Continuo indignada com o anúncio da Volkswagen que saiu publicado num jornal de Jundiaí no domingo. Não sei se foi veiculado em outros lugares também. Deve ter sido, porque não parece uma propaganda local. Ontem vocês descobriram que a agência responsável é uma das maiores do país, a AlmapBBDO. Este é o twitter da agência, e seu email é almap@almapbbdo.com.br Mas a responsabilidade maior não é da agência. É do cliente, no caso, a Volkswagen do Brasil, que aprova uma asneira sem tamanho em que uma mulher enfia uma faca numa torradeira, enquanto o título “adverte” (quem? Os homens?): “Cuidado: ela também dirige”.
Nem se trata de uma questão de interpretação. O machismo nesse tipo de anúncio é claro e cristalino. Estão falando que nós, mulheres, somos imbecis e não sabemos dirigir. Logo, não devemos dirigir. É incrível que um anúncio desses seja usado pra vender carro. Tipo: desprezar metade da população não parece exatamente uma estratégia genial pra vender mais carros. Por que uma mulher compraria um carro de uma marca que acha que ela não tem competência pra dirigi-lo? E qual é mesmo a estatística? Que mulheres compram ou influenciam na compra de 40% dos carros? De qualquer jeito, sei lá, jogar fora esses 40% não parece inteligente. Parece coisa de publicitário e cliente que enfiam faca na torradeira, quero dizer, pé na jaca. Eles já nos chamaram de estúpidas e péssimas motoristas. O que será que reservaram pro Dia das Mães, que é a segunda data comercial mais lucrativa (só perde pro natal) do ano? Mal posso esperar.
Ontem enviamos centenas de tweets pra Volks (@CarroMesmo) e escrevemos muitas mensagens no Facebook. Uma leitora, a Ana, recebeu uma resposta da Volks por email:
“Sra. Ana,
Agradecemos o seu contato.
Em atenção a sua mensagem, lamentamos sinceramente o fato de que a nossa comunicação publicitária tenha sido percebida por V.Sa. como ofensiva ou mesmo discriminatória.
Obviamente, não foi nossa intenção causar qualquer tipo de desconforto a quem quer que seja, porque sabemos que conquistar a simpatia das pessoas é um fator essencial para nosso êxito.
A VW é uma empresa de abrangência mundial que faz questão de respeitar crenças, hábitos e procedimentos de todas a sociedade, em qualquer parte onde ela tenha sua base de operação.
Contando com sua compreensão, colocamo-nos a disposição.
Atenciosamente,
Renata Moreira
Central de Relacionamento com Clientes Volkswagen”
Resposta mais burocrática e fugidia, impossível! A Volks não lamenta de jeito nenhum ter veiculado um anúncio obviamente machista. Lamenta é que a leitora tenha percebido a propaganda como ofensiva. O machismo está nos olhos de quem vê! Já ouvimos isso antes...
O que mais chama a atenção é que a resposta nem tenta apelar pra mais antiga das desculpas (foi só uma piada!). Não, não há qualquer tipo de justificativa. Eles só “lamentam sinceramente”. Teria sido mais honesto se eles respondessem que executivos da Volks e publicitários da Almap estavam numa sala de reunião vendo anúncios antigos, vintage, das décadas de 1950 e 60. Sem querer, o estagiário ou o homem do cafezinho -– a Volks ainda está investigando pra poder identificar e punir o responsável -– se confundiu e mandou pro jornal não um anúncio de 2012, mas um vintage de décadas atrás. Ha ha, vocês não perceberam, mulheres? Alguém ainda usa torradeira hoje em dia? Foi uma homenagem à série de TV Mad Men!
Uma outra leitora decidiu mandar uma mensagem diferente pra Volks. Ela se juntou a um amigo e, juntos, escreveram um email absurdo, fingindo ser um total babaca (como os mascutrolls que comentam aqui no blog):
“Boa tarde,
Estou entrando em contato para elogiar não somente a qualidade de seus veículos, que estou tendo o prazer de comprovar com meu recém adquirido Volkswagen Jetta, mas também sua postura como empresa tradicional e de família, que preza pelos valores morais do cidadão de bem.
Também preciso dizer que achei divertidíssimo o anúncio de vocês que vi no jornal aqui de Jundiaí onde uma mulher manuseia desastrosamente uma torradeira! Hahaha, o que ela não faria com um carro, não é mesmo?
Minha senhora também achou muito engraçado. Ela não dirige, eu não deixaria meu carrinho nas mãos dela por nada nesse mundo. Vocês sabem, mulheres são realmente muito ruins no volante, elas batem em tudo. Deveriam permanecer cuidando do tanque e do fogão, hehehe.
A única vez que minha senhora saiu com o carro foi para me levar ao hospital, e adivinhem? Bateu em outro carro! Depois disso dei uma correção que ela nunca vai esquecer, e ela jamais voltou a me pedir o carro novamente! Felizmente hoje tenho um filho homem e posso contar com ele para me levar para o hospital, se precisar!
Acho muito importante essa iniciativa de vocês colocarem anúncios assim nos jornais, é bastante ousada nos dias de hoje, tempos em que as mulheres esqueceram sua verdadeira vocação de esposa e mãe, de mulher do lar.
Enfim, gostaria de agradecer novamente, não só pelo maravilhoso veículo, mas também pela ajuda na manutenção dos valores tradicionais da família como ela deve ser!
Obrigado Volksvagen!”
Devo confessar que ri com o email, porque é tão exagerado, tão idiota, que nem se Bolsonaro e Malafaia escrevessem uma mensagem a quatro mãos, conseguiriam produzir algo tão retrógrado. Mas a Volks respondeu! Sério mesmo. A leitora me enviou a resposta recebida:
“Sr Eduardo,
Confirmamos o recebimento de sua mensagem, na qual o Sr. tece elogios aos nossos Produtos. [sic, eles escrevem produtos com P maiúscula].
Manifestações dessa natureza são para nos motivo de grande satisfação, pois, na verdade todos os nossos esforços têm sido canalizados para atingir tais resultados junto a todos os nossos clientes, e demonstrações como a sua renovam nossa intenção de continuar atuando de forma constante nesse sentido.
Continuamos a sua disposição.
Atenciosamente,
Rodrigo Alves
Central de Relacionamento com Clientes Volkswagen”
Nem se trata de uma questão de interpretação. O machismo nesse tipo de anúncio é claro e cristalino. Estão falando que nós, mulheres, somos imbecis e não sabemos dirigir. Logo, não devemos dirigir. É incrível que um anúncio desses seja usado pra vender carro. Tipo: desprezar metade da população não parece exatamente uma estratégia genial pra vender mais carros. Por que uma mulher compraria um carro de uma marca que acha que ela não tem competência pra dirigi-lo? E qual é mesmo a estatística? Que mulheres compram ou influenciam na compra de 40% dos carros? De qualquer jeito, sei lá, jogar fora esses 40% não parece inteligente. Parece coisa de publicitário e cliente que enfiam faca na torradeira, quero dizer, pé na jaca. Eles já nos chamaram de estúpidas e péssimas motoristas. O que será que reservaram pro Dia das Mães, que é a segunda data comercial mais lucrativa (só perde pro natal) do ano? Mal posso esperar.
Ontem enviamos centenas de tweets pra Volks (@CarroMesmo) e escrevemos muitas mensagens no Facebook. Uma leitora, a Ana, recebeu uma resposta da Volks por email:
“Sra. Ana,
Agradecemos o seu contato.
Em atenção a sua mensagem, lamentamos sinceramente o fato de que a nossa comunicação publicitária tenha sido percebida por V.Sa. como ofensiva ou mesmo discriminatória.
Obviamente, não foi nossa intenção causar qualquer tipo de desconforto a quem quer que seja, porque sabemos que conquistar a simpatia das pessoas é um fator essencial para nosso êxito.
A VW é uma empresa de abrangência mundial que faz questão de respeitar crenças, hábitos e procedimentos de todas a sociedade, em qualquer parte onde ela tenha sua base de operação.
Contando com sua compreensão, colocamo-nos a disposição.
Atenciosamente,
Renata Moreira
Central de Relacionamento com Clientes Volkswagen”
Resposta mais burocrática e fugidia, impossível! A Volks não lamenta de jeito nenhum ter veiculado um anúncio obviamente machista. Lamenta é que a leitora tenha percebido a propaganda como ofensiva. O machismo está nos olhos de quem vê! Já ouvimos isso antes...
O que mais chama a atenção é que a resposta nem tenta apelar pra mais antiga das desculpas (foi só uma piada!). Não, não há qualquer tipo de justificativa. Eles só “lamentam sinceramente”. Teria sido mais honesto se eles respondessem que executivos da Volks e publicitários da Almap estavam numa sala de reunião vendo anúncios antigos, vintage, das décadas de 1950 e 60. Sem querer, o estagiário ou o homem do cafezinho -– a Volks ainda está investigando pra poder identificar e punir o responsável -– se confundiu e mandou pro jornal não um anúncio de 2012, mas um vintage de décadas atrás. Ha ha, vocês não perceberam, mulheres? Alguém ainda usa torradeira hoje em dia? Foi uma homenagem à série de TV Mad Men!
Uma outra leitora decidiu mandar uma mensagem diferente pra Volks. Ela se juntou a um amigo e, juntos, escreveram um email absurdo, fingindo ser um total babaca (como os mascutrolls que comentam aqui no blog):
“Boa tarde,
Estou entrando em contato para elogiar não somente a qualidade de seus veículos, que estou tendo o prazer de comprovar com meu recém adquirido Volkswagen Jetta, mas também sua postura como empresa tradicional e de família, que preza pelos valores morais do cidadão de bem.
Também preciso dizer que achei divertidíssimo o anúncio de vocês que vi no jornal aqui de Jundiaí onde uma mulher manuseia desastrosamente uma torradeira! Hahaha, o que ela não faria com um carro, não é mesmo?
Minha senhora também achou muito engraçado. Ela não dirige, eu não deixaria meu carrinho nas mãos dela por nada nesse mundo. Vocês sabem, mulheres são realmente muito ruins no volante, elas batem em tudo. Deveriam permanecer cuidando do tanque e do fogão, hehehe.
A única vez que minha senhora saiu com o carro foi para me levar ao hospital, e adivinhem? Bateu em outro carro! Depois disso dei uma correção que ela nunca vai esquecer, e ela jamais voltou a me pedir o carro novamente! Felizmente hoje tenho um filho homem e posso contar com ele para me levar para o hospital, se precisar!
Acho muito importante essa iniciativa de vocês colocarem anúncios assim nos jornais, é bastante ousada nos dias de hoje, tempos em que as mulheres esqueceram sua verdadeira vocação de esposa e mãe, de mulher do lar.
Enfim, gostaria de agradecer novamente, não só pelo maravilhoso veículo, mas também pela ajuda na manutenção dos valores tradicionais da família como ela deve ser!
Obrigado Volksvagen!”
Devo confessar que ri com o email, porque é tão exagerado, tão idiota, que nem se Bolsonaro e Malafaia escrevessem uma mensagem a quatro mãos, conseguiriam produzir algo tão retrógrado. Mas a Volks respondeu! Sério mesmo. A leitora me enviou a resposta recebida:
“Sr Eduardo,
Confirmamos o recebimento de sua mensagem, na qual o Sr. tece elogios aos nossos Produtos. [sic, eles escrevem produtos com P maiúscula].
Manifestações dessa natureza são para nos motivo de grande satisfação, pois, na verdade todos os nossos esforços têm sido canalizados para atingir tais resultados junto a todos os nossos clientes, e demonstrações como a sua renovam nossa intenção de continuar atuando de forma constante nesse sentido.
Continuamos a sua disposição.
Atenciosamente,
Rodrigo Alves
Central de Relacionamento com Clientes Volkswagen”
Não vou nem entrar no mérito da Volks dizer que “continua à disposição” de um cidadão que bate na mulher pra discipliná-la. Prefiro pensar que a Central de Atendimento da empresa está habitada por robôs, que respondem a todos os emails com modelos de cartas (“Lamentamos sinceramente” pra reclamações; “demonstrações como a sua renovam blablabla” pra elogios).
Bom, já que a Volks do Brasil não leva nossa revolta a sério, vamos escrever pra matriz (email: vw@volkswagen.de), pra Volkswagen alemã. Será que eles sabem que sua representante brasileira veicula anúncios machistas? Eles fazem anúncios assim na Alemanha também, ou lá os protestos seriam maiores, com possibilidades de boicote à marca? Vamulá, pessoal! Vamos mostrar a força das redes sociais. E vamos avisar esses executivos e seus publicitários de estimação que o mundo mudou um pouquinho de 1950 pra cá.









