Friday, May 11, 2012

Nietzsche, Machismo e blablablá

Outro dia, no Facebook, uma amiga fez o seguinte post, baseada em uma frase de Nietzsche, extraída de Muito Além do Bem e do Mal:

Se uma mulher tem inclinações eruditas, geralmente há algo errado com sua sexualidade" 
Nietzsche
Ok, valeu Cláudia, senta lá. =P"
Logo seguiu-se uma discussão sobre machismo/sexismo em Nietzsche, onde uma menina defendeu a leitura da frase dentro do contexto e tentou explicar a visão de que, para Nietzsche (num resumão), a mulher não deveria querer ser como o homem, pois seríamos muito superiores. Pois que a discussão seguiu para a leitura crítica dos autores consagrados e o dilema de consumir - e gostar - de obras realizadas por pessoas fáceis de se condenar, desde moralistas, machistas e racistas a pedófilos, estupradores e assassinos.

De minha parte, acredito que seja difícil admitir para si mesmo gostar de um cara que poderia ser o mesmo que provoca meus instintos primitivos de fazer justiça com as próprias mãos. Mas a relação com a arte e a filosofia são maiores e mais importantes na minha vida, de como que não preciso fazer esforço para separar as duas coisas. Não me empolga, mas não boicoto. A menos que tal obra esteja escancaradamente impregnada com as convicções políticas e morais do autor. Não acho que um artista ou um filósofo precisem corresponder expectativas; a arte e a filosofia não funcionam dessa maneira.

Em casos menos extremos é que não me incomoda em nada. Quase todos os pensadores que conhecemos tinham posições machistas. Todos foram produtos de seus tempos e eu até gostaria de ver a utilidade deste debate, para que eu mesma possa fazer uma leitura ainda mais crítica. E foi pensando sobre isso que me ocorreu este trecho de O Lobo da Estepe, onde Haller, o autoproclamado, filosofa acerca do distanciamento histórico e, por coincidência, cita Nietzsche. É um pouco da falta dessa reflexão, que acredito fazer com que as pessoas se preocupem em apontar problemas de menor importância no pensamento de grandes autores, e colidir com eles. Não me refiro à minha amiga: sua intenção foi apenas cutucar uma "desconstrução de mitos".
Disse-me ele, certa vez, quando falávamos a propósito das chamadas crueldades da Idade Média: 
- Tais horrores na verdade não existiram. Um homem da Idade Média condenaria totalmente nosso estilo de vida atual como algo muito mais cruel, terrível e bárbaro. Cada época, cada cultura, cada costume e tradição têm seu próprio estilo, têm sua delicadeza e sua severidade, suas belezas e crueldades, aceitam certos sofrimentos como naturais, sofrem pacientemente certas desgraças. O verdadeiro sofrimento, o verdadeiro inferno da vida humana reside ali onde se chocam duas culturas ou duas religiões. Um homem da Antiguidade, que tivesse de viver na Idade Média, haveria de sentir-se tão afogado quanto um selvagem se sentiria em nossa civilização. Há momentos em que toda uma geração cai entre dois estilos de vida, e toda evidência, toda moral, toda salvação e inocência ficam perdidas para ela. Naturalmente, isso não atinge a todos da mesma maneira. Uma natureza como a de Nietzsche teve de sofrer a miséria da época atual há mais de uma geração antes da nossa; tudo quanto teve de suportar sozinho e incompreendido é o mesmo de que hoje padecem milhares de seres humanos.";
p. leminsk - la vie en close

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