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Tuesday, May 15, 2012

A MARIA CHUTEIRA DO RUGBY

Este comercial de 30 segundos sobre rugby no Brasil me foi enviado por email por uma leitora. Só soube por conta dela, já que não tenho TV a cabo, e imagino que o comercial foi veiculado por lá. Nele vemos um apresentador de terno e gravata dizendo que, como o Brasil ganhou da Argentina pela primeira vez, isso abre novas portas pro esporte por aqui: agora estamos prontos pra próxima etapa, que seria atrair Marias Chuteiras pro esporte. Ou seja, mulher não serve pra jogar e mal serve pra torcer, já que não consegue pronunciar o nome do esporte direito. Mas serve pra transar com os jogadores.
Mais ou menos na mesma época que chegou o email, li um artigo do UOL sobre as Marias no Mundial de Rugby da Nova Zelândia. O problema é que, bem, o que é uma Maria Chuteira? É um termo machista (inclusive porque só existe no feminino) para designar uma mulher que corre atrás de um astro de algum esporte -– em geral, futebol. Seu interesse, aparentemente, é casar com o sujeito. Na mentalidade popular (e machista), a Maria Chuteira tem apenas intenções financeiras. Bom, e daí? E se tiver? Pra casar com alguém é preciso duas pessoas. Se o astro do esporte não quiser, não há casamento, né? Existe aquela ideia fixa que uma Maria Chuteira engravidará de propósito para descolar uma polpuda pensão. Se isso é tão comum no meio como se acredita, será que o carinha não poderia usar camisinha e evitar o risco?
Mas pô, chamar qualquer mulher que namora ou casa com um astro de esporte de Maria Chuteira –- como faz a matéria do UOL -– me parece uma tremenda sacanagem. Por exemplo, uma das Marias mencionadas pela reportagem é neta da rainha Elizabeth II (desconfio que dinheiro não seja problema pra família real) e campeã mundial de equitação. Vejamos... Será que ela se aproximou do jogador querendo dilapidar seu patrimônio ou será que, de repente, como ambos são atletas, eles se conheceram em algum evento esportivo, viram que tinham coisas em comum (dinheiro deve ser uma delas), e decidiram ficar juntos? Isso não faria do cara tão Mario Chuteiro como ela?
Outra Maria descrita pela matéria é uma nadadora australiana que ganhou nada mais nada menos que três medalhas de ouro em Pequim 2008. Tipo, ahn, ganhar uma medalha de ouro numa Olimpíada na sua modalidade já te coloca no Olimpo dos deuses, não? Não é pra qualquer um. Mas como a reportagem se refere a Stephanie Rice? “Depois de levar três medalhas de ouro em Pequim-2008, a nadadora australiana não tinha muito mais o que conquistar na vida, a não ser um grande amor. Ok, a introdução foi piegas, mas é nesse tom que o casal predileto da Austrália é tratado pela imprensa local”. A introdução não foi piegas, meu caro rapaz. Isso tem outro nome.
Saindo da matéria, e voltando pro comercial sobre rugby no Brasil, o chato é que os outros comerciais criados pela Talent para a campanha da Topper como patrocinadora oficial não são nada machistas. Pelo contrário, são graciosos. Este aqui é muito divertido e não insulta ninguém. Nele, vemos uma moça um tanto deslumbrada perguntando pra um rapaz se ele não é “aquele famoso jogador de rugby” e pedindo-lhe um autógrafo. 
Ele dá, feliz, e entra no carro. E ela entra também, pelo outro lado, mas agora já mais séria. E ele fala pra ela: “Obrigado, amor”. E ela, revirando os olhos: “Uh-huh”. Vem a chamada “Tudo tem um começo”. Quer dizer, ambos estavam atuando, fingindo ser o que não eram (ela, fã deslumbrete; ele, ídolo). É um bom jeito de mostrar como o rugby ainda não é popular no Brasil, assim como tantos outros esportes no país do futebol. Daria pra fazer a mesma coisa com xadrez. Seria um insulto aos jogadores de xadrez? Acho que não.
Este outro, parte da mesma campanha, também é engraçado. Ele compara o crescimento do Brasil no rugby com a estagnação argentina (sempre em primeiro). E há este, mostrando a evolução do time nacional contra o Uruguai. É uma campanha divertida que exibe a melhora do Brasil e também a loucura que é alguém investir no esporte.
Por isso, o comercial com a Maria Chuteira parece não combinar com os outros. Não apenas pelo machismo, mas pelo classismo. Uma coisa é dizer que o rugby ainda é um esporte jogado e  conhecido por poucos no Brasil. Outra é meio que gostar desse “exclusivismo”. Sério que eles precisam deixar tão explícito que o esporte é elitista apontando que rugby não é uma palavra fácil de ser pronunciada por não falantes do inglês? O quê que tem se algumas pessoas pronunciarem errado? Incrível como o machismo quase sempre vem acompanhado de outros preconceitos.

P.S.: Renata deixou um comentário que diz muito: "Eu, como jogadora de rugby há quase 5 anos, tenho vergonha desse comercial. Vergonha porque a Topper não valoriza a modalidade feminina do esporte que é MUITO melhor ranqueada no exterior do que a masculina, porque a Topper não nos tratou com dignidade e muito menos respeito. Quem fica na beira do campo dando força aos meninos somos nós, que também jogamos e mesmo sendo melhores temos bem menos estrutura, tendo que nos submeter a vender calendários sensuais pra conseguir disputar campeonatos". Pois é... Mais um esporte em que os jogadores ganham patrocínio, e as jogadoras precisam tirar a roupa pra chamar a atenção da mídia e das empresas. Mas não, imagina, não vivemos num mundo machista. É só impressão.

Friday, May 4, 2012

AGÊNCIA DA VOLKS TENTA EXPLICAR ANÚNCIO MACHISTA

Acabei de receber um email da assessoria de imprensa da Almap BBDO pedindo desculpas “por qualquer interpretação preconceituosa que o anúncio criado para a Volkswagen possa ter lhe causado.” E tentando explicar o “mal entendido”. Segundo a agência, o anúncio da mulher enfiando a faca numa torradeira faz parte de uma campanha com outras cinco peças publicitárias que tratam de segurança no trânsito. As peças mostram pessoas distraídas, três homens e três mulheres. A próxima a ser veiculada (no mesmo jornal de Jundiaí, no próximo domingo) é esta ao lado, com os dizerem “Cuidado: ele também dirige”. 
Nos anúncios, em letra bem pequena embaixo de tudo, está escrito “As cenas mostradas são apenas ilustrativas e foram realizadas por profissionais, não tente reproduzi-las”.
E aí, essa explicação alivia a barra da agência (que, como lembraram leitoras, é responsável também por propaganda considerada racista, como a do azeite Gallo do ano passado; por outro lado, a mesma agência fez uma homenagem bem razoável ao Dia Internacional da Mulher no ano passado)? Limpa a barra da Volks?
Contexto é tudo, na minha opinião. O anúncio sozinho da mulher com a faca na torradeira, sem o resto da campanha, continua sendo tremendamente machista. E o que me incomoda é o estilo retrô (vintage) do anúncio, tão parecido com peças dos anos 50/60. Além do mais, dizer que temos que ter cuidado com homens tontos porque eles dirigem é bem diferente de falar o mesmo das mulheres. Porque –- e olha o contexto aí de novo -– vivemos num mundo em que, apesar de todas as estatísticas apontarem o contrário, mulheres são consideradas péssimas motoristas. Então acontece uma falsa simetria quando se diz que fazer este anúncio com um homem e com uma mulher dá na mesma. Porque não é a mesma coisa. 
Quando um homem faz uma barberagem no trânsito, ninguém grita “Só podia ser homem!”. Ele é um barbeiro individual que está longe de representar todo o gênero masculino. Mas uma mulher que dirige mal é vista como representante de todas as mulheres. Logo, não adianta que a mulher seja uma exímia motorista, cuidadosa, atenta, respeitosa com as leis. É só uma mulher tocar num volante que boa parte da sociedade achará que ela não deveria estar no volante... simplesmente por ser mulher. Se isso não é preconceito e discriminação, eu não sei o que é (lógico que isso não vale só pra dirigir. Esse é o princípio básico do preconceito. Pense em quantas pessoas gritariam "Só podia ser preto!" se o motorista barbeiro fosse negro. Ninguém diria "Só podia ser branco!" Mas o preconceito contra mulher que dirige parece pesar mais pra gente que outros "Só podia ser mulher!", porque interfere num direito caro a nós, que é o da liberdade de ir e vir, de ocupar o espaço público. E também porque carro, velocidade e potência estão tão associadas a um conceito -- arcaico -- de masculinidade).
Continuo achando péssimo o anúncio da Volks com a mulher e a torradeira. E fico imaginando como serão os outros dois anúncios com mulheres. Serão com elas em ambientes domésticos também, como uma cozinha?
Quero muito ouvir a opinião de vocês.

VOLKS RESPONDE SOBRE ANÚNCIO MACHISTA. QUER DIZER...

Continuo indignada com o anúncio da Volkswagen que saiu publicado num jornal de Jundiaí no domingo. Não sei se foi veiculado em outros lugares também. Deve ter sido, porque não parece uma propaganda local. Ontem vocês descobriram que a agência responsável é uma das maiores do país, a AlmapBBDO. Este é o twitter da agência, e seu email é almap@almapbbdo.com.br Mas a responsabilidade maior não é da agência. É do cliente, no caso, a Volkswagen do Brasil, que aprova uma asneira sem tamanho em que uma mulher enfia uma faca numa torradeira, enquanto o título “adverte” (quem? Os homens?): “Cuidado: ela também dirige”.
Nem se trata de uma questão de interpretação. O machismo nesse tipo de anúncio é claro e cristalino. Estão falando que nós, mulheres, somos imbecis e não sabemos dirigir. Logo, não devemos dirigir. É incrível que um anúncio desses seja usado pra vender carro. Tipo: desprezar metade da população não parece exatamente uma estratégia genial pra vender mais carros. Por que uma mulher compraria um carro de uma marca que acha que ela não tem competência pra dirigi-lo? E qual é mesmo a estatística? Que mulheres compram ou influenciam na compra de 40% dos carros? De qualquer jeito, sei lá, jogar fora esses 40% não parece inteligente. Parece coisa de publicitário e cliente que enfiam faca na torradeira, quero dizer, pé na jaca. Eles já nos chamaram de estúpidas e péssimas motoristas. O que será que reservaram pro Dia das Mães, que é a segunda data comercial mais lucrativa (só perde pro natal) do ano? Mal posso esperar.
Ontem enviamos centenas de tweets pra Volks (@CarroMesmo) e escrevemos muitas mensagens no Facebook. Uma leitora, a Ana, recebeu uma resposta da Volks por email:

“Sra. Ana,
Agradecemos o seu contato.
Em atenção a sua mensagem, lamentamos sinceramente o fato de que a nossa comunicação publicitária tenha sido percebida por V.Sa. como ofensiva ou mesmo discriminatória.
Obviamente, não foi nossa intenção causar qualquer tipo de desconforto a quem quer que seja, porque sabemos que conquistar a simpatia das pessoas é um fator essencial para nosso êxito.
A VW é uma empresa de abrangência mundial que faz questão de respeitar crenças, hábitos e procedimentos de todas a sociedade, em qualquer parte onde ela tenha sua base de operação.
Contando com sua compreensão, colocamo-nos a disposição.
Atenciosamente,
Renata Moreira
Central de Relacionamento com Clientes Volkswagen”

Resposta mais burocrática e fugidia, impossível! A Volks não lamenta de jeito nenhum ter veiculado um anúncio obviamente machista. Lamenta é que a leitora tenha percebido a propaganda como ofensiva. O machismo está nos olhos de quem vê! Já ouvimos isso antes...
O que mais chama a atenção é que a resposta nem tenta apelar pra mais antiga das desculpas (foi só uma piada!). Não, não há qualquer tipo de justificativa. Eles só “lamentam sinceramente”. Teria sido mais honesto se eles respondessem que executivos da Volks e publicitários da Almap estavam numa sala de reunião vendo anúncios antigos, vintage, das décadas de 1950 e 60. Sem querer, o estagiário ou o homem do cafezinho -– a Volks ainda está investigando pra poder identificar e punir o responsável -– se confundiu e mandou pro jornal não um anúncio de 2012, mas um vintage de décadas atrás. Ha ha, vocês não perceberam, mulheres? Alguém ainda usa torradeira hoje em dia? Foi uma homenagem à série de TV Mad Men!
Uma outra leitora decidiu mandar uma mensagem diferente pra Volks. Ela se juntou a um amigo e, juntos, escreveram um email absurdo, fingindo ser um total babaca (como os mascutrolls que comentam aqui no blog):

“Boa tarde,
Estou entrando em contato para elogiar não somente a qualidade de seus veículos, que estou tendo o prazer de comprovar com meu recém adquirido Volkswagen Jetta, mas também sua postura como empresa tradicional e de família, que preza pelos valores morais do cidadão de bem.
Também preciso dizer que achei divertidíssimo o anúncio de vocês que vi no jornal aqui de Jundiaí onde uma mulher manuseia desastrosamente uma torradeira! Hahaha, o que ela não faria com um carro, não é mesmo?
Minha senhora também achou muito engraçado. Ela não dirige, eu não deixaria meu carrinho nas mãos dela por nada nesse mundo. Vocês sabem, mulheres são realmente muito ruins no volante, elas batem em tudo. Deveriam permanecer cuidando do tanque e do fogão, hehehe.
A única vez que minha senhora saiu com o carro foi para me levar ao hospital, e adivinhem? Bateu em outro carro! Depois disso dei uma correção que ela nunca vai esquecer, e ela jamais voltou a me pedir o carro novamente! Felizmente hoje tenho um filho homem e posso contar com ele para me levar para o hospital, se precisar!
Acho muito importante essa iniciativa de vocês colocarem anúncios assim nos jornais, é bastante ousada nos dias de hoje, tempos em que as mulheres esqueceram sua verdadeira vocação de esposa e mãe, de mulher do lar.
Enfim, gostaria de agradecer novamente, não só pelo maravilhoso veículo, mas também pela ajuda na manutenção dos valores tradicionais da família como ela deve ser!
Obrigado Volksvagen!”

Devo confessar que ri com o email, porque é tão exagerado, tão idiota, que nem se Bolsonaro e Malafaia escrevessem uma mensagem a quatro mãos, conseguiriam produzir algo tão retrógrado. Mas a Volks respondeu! Sério mesmo. A leitora me enviou a resposta recebida:

“Sr Eduardo,
Confirmamos o recebimento de sua mensagem, na qual o Sr. tece elogios aos nossos Produtos. [sic, eles escrevem produtos com P maiúscula].
Manifestações dessa natureza são para nos motivo de grande satisfação, pois, na verdade todos os nossos esforços têm sido canalizados para atingir tais resultados junto a todos os nossos clientes, e demonstrações como a sua renovam nossa intenção de continuar atuando de forma constante nesse sentido.
Continuamos a sua disposição.
Atenciosamente,
Rodrigo Alves
Central de Relacionamento com Clientes Volkswagen”

Não vou nem entrar no mérito da Volks dizer que “continua à disposição” de um cidadão que bate na mulher pra discipliná-la. Prefiro pensar que a Central de Atendimento da empresa está habitada por robôs, que respondem a todos os emails com modelos de cartas (“Lamentamos sinceramente” pra reclamações; “demonstrações como a sua renovam blablabla” pra elogios).
Bom, já que a Volks do Brasil não leva nossa revolta a sério, vamos escrever pra matriz (email: vw@volkswagen.de), pra Volkswagen alemã. Será que eles sabem que sua representante brasileira veicula anúncios machistas? Eles fazem anúncios assim na Alemanha também, ou lá os protestos seriam maiores, com possibilidades de boicote à marca? Vamulá, pessoal! Vamos mostrar a força das redes sociais. E vamos avisar esses executivos e seus publicitários de estimação que o mundo mudou um pouquinho de 1950 pra cá.

Thursday, May 3, 2012

NEANDERTAIS AINDA ACHAM QUE MULHER NÃO SABE DIRIGIR

O anúncio acima é dos anos 1970 para alguma marca de carro, e mostra uma mulher  concentrada e com grande dificuldade pra dirigir, guiando um modelo simplificado. É um daqueles vintage adspreconceituosos que, acredita-se, morreram com o crescimento do feminismo.
Mas não. Recebi este email da Gabriela, uma estudante de 17 anos que cursa Letras em Jundiaí. Ela que fotografou e escreveu “propaganda machista”. O anúncio (que mostra uma mulher pondo uma faca numa torradeira, abaixo da frase "Cuidado: ela também dirige") foi tirado de um jornal de Jundiaí. Eu até quis me certificar com ela se, de repente, ela não pegou um jornal dos anos 50 por acaso. Não. O anúncio realmente é de 29 de abril de 2012.
Vão colocar faca em torradeira ligada, publicitários da agência de propaganda da Volkswagen! E aproveitem pra eletrocutar também os executivos da marca, que não veem nada de errado em veicular algo tão idioticamente machista em pleno século 21. Queria ver a mesma peça publicada na Alemanha... Gente, vamos escrever pra Volks e falar pra eles que esta porcaria é inaceitável?
Como você viu, faz poucos dias recebi um email de outra Gabriela que, junto com sua namorada, decidiu intervir nas propagandas machistas que vê por aí. Escrevi sobre a sua ação, várias moças acharam a ideia fabulosa, e montaram um grupo do Google. Ele já está com 170 membros. São pelo menos 170 pessoas dispostas a perturbar o sossego de quem veicula publicidade preconceituosa!
Claro que a indústria da propaganda só reproduz os preconceitos existentes na sociedade. Eu me lembro de uma turma que tive na universidade em 2010. Uma das coisas que eu queria que eles praticassem era debater em inglês. E um dos temas escolhidos por el@s foi “Mulheres dirigem pior que homens”. Era um tema tão ridículo que eu pensei: pô, ninguém vai querer fazer parte da equipe do “concorda”. Quer dizer, qualquer alma que vai fazer uma apólice de seguro sabe que as mulheres pagam menos. Não porque as companhias de seguro querem ser gentis com as mulheres, mas porque mulheres comprovadamente cometem muito menos acidentes (principalmente acidentes fatais) que homens. É estatística. 
Mas descobri que minha definição de “dirigir bem” (respeitar as leis do trânsito, inclusive não correr e nunca dirigir bêbad@, não cometeracidentes, ser muito cuidadoso com pedestres) está longe de ser universal. Pros meus alunos e alunas, dirigir bem é... ser piloto de Fórmula I. Sério mesmo. Sabe aquilo que só alguns poucos homens brancos e ricos fazem num circuito restrito, com carrões ultra-especiais? Pois é. Pra muita gente esse esporte é comparável ao que milhões de pessoas fazem diariamente nas ruas das cidades. Ruas por onde circulam outros carros, motos, ônibus, bicicletas, pedestres, animais...
Obviamente, esse pensamento preconceituoso que mulheres dirigem mal não é exclusividade dos meus alunos. Não foram eles que inventaram o ditado “mulher no voltante, perigo constante”, um ditado que duela com todas as estatísticas que conhecemos sobre trânsito urbano. Não foram os meus alunos que, no começo de abril, colocaram esta manchete na capa do G1:
Quando você lê que uma policial mulher morreu ao bater num poste, o que você pensa? Que ela estava dirigindo a viatura policial, certo? Aí você linka na notícia e vê que a policial que morreu nem estava no volante!
Não sei quanto a você, mas às vezes eu me sinto na Arábia Saudita, onde mulheres são proibidas de dirigir.

Sunday, April 29, 2012

CINCO VÍDEOS PRA VOCÊ VER AGORA

Domingão, quase um feriado prolongado, e você aí vendo sei lá o quê passa na TV hoje? Seus problemas acabaram! Assista o incrível documentário Miss Representation, que ainda está no YouTube, com legendas em português. Mas veja já, porque ele fica sendo tirado por motivos de direitos autorais. Vale muito, muito a pena. É uma hora e meia que vale como uma verdadeira aula de alfabetização em mídia, se preferir chamar assim. E, como eu já falei, pode ser uma visão americana, mas é muito parecida com a nossa. Organize uma sessão de cinema e passe o documentário na sua escola e na sua faculdade, seguido de uma ampla discussão.
Pro pessoal que constantemente me pede indicações sobre a história feminista no Brasil, tá aqui uma boa pedida: o documentário de 26 minutos A Vovozinha e o Feminismo, escrito e dirigido por Renata Druck, com roteiro de Keka Reis, e que traz depoimentos importantes de Inês Castilho, Maria Lygia Quartim de Moraes, Céli Pinto, e Lia Zanotta. Junto aos depoimentos, também há algumas cenas teatrais divertidas. É só meia hora, mas você pode partir do doc pra leitura de Breve História do Feminismo no Brasil, de Maria Amélia de Almeida Teles.
Este é um vídeo curtinho e engraçado chamado The Flip Side, que basicamente mostra o que aconteceria se as convenções de gênero, tão rígidas, fossem invertidas. Eu gostaria que essas convenções simplesmente desaparecessem, mas, como isso não vai acontecer tão cedo, este é um bom exercício pra se pensar na estupidez disso tudo.
Este é o curta mais recente da jovem feminista Elisa Gargiulo, e mostra bem o que costuma acontecer quando uma moça conta ao namorado que está grávida. E conta com a participação de Vinicius de Oliveira. Lembra do ótimo ator de Central do Brasil? Pois é.
E tem este comercial que uma leitora me indicou ontem. Ahn, não é exatamente uma recomendação, mas tem ligação com alguns dos vídeos anteriores. É assim: se você estudar online numa tal de Open English, você será alto (Veja feelings) e bonitão e terá aula com uma professora gringa e loira. Agora, se você estudar inglês em qualquer outro lugar que não seja a Open English, você será feio e terá aula com professora gorda que fez inglês em Buenos Aires (Hã? Essa é nova pra mim) e que gosta de imitar galinha. Quantos juízos de valor esses publicitários conseguem passar em apenas 30 segundos, hein?

Friday, March 9, 2012

ATIRE A PRIMEIRA PÉTALA

Meu macarrão especial Dia Internacional eu queria sem cabelo, por favor

Olha, sem contar o que realmente importa –- todas as manifestações e protestos do dia 8 de março -–, ontem foi um vexame. Se a gente não precisasse de outros motivos (como, por exemplo, mulheres terem apenas 1% da propriedade em todo o mundo, mulheres serem mortas por parceiros e ex-parceiros que se consideram seus donos, 30% das mulheres sofrerem violência sexual, mulheres ganharem 30% menos que homens etc etc), só o fato de nosso dia, um dia de luta, de conscientização, ter sido transformado num desfile de rosas e mensagens de “Parabéns, Mulher” já mostra como o feminismo é muito, muitíssimo necessário.
Ontem vimos como o backlash (a reação contra os avanços conseguidos por
movimentos sociais) segue firme e forte. A Folha de SP não só dá coluna semanal pro “polêmico” Pondé, que todo mundo ignora solenemente, como também, em pleno dia internacional da mulher, um texto reacionário chamado “Não Devemos Nada ao Feminismo”. Se isso fosse publicado em qualquer outro dia do ano já seria péssimo, mas no 8 de março é insulto mesmo. É a Folha deixando evidente sua linha editorial e pedindo boicote. Se bem que alguém ainda paga pra ler a Folha?
Impressiona como o status quo, além de se empenhar para desvalorizar as feministas, se aproveite de uma data de luta pra descolar uns trocados. Lord Anderson resumiu bem: ontem foi o “Dia Internacional de Como o Capitalismo Transforma Qualquer Ideal em Lucro”. O negócio realmente vem piorando a cada ano. A Sueli contou que postou no Facebook uma imagem dizendo que não queria flores nem presentes. Vieram uns caras perguntar: “Então você não quer ganhar nada no seu dia?” Sueli respondeu que queria ganhar detalhes como direitos iguais e não sofrer violência por ser mulher. Mas é aí que chegamos: pra muitos seres não tão pensantes, o Dia Internacional virou dia de mulher ganhar rosa. Nesse contexto, rosas simbolizam alienação e a manutenção do status quo. É como se nos dissessem: suas lindas, o machismo não existe mais, agora fiquem quietas e peguem essa rosa aí (mas concordo com a Jordana: hors concours do dia deve ter sido "Mulher, humus da humanidade". Humus é tipo adubo, sabe?).
Este anúncio da Band não pode ser sério. Deve ser apócrifo. Ninguém que não fosse um completo imbecil faria algo assim, mandando a mulherada calar a boca. Pensando bem... A Band é aquela emissora que, não satisfeita em abrigar o CQC, agora contratou o Pânico? Ah, os homens da Band!
Esta é de uma agência de propaganda do Piauí. Começa assim: “Muito já se disse que a propaganda transforma a mulher em objeto, o que não é verdade. A propaganda apenas dá asas aos poderes femininos: a beleza, o charme, a ternura, a capacidade de convencimento e tantos outros atributos próprios da mulher”. Que bárbaro! O que são os superpoderes femininos pra essa agência, hein?
Mas fica pior. O anúncio ainda faz questão de sugerir que nós mulheres devemos ser muito gratas à publicidade. Que feminismo, que nada! É “a propaganda [que] faz parte da revolução feminina no século XX”! A propaganda, sempre tão boazinha e altruísta, já abria espaço pras mulheres (mesmo pras “recatadas donas de casa”, e depois a filósofa religiosa da Folha diz que são as feministas que desmerecem as mulheres que optam por não trabalhar fora!). E esta é uma pérola pra guardar por toda a eternidade: a propaganda liberta!
Daí chega um parágrafo que me faz pensar que não pode ser, tem que ser trollagem. Acompanhe: “Muitos dos ideias femininos tornaram-se desejos graças à propaganda, que, por sinal, é precursora das plásticas que fazem a mulher ainda mais bela, ao ter o cuidado de retocar cada detalhe de sua imagem nos anúncios. Um ato de carinho e respeito”. O troço não menciona quais seriam os ideais femininos, mas, a julgar pelos nossos superpoderes, devem ser... seguir a ditadura do padrão de beleza! Ideal feminino não é paz na Terra, justiça social, direitos iguais. É cirurgia plástica! E o photoshop abusivo que vem sendo proibido na Inglaterra é carinhoso com as mulheres. A gente deve viver num universo alternativo e não sabia! Imagina se a moda pega e as pessoas passam a acreditar que a revolução feminina foi causada pela publicidade, que prima pelo respeito às mulheres? Já posso imaginar o texto da filósofa na Folha no ano que vem: “Não devo nada à propaganda”.
Sem dúvida, a publicidade se esforçou pra descaracterizar completamente o 8 de março. E teve também as mensagens fofas do senso comum de sempre. Como bem disse a Niemi, a julgar pelas bobagens ditas, a data podia se chamar “Dia Internacional do Machismo Disfarçado de Gentileza”. Radical Livre sugeriu “Dia da Condescendência Masculina”. Já a Sara comentou: “De todas as homenagens que recebi hoje a que mais me encantou foi uma que dizia 'As mulheres não conquistaram o mundo porque ainda estão escolhendo a roupa'”. Charming!
Podia ser também "Dia Internacional de Tudo Acabar em Pizza nas Questões de Gênero". Um restaurante ofereceu rodízio de pizza pras mulheres por um preço especial. Mas, quer saber? Apesar de ser um exemplo flagrante de como o capitalismo usa o dia pra lucrar, eu ainda prefiro pizza a rosas (pizza é mais gostoso). E a foto escolhida pra ilustrar a promoção é absolutamente ousada. Tudo bem, tem uma mulher loira, jovem, dentro do padrão. Mas ela está comendo com o maior gosto! Quando que a gente vê mulher se entregando à gula sem culpa, a não ser que seja em propaganda de iogurte que força a ida ao banheiro pra fazer o número 2? Note que nos comerciais, quando mulher come chocolate, ela só come uma migalhinha (e já tem orgasmos múltiplos, pois a propaganda sempre associa consumo de chocolate pra mulheres com prazer sexual). Aqui a moça está devorando um rodízio de pizza! A pizzaria inteira! Isso que é fome. E você, tem fome de quê?

O primeiro e terceiro anúncios foram tirados deste tumblr. Os outros foram enviados por leitor@s querid@s.

Thursday, January 26, 2012

GUEST POST: MACHISMO E APOLOGIA À TRAIÇÃO NUM COMERCIAL DE CERVEJA

Enganar a mulher é a maior diversão

O Robson, do blog Consciência, pediu para que este guest post fosse publicado rapidamente, antes que um comercial de cerveja ridículo (mais um!) saísse do ar. Assim como em outros guest posts (que são, para quem não sabe, posts escritos por outras pessoas, não por mim), não concordo com tudo que está escrito neste (vou deixar vocês adivinharem com o que não concordo, pra não influenciar ninguém). Mas concordo que o comercial seja machista.

Machismo, ridicularização do amor e apologia à traição conjugal são comuns em propagandas de cerveja. E não foi nada diferente no comercial em que a Skol divulga sua promoção, intitulada “Operação Skol Folia” (veja aqui o comercial).
Além de reduzir a frangalhos a beleza e a essência romântica da música de Aerosmith, "I Don’t Want to Miss a Thing", e do próprio filme Armageddon, ali parodiado, o comercial chama a atenção pelo seu caráter bastante machista e pró-traição: enquanto a mulher se abala ao saber que vai passar um tempo, talvez a vida toda, longe de seu amor por causa de uma suposta guerra e fica em casa pensando nele, zelando pela vida do amado e temendo sua morte (porque militarismo e guerra são sempre violência e morte, e sou ativamente contra a existência de forças militares), o “soldado” vai para o carnaval e a trai covardemente, sambando e flertando com mulheres “gostosas” e “aproveitando a vida” na farra em contraste com a vida de privação de sua namorada/noiva/esposa.
Ao fim da “guerra”, o comandante e um soldado vão à casa da mulher, que, ao gesto do comandante, se abala ao acreditar inicialmente que seu amado morreu, mas o soldado faz o gestinho de curtir carnaval. Nisso a expressão da mulher é covardemente omitida.
E o machismo da propaganda é triplo. Primeiro porque rebaixa as mulheres duas vezes, através de dois arquétipos: primeiro coloca a mulher como a dona-de-casa que não tem o direito de curtir a vida (ao contrário do seu cônjuge macho), e em seguida mostra-a como brinquedo sexual, como a “gostosa” sem sentimentos que diverte os homens ao ser bolinada. Segundo porque propagandeia aos homens heterossexuais a crença (ou valor cultural) de que é “bom demais” trair sua companheira, jogar fora anos de amor que ela lhe deu em troca de alguns dias de carnaval e usar outras mulheres como se elas fossem meros brinquedos feitos para bolinar ou fazer sexo.
Comerciais desse tipo, além de legitimar uma cultura de objetificação/submissão da mulher e banalização da traição conjugal, deixa aquel@s, mulheres ou homens, que realmente sabem o que é amar e ser amad@, ferventes de raiva, até por empatia à mulher que foi trocada pelo carnaval pelo marido. Aquelas mulheres que sabem o que é se despedir dos seus amados por causa de uma missão militar e sequer saber se voltarão a ver os rostos deles, incluindo muitas brasileiras cujos companheiros foram enviados ao Haiti ou ao Líbano, certamente estão ferventes de raiva desse comercial. Porque ele faz pouco caso do sentimento delas; trata seu amor como algo desprezível, muito menos importante do que poucos dias de folia.
Imagine-se então, mesmo não sendo algo realmente verossímil, o triplo golpe para a mulher: a) ser separada de seu amor, com ela temendo que seja para sempre; b) no final descobrir que foi enganada, já que seu companheiro não foi para nenhuma missão, mas sim para a folia traí-la; c) tomar conhecimento, estarrecida, que seu amor é um cafajeste que usa mulheres como meros objetos sexuais, incluindo ela própria.
Profana-se ali algo sagrado para milhões de seres humanos: o amor legítimo, o compromisso do coração, o pacto mútuo de fidelidade e proteção. Exalta-se como valor cultural o abandono da companheira pelos seus homens, mesmo que não haja qualquer pacto de relacionamento aberto -– e isso, em inúmeras culturas, incluindo a ocidental, é traição, é violação do pacto conjugal. É não só um acinte ao valor do pacto de fidelidade como parte do amor de relacionamentos não abertos, como é antiético, já que causa sofrimento intenso à mulher, frustração com a vida, descrença no amor, depressão, solidão.
E ainda impõe-se à mulher papéis extremamente desfavoráveis, como já foi dito, através desses dois arquétipos: o primeiro da dona-de-casa que não tem os mesmos direitos de diversão que o seu homem e deve aceitar que foi traída -– dada a omissão do sentimento, reduzido à total irrelevância, da mulher do comercial; o segundo da mulher-objeto “gostosa” que vai ao carnaval seminua para divertir sexualmente homens solteiros ou traidores.
Esta propaganda, ao meu ver, merece intervenção do CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), portanto desde já convoco vocês leitor@s a denunciá-lo. Porque não basta todo o mal que o consumo irresponsável de bebidas alcoólicas faz para a sociedade, ainda temos que ver uma bebida alcoólica sendo promovida com triplo machismo, apologia à traição conjugal e desrespeito aos sentimentos, incluindo milhões de casais verdadeiramente apaixonados e tantas mulheres que temeram perder (ou mesmo perderam) seus amados homens em guerras ou “missões de paz”?
Modelo de mensagem a enviar para o CONAR: "A referida propaganda, para divulgar sua promoção de carnaval, investe no machismo, no incentivo à traição e no desrespeito ao sentimento das mulheres companheiras de militares em missão. O machismo aparece três vezes: [pode ser citado o que eu já disse no post]. Portanto, venho pedir providências em relação ao referido comercial".
Dados a serem colocados no formulário de reclamação: Veículo de comunicação: televisão. Emissora: Globo. Data: 17/01/2012. Hora: em torno das 13h (ou, se você assistiu à propaganda em outra emissora, data e/ou horário, coloque os seus próprios dados).
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