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Este comercial de 30 segundos sobre rugby no Brasil me foi enviado por email por uma leitora. Só soube por conta dela, já que não tenho TV a cabo, e imagino que o comercial foi veiculado por lá. Nele vemos um apresentador de terno e gravata dizendo que, como o Brasil ganhou da Argentina pela primeira vez, isso abre novas portas pro esporte por aqui: agora estamos prontos pra próxima etapa, que seria atrair Marias Chuteiras pro esporte. Ou seja, mulher não serve pra jogar e mal serve pra torcer, já que não consegue pronunciar o nome do esporte direito. Mas serve pra transar com os jogadores. 
Mais ou menos na mesma época que chegou o email, li um artigo do UOL sobre as Marias no Mundial de Rugby da Nova Zelândia. O problema é que, bem, o que é uma Maria Chuteira? É um termo machista (inclusive porque só existe no feminino) para designar uma mulher que corre atrás de um astro de algum esporte -– em geral, futebol. Seu interesse, aparentemente, é casar com o sujeito. Na mentalidade popular (e machista), a Maria Chuteira tem apenas intenções financeiras. Bom, e daí? E se tiver? Pra casar com alguém é preciso duas pessoas. Se o astro do esporte não quiser, não há casamento, né? Existe aquela ideia fixa que uma Maria Chuteira engravidará de propósito para descolar uma polpuda pensão. Se isso é tão comum no meio como se acredita, será que o carinha não poderia usar camisinha e evitar o risco? 
Mas pô, chamar qualquer mulher que namora ou casa com um astro de esporte de Maria Chuteira –- como faz a matéria do UOL -– me parece uma tremenda sacanagem. Por exemplo, uma das Marias mencionadas pela reportagem é neta da rainha Elizabeth II (desconfio que dinheiro não seja problema pra família real) e campeã mundial de equitação. Vejamos... Será que ela se aproximou do jogador querendo dilapidar seu patrimônio ou será que, de repente, como ambos são atletas, eles se conheceram em algum evento esportivo, viram que tinham coisas em comum (dinheiro deve ser uma delas), e decidiram ficar juntos? Isso não faria do cara tão Mario Chuteiro como ela?
Outra Maria descrita pela matéria é uma nadadora australiana que ganhou nada mais nada menos que três medalhas de ouro em Pequim 2008. Tipo, ahn, ganhar uma medalha de ouro numa Olimpíada na sua modalidade já te coloca no Olimpo dos deuses, não? Não é pra qualquer um. Mas como a reportagem se refere a Stephanie Rice? “Depois de levar três medalhas de ouro em Pequim-2008, a nadadora australiana não tinha muito mais o que conquistar na vida, a não ser um grande amor. Ok, a introdução foi piegas, mas é nesse tom que o casal predileto da Austrália é tratado pela imprensa local”. A introdução não foi piegas, meu caro rapaz. Isso tem outro nome. 
Saindo da matéria, e voltando pro comercial sobre rugby no Brasil, o chato é que os outros comerciais criados pela Talent para a campanha da Topper como patrocinadora oficial não são nada machistas. Pelo contrário, são graciosos. Este aqui é muito divertido e não insulta ninguém. Nele, vemos uma moça um tanto deslumbrada perguntando pra um rapaz se ele não é “aquele famoso jogador de rugby” e pedindo-lhe um autógrafo. Ele dá, feliz, e entra no carro. E ela entra também, pelo outro lado, mas agora já mais séria. E ele fala pra ela: “Obrigado, amor”. E ela, revirando os olhos: “Uh-huh”. Vem a chamada “Tudo tem um começo”. Quer dizer, ambos estavam atuando, fingindo ser o que não eram (ela, fã deslumbrete; ele, ídolo). É um bom jeito de mostrar como o rugby ainda não é popular no Brasil, assim como tantos outros esportes no país do futebol. Daria pra fazer a mesma coisa com xadrez. Seria um insulto aos jogadores de xadrez? Acho que não. Este outro, parte da mesma campanha, também é engraçado. Ele compara o crescimento do Brasil no rugby com a estagnação argentina (sempre em primeiro). E há este, mostrando a evolução do time nacional contra o Uruguai. É uma campanha divertida que exibe a melhora do Brasil e também a loucura que é alguém investir no esporte. Por isso, o comercial com a Maria Chuteira parece não combinar com os outros. Não apenas pelo machismo, mas pelo classismo. Uma coisa é dizer que o rugby ainda é um esporte jogado e conhecido por poucos no Brasil. Outra é meio que gostar desse “exclusivismo”. Sério que eles precisam deixar tão explícito que o esporte é elitista apontando que rugby não é uma palavra fácil de ser pronunciada por não falantes do inglês? O quê que tem se algumas pessoas pronunciarem errado? Incrível como o machismo quase sempre vem acompanhado de outros preconceitos.
P.S.: Renata deixou um comentário que diz muito: "Eu, como jogadora de rugby há quase 5 anos, tenho vergonha desse comercial. Vergonha porque a Topper não valoriza a modalidade feminina do esporte que é MUITO melhor ranqueada no exterior do que a masculina, porque a Topper não nos tratou com dignidade e muito menos respeito. Quem fica na beira do campo dando força aos meninos somos nós, que também jogamos e mesmo sendo melhores temos bem menos estrutura, tendo que nos submeter a vender calendários sensuais pra conseguir disputar campeonatos". Pois é... Mais um esporte em que os jogadores ganham patrocínio, e as jogadoras precisam tirar a roupa pra chamar a atenção da mídia e das empresas. Mas não, imagina, não vivemos num mundo machista. É só impressão.
Somália, jogador de futebol brasileiro. Vc acha que ele está na lista dos belos ou feios?Há várias listas das musas do Pan de Guadalajara, como acontece sempre em qualquer esporte feminino. A mídia dá um enfoque na beleza e sexualidade das atletas, em vez de no seu desempenho esportivo.
O UOL fez uma seleção com 58 fotos, dentre as quais está esta, da saltadora Juliana Veloso, e esta, da jogadora de vôlei de praia Larissa. Cara pra quê, né? Sexismo da grossa mesmo. Típico. Não muda nunca.
Já falei dessa objetificação das atletas várias vezes, e não é disso que quero falar no momento. Portanto, escolhi esta lista do R7 das mais belas brasileiras do Pan. Há doze fotos, entre elas a de Flavia Delarolli, da natação.
A goleira Thaís Picarte, que deve ser a única loira da seleção brasileiras de futebol (que é a modalidade que enfrenta os maiores preconceitos, pois no Brasil considera-se que futebol é coisa de macho; logo, mulher que joga futebol é macha -– leia-se lésbica. Além do mais, cansei de ouvir o quanto as jogadoras brasileiras de futebol são horrorosas. Nada a ver com a cor da maioria, decerto), é uma das dez.
Bom, esses dias a UOL fez sua própria lista, esta com os jogadores mais feios do futebol, que são chamados de monstros. A foto que abre a matéria é do Cortês (não sei o time de nenhum, e a matéria não diz).
Este abaixo é o Tinga.
Já acho a maior sacanagem fazer uma matéria assim. Qual o propósito de chamar alguém de feio? Eles estã
o concorrendo a algum título de Mr. Universo? E a beleza não é nem um tiquinho relativa não?Este cara simpático e sorridente aí ao lado, por exemplo, é chamado de monstro. Realmente monstruoso o Andrezinho! Nossa, que horror! Só pode ser pela cor... da camisa dele. Pois é, dessa lista dos monstros, quantos dos 23 escolhidos são brancos? Sete? Oito? Os outros são todos negros ou mulatos, de preferência com aquele cabelo ruim que é ruim exatamente por quê? Pra quem? Da lista das belas do R7, quantas beldades são não-brancas? Uma? Duas? Três?
Temos uma mídia que prepara matérias assim a toda hora pra nos ditar quem deve ser considerado feio, e quem deve ser considerada bonita. O fato de fazerem matéria de mais feio já tem um caráter subliminar: mostrar que beleza não é nada importante quando estamos falando de homem. Pra mulher beleza é tudo, lógico. Fundamental, meu caro Vinicius. Mas os jogadores não precisam se ofender -– eles estão lá pra jogar futebol, e é isso que o público predominantemente masculino vai cobrar deles.Eu não acho que a mídia que bola essas seleções cretinas seja conscientemente racista. Não acho que
alguma equipe de jornalistas se reuniu pensando: “Vamos mostrar ao mundo que o único padrão de beleza aceito é o ariano”. A mídia reflete os preconceitos da sociedade, e não tem como negar: nós somos incrivelmente, vergonhosamente, muito incomodamente, racistas. Racistas e com a autoestima lá embaixo, pois só consideramos belo um ideal nórdico, que representa uma minoria entre nós. Privilegiamos tudo que não somos. Não é à toa que Gisele seja nosso símbolo, nossa maior representante.No último Miss Brasil não havia uma só candidata negra. Lembrando: é Miss Brasil, país mais miscigenado do mundo, não Miss Suíça ou Miss Noruega (opa! Suíça e Noruega
escolheram misses negras!). Que impressão isso passa? Que só brancas podem ser bonitas. Que negras são automaticamente feias, excluídas, e vai arrumar esse cabelo, menina! Mas o bom é que a gente não precisa assumir que é racista. Nada disso! Quem gosta de ser chamado de racista? Ninguém! É até crime! Então a saída é apelar pro velho e bom... gosto pessoal! Então. Não é que negros sejam monstros, e loiras sejam musas. Não há conspiração nenhuma, imagina! A mídia não nos afeta em nada! Achar que negro é feio? Que cabelo bom é cabelo liso? Ah, é só o meu gosto pessoal!
A bandeirinha Nadine Bastos foge do esbaforido repórterUma leitora, a Juliana, me enviou um email sobre um quadro do Globo Esporte de ontem: “Qual não foi minha surpresa diante de uma matéria sobre uma bandeirinha de futebol chamada Nadine! O apresentador iniciou dizendo que o repórter não conseguiu se controlar, e a matéria foi um festival de grosserias e objetificação…A bandeirinha foi assediada pelo repórter com cantadas, e toda
a matéria foi uma exibição do andar de Nadine, das reações dos jogadores e técnicos diante de sua beleza, com replays dos momentos do jogo arbitrado. Nadine não foi entrevistada, não se falou sobre a atuação feminina em arbitragem de jogos, nada, apenas exibiu-se a pessoa como objeto. Mandei um email para a Central Globo de Relacionamento. Quem sabe, Lola, não se consegue um depoimento da bandeirinha, visto que ela claramente não gostou de ser abordada pelo repórter?”Não pude acreditar que a matéria fosse isso tudo, e pedi pra Ju um link (aqui). E mon dieu, é tudo que a Ju falou e muito mais. Se eu não fosse uma pessoa prolixa, diria que fiquei sem palavras.A reportagem no fundo está falando de um jogo entre Corinthians e Ceará (nem é citado), mas se ancora numa personage
m — uma bandeirinha loira, jovem, linda, dentro dos padrões — pra contar o que aconteceu. É deprimente. Num ambiente essencialmente masculino como futebol, em que jogadoras têm que tirar a roupa ou usar uniformes sexy para serem notadas, em que técnicos de equipes femininas não homens (mas a gente nunca vê uma técnica de uma equipe masculina), em que árbitros, bandeirinhas, gandulas, dirigentes etc costumam ser homens até em jogos entre mulheres, a reportagem decidiu focar na Nadine. Não pra mostrar como ela é uma pioneira, uma exceção num mundo exclusivamente de homens, mas pra falar sobre sua
beleza. Apenas disso. Porque, óbvio, o mérito de toda e qualquer mulher está em sua habilidade decorativa. O apresentador engraçadinho começa pedindo desculpas — não pelo machismo da reportagem que virá a seguir, mas pelo fato do repórter ter se desconcentrado porque “mal conseguiu parar de olhar pra bandeirinha”. Aí a narração diz que o que mais chamou a atenção no Pacaembu não foi o dia dos pais ou um golaço, mas uma bandeirinha. O resto da reportagem se esforça pra provar este ponto. Infelizmente, parece que ela só chamou a atenção dele. Essa era a pauta?O repórter fala so
bre a bandeirinha como se fosse um adolescente acometido de um sério problema psíquico. Sua baba quase respinga na gente: Nadine é um “es...pe...tááá...cu...loo”. Porque sabe, ver uma mulher bonita trabalhando causa tilt nos neurônios. Trava tudo. Menos a câmera, que acompanha o raciocínio (modo de dizer) do repórter. O cameraman objetifica Nadine, filmando-a de baixo pra cima, pausando nas suas pernas, filmando-a em câmera quase tão lenta quanto a inteligência do repórter. Corta pra um jogador, William, que, respondendo à pergunta oculta do repórter, dá um show de elegância: “Hein? Não,
não. Sinceramente, não reparei. Mas o importante é que ela faça um bom trabalho pra ser reconhecida”. Lógico que a Globo o ignora totalmente, pois o reconhecimento dado a Nadine não tem nada a ver com seu “bom trabalho”. A matéria deixa claro que Nadine nem precisaria se mexer pra ser reconhecida!O repórter prossegue, agora brincando de indignado, querendo saber como Nadine “desfilava” (palavras dele — você nunca viu o andar de um bandeirinha homem ser descrito dessa forma, eu sei) diante do banco do Corinthians sem atrair um simples olhar. Como podem?! Eles não são homens? Como prestam mais atenção num reles jogo de futebol que num es...pe...tááá...cu...loo? E quando um jogador perde um gol, aí sim é que Nadine fica “invisível”, pro desa
pontamento geral do repórter. “Se bem que teve gente que olhou, viu?”, e a câmera corta prum jogador dizendo: “Não, olhei só o jogo”. Mas o intrépido repórter insiste: “Ela chama a atenção pela beleza?”. E o pobre jogador: “Deixa eu ver... [olha pro outro lado do campo e provavelmente vê um pontinho distante]. É, chama, ela é bonita”. No rosto do jogador, com um sorriso tímido, transparece o pensamento “Esse cara é jornalista mesmo ou tava passando na arquibancada e conseguiu entrar?”. Daí tem uma pausa pra tratar do jogo, e o próprio repórter esquece (ó pecado!) da bandeirinha.
But not for long. Logo o repórter encontra um jeito de resgatar sua pauta: “Só não dá pra dizer que a situação ficou feia porque vai ficar feia como? Olha como corre, graciosamente, em câmera lenta, a Na..di...ne. Ah, Na...di...ne, anota esse gol!” Certo. Ah, re...pór...ter, isso não é só um desrespeito às mulheres. É um desrespeito aos homens. Ver um homem adulto se comportar como um ser babão não é exatamente um elogio ao gênero (ou alguém me explica como esse homem incompetente com pensamento lento e fixo e dificuldade de fala é diferente do incapaz da Bombril?). Continua o infeliz: “Aliás, ela é séria, hein? Discutiu com o Titi, falou grosso...” Não se ouve a voz dela (lógico que não! Desde quando mulher decorativa precisa de voz?), mas a
câmera dá um close em Nadine, e o repórter a “dubla”... com voz fina, caricatural, mostrando que “voz grossa” de mulher é fininha, porque, né, onde já se viu um es...pe...tááá...cu...loo ser duro com alguém?Mas a reportagem segue querendo contradizer a pauta. Na hora do intervalo, é chance de “interagir” com Nadine. Eis que nosso intrépido repórter se aproxima de uma mulher compenetrada e faz a seguinte pergunta: “Você vem sempre aqui?” Ah, que meigo! Mulher bonita é pra ser cantada em qualquer lugar, seja no bar, no trabalho... E p
erceba como a pergunta graciosa insinua que Nadine está a passeio, que aquele não é seu lugar, e que toda hora é hora pra uma paquera, inclusive num ambiente de trabalho. A bandeirinha baixa a cabeça, sorri, e segue em frente, sem pausa. E o repórter a segue, tipo stalker mesmo! “Você acha que,” diz ele arfando, correndo atrás dela, “que tem algum momento em que você pode desconcentrar os jogadores com a sua beleza?” Ela não responde, o cara continua perguntando, enfia um microfone na cara dela, diz “Tá ocupada agora?” (não, Pedro Bó!), ela lhe dá dois cortes, e o que fala a narração? “Ihhhh... Perdeu o encanto, vai, perdeu o encanto”. É, ela se transformou de pr
incesa em bruxa por não ceder às brincadeirinhas inofensivas do repórter tão galanteador, que a respeita tanto como profissional.E eis que finalmente surge o nome do repórter com sérios problemas. E a legenda diz “Amigo da Nadine”. Mui amigo! A reportagem mostra um técnico quase chorando (aparentemente não por pena do jornalismo da Globo) e volta pro apresentador engraçadinho, dizendo, rindo, que o repórter “não se controlou”, e desejando-lhe um feliz dia dos pais. É, porque esse é o tipo do cara que se reproduz, quando claramente deveria poupar-nos do legado da sua miséria (vide Idiocracy).
Olha, não é nem que a matéria seja um elogio à beleza de Nadine. Afinal, ela não está lá pra ser miss Santa Catarina ou Miss Bandeirinha. Alguém precisa avisar jornalista esportivo que não é o sonho de toda mulher sair na Playboy. Sei que é difícil acreditar, mas algumas querem ser reconhecidas por seu talento, por seu trabalho. Acontece que o trabalho de um bandeirinha e árbitro é ser o mais invisível possível, certo? Se eles aparecem demais, eles estão é atrapalhando o jogo, colocando-se na frente da bola, discutindo com jogadores, enfim, tudo aquilo que paralisa a partida. Portanto, uma bandeirinha de parar o trânsito, quero dizer, o jogo, é um empecilh
o. Até porque — sei que esta é uma mera suposição — alguns torcedores devem estar lá pra ver o jogo, não a bandeirinha. E, pasmem, alguns jogadores podem estar lá pra jogar, não pra ficar embasbacados apreciando uma loira, como se fosse a primeira e única que tivessem visto na vida.
Melhor sorte na próxima pauta, do...ci...nho.
Rosana do Brasil comemora gol contra a AustráliaComo você e boa parte do mundo não sabem, começou no final de junho e vai até 17 de julho o Mundial Feminino de Futebol, que se passa na Alemanha. É como uma Copa do Mundo de boleiras. O Brasil é uma das grandes seleções, sempre tem chance de medalha, e
conta com a Marta, eleita a melhor jogadora do planeta pela quinta vez consecutiva, uma atleta de nível tão fantástico que poderia jogar tranquilamente na seleção masculina (embora essa seleção que paralisa o país a cada quatro anos não tenha a palavra masculina no nome, porque não precisa: masculino é o padrão desejável. Tipo assim: se, num supermercado, há uma placa para “desodorante” e outra para “desodorante pra mulheres”, a gente vai achar que a primeira placa se refere a desodorante pra quem? Isso funciona pra outras espécies do padrão dominante. Quando a gente fala de cor, só precisa citar se não est
iver falando da cor branca. O neutro é branco, entende? O mesmo vale pra orientação sexual. A gente só precisa especificar se estiver se referindo ao que é fora do padrão. Você nunca teve de dizer “Eu vi um casal hétero na rua”, teve?). Bom, quando o Mundial Feminino começou, admito que nem fiquei sabendo. Mas eu tava viajando! Qual é a sua desculpa? Ok, não é culpa individual de ninguém. O futebol feminino no Brasil é estigmatizado. Como é visto como um esporte masculino, as mulheres que o praticam só podem ser masculinas também, ou seja, na visão torpe do senso comum, lésbicas. Esse é um ponto. Mas é estigmat
izado também porque futebol é esporte de pobre, e a classe média, que é quem determina o que é ou não de bom gosto, só gosta de pobre quando ela limpa a sua casa ou ele lava o seu carro. Futebol é um esporte barato. Tudo que se precisa é de uma bola. Então atrai aquela gente diferenciada, aquela pra qual a gente torce o nariz, balança a cabeça e diz: “Você pode tirar o pobre da favela, mas não pode tirar a favela do pobre”. A miséria fica impregnada na alma. E graças aos céus essa alma é visível, e a gente vê de longe, pela cor, pelo cabelo, que esse pessoal que
corre atrás da bola não tem ascendência europeia. Ter ascendência africana? Coisa de pobre.Na Copa do Mundo Padrão, ou seja, masculina, às vezes ocorrem listas de jogadores mais bonitos. Raramente são escolhidos atletas africanos ou asiáticos. Nossos jogadores, mestiços, são considerados feiosos. Sabe quem costuma ingressar nessas listas de beleza, né? O Kaká. Já reparou na cor dele? Mas é diferente. Um jogador de futebol, ou de qualquer esporte, ser considerado atraente é um bônus. Talvez ele consiga mais contratos publicitários, mas sua carreira desla
ncha ou não pelo talento. Já mulher tem de ser acima de tudo bonita, independente de sua profissão e da sua capacidade. E por “bonita” leia-se estar num certo padrão de idade, magreza e cor. Por um desses critérios, as jogadoras brasileiras são horrorosas. Lindas mesmo são as alemãs, que posaram nuas pra Playboy, ou um time de futebol feminino russo, o FC Rossiyanka, cujas atletas passaram a jogar não só de shortinho, mas de biquíni. Por quê? Ah, pra atrair público, óbvio. E os comentários no site onde saiu a matéria são deste nível: “Se fossem as brasileiras, nem peladas dava pra encarar. São verdadeiros canhões da 1° guerra”, ou “russas são lindas, brasileiras são barangas”. E isso vindo de homens brasileiros qu
e negariam até a morte que são racistas. Eles só acham brancas divinas e negras e mestiças mocreias, ué. Gosto pessoal! Totalmente desvinculado do padrão imposto pela sociedade!Mas olha só que fascinante: no mesmo futebol feminino em que alemãs, russas e nórdicas fazem sucesso e brasileiras desapontam (não pelo jogo, mas por sua aparência, que é, afinal, o que importa num desfile de futebol), as iranianas são proibidas de participar. É que a ditadura religiosa em que vivem exige que elas cubram cabelo, nuca, e outras partes do corpo. Para tanto, elas designaram um uniforme especial que cumprisse essa norma. Mas a FIFA considerou que aquilo equival
ia a propagandear a fé, e as impediu de competir na maior vitrine do futebol feminino, as Olimpíadas do ano que vem, em Londres. Essa medida praticamente acabou com a categoria no Irã. Estranho, porque ano passado a FIFA deixou que a equipe juvenil iraniana participasse, desde que trocasse o hijab que cobre a cabeça por uma espécie de capuz mais firme. Essa padronização por uma só forma de vestir (ocidental, que ignora prováveis imposições religiosas) pode levar a abusos, e não só no futebol. É público e notório que as roupas usadas por atletas mulheres e homens são bem diferentes ― as mulheres devem sem
pre mostrar mais pele ―, e nada tem a ver com o desempenho. Os dirigentes admitem: é pra fazer com que espectadores homens sejam atraídos para as competições. Pra isso vale tudo, desde impor que jogadoras de badminton substituam os shorts por saias (fica mais sexy), a forçar atletas do basquete a usar macaquinho justo (fica mais sexy ― opa, já falei?). E quem determina a roupa obviamente não são as envolvidas ― as que jogam ― mas os fabricantes das marcas e os cartolas (homens), que priorizam o interesse do público (masculino). Essas imposições desgraçam a vida esportiva de atletas de várias religiões e modalidades. A israelense Naama Shafir, judia ortodoxa que faz parte da liga de basquete dos EUA, não pode disputar um
campeonato europeu porque a federação não permite que ela use uma camiseta por baixo do uniforme sem mangas. Sua religião lhe obriga a cobrir os ombros, e sua federação lhe obriga a descobri-los. Do jeito que a coisa anda, é capaz de não demorar muito para que todas as atletas de todos os esportes tenham de jogar de biquíni. Isso representaria o fim das modalidades esportivas em países com outras culturas, e uma condenação estética a atletas fora do padrão único de beleza branco, olhos claros e pernas longas. Mas ei, pense nas vantagens! Pelo menos mais gente vai saber que o Mundial Feminino de Futebol está sendo disputado!
Olha só a coincidência: no mesmo dia (sexta-feira) fiquei sabendo de duas medidas arbitrárias, imagino que comandadas por dirigentes esportivos homens (aliás, uma coisa que me chateia é como tem treinador, técnico, dirigente homem pra comandar equipes femininas em qualquer modalidade esport
iva, enquanto a gente nunca vê uma técnica mulher numa equipe masculina). Ambas envolvem uniformes femininos usados nos esportes. A primeira foi esta: a Federação Mundial de Badminton agora está obrigando as jogadoras a vestir saia ou vestido durante as partidas, e não mais shorts, como a maior parte costuma usar. Os dirigentes admitiram que a medida visa atrair mais público (os comentários no artigo da Folha são, pra variar, os piores possíveis: além do racismo característico –- causado porque as duas fotos escolhidas na m
atéria são de atletas asiáticas -–, vem um bando de marmanjo dizer que atleta mulher tem que usar saia mesmo, “de preferência sem calcinha”). As atletas reclamaram, e tentarão recorrer da decisão unilateral (update: a medida foi anulada, mas voltará à pauta em dezembro, quando serão ouvidos "os interessados", que não são as jogadoras, mas os fabricantes de roupas esportivas!).Ainda na sexta, o Daniel Neves, do UOL Esportes, me enviou um email perguntando o que eu achava sobre a federação europeia de basquete feminino exigir que todas as atletas da Euroliga adotassem um modelo de uniforme colado ao corpo. Sim, você adivinhou certo: a razão é pra chamar mais atenção pro campeonato (pelo menos eles nem disfarçam mais os motivos). A verdade é que a sexualização dos uniformes femininos tem piorado bastante nos últimos tempos. Se analisa
rmos uniformes masculinos e femininos das Olimpíadas de 1984, por exemplo, veremos que há poucas diferenças entre o que homens e mulheres vestiam. Com o backlash, a reação conservadora que teve início nos anos 80, a situação mudou, e atletas mulheres tiveram que voltar a ser, antes de tudo, objetos sexuais. Escrevi um post há três anos falando de alguns uniformes ridículos para mulheres. É lógico que se o critério de adoção para os uniformes justos e diminutos usados por equipes femininas fosse a melhora do desempenho esportivo, os homens t
ambém os usariam. Só que não tem nada a ver com performance. Tem a ver com fazer as atletas mulheres se encaixarem num padrão palatável para o olhar masculino. Em outras palavras: é o olhar masculino que rege como atletas mulheres devem se comportar, o que vestir, como jogar, como posar para fotos de autopromoção... Não sei se você lembra, mas no basquete feminino a seleção australiana era das poucas que utilizava o uniforme colado, aquele estilo macaquinho. As brasileiras o usaram durante 2000 e 2006, mas não gost
aram e os dirigentes tiveram que voltar atrás.Pra mim não resta dúvida: é um claro sinal de machismo que as atletas tenham de pagar este tipo de “pedágio” para poder competir. Pelo jeito, se elas não forem atraentes pros homens, elas não podem jogar. É revoltante que essas profissionais, que vivem para treinar e competir, tenham que se sujeitar a serem sensuais para atrair público. Não deveria ser a beleza ou a “femininidade” das atletas que está em questão, e sim seu talento para o esporte que praticam (e isso vale para todas as profissões).
Para os homens que não veem nada de mais em exigir que atletas usem roupas menores, mais justas, mais sexy, fica a pergunta: e se fosse com eles? Por exemplo, mulheres vão muito pouco a estádios de futebol. E se de repente, para atrair mais o público feminino, a FIFA obrigasse os jogadores a usar sunga? Seria justo? PS: A matéria para a qual fui “entrevistada” foi publicada no UOL no sábado, e Daniel utilizou uma boa parte do que falei. Ficou boa. Só não gostei de um trecho do que disse um especialista em marketing espo
rtivo, que é contra os uniformes colados porque “nem todas as jogadoras têm um corpo legal” e, assim, poderiam ficar envergonhadas em usá-los. Ahn, o que é um “corpo legal”? Ainda mais pruma atleta? Devemos lembrar que atletas, e pessoas em geral, vêm numa variedade grande de formatos.Até agora há poucos (e melhores) comentários.