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Friday, May 4, 2012

AGÊNCIA DA VOLKS TENTA EXPLICAR ANÚNCIO MACHISTA

Acabei de receber um email da assessoria de imprensa da Almap BBDO pedindo desculpas “por qualquer interpretação preconceituosa que o anúncio criado para a Volkswagen possa ter lhe causado.” E tentando explicar o “mal entendido”. Segundo a agência, o anúncio da mulher enfiando a faca numa torradeira faz parte de uma campanha com outras cinco peças publicitárias que tratam de segurança no trânsito. As peças mostram pessoas distraídas, três homens e três mulheres. A próxima a ser veiculada (no mesmo jornal de Jundiaí, no próximo domingo) é esta ao lado, com os dizerem “Cuidado: ele também dirige”. 
Nos anúncios, em letra bem pequena embaixo de tudo, está escrito “As cenas mostradas são apenas ilustrativas e foram realizadas por profissionais, não tente reproduzi-las”.
E aí, essa explicação alivia a barra da agência (que, como lembraram leitoras, é responsável também por propaganda considerada racista, como a do azeite Gallo do ano passado; por outro lado, a mesma agência fez uma homenagem bem razoável ao Dia Internacional da Mulher no ano passado)? Limpa a barra da Volks?
Contexto é tudo, na minha opinião. O anúncio sozinho da mulher com a faca na torradeira, sem o resto da campanha, continua sendo tremendamente machista. E o que me incomoda é o estilo retrô (vintage) do anúncio, tão parecido com peças dos anos 50/60. Além do mais, dizer que temos que ter cuidado com homens tontos porque eles dirigem é bem diferente de falar o mesmo das mulheres. Porque –- e olha o contexto aí de novo -– vivemos num mundo em que, apesar de todas as estatísticas apontarem o contrário, mulheres são consideradas péssimas motoristas. Então acontece uma falsa simetria quando se diz que fazer este anúncio com um homem e com uma mulher dá na mesma. Porque não é a mesma coisa. 
Quando um homem faz uma barberagem no trânsito, ninguém grita “Só podia ser homem!”. Ele é um barbeiro individual que está longe de representar todo o gênero masculino. Mas uma mulher que dirige mal é vista como representante de todas as mulheres. Logo, não adianta que a mulher seja uma exímia motorista, cuidadosa, atenta, respeitosa com as leis. É só uma mulher tocar num volante que boa parte da sociedade achará que ela não deveria estar no volante... simplesmente por ser mulher. Se isso não é preconceito e discriminação, eu não sei o que é (lógico que isso não vale só pra dirigir. Esse é o princípio básico do preconceito. Pense em quantas pessoas gritariam "Só podia ser preto!" se o motorista barbeiro fosse negro. Ninguém diria "Só podia ser branco!" Mas o preconceito contra mulher que dirige parece pesar mais pra gente que outros "Só podia ser mulher!", porque interfere num direito caro a nós, que é o da liberdade de ir e vir, de ocupar o espaço público. E também porque carro, velocidade e potência estão tão associadas a um conceito -- arcaico -- de masculinidade).
Continuo achando péssimo o anúncio da Volks com a mulher e a torradeira. E fico imaginando como serão os outros dois anúncios com mulheres. Serão com elas em ambientes domésticos também, como uma cozinha?
Quero muito ouvir a opinião de vocês.

Thursday, May 3, 2012

NEANDERTAIS AINDA ACHAM QUE MULHER NÃO SABE DIRIGIR

O anúncio acima é dos anos 1970 para alguma marca de carro, e mostra uma mulher  concentrada e com grande dificuldade pra dirigir, guiando um modelo simplificado. É um daqueles vintage adspreconceituosos que, acredita-se, morreram com o crescimento do feminismo.
Mas não. Recebi este email da Gabriela, uma estudante de 17 anos que cursa Letras em Jundiaí. Ela que fotografou e escreveu “propaganda machista”. O anúncio (que mostra uma mulher pondo uma faca numa torradeira, abaixo da frase "Cuidado: ela também dirige") foi tirado de um jornal de Jundiaí. Eu até quis me certificar com ela se, de repente, ela não pegou um jornal dos anos 50 por acaso. Não. O anúncio realmente é de 29 de abril de 2012.
Vão colocar faca em torradeira ligada, publicitários da agência de propaganda da Volkswagen! E aproveitem pra eletrocutar também os executivos da marca, que não veem nada de errado em veicular algo tão idioticamente machista em pleno século 21. Queria ver a mesma peça publicada na Alemanha... Gente, vamos escrever pra Volks e falar pra eles que esta porcaria é inaceitável?
Como você viu, faz poucos dias recebi um email de outra Gabriela que, junto com sua namorada, decidiu intervir nas propagandas machistas que vê por aí. Escrevi sobre a sua ação, várias moças acharam a ideia fabulosa, e montaram um grupo do Google. Ele já está com 170 membros. São pelo menos 170 pessoas dispostas a perturbar o sossego de quem veicula publicidade preconceituosa!
Claro que a indústria da propaganda só reproduz os preconceitos existentes na sociedade. Eu me lembro de uma turma que tive na universidade em 2010. Uma das coisas que eu queria que eles praticassem era debater em inglês. E um dos temas escolhidos por el@s foi “Mulheres dirigem pior que homens”. Era um tema tão ridículo que eu pensei: pô, ninguém vai querer fazer parte da equipe do “concorda”. Quer dizer, qualquer alma que vai fazer uma apólice de seguro sabe que as mulheres pagam menos. Não porque as companhias de seguro querem ser gentis com as mulheres, mas porque mulheres comprovadamente cometem muito menos acidentes (principalmente acidentes fatais) que homens. É estatística. 
Mas descobri que minha definição de “dirigir bem” (respeitar as leis do trânsito, inclusive não correr e nunca dirigir bêbad@, não cometeracidentes, ser muito cuidadoso com pedestres) está longe de ser universal. Pros meus alunos e alunas, dirigir bem é... ser piloto de Fórmula I. Sério mesmo. Sabe aquilo que só alguns poucos homens brancos e ricos fazem num circuito restrito, com carrões ultra-especiais? Pois é. Pra muita gente esse esporte é comparável ao que milhões de pessoas fazem diariamente nas ruas das cidades. Ruas por onde circulam outros carros, motos, ônibus, bicicletas, pedestres, animais...
Obviamente, esse pensamento preconceituoso que mulheres dirigem mal não é exclusividade dos meus alunos. Não foram eles que inventaram o ditado “mulher no voltante, perigo constante”, um ditado que duela com todas as estatísticas que conhecemos sobre trânsito urbano. Não foram os meus alunos que, no começo de abril, colocaram esta manchete na capa do G1:
Quando você lê que uma policial mulher morreu ao bater num poste, o que você pensa? Que ela estava dirigindo a viatura policial, certo? Aí você linka na notícia e vê que a policial que morreu nem estava no volante!
Não sei quanto a você, mas às vezes eu me sinto na Arábia Saudita, onde mulheres são proibidas de dirigir.

Thursday, March 22, 2012

ALGO DE ERRADO NO MUNDO

“Se um homem tem um apartamento com jornais até o teto, nós o chamamos de louco.Se uma mulher tem uma casa cheia de gatos, nós a chamamos de insana.Mas quando pessoas patologicamente acumulam tanto dinheiro que elas empobrecem toda uma nação, nós as colocamos na capa da revista Fortune e fingimos que são modelos a ser seguidos” (B. Lester, minha tradução).E por falar em modelos a seguir, fico passada quando um monte de gente corre pra acudir o pobre filho de bilionário que foi atropelado por um ciclista. Thor Batista será defendido -- não que precise de defesa, já que desde quando um cara de carro é punido por matar alguém no Brasil? -- por um ex-ministro da justiça. Você realmente acredita em meritocracia e oportunidades iguais? Acha que um dia ficará bilionário como o Eike? Que é só trabalhar duro pra chegar lá? Comece a escolher melhor seus heróis.

Sunday, October 30, 2011

PSICOPATIA SANCIONADA PELA SOCIEDADE

Que brasileiro é um péssimo motorista todo mundo sabe. O que não se sabe é porque não temos vastas campanhas para tentar mudar este quadro. No Brasil, há 6300 atropelamentos com morte por ano, de acordo com o Denatran. Como o órgão contabiliza apenas mortos no local, o número sobe para 8520 segundo o Ministério da Saúde, que calcula os atropelados que sobrevivem até chegar ao hospital. Ou seja, matamos mais que o dobro de pedestres que matam os americanos. E aqui reina a total impunidade. Eu sempre ouvi falar que, se a gente quiser matar alguém sem correr o risco de ter que passar um só dia na cadeia, o ideal é atropelar a pessoa. Outro dia vi uma curta reportagem sobre a impunidade no trânsito brasileiro. Uma repórter entra num barzinho à noite para entrevistar clientes que estão bebendo e vão dirigir daqui a pouco. Ela encontra um jovem que bebe e diz, risonho, que sente-se muito seguro hoje em dia, porque seu carro tem freios ABS e airbag. “Mas e se você atropelar alguém que não tenha ABS ou airbag?”, quer saber a repórter. “Ah, aí a gente paga a fiança e sai”, responde o rapaz. É isso que a cultura do automóvel promove: a sensação de um universo particular em que só o motorista importa. Atropelou e matou alguém, paciência. Quem mandou cruzar o meu caminho?
Claro que existem pedestres imprudentes que surgem do nada, e claro que acidentes acontecem. Mas o modo como dirigimos certamente ajuda a causar esses acidentes. E quem leva a pior é sempre o pedestre. Infelizmente, uma decisão recente do STF abriu jurisprudência para que todos os casos de acidente de trânsito por embriaguez sejam vistos como "culpa consciente". Um atropelamento causado por um motorista bêbado só será considerado "dolo eventual" quando o motorista beber antes com o propósito de atropelar alguém. Ou seja, o rapaz que diz que, em caso de atropelar alguém, só precisa pagar a fiança pra ser liberado, tem cada dia mais motivos pra sorrir.
Assine a petição "Não Foi Acidente", que exige que pessoas que
bebem, dirigem e cometem crimes não fiquem impunes. Eu já assinei. Mas não é só isso. A gente precisa reaprender a dirigir. Precisa repensar o lugar e a hierarquia do carro nas nossas cidades, e nas nossas vidas.

Wednesday, October 26, 2011

CULPADO POR ATROPELAMENTO? PEDESTRE, CLARO

Foto mostra ponto de ônibus, local do acidente, e onde fica a casa de Raquel. Nem sinal de faixa de pedestres.

Aconteceu em abril numa cidade chamada Marietta, na Geórgia, EUA. Raquel, uma mãe solteira negra, trabalhadora e estudante universitária, iria celebrar seu aniversário de 30 anos no dia seguinte. Levou seus três filhos, de 9, 4, e 3 anos, para comer pizza e comprar comida num shopping. Perderam o ônibus de volta, o que fez com que se atrasassem uma hora. Quando chegaram perto de casa, já era noite. Desceram no ponto de ônibus de sempre. Para atravessar a avenida, só havia uma faixa de pedestres a meio quilômetro de distância. Raquel fez o que todos os outros passageiros que desceram do ônibus com ela fizeram: foi até a metade da avenida e esperou os carros cessarem. O filho de 4 anos, que estava carregando um saquinho com água e um peixe dentro, soltou a mão de Raquel e foi atrás de uma menina. Um carro o atropelou e matou. O motorista não parou para socorrê-lo. Mais tarde, esse motorista admitiu ter bebido e tomado analgésicos. Ele era quase cego de um olho e já havia sido condenado duas vezes por atropelamento sem prestar ajuda. A pena por mais este atropelamento? Seis meses de prisão em regime aberto.
Mas alguém precisava ser punido, e este alguém foi Raquel. Sim, a mãe. Ela foi condenada a três anos de cadeia por ter atravessado fora da faixa e, assim, indiretamente matado seu próprio filho. O júri que a condenou, além de ser composto unicamente por homens brancos, nunca tinha andado de transporte público na vida.
Pode parecer absurdo, mas, na ocasião, a maior parte das pessoas, blogosfera americana inclusa, apoiou a decisão, e não teve empatia nenhuma por Raquel. Nem por ela nem por uma outra mãe condenada em 2010 pelo mesmo crime (cruzar em lugar proibido, assim perdendo sua filhinha). Só aos poucos é que as pessoas começaram a perceber a injustiça. O movimento Transportation for America, que luta para que humanos, e não carros, sejam valorizados, aponta que Marietta, a cidade onde ocorreu o acidente, é o decimo lugar metropolitano mais perigoso para pedestres nos EUA –- Orlando, Flórida, onde fica a Disney World, é o número um. Parece que zonas residenciais, como os subúrbios, muitas vezes são mais perigosos que as avenidas centrais de uma cidade. Nas ruas dos subúrbios, os carros correm mais e não pensam que vai haver pedestres. Talvez a mudança de opinião do público, que mais tarde organizou um abaixo-assinado com mais de 140 mil assinaturas em defesa de Raquel, ocorreu porque muita gente se pôs no lugar dela (e a pressão fez com que a sentença fosse invalidada). Pra atravessar na faixa de pedestres mais próxima, ela teria que andar meio quilômetro com seus três filhos pequenos, à noite, e segurando várias sacolas. Chegando lá, teria que cruzar a rua (e desde quando uma faixa de pedestres detém um motorista alcoolizado?), e voltar outro meio quilômetro com seus três filhos pequenos, à noite, carregando sacolas. Quantas pessoas nessa situação (aliás, pode tirar os três filhos e as sacolas) andariam um quilômetro para atravessar na faixa?
Faz algum sentido ter um ponto de ônibus que para diante de um local residencial, e nenhuma faixa próxima para que as pessoas possam ir pro outro lado da rua? É incrível, mas recebemos lavagem cerebral pra amar o carro acima de todas as coisas. Esse amor é tão incondicional que só vemos as vantagens do carro, raramente suas inúmeras desvantagens. Por exemplo, nos EUA, entre 2000 e 2009, 47,700 pedestres foram mortos. Isso equivale a um acidente aéreo com um avião grande cheio de passageiros por mês. Nos dez anos levantados, 690 mil pedestres foram atingidos, não mortos, por carros –- o que representa um carro ou caminhão batendo num pedestre a cada sete minutos. A gente fica chocada e triste com acidentes aéreos que fazem vítimas, né? Mas não costuma dar a mínima pra pedestres atropelados. Por que não? Não são pessoas também? Não damos bola por pura ideologia. Essa é a cultura do automóvel. Já está plantado no nosso cérebro que algumas pessoas valem mais que as outras. Pessoas que têm carro merecem ter a rua só pra elas, porque são mais importantes que esses pé rapados que caminham ou pegam ônibus. A cultura do automóvel nos ensina que não dá pra viver sem carro, que todo mundo que quer “vencer na vida” tem que ter um carro, que transporte público é coisa de pobre. Pros homens, a cultura do automóvel é ainda mais perniciosa. Carros estão diretamente ligados a sua potência sexual. Eles aprendem que sem carro não são ninguém. Que sem carro não vão conseguir "pegar" mulheres. Que todas as mulheres são maria-gasolina.
E praticamente todas as cidades são construídas em cima dessa ideologia, como se fossem dedicadas ao totem-carro. Elas são pensadas para ter um trânsito rápido, onde os motoristas podem dirigir sem parar em inconvenientes sinais e faixas. Isso obviamente tem prioridade sobre um trânsito seguro, em que pessoas sem carro possam ir de um lado pra outro da rua sem serem atropeladas.
Quase todo mundo aceita sem pestanejar que tenhamos muito mais ruas que calçadas, e que mesmo as calçadas sejam feitas para os carros, com todos os declives para que carros possam entrar e sair de suas garagens. Acatamos numa boa o fato das cidades serem dos carros, não das pessoas. Porque só isso explica como um ponto de ônibus possa ficar a meio quilômetro (nas duas direções) de um conjunto de casas residenciais. Vivemos num sistema que não está preocupado em melhorar as condições de vida de quem anda a pé, mas de abrir mais e mais rodovias pra carros e punir quem cruza o seu caminho. E quando precisamos culpar alguém pelas dezenas de vítimas feitas a cada mês, criminalizamos a própria vítima, o pedestre, ou sua mãe. Nunca a cultura do automóvel.
Um dos slogans das pessoas que querem mudanças, que se opõem ao pensamento único do capitalismo, é que um outro mundo é possível. Vendo casos como este da Raquel, eu digo que um novo mundo é mais que possível –- é necessário. E urgente.

Thursday, July 14, 2011

GUEST POST: ISSO TAMBÉM É COM VOCÊ

Esta é a quarta e última parte de um super guest post que o Thiago, também conhecido como Nefelibata, teve a generosidade de escrever pra gente. Por favor, leia, releia, e envie pr@s amig@s as partes um, dois e três. As cidades devem ser nossas, não de máquinas metálicas que andam sobre quatro rodas. Quando falamos que um outro mundo é possível, estamos pensando em fazer um uso melhor, mais democrático e mais coletivo do espaço público urbano.

Há uma frase do Elwyn Brooks White (frase que vi num jogo), cujo contexto desconheço, mas que parece resumir bem o lugar central do carro nos nossos valores: “tudo na vida está em algum outro lugar, e você chega lá de carro”. Com um deus na garagem, fica fácil entender porque não temos o menor constrangimento de pegá-lo para ir até a padaria no outro quarteirão. É por isso que compramos picapes 4x4 para andar em ambientes urbanos, só para garantir a superioridade física e econômica contra outros carros, ao custo da combustão do diesel -– o mais poluente e nocivo dos combustíveis. É por isso também que colamos adesivo da Marina Silva e do Green Peace no vidro do possante e não vemos nenhum problema nisso –- somos capazes de criticar tudo, desde que esse tudo exclua nossos caprichos. E dentre os caprichos, para o brasileiro, carro é o principal símbolo de luxo. Temos para nós que transporte coletivo é coisa suja e indigna porque é de pobre que não pode comprar carro. Preferimos passar uma hora no estresse do trânsito do que quinze minutos apertados no metrô. Porque, ao contrário do Figueiredo, devemos preferir o cheiro do cavalo ao cheiro do povo (certamente preferimos o cheiro da fuligem e do veneno). Mas, ei, nós somos povo também, não? Não importa; escolhemos nos encastelar em nossas torres de marfim ambulantes e ligar, junto com a chave na ignição e com a música privada, um grande mecanismo de “dane-se” para o resto do mundo e da humanidade.
Já tive o desgosto, cuja mera lembrança ainda me dói, de ouvir gente muito próxima de mim dizer coisas como “eu trabalhei para ter o direito de usar um carro, e se eu precisar esculhambar com outras pessoas, com a cidade ou com o planeta, não vou pensar duas vezes para fazê-lo”. Estarrecido, pergunto por quê, e me responde “porque eu adoro dirigir, e você só critica carro porque não gosta de dirigir”. Finalmente o carro se transformou na materialização do ego hipertrofiado. E seu motorista em um ser bruto para o qual, num piscar de olhos, toda a gentileza vira fraqueza, toda condescendência vira palermice. A cidade inteira se torna sua, e o mundo inteiro passa a girar ao seu redor; o resto da humanidade deve apenas lhe servir e não haverá obstáculo algum que não seja derrotado. Não é à toa que propagandas mostram os automóveis correndo sem dificuldades no meio da montanha, na natureza ou em cidades irrealisticamente vazias (i.e., sem trânsito). Ou seja, o motorista sente-se imbuído de poder e autoridade tais que nem a realidade nem a humanidade podem ou devem pará-lo. Se param, se oferecem qualquer oposição, é uma espécie de sacrilégio que cometem. Isso revoltará o motorista e ele vai querer punir o sacrílego com um furor fanático. O vídeo dos agressores da mulher grávida é emblemático porque mostra que um deles não apenas bate nas pessoas, mas também faz questão de danificar o carro; chuta as portas, risca a lataria nos dois lados –- o objetivo não é apenas agredir fisicamente, mas atingir o totem, o fetiche, o orgulho, a alma.
E faltou falar da questão da pressa; isso é algo que me intriga. Será que todo mundo nas grandes cidades acorda atrasado, perde a hora? Será que o carro comeu o relógio em casa? Será que todo mundo que barbariza no trânsito faz isso porque está simplesmente com pressa? Ou será que essa “pressa” não passa da recusa de aceitar que outros seres humanos, reles mortais, se coloquem no caminho do motorista, que acredita que, em comunhão com seu carro, ele também é Deus?
(Esta animação curtinha da Disney, que tem rodado por aí agora, tem só seis minutos, é bem dublada, e mostra de forma bem instrutiva a bipolaridade do motorista. É o Pateta retratado como o Sr. Pedestre e se transformando em Sr. Motorista. Ponto alto para os rachas intercalados com semáforos que também tocam um gongo, comparando a relação entre motoristas com uma luta de boxe. E mostra também que a ignorância no trânsito infelizmente não é fenômeno típico daqui -- mas que está presente em outras culturas idólatras do carro, como é também a estadunidense, que, de certa maneira, nos legou muito dessa idolatria).
Tudo isso explica porque carro combina tanto com outras formas de preconceito e opressão. É por isso também que combina tão bem com capitalismo; ele é talvez o melhor estimulante que há para o hedonismo, para a irresponsabilidade, para inconsequência e, principalmente, para o egoísmo, para o individualismo. Tudo o que é altruísta, previdente, sustentável, consequente, responsável... e também tudo que é dividido, coletivo, compartilhado, comum... tudo isso diminui lucros e atrasa o desenvolvimento ulterior do sistema, que por sua vez trabalha sem descanso para fazer a gente estranhar o próximo e até a nós mesmos. Capitalismo é consumo voraz do planeta e dos seres humanos, e o motorista de carro é um excelente resumo dessa imagem em conjunto. A imagem da desumanização e da brutalização, aceita pela sociedade, sacramentada pelo poder público. Fetichiza-se o carro, aliena-se o motorista. Infelizmente não me lembro da autoria da brilhante frase: “se amanhã alienígenas inteligentes chegassem à Terra, saberiam imediatamente qual é a espécie dominante neste planeta: os automóveis”. Queria poder lhe dar os devidos créditos.
Só posso terminar o texto perguntando: ei, motorista (e você também que quer ser motorista e só não é por falta de oportunidade), perante tudo isso, perante 40 mil pessoas que morrem no trânsito anualmente no país, perante toda essa opressão, perante toda essa catástrofe... até quando você vai levantar o vidro automático, ligar o som, ar condicionado e fingir que nada disso tem a ver com você? Até quando você vai culpar os “folgados” que sempre entram na sua frente, culpar o governo, culpar sempre um outro só para iludir sua consciência, como se você não fizesse parte de tudo isso também? Até quando você vai trocar a realidade inteira por um breve instante de prazer solitário, de conforto superficial, dentro de um brinquedo que se transforma numa arma em um instante, e que não apenas pode ferir e matar outras pessoas, mas também destrói efetivamente o planeta inteiro? Será que um dia você vai buzinar contra algo que realmente valha a pena? Talvez contra as formas de opressão da sociedade em geral, talvez contra a opressão do automóvel em específico, talvez contra quem atropele ciclistas por motivo fútil (como se houvesse motivos não fúteis para matar alguém)... Acorde! O alerta para nós está vermelho; até quando vai acelerar para ele e furá-lo como se fosse amarelo? Até quando você vai viver em função dessa máquina e desprezar o ser humano que está à sua frente, ao seu lado, separado dos seus olhos apenas por uma fina camada de vidro? Acorde! Só somos humanidade se estamos em conjunto, por isso, ao desprezar o ser humano que lhe é próximo, você também despreza o ser humano que há dentro de você! Até quando pretende fugir correndo a milhão disso? Até quando?!

Friday, May 27, 2011

GUEST POST: MITOS E PRETEXTOS SOBRE O CARRO

Estou publicando uma série de quatro textos sobre como a cultura do automóvel, predominante no nosso país e no mundo, é prejudicial a todos. Foi o Tiago (Nefelibata), um ciclista inveterado, que a escreveu. Esta é a terceira parte do seu belo guest post (leia ou releia as partes um e dois), um trabalho de fôlego feito pra balançar com a gente.

Carros utilizam de maneira ineficaz o espaço público, provocam impactos negativos em termos de urbanismo, degradando as cidades, consomem espaços que poderiam ser utilizados para parques e árvores, e poluem muito, tanto de forma direta (este link mostra como, no caso de São Paulo, o ar vem ficando cada vez pior; e dou uma balinha pra quem acertar quem é o vilão) quanto de forma indireta (não consigo nem imaginar o quanto de energia é gasta, o quanto de recursos naturais são consumidos e o quanto de poluição é emitida no ar e no solo pela cadeia mundial de produção de carros, acessórios, combustíveis, materiais para construção de pistas, etc. Apenas em 2009, mais de 61 milhões de veículos foram produzidos; significa que a cada segundo, 1,9 carros foram fabricados). Tentar defender o uso de carro usando medidas como rodízio ou inspeção veicular não adianta, porque são meros paliativos. Quem mais gostou do rodízio não foram ambientalistas, mas as concessionárias, que passaram a vender mais carros -– quem usava carro agora tem dois, um para dias normais, e outro com placa de último número diferente para os dias do rodízio. Já a inspeção veicular diminui a poluição provocada pela queima de combustíveis fósseis, mas para uma frota de milhões de carros, isso não serve. Teremos um ar menos poluído, mas ainda muito poluído. E isso perde todo o sentido quando nós sabemos que há, efetivamente, opções mais limpas.
Carros também são perigosos, responsáveis por muitas mortes; o novo Mapa da Violência, publicado no fim de fevereiro último, mostra que a outrora violenta capital paulista conta recentemente com quase tantas mortes no trânsito quanto por outras formas de violência. Em 2008, o último ano de levantamento completo, foram 1.558 óbitos contra 1.622; 4,2 mortes por dia ocorridas no trânsito (o mapa separa homicídios de acidentes de trânsito, definição técnica que consta de um protocolo chamado C-10, o qual não consegui abrir, e, assim, não descobri se casos de atropelamentos dolosos ou mortes provocadas por briga de trânsito entram em um ou outro). Se o número de mortos é alto, o de feridos é maior ainda, e isso sem nem considerarmos os danos indiretos à saúde, como os causados pela própria poluição do ar, pelos níveis elevados de estresse e até mesmo pelo maior índice de sedentarismo. E os danos psicológicos? Eu só consigo atribuir como dano psicológico a mudança que algumas pessoas sofrem -– para pior -– quando sentam num banco de carro de frente para um volante.
Se considerarmos o perigo ao qual o motorista se expõe em outras formas de violência urbana (nomeadamente assaltos), a coisa fica ainda pior. Carros não são seguros, pelo menos não em comparação com outros meios de transporte, e até mesmo em comparação com quem anda a pé. Se você está andando na rua e sofre a abordagem de um assaltante, talvez nem arma ele tenha; você não reage e ele provavelmente só vai levar sua carteira e o celular. Mas se você sofrer abordagem de um assaltante no carro... dessa vez não precisa nem se preparar para a encrenca, porque é melhor não perder tempo e já começar a rezar, rezar para que não aconteça uma tragédia. Primeiro que dificilmente será um assaltante só. Segundo que as chances de eles estarem armados é muito mais alta. Terceiro que mesmo que você não faça nada de perigoso ou impensado, um simples desapertar do cinto ou acionar o freio de mão pode fazer um deles te matar achando que você vai tentar reagir. Na melhor(?) das hipóteses, você talvez seja vítima de um sequestro-relâmpago. Ah, e cuidado ao tirar e guardar o carro na garagem... mesmo se morar em apartamento. Seu lindo sedã normalmente é muito mais chamativo do que um celular dentro da bolsa. A armadura que envolve o motorista, somada com a possibilidade de fugir, dá nesse caso uma falsa sensação de segurança.
Carros também são caros. Já foram mais caros, e sua compra já foi mais difícil, mas ainda é gritante a diferença de custo do transporte coletivo (mesmo o de São Paulo, cujas tarifas de R$ 3,00 para ônibus e R$ 2,90 para metrô foram inexplicavelmente encarecidas no começo deste ano) e do carro (um popular custa entre R$ 20 mil e R$ 30 mil. E ainda tem o combustível. E o IPVA. E o licenciamento. E o seguro. E os alarmes. E os estacionamentos. E os pedágios. E a manutenção. E as eventuais multas. E os eventuais prejuízos em acidentes...). É um totem caro, como podem ver. Dependendo do caso, até mesmo um táxi sai mais em conta.
Tem também outro mito muito popular sobre carros: há quem diga que é bom ter um para o caso de alguma “emergência”. Algum parente cai azul no chão de casa e, com um automóvel, podemos levá-lo correndo ao hospital (e quando quem tem o mal súbito é a pessoa dirigindo um carro? Isso aumenta ou diminui suas chances de sobrevivência?). Primeiramente, eu acho curioso notar que todas, absolutamente todas as pessoas que conheço e que usaram esse argumento para ter um carro, na prática, rodam com ele todos os dias para os destinos menos emergenciais do mundo. Parece que o motorista vai para um lado, a coerência passeia para outro. Segundo, esse uso do carro é muito perigoso; eu pelo menos dirigiria bem nervoso com alguém morrendo no banco de trás, e minha pressa no trânsito poderia provocar um acidente e somente vitimar mais pessoas. Isso se eu não fechar algum macho alfa que interrompa meu curso para sair na porrada (ou no tiro) comigo. No caso de metrópoles, esse uso do carro não é apenas perigoso como às vezes é também desnecessário; existem ambulâncias, resgate, 193 para isso. Às vezes, esses recursos salvam vidas. Se a gravidade do mal súbito é tal que o doente não possa resistir até chegar o socorro, então é bem provável que ele não resistisse de qualquer forma indo para o hospital de carro. Por fim, novamente, em muitos casos um táxi também resolve.
E sempre depois desse rol de desvantagens do uso do carro, as pessoas, sem ter mais o que defender, tentam se valer da desculpa de que o transporte público é impossível de se usar. De fato, em alguns lugares, a cultura de adoração dos carros é tão presente ou o desenvolvimento urbano é tão atrasado que não há espaço nenhum ou iniciativa nenhuma para outra coisa, nem mesmo transporte coletivo. Não há muita saída nessa situação, realmente. Nesse caso, o que resta ao cidadão forçado a usar carro é tomar alguma iniciativa. Mas uma iniciativa que consista em algo mais substancial do que negociar com banco/concessionária as parcelas do automóvel, ou algo um pouco mais socialmente engajado do que a realização de um consórcio. Senão, a cidade vai ter alma de roça para sempre. Pois a verdade é que não é que usam carro porque as alternativas são precárias; as alternativas é que são precárias porque a demanda por carro, que é social, política e econômica, é muito maior. Por outro lado, se pensarmos a realidade das metrópoles em geral (ou seja, para a maioria absoluta das pessoas que botam o carro na rua), veremos que essa alardeada precariedade do transporte coletivo tem lá seus exageros. Muitas vezes ouvi gente dizer que transporte público é uma porcaria. E muitas vezes essas mesmas pessoas ficaram gagas ou mudas depois que eu perguntei quando tinha sido a última vez em que havia tomado ônibus ou metrô, ou qual era o nome da linha e do destino, quanto tempo de viagem durava exatamente. Não sabiam responder. Não é estranho que elas sequer conheçam o transporte coletivo, mas saibam com certeza que ele não presta? Mas a resposta é bem simples: usam esse mito para justificarem (perante si mesmas ou outros) o uso do carro, que elas sabem que é problemático (do contrário, não se dariam ao trabalho de justificarem-no). Jamais se darão ao trabalho de experimentar linhas diferentes de ônibus, horários alternativos de metrô, consultar na Internet itinerários, etc. Botam o carro na rua antes de tentarem as outras opções, todas a princípio mais racionais.
Isso quando não desqualificam todo esse discurso na velha desculpa do “eles é que são folgados” (leia-se: pedestres, ciclistas, motoqueiros). Vamos com calma aqui. Antes de tudo, é bom saber que essa desculpa apenas contribui para difamar ainda mais a reputação dos motoristas em geral (entre os não-motoristas, lógico). Não há número que diga com certeza quem é mais mal-educado -- carro, bike, moto ou sola, mas como os automóveis são os veículos mais letais dentre esses, é preciso entender que os motoristas não podem fugir da responsabilidade de estarem conduzindo uma potencial arma. Querer afastar isso é abominável (e também rigorosamente ilegal). Agora, raciocinando a folga dos outros, se pensarmos primeiro nas motos, eu digo que o motorista que pensa desse jeito parece esquecer que os motoqueiros na verdade são seus filhos: é porque o trânsito se entupiu de carros que motocicletas passaram a ser úteis, e mesmo necessárias para serviços que exigem agilidade. É uma demanda de mercado. O motoboy que se expõe ao perigo sabe o risco que corre, mas à parte de toda a inconsequência que possa ter, ele também faz isso pela mesma razão que caminhoneiros rebitados: para cumprir prazos insanos estabelecidos por quem lhe encomenda o serviço –- e pra eles vai ser assim mesmo, senão, não tem trampo. Portanto, motoristas, antes de xingarem ou ameaçarem motoqueiros, pensem que talvez vocês estejam descontando a raiva na pessoa errada, e que há chances muito boas de o maior culpado ser um patrão que usa carro como vocês. Claro, nada disso dá o direito do motoqueiro ser folgado –- assim como a folga dele não legitima o motorista a dar o troco. Do contrário, não terá fim o círculo vicioso que existe, por exemplo, em São Paulo: muitos motoqueiros são folgados para se vingar da folga dos motoristas, e vice-versa (mas quem leva a pior? O número de motociclistas mortos aumentou 754% na última década, e o risco de um motociclista morrer no trânsito é 14 vezes maior que o do ocupante de um carro). Parece que tem algo semelhante acontecendo, em menor escala, com pedestres e ciclistas também. Mas aí entra aquele detalhe: quem é que tem mais a perder com essa rixa? Motoristas, por favor, pensem: vale mesmo a pena não levar desaforo para casa mesmo quando o risco aí é a vida de outra pessoa? Esse orgulho é tão importante assim? Entendam que qualquer ameaça que fizerem contra o outro no trânsito só construirá uma relação social nociva, seja de medo, seja de ódio, e isso só fará da cidade um ambiente mais insuportável de se viver -- para todos, você incluso. E mais: ainda que encontrem folgados por aí, por que devolver desrespeito com desrespeito? Se o outro pedestre, ciclista ou motoqueiro (ou mesmo motorista) não exerce sua cidadania exemplarmente, porque jogar no lixo a nossa também?
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