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Tuesday, December 13, 2011

COMO NÃO CONQUISTAR AS MULHERES

Semana passada foi divulgada uma troca de tweets interessantes entre um babaca qualquer e Hugh Hefner. O babaca pergunta ao fundador da Playboy: “Como você tem tantas vadias?”. E Hugh responde: “Tenho muitas namoradas porque não as chamo de vadias. Um pouco de respeito pode te levar longe”. Anotem a dica aí, masculinistas (se bem que, com eles, acho que só a reencarnação resolve o tão alegado “deserto sexual” em que eles mesmos lamentam viver)! Não nutro simpatia pelo Hugh (acho que vou escrever sobre a Playboy na semana que vem), mas a resposta dele foi digna. Agora, eu ri alto mesmo foi com o que um comentarista de um blog americano, o Copyranter, escreveu acerca da situação: “Se você está numa conversa com Hugh Hefner, e Hugh te dá uma lição de moral, tá na hora de reconsiderar suas escolhas na vida”. Pois é. Na boa: mascu, continue chamando mulheres de vadias. Depois, quando as mulheres te desprezarem, recorra à teoria mirabolante que elas só gostam de cafajestes, não de homens bonzinhos e honrados. Homens tão bonzinhos e honrados que usam vadia como sinônimo de mulher.
Aliás, toda vez que eu pergunto, ninguém me responde, então fica aqui mais uma tentativa: o que é uma vadia? Se você for responder c
om o típico "é uma mulher que não se dá o respeito", aproveite e defina o que é "se dar o respeito". Há como chamar uma mulher de vadia sem estar recriminando sua vida sexual? Há como isso não ser machista?

Monday, December 12, 2011

INSULTOS POLITICAMENTE CORRETOS PARA USAR CONTRA AS MULHERES

Na última terça, por ocasião do Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres, perguntei aos meus leitores o que eles faziam para combater a violência. E uma das perguntas que fiz foi se eles já abandonaram termos que condenam a sexualidade feminina (vagaba, vadia, piranha, galinha etc). Um leitor, o Ramon, me escreveu com uma provocação: “Você acabou de esgotar o meu vocabulário. Então qual é o termo ofensivo politicamente correto para se referir a mulheres? E nem venha com o papo de 'você não deve usar termos ofensivos' porque eu não sou perfeito. Eu me estresso, uso termos de baixo calão, cometo erros, desconto minhas frustrações em outras pessoas, grito e, evidentemente, xingo. Portanto, como doutora em Letras, você sabe muito bem que a língua precisa refletir essa realidade e se adequar aos mais diversos usos, o que inclui os ofensivos, naturalmente”.
Bom, não sei como ser doutora em Literatura em Língua Inglesa pode me tornar expert em ofender mulheres sem incorrer no politicamente incorreto. Por não usar palavrões (não gosto, nunca usei; o máximo que me permito é escrotossauro, que acho que eu mesma inventei, e que é lúdico, lembra um tipo de dinossauro), sempre me faltou vocabulário pra insultar. Sou uma pessoa bastante calma e que só muito raramente perde a cabeça. Portanto, é difícil eu ter que recorrer a ofensas. Quando eu dirigia (desde que cheguei a Fortaleza ainda não me arrisquei, porque o pessoal parece dirigir ainda pior que em Santa Catarina, e buzina demais), aí sim, muitas vezes ficava com raiva e precisava xingar. O trânsito é obviamente um lugar de estresse (por isso, evite dirigir). Hoje ando pro trabalho, o que reduz drasticamente situações de nervosismo. Eu diria que a maior necessidade que tenho de adotar insultos atualmente é com trolls da internet. Porém, o melhor que se pode fazer é não alimentar os trolls e não lhes direcionar a palavra.
Acho que o Ramon mencionou em algum outro lugar que precisava de vocabulário ofensivo pra se referir à chefa ou à moça que deixa as calcinhas penduradas no banheiro. Pô, que oportunidade você tem de ver calcinhas molhadas senão na sua própria casa? Se isso te incomoda tanto (e não deveria), fale com a pessoa e tente resolver o problema. Quanto à chefa, duvido que você queira termos ofensivos para falar com ela. Imagino que seja pra falar dela, para criar uma espécie de camaradagem com seus outros colegas. Cuidado. Sua chefa pode ouvir, ou esses insultos podem chegar a ela. Lembre-se que violência verbal também é violência. Se você quer viver num mundo de paz, deve também tentar controlar esses ímpetos. Por isso que existem cursos de controle da raiva. Você consegue visualizar um monge tibetano gritando com alguém? Avalie o quanto você realmente precisa perder a calma, e com quem você se enerva com mais frequência. Se de repente você for mais nervosinho com mulheres, aí Houston, we've got a problem. Reflita um pouco, e tente descobrir o que te faz se indignar mais conosco.
Mas concordo que às vezes queremos devolver um insulto, e precisamos de vocabulário. Nessas horas é bom tratar de insultar aquela pessoa, sem ser necessário insultar todas as mulheres, ou os negros, ou os gays (viado e sapatão são só palavrões pra quem vê algo de errado na homossexualidade; portanto, são sempre expressões homofóbicas). Sugiro qualquer termo que seja unissex. Por exemplo, eu nunca uso expressões exclusivamente ofensivas aos homens, como corno e brocha (que ninguém sabe se é com x ou com ch mesmo). Se não existe piranho, não chame uma mulher de piranha. Aliás, não faça qualquer referência à sexualidade da mulher que você quer insultar, porque nessa instância você sempre estará sendo machista (e isso vai do vagabunda ao mal-amada). Outro dia alguns rapazes no Twitter vieram me dizer que chamar uma mulher de vadia não é machista. É mesmo? É o quê, então? Uma expressão carinhosa? Vamos aceitar a realidade: é machista vigiar e punir a sexualidade feminina, enquanto se celebra a masculina. Ponto. Logo, apague as referências sexuais.
Termos referentes à aparência da mulher tampouco são bem vistos, porque vivemos num mundo em que as mulheres têm de ser lindas e jovens sempre, enquanto o homem será valorizado por outras dezenas de qualidades. Novamente, se o termo não tem versão masculina, não o use. Mocreio e barango existem? Não. Então não use mocreia nem baranga. Gorda é muito turma da Mônica pro meu gosto. Lógico, gordo existe, mas num mundo que prioriza a aparência física pra mulheres, ser gorda é muito mais mal recebido que ser gordo. Por sinal, gorda deve ser dos insultos que mais ouço. Mas é de uma preguiça abismal. Ué, dizer que eu sou gorda é uma mera constatação. Eu sei que sou gorda, a diferença é que não acho isso assim tão terrível. Esses dias um mascu me disse que eu deveria procurar uma academia. Eu respondi: “Obrigada pela sua sugestão, mas já estou na academia. Sou doutora, sabe? Opa, não era dessa academia que você estava falando? O quê, você só conhece uma?!”.
Burra pode ser uma solução, mas tenho resevas éticas em usar animais como se fossem ofensas. Na realidade, burro e jumento, os animais, são muito mais inteligentes que os trolls. É incrível como usamos nossos animais para insultar outros humanos. Isso diz muito sobre o que pensamos dos animais, e é totalmente injusto. Passa uma visão especista do mundo.
Histérica e irracional são termos inadequados, ainda que possam ser usados pra homens. Isso porque essas expressões foram historicamente usadas pra rebaixar a mulher, com o aval da ciência, que sempre é ideológica. A própria origem da palavra já aponta a quem se refere o adjetivo. Hystera é útero em grego. Até o século 17, histeria estava associado apenas a distúrbios no útero. Inclusive, um indicativo de uma sociedade misógina é que fases comuns a tantas mulheres sejam vilipendiadas. “Você está de TPM”, “sua velha!”, “você está na menopausa” são utilizados para insultar. Mas pense bem: deveriam?
Mesmo com todas essas restrições, ainda sobra muita coisa. Chame uma mulher do mesmo que você chamaria um homem se você quer ofender: idiota, babaca, ridícula, cretina, maldita, imbecil. Ah, aproveite e risque do seu vocabulário termos como doentes mentais, retardado, mongol, autista etc. Isso não por respeito às mulheres, mas pelas pessoas que têm problemas mentais de verdade e não merecem ter suas dificuldades usadas como insulto.
Linguagem é algo que se adquire. Temos o poder de moldá-la aos nossos tempos. Ninguém disse que ser politicamente correto seria fácil, mas é possível. Pra mim é um aprendizado constante.

Thursday, August 11, 2011

GUEST POST: VENDO PALAVRAS PARA CONSTRUIR DICIONÁRIO

Esses dias o Felipe Iszlaji, um aluno de doutorado em Linguística pela Unesp de Araraquara (mas com mestrado em Cinema, sua segunda paixão) me mandou um email para falar do projeto que ele vem desenvolvendo há três anos: a construção de um dicionário criativo, inspirado no Dicionário Analógico do Professor Azevedo. Não é um dicionário só com definições, mas um que traz sinônimos e ideias afins (gostei das rimas!), organizado em campos semânticos. O que Felipe está fazendo é transpondo o dicionário original para a internet, aproveitando todos os recursos da tecnologia para melhorar sua usabilidade e incrementar seu conteúdo.

Eu dei uma olhada no que ele tem pra mostrar até agora, e realmente me parece um projeto de fôlego. E eu sempre achei que a internet carece de bons dicionários gratuitos. Pedi então pra ele escrever um guest post. E acabei de saber que ele me deu uma palavra de presente (ele está vendendo palavras para financiar o projeto, como explica abaixo): feminismo. Se tudo der certo, o dicionário será lançado em setembro. Obrigada e boa sorte, Felipe!



Como resume o poeta italiano Cesare Pavese, "é bom escrever porque reúne as duas alegrias: falar sozinho e falar a uma multidão". Todos os escritores têm suas técnicas e, também, suas ferramentas. Uma delas, das mais importantes, é o dicionário. Chico Buarque já declarou mais de uma vez sua predileção pelo Caldas Aulete e o seu xodó, o Dicionário Analógico do professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, herança do pai. Em prefácio para a recente edição do analógico, Chico escreveu: “por um bom tempo aquele livro me ajudou no acabamento de romances e letras de canções, sem falar das horas em que eu o folheava à toa”. E depois confessa: “então anotava num Moleskine as palavras mais preciosas, a fim de esmerar o vocabulário com que eu embasbacaria as moças e esmagaria meus rivais”. Um dicionário como o do professor Azevedo é uma mina de diamantes para quem quer escrever. Ou, para ficar na metáfora do querido poeta porto-alegrense, é uma paleta de cores com mais 160 mil tons. Dizia Mário Quintana: "Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor." E, de fato, a maioria de nós não sabe!

Contraditoriamente, ‘num mundo com cada vez mais informação’, estamos atulhando em clichês. E não estou aqui defendendo os floreios gratuitos, mas a precisão do pensamento: "as palavras certas no seu lugar certo", como definiu o escritor irlandês Jonathan Swift. Expressar-se sobre temas complexos com um vocabulário indigente é até perigoso. Enfim, um dicionário analógico é o lugar onde o escrevinhador vai para encontrar a palavra que melhor traduza o seu pensamento. Estou com ele sobre o colo neste momento. E estou também com cinco abas do meu navegador abertas com diferentes tipos de ferramentas linguísticas: um dicionário de sinônimos, o Aulete Digital, a wikipédia, um citário e o google. Só para escrever este texto!

E foi em um momento como este, há cerca de três anos, que tive a ideia de construir o Dicionário Criativo, um site que reunisse em uma mesma página diferentes tipos de dicionários e
obras de referência, empregando a estrutura conceitual do dicionário analógico como seu “coração” e seu “cérebro”. De maneira que pesquisando por um termo ou ideia no Dicionário Criativo, toda uma nuvem de significados e referências relacionados àquela pesquisa se desenrole de uma só vez em janelas contendo diversos tipos de analogias: sinônimos, antônimos, definições, palavras interligadas, associadas, ideias afins, frases famosas, provérbios e expressões populares. Essa ideia se tornou uma paixão e hoje desenvolvo parte do projeto dentro do programa de pós-graduação em linguística da Unesp, sob orientação do professor Bento, um especialista em Linguística Computacional. Estamos desenvolvendo uma inteligência que relacione as analogias da maneira mais criativa possível. Não sou um entusiasta das novas tecnologias, mas acredito que elas têm essa função de servirem como ferramentas para os mais variados anseios da humanidade. Deixemos as máquinas fazerem o trabalho repetitivo e fiquemos com o que melhor sabemos fazer: criar.

Por um lado tenho claro que o Dicionário Criativo não é uma “calculadora de poet
a”, nem um “vitamínico da criatividade” –- como poderiam ironizar alguns puristas. Ele não cria nada, apenas favorece o trabalho de quem cria. Por outro lado, talvez em prejuízo dos mesmos puristas, com esse trabalho reafirmo a minha convicção de que escrever e criar são ofícios, exercícios da nossa mais ampla humanidade, e não resultado de uma inspiração divina, como apregoam por aí. Escrever bem é consequência do trabalho gradual e da entrega apaixonada de cada um. Tanto melhor se as ferramentas que temos nos ajudem a chegar lá.

A internet, pouco a pouco, vem democratizando os meios de comunicação e difusão de ideias. Que tal democratizarmos os meios de produção também? Convido-os a constru
írem junto comigo o maior dicionário de analogias da internet e a participarem do seu financiamento independente. Para ajudar, bolei uma campanha em que cada pessoa pode adotar uma palavra do Dicionário Criativo, tendo seu nome/link vinculado a ela sempre que ela for pesquisada. Você tem alguma palavra que goste em especial? Entre no site e veja se ela ainda está disponível. Cada palavra só pode ser adotada por uma pessoa! Se estiver, preencha seu nome, seu e-mail e depois entre no site do Catarse para finalizar sua adoção. O maior dicionário da internet, com sua ajuda, será em língua portuguesa!

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