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Saturday, June 18, 2011

MEMÓRIAS DO RIO CACHOEIRA


PROJETO REGISTRA MEMÓRIAS DO RIO CACHOEIRA





Rio Cachoeira à noite - Itabuna / BA. Foto: Victor Aziz


Aos 101 anos de emancipação a cidade de Itabuna ganha um presente: o projeto Memórias do Rio Cachoeira (MRC). Com o objetivo de registrar a memória cultural da cidade, especialmente a sua relação com o Rio Cachoeira, o projeto faz uso de três linguagens: a poesia de autores itabunenses, a música da banda Manzuá e um documentário audio-visual realizado pela parceria entre o NúProArt e a Panorâmica Produções.
A proposta é transformar 12 poemas de autores da cidade em canções que irão compor dois produtos finais: um CD com todas as faixas na íntegra e um documentário que as traz como trilha sonora. A escolha dos poemas já foi feita e conta com obras de Daniela Galdino, Ruy Póvoas, Cyro de Mattos, Iana Carolina e Lorenza Mucida, dentre outros.



Banda Manzuá. Divulgação.
A tarefa de musicá-los é da banda Manzuá, outro fruto da arte grapiúna. O grupo é atuante no cenário musical da região, já ganhou vários prêmios e participou de inúmeros eventos universitários e culturais.
Cinco músicos dividem o palco na atual formação, que está solidificada desde 2009: Laísa Eça e Brisa Aziz (vocais), Marcelo Weber (baixo e violão), João Solari (guitarra e violão) e Mither (voz, bateria e percussão).
O nome Manzuá faz alusão à história da região sul da Bahia, pois denomina um engradado artesanal de pesca usado na captura de pitu e camarão. Sendo assim, a banda já nasceu com alma de rio, trazendo consigo uma sonoridade distinta, que reflete uma gama de gêneros, como o maracatu, blues, ijexá, reggae, queto, funk, samba-rock, rock, além de utilizar largamente a linguagem poética em suas apresentações.
O CD está em fase de pré-produção, com ensaios periódicos da banda para acertos finais dos arranjos.
O MRC também prevê a gravação de um documentário sobre aspectos da história do rio e a sua relação com a história de Itabuna. O documentário está em fase de produção de roteiro e a gravação tem início no segundo semestre deste ano.
O Memórias do Rio Cachoeira visa contribuir para o enriquecimento do acervo áudio e visual local. É uma realização do Núcleo de Produções Artísticas (NúProArt), da Panorâmica Produções e da banda Manzuá.  É vencedor do edital nº 05/2009 de Apoio à Produção de conteúdo em música no Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura - SECULT, Fundo de Cultura da Bahia e da Fundação Cultural do Estado da Bahia – FUNCEB.

Para mais informações, acesse: www.memoriasdocachoeira.blogspot.com

Wednesday, March 23, 2011

Sonâmbula e feroz: divagações sobre “Vinte poemas CaleiDORcópicos”, de Daniela Galdino


Por Antonio Naud Junior


A poesia é um caminho tão solitário como o das estrelas e não há uma fórmula para a descrever e compreender em todas as suas complexidades. Seja como for, do que nela pode ser encontrado, é uma experiência pessoal densa, que varia de poeta para poeta ou mesmo de leitor para leitor. Mas de vez em quando dá um certo gozo divagar ou fazer desta, sabendo que ao correr da pena se aperta o coração. Sei também, com algum desalento, que se alguma coisa não se pode ensinar é a sabedoria. E a Poesia. Essa associação surpreende-me, até porque raras vezes penso quanto é exata e quanto a Poesia não se ensina nunca. Então, para que servem os críticos literários? Talvez para trilhar o fundo de um túnel. Para muitos deles, essa imagem do túnel – e da luz ao fundo dele – é a reminiscência do momento da criação legítima, recuperada à hora da leitura mais atenta. E se o leitor precisasse da Poesia para olhá-la nos olhos? E se a Poesia precisasse de nos para dar-nos a mão e nos tirar o medo de viver? Como posso eu saber, como podemos saber? Seria a Poesia o sabor da dor? Sei que somos os espaços em branco dela.
Muito boa gente não lê certamente Poesia, assim como muitos poetas não escrevem para tal boa gente. Entra-se neste mundo poético, consoante as hierarquias, em cerimonial e etiquetas, regidos por rigorosas normas. Tudo poderia ser diferente em tão nobre oficio, mas não o é. É um mundo cão e um mundo macho. Sou obrigado a explicar melhor, antes que me tenha em má impressão: de Emily Dickinson a Marianne Moore, de Cecília Meireles a Hilda Hilst, o universo poético feminino sempre esteve entre lá e cá ou mais lá do que cá. Ou seja, nesta aventura de agonia, muitas dificuldades foram impostas pelo raciocínio masculino, que secretamente parece repetir como uma máquina avariada: “o que sabe a mulher sobre o dom poético?”. O sul da Bahia, uma região perfumada por poetas vagamente lembrados, sejam de um sexo ou de outro, tem um elenco lírico feminino atraente: Valdelice Pinheiro, Janete e Jane Kátia Badaró, Neuzamaria Kerner, Ana Virginia Santiago, Ritinha Santana, Genny Xavier, Yolanda Costa, Urânia Azeredo Bittencourt, Helena Chaves, Gal Macuco. E perdoem-me do desconhecimento de outras. Mas escrevo estas linhas para falar de uma nova poeta grapiúna, ou melhor, de um livro recentemente lançado por esta poeta: “Vinte poemas CaleiDORcopicos”, de Daniela Galdino (Via Litterarum, 2005).
Há nesta obra uma espécie de necessidade íntima de suportar penas e sofrimentos, de conservar a personalidade exposta à própria destruição. Não há saída nem retorno para a poeta, porém a vida mergulhada no vazio não é possível, e ela assim o crê. Mas apesar de tudo, a Poesia firma-se virtuosa, numa sensibilidade abstrata acima da morte, da guerra cotidiana e sofrimento incluídos. Galdino tenta, com sua lírica escarlate, ouvir o “presságio das flores”, superar as insuperáveis contradições da realidade e suas próprias contradições, em que passado e presente, vida e morte, amor e dor, se unem num todo, numa unidade, num ser. Uma sublimação elegíaca, uma espécie de religião estética: “Quando eu disse/ que a terra era azul/ tu me acolheste/ debaixo da asa esquerda/ e voamos (juntos) para fora de nos”. Uma tentativa de desenvolver uma imagem do mundo desde uma ótica essencialmente humanista. A voz poética desta jovem autora procura o seu caminho, parece não dormir, sonâmbula e feroz, ergue-se num canto sensível, por vezes apressado, e torna a noite mais funda e mais terrível, a noite cheia de caçadores e presas.
Verso a verso, o livro anseia por valores persistentes, determinando uma escrita entrecortada, atravessada por uma sutil eroticidade e uma dor por vezes insegura,  mas construída de modo delicado. E então, a mão que escreve talvez não faça mais do que construir, palavra sobre palavra, emoção sobre emoção, a persona de uma mulher, a sua história, o seu auto-retrato: “Viver era ir-se/ na direção/ das pequenas mortes instantâneas/ e das súbitas ressurreições”.  Afinal, a Poesia imita a vida e a vida imita a Poesia, então talvez cada verso seja uma linha da cabeça, uma linha do coração, uma linha da vida.


Texto publicado originalmente em setembro de 2005, no jornal (já extinto) ABXZ – caminho das Letras

Antonio Naud Junior é jornalista e escritor. Atualmente mantém o blog www.ofalcaomaltes.blogspot.com, no qual empreende reflexões sobre Cinema.

Thursday, December 2, 2010

ABRAM ALAS À PERENE POESIA ...” (Jorge de Souza Araújo)


Mais conhecida fora da Bahia por conta da obra de Jorge Amado e Adonias Filho, a região Grapiúna, cujas cidades pólo são Ilhéus e Itabuna, onde se desenvolveu o cultivo do cacau, também viu nascer poetas de fundamental importância para a literatura baiana, como Adelmo Oliveira, Ildásio Tavares, Abel Pereira e Florisvaldo Mattos, apenas para citar alguns.
Calcados nessa forte tradição, uma nova geração de poetas grapiúnas foram apresentados em Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna (Ilhéus/Itabuna: Via Litterarum/Editus, 2009), obra organizada pelo poeta e ensaísta Gustavo Felicíssimo. Aos dez antologiados da primeira edição – Edson Cruz, Heitor Brasileiro Filho, Noélia Estrela, Piligra, George Pellegrini, Rita Santana, Fabrício Brandão, Daniela Galdino, Mither Amorim e Geraldo Lavigne – juntam-se, agora, em segunda edição, mais dois poetas – André Rosa e Marcus Vinícius Rodrigues – dessa vez com sete poemas cada um, contra cinco da primeira edição. São doze poetas (alguns deles bastante premiados) que já estão inseridos entre aqueles que produzem a melhor poesia baiana, quiçá brasileira, deste início de século.
          Como afirma o crítico de arte Henrique Wagner, “a segunda edição de um livro de poemas é acontecimento incomum, infelizmente, em nossos dias – e em verdade sempre o foi, mas tem sido cada vez mais incomum, a ponto da primeira edição já ser, ela mesma, uma raridade. Se tal acontece, é porque um milagre chegou perto de acontecer, se não aconteceu, de fato”.
Com palavras envolventes, com a maestria de quem acumula longa e reconhecida navegação pelas Letras – seja como poeta, ficionista, ensaísta, professor, pesquisador – o Prof. Dr. Jorge de Souza Araújo (UEFS) apresenta ao público, num prefácio honroso, a sua análise a respeito da segunda edição (revista e ampliada) da antologia “Diálogos: panorama da nova poesia grapiúna” (Editus, Via Litterarum, 2010, organização Gustavo Felicíssimo). Eis as palavras do nosso bardo:

“[...] A presente antologia revela que o organizador se baseia em critérios estéticos e paradigmas particulares. Os antologiados e o organizador se afastam com prudência recomendável do que possa ser confundido com o simples aflorar da emoção noviça prestando-se também ao sediço da pressa, da reles imitação, ou mesmo do pacto facilitário entre o discurso pedante e a composição discursiva, ideológica ou sentimental. Cada poeta aqui reunido em Diálogos expõe suas vísceras existenciais em signos impressivos de uma personalidade em vigília, expondo também as marcas referenciais da leitura de outros poetas, alguns canônicos, outros icônicos. Assim ecoam Cabral, Drummond, Bandeira, Adélia Prado, Fernando Pessoa, Mallarmé, sem que se perceba uma tautologia barata, fruto da mímese deslavada e, não raro, preguiçosa. Os antologiados dialogam entre si opondo estilos distintos, mesclando experiências múltiplas e influxos renovadores, conforme filosofia de composição, metafísica e ontologia diferenciadas, resultado de processos estéticos e estilísticos de acordo com variáveis de pesquisa formal, intuição, labor e artesanato, naturismo temático, espontaneidade da emoção domada, técnica ou ausência dela etc. etc [...]”

A segunda edição, revista e ampliada, de Diálogos, será lançada no próximo dia 11 de dezembro, às 18 horas, na Academia de Letras de Ilhéus (Rua Jorge Amado, nº 21, Centro, Ilhéus –BA.), oportunidade em que haverá um bate-papo com Jorge de Souza Araújo (poeta e Prof. da UEFS), prefaciador da obra, e Aleilton Fonseca (ficcionista e Prof. da UEFS) sobre a poesia baiana contemporânea.

DE ÂNCORAS, ÂNSIAS, REMOS E MEDOS:
O TRATADO DAS VEIAS, DE RITA SANTANA

Daniela Galdino



“Sou esse fruto peco das diásporas [...]
Desacato porque sou poeta”.
(Rita Santana. Bênção)



Rita Santana
Tratado das Veias, de Rita Santana, é uma obra em que se nota uma fortíssima relação entre o erotismo feminino e o processo criador em literatura, dada a intensidade das nuances poéticas advindas desse diálogo. Numa visão panorâmica, nota-se a recorrência ao caráter mais inusitado das palavras – familiares e estranhas -, agora já convertidas em imagens. Em relação direta a tal aspecto, torna-se visível, nesse vôo por sobre a poesia de Rita Santana, o esforço para demarcar um território governado pela visão feminina, em que o maior desafio está na instituição de uma outra cartografia corporal da mulher associado a um novo tratamento da experiência sexual, amorosa, existencial, logo, humana, demasiado humana[1].
A obra, publicada pelo selo As Letras da Bahia, foi contemplada em seleção da Fundação Cultural do Estado, vindo ao conhecimento do público em 2006. A essa altura Rita Santana já estava consolidada no mundo das artes, seja pelas atuações cênicas – iniciadas em Ilhéus nos anos 80 -, incursões pelo cinema e pela televisão, ou até mesmo pela sua premiada obra Tramelas, livro de contos vencedor do Prêmio Braskem 2004. No campo da poesia destaca-se a participação de Rita na antologia Mão Cheia (2005).
É possível aproximar a autoria de Rita Santana à opção radical de comprovar a inadequação da linguagem masculina para significar as sensações femininas Dentre as muitas aproximações possíveis, destaca-se aqui uma relação com a escritora francesa Anais Nin, que durante o século XX viveu a intensidade desse desafio cotidiano, ao afirmar, nos seus “Diários”, que a literatura por ela produzida consistia num conjunto de “esforços iniciais de uma mulher  em um mundo que fora de domínio dos homens” (Nin, 2005, p. 14).
Em tal percurso reflexivo, não se deve omitir que,o associado ao processo criador em literatura, tem-se os questionamentos: quantas espirais devem ser percorridas até que se chegue ao poço fundo da feminilidade (ou, no dizer da própria Rita Santana: “No poço fundo dos meus mistérios”)? Quais símbolos devem ser decifrados, quantos signos dispersos devem ser postos em relação? Esses questionamentos cruciais estão diluídos no Tratado das Veias – na verdade estão consubstanciados no próprio título da obra. Consciente da ameaça de um mundo governado pelo silêncio imposto, Rita Santana torna-se incisiva ao longo desse tratado íntimo.
Com isso é inaugurado o que aqui se denomina como cartografia corporal feminina. Esse aspecto – enquanto recurso poético – certamente provoca o arrebatamento do leitor, pois o que se nota é justamente um percorrer sinestésico.  Nesse mapeamento, o corpo não é vazio de sensações, portanto, não é representado de forma a dissociá-lo dos desejos. No entanto, o que mais se constitui como elemento arrebatador é uma conjugação de abalos sísmicos que percorrem esse corpo representado; no que se pode antever o consubstanciamento do leitor, em virtude da força que emerge das imagens poéticas, potência da representação dos desejos, mas, sobretudo, dos efeitos desses desejos, como se percebe:

Ardo! Ardo como asfalto nos verões do Rio.
Ardo porque sou mulher.
E sorrio, fresca, como que ardendo, como que queimando.
Ardo porque enfarto a toda hora,
Sem u-tê-is, sem confessionário.
Ardo porque, de ordinário, sou flama.
(Coração de ardências)

A cartografia corporal impulsiona o percurso por pontos familiares, porém concentrados/redimensionados em imagens inusitadas: “cova roxa”, “ovários revoltos”, “fibras duras”, “pele escura de negra dura e mole”, “meus seios moles de vaca parida”, “meu mênstruo de vinhas negras”. É como a propagação de uma onda de impacto que devasta o que é encontrado pela frente. Daí a constatação: “Meu coração era um mosaico de ardências” (Coração de ardências). Daí a seqüência de auto-imagens dessa voz feminina que enuncia:

Vem, homem, ofereço-te fibras duras
Da doida serpente que me guarda.
De paz sei pouco, dinamito em gritos.
[...]
Diz-me adorar meus seios flácidos, minha embriaguez de puta.
Lambe com disputa asceta os meus meios, meus fundos.
(Amásia)

Sou mulher de agora, de hoje,
Tenho hábitos de galo e caprichos de galinha.
[...]
Tenho tudo sob meu viaduto-castelo.
Sou rata e rainha.
(Bênção)

Sou mulher de calos na língua,
Não sou de arestas.
Enfio o dedo em palavras grossas:
Banjo e abelha.                                                                             (Melão de cera)

Com essas formas de auto-percepção, tem-se um exercício reflexivo que faz dilatar a consciência, em verdade, uma consciência dramática.  A melhor forma de percepção desse exercício simbólico é o diálogo das matizes da consciência: da dor, da perda, das temporalidades, do desejo. A conjugação de tais elementos abre fissuras no cotidiano, de onde esse sujeito enunciativo vai construindo formas de conferir significados a si, ao outro, às coisas do mundo, à experiência sexual.

Acreditas na maldita sina-serpente
Que faz de mim
Um arrastar eterno de sonhos e dores?
(Jardim)

Adiante se verá o meu passado,
Engarrafado em tulipas amarelas.
As dores nuas gritarão em cofres,
E os amores se amarão nas celas.

(Instalação)
Minha boca pede água,
Somente meus pés pedem língua.
Tenho cansaço nas veias
De tanto deixar tecidos
Soltos no caminho.
(Langor)
Sobrevém a imagem da mulher convicta de que essa dramaticidade não lhe traz uma posição confortável, pois essa consciência é pesada e desafia aquelas que a experimentam justamente porque, a partir de experiência tão desafiadora, torna-se impossível qualquer forma de regeneração.  Todas as formas de percepção são radical e profundamente alteradas, gerando outros fluxos de memória, sensações dilatadas, expectativas distorcidas. Daí o ritmo dissoluto das linhas traçadas por Rita Santana, daí a “faca amolada”, punhal simbólico cravado no íntimo desse ser para o qual não há a impassibilidade dos disfarces. Portanto, novamente têm-se os impactos visíveis no corpo representado:

Deu de abrir fissuras na minha boca
Porque ele partiu.
E eu fiquei oca,
Fiquei seca,
Virei louça,
Vivi morta.
Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas!
(Ai de mim!)

Estou em apuros porque sobrevivi até mais tarde,
Mas carrego mortes que desconheço porque sou pobre:
Deixei de estudar filosofia,
Deixei de fazer poesia,
Deixei de ir ao encontro do sol.
Perdi a Maria-fumaça da minha infância,
Pra uma indústria de cacau.
(Azul)

Dei de acender velas ao sol,
Querendo-as ainda mais quentes.
Dei de querer ser santa e fazer milagres da minha espera:
Quando chega a primavera, eu viro chuva
E saio a te buscar por toda a terra.
(Coita insana)

Argumenta-se em favor de uma não linearidade no Tratado das Veias, de Rita Santana. Ou seja, ao lê-la, tem-se a sensação de estar diante de uma obra sinuosa, constituída a partir de uma delicada e arrebatadora trama de sentimentos. Salientam-se os seguintes fragmentos, como materialização de tal aspecto:

Precipito-me em despenhadeiros em busca de água fria,
Pois que fervo em larvas,
Pois que de labaredas dramáticas tenho feito existência.
(Desconfiança)
Uma lente de aumento vê um desespero sem fim,
Já quis ardores demais, e não tive tudo.
(Faz-de-conta)

Nesse sentido, faz-se necessário redimensionar o olhar sobre a poética de Rita Santana, a qual reclama um vôo panorâmico, sob pena de se realizar uma leitura parcial, logo, insuficiente. Portanto, articulando-se: i) as relações entre erotismo e escrita feminina; ii) a cartografia corporal da mulher; iii) a consciência dramática e iv) a arrebatadora e delicada trama de sentimentos, a análise abarca o sentido caleidoscópico do Tratado das Veias. Essa caleidoscopia implica na projeção de várias imagens desconcertantes cuja matriz é a feminilidade. Como diz a própria autora, “meu enigma é enxergar o sol de quem vive à sombra”. O enigma da leitura será antever esses espelhos e recompô-los, para, à maneira de Rita Santana, compreender os mistérios que cercam o ser feminino.






SANTANA, Rita. Tratado das veias. Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo, Fundação Cultural do Estado, EGBA, 2006.







[1] Referência ao filósofo Nietzsche.


Daniela Galdino. Professora da UNEB, Doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pelo CEAO/UFBA, Professora da Rede Estadual da Bahia


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