piritiba, mas morou muito tempo na roça, em Mira Serra e Morro do Chapéu. É filho de um pedreiro negro com uma professora primária, descendente de portugueses, e neto de uma cabocla da mata, que “foi pega no laço pra casar com seu avô”, como ele diz. Lúdico e imprevisível, conciliou, por um período de sua vida, a arte com a burocracia, ao trabalhar no setor de recursos humanos de grandes empresas em São Paulo e no Pólo Petroquímico de Camaçari, sem permanecer por mais de dois anos em cada. Militou no movimento sindical ao lado do governador do Estado, Jacques Wagner, e fez política partidária junto com Capinam, Gonzaguinha, Fábio Paes e Jorge Portugal. Gravou três CDs, e suas músicas foram interpretadas por artistas de várias gerações. Atualmente, sobrevive apenas de música e é integrante do Assentamento Eldorado (“Pitinga”), do MST, em Santo Amaro, onde é muito querido pela comunidade.
A conversa que se segue, sintetizada aqui nos trechos mais significativos, ocorreu na Secretaria do MST, em Salvador, entre risadas e goles de cervejas ingeridas pelo entrevistado, que traçou um rico painel da sua trajetória de vida e musical. Das mágoas com setores de esquerda aos sonhos de contribuir com a luta do MST, além de suas composições e das pinturas ao lado da sua companheira, que promove aulas de artesanato no assentamento em que reside e comercializa produtos.
Para iniciar, fale de sua experiência no campo. Você plantou num sítio no sertão de Piritiba, pegando na enxada como pega um catingueiro, como conta na música “Capim-Guiné”?
Wilson Aragão(Risos!...) Trabalhei muito com meu pai, na foice. Ele era um bom pedreiro, construiu dez casinhas simples de adobe, depois vendeu e comprou um sítio no sertão de Piritiba. Mais tarde, compraria o outro lado da estrada. Enquanto capinava, abrindo as covas, eu ia jogando as sementes e tapando as 70 ou 80 tarefas de feijão, milho, banana, aipim, mandioca, caju, jaca, entre outras culturas. Catei muita mamona e puxei carro de boi para pegar madeira da floresta. Lembro que na roça ele tinha um rádio de seis faixas, e quando a gente estava trabalhando ele aumentava o volume pra gente escutar a música, numa distância de 50 a 100 metros. Gostava de ouvir Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Carlos Nobre e Jackson do Pandeiro. E assim passei a infância e a adolescência, recebendo todas essas influências.
E lá pras bandas de Piritiba, Morro do Chapéu e Mira Serra, havia virtuosos violeiros? Sempre surgia novidade na feira; homens vindos da Paraíba, foragidos da seca, procurando emprego nas roças, que traziam a cultura de lá. Eu achava muito bonito o pessoal batendo pandeiro e dizendo versos. Lá em Mira Serra tinha até um sujeito que fazia um som maravilhoso, uma mistura de cavaquinho com viola, extraído de um instrumento inventado por ele, num formato de lata de óleo, com cordas de arame de estender roupa.
Aprendeu a tocar lá instrumentos; o violão, por exemplo?
Eu ficava cutucando, mas vim aprender a tocar um pouquinho de violão já depois de casado. Minha vida toda foi no Evangelho, minha família sempre foi prebisteriana, era igreja quarta, sexta, domingo. Meu pai dizia que violão era coisa de vagabundo, e não deixava aproximar do violão. Eu disse que quando fosse dono do meu nariz, compraria um violão. E realmente, quando meu pai separou de minha mãe e eu fui pra São Paulo trabalhar, comprei um violão.

Kika e Raul Seixas, Wilson, Salvador-BA, 1983. Acervo W. A.

Era uma época de euforia, da ideologia “Brasil, potência do mundo”; da conquista do tricampeonato mundial de futebol; da proliferação das torturas nos porões da ditadura; e da pornochanchada nas telas do cinema brasileiro. Os militares estavam no auge da sua popularidade, por conta do chamado “Milagre Econômico”: “ninguém segura esse país”, “ame ou deixe-o”...
Eu morava em Piritiba já pleiteando algum emprego, mas toda a minha família era de oposição. Os políticos de direita da cidade eram da ARENA e não deixaram que eu trabalhasse na prefeitura, nem no Banco da Bahia. Sem opção de trabalho formal, só me restou ganhar algum dinheiro como artista, fazendo desenhos e pintura. A prefeitura era obrigada a me engolir porque eu produzia todas suas faixas.
Desenhava ainda escudos do colégio etc. Na 1º Exposição de Arte da cidade, conquistei três prêmios, inclusive o 1º lugar de desenho, imaginação e pintura. Cantava ainda no coral e nos muitos grupos que formávamos, como o grupo musical “Os Helps”, que tinha muita influência dos Beatles, e depois virou “Os Horríveis” (risos...).

Você percebeu que a cidade era pequena para suas inquietações...
No dia em que fui pra São Paulo, minha mãe correu atrás do ônibus, tropeçou e caiu no meio da rua. Na metrópole, meu tio me deu abrigo por um ano, aí dividimos um quartinho, eu e um amigo. Mais tarde, fui promovido na fábrica Companhia Brasileira de Alumínio, na cidade de Mairinque, onde eu também morava, e, pra estudar Pedagogia na Universidade de Sorocaba, eu tinha que viajar diariamente 60 a 70 km de distância. Passei a admirar um professor comunista chamado Álvaro Vanucchi, que foi preso na ditadura militar, expulso do Brasil e depois voltou. O sobrinho dele era estudante de medicina e foi morto numa praça em São Paulo, em plena luz do dia. Eu fui assimilando estas histórias e tomando conhecimento do que era a ditadura militar. Quando bateu a saudade, eu vim me embora, em 1978, com greves estourando em tudo que é canto. Como eu era especialista em Recursos Humanos, as empresas se interessaram por mim. Comecei a trabalhar no Pólo Petroquímico ganhando 21 salários mínimos, um dinheirão pra época. Montava planos de cargos e salários, convênios e assistência médica. Quando me chamavam para tocar em algum lugar, eu dispensava cachê. Ah, se eu soubesse que esse tempo ia passar...

Parece que a sua composição de maior sucesso, “Capim-Guiné”, foi feita neste período. Fale um pouco sobre a música.
Em 1979, nas horas vagas do trabalho, compus “Capim-Guiné”, que é um protesto contra a grilagem de terras na ditadura militar. Ocorreu que um fazendeiro de Tapiramutá, cheio de pistoleiros, invadiu de madrugada a propriedade de meu pai, que era evangélico e não tinha armas. No outro dia, meu pai foi à delegacia prestar queixa e o delegado não gostou. Seguiu então para Salvador, a fi m de conversar com o governador. Houve um telegrama do gabinete do governador perguntando quem era o meu pai. Quando souberam que se tratava de um homem de oposição, do MDB, disseram: “pode invadir as terras”. O fazendeiro cortava o arame e botava o gado para comer a nossa plantação. Nós emendávamos e ele novamente cortava. Meu pai foi a Brasília conversar com o presidente Geisel, e este também enviou uma mensagem. Quando foi informado de que a família era de oposição, disse que não podia fazer nada.
Ouvindo hoje “Capim-Guiné”, tem-se a impressão que há na letra algumas metáforas para ludibriar a censura.
Há sim, mas nessa época era proibido falar palavrão, e a música não passou na censura. Veio uma carta para todas as emissoras de rádio proibindo tocar “Capim- Guiné”. É bom esclarecer que a cara de veado à qual me referi era o presidente Geisel, pois qualquer barulhinho para o veado, ele pára, escuta atentamente, mas não toma atitude. Já o Caxinguelê é um esquilo brasileiro. Quanto a “não planto capim-guiné pra boi abanar rabo”, é porque eu não iria mais fazer roça pra bandido vir e tomar, desfrutando de tudo...


Esclareça a dúvida que paira entre os ouvintes de MPB: “Capim-Guiné” é apenas sua ou tem parceria com Raul Seixas? Como foi mesmo que você conheceu Raul?
Em 1982, em Piritiba, eu já havia conquistado um festival de música com “Capim- guiné”, antes de conhecer Raul. Na época, Elba Ramalho estava surgindo com muito sucesso, e eu fi cava sentado na porta dos hotéis esperando ela acordar. Aí, eu perguntava: “Gostou de Capim- Guiné?”, ela respondia: “Ouvi a fi ta e gostei de todas suas músicas, mas me dá um tempo, porque meu disco já está cheio”. Continuei colado com Elba. Um dia, os músicos me falaram: “Elba ensaiou Capim-Guiné, e está de arrombar, mas o diretor de produção pediu pra tirar e gravar uma música do Gonzaguinha, “Casca do Ovo”, porque ninguém sabe quem é esse Aragão”. Aí fi quei chateado e tive um “pega pra capar” com ela. A gente era amigo e ficamos diferentes até hoje.
Um conterrâneo de Piritiba, chamado Beto, me convenceu oferecer a música a Raul Seixas e mandou-a pra São Paulo. Um dia, ligamos para ele do orelhão e ele falou que havia gostado, mas queria propor pequenas alterações. Em vez, por exemplo, da frase “comprei um sítio, plantei jabuticaba, dois pés de guabiraba” etc. elaborado por mim, ele propôs “plantei um sítio no sertão de piritiba...”, homenageando a minha cidade, e misturou guabiraba com as pindaíbas, que eram as cachaças que ele bebia, botou guataíba, que não existe, e gravou.
No lançamento do disco, em 1983, no Esporte Clube Periperi, a nossa amizade foi se estreitando. Ficamos num hotel, na Barra, o dia todo na beira da piscina “comendo água”. Gostei muito dele, suas palavras tinham sentimento, um coração bom, um jeito meio ameninado e meio maluco. Passei dois dias na casa dele em São Paulo, e enquanto ele cheirava muito éter e lança-perfume, eu tomava minhas cervejas. Depois, ele veio pra minha casa em Salvador e fez uma verdadeira revolução no Engenho Velho de Brotas, pois saiu bebendo cachaça em tudo que era boteco, e todo mundo querendo conhecê-lo. Também demos um passeio pelo sul da Bahia, fomos em Ibirataia, Barra do Rocha e Ipiaú.

Wilson Aragão no S. João de Piritiba-BA, 2006


Sua música mais conhecida é “Capim-Guiné”, mas qual é a que você mais gosta?
Sou apaixonado por “Sertões e Sertões”, do primeiro disco. Fiz quando eu tava sofrendo porque tiraram o trem de ferro, a Leste Brasileira, de Piritiba: “Ó mira, mira bem para o resto da estrada de ferro. Quantos braços cravados, quantos dormentes para ouvir o trem na curva apitar, apitou pra nunca mais”. Eu estava em São Paulo quando minha mãe me escreveu uma carta. Cheguei em casa e chorei.
E as feridas da vida?
Eu tenho uma mágoa danada. A gente que é de esquerda sempre foi boicotado. Quando a esquerda conquistou o poder, não abriu espaço para a nossa arte. As prefeituras do PT aqui da Bahia quase nenhuma me contrata. Só querem Calypso e Calcinha Preta, que deseduca a população. É a indústria da anti-cultura. Esse povo nunca foi forró. A cultura brasileira sempre foi voltada para os mesmos, se concentrando em torno dos poderosos. A Rádio Educadora aí tem dias que tocam dez músicas do Caetano, oito do Djavan, e nenhuma dos outros. Por que não divide o espaço? Convidam a gente para participar de reunião, de discussão, mas na hora de contratar e pagar o cachê, continuam os mesmos.
A gente tem que valorizar aquela coisa de raiz, Bule-bule, repentistas, samba de roda... Na região de Cachoeira e Santo Amaro tem grandes sambistas. No nosso assentamento, Eldorado, tem Luizinho, Delis e Rebeca, uma menininha de 4 anos.
As emissoras de rádio massacram os ouvidos, pegam qualquer besteira, pagam jabá pra tocar 50 vezes por dia e sonegam direitos autorais. Tem algumas que nem pagam porque alegam que a rádio dá prejuízo. Se dá prejuízo, porque não passa pra gente do MST? Cantei muito, sem cobrar cachê, para o Sindicato dos Bancários, da Construção Civil, dos Metalúrgicos e Eletricitários. Hoje, estão fortalecidos e não lembram da gente. Eu colocava minha música a serviço das lutas sindicais, e hoje esquecem que a gente sobrevive dos cachês.
Quem é
Wilson Aragão é compositor. Fez política partidária junto com Capinam, Gonzaguinha, Fábio Paes e Jorge Portugal. Suas músicas foram gravadas por artistas de várias gerações. Possui três CD’s gravados. Recentemente (setembro de 2010), Wilson obteve aprovação no edital Vivaldo Ladislau – Apoio à  circulação de shows musicais (Secretaria de Cultura do Estado da Bahia/Fundação Cultural do Estado da Bahia)
Links:
  • Raul Seixas canta "Capim Guiné", de Wilson Aragão:
http://www.youtube.com/watch?v=HpU_wooz4qg
  • Wilson Aragão canta "Guerra de Facão" (1988):
http://www.youtube.com/watch?v=D6I26khHUzg


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