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Sunday, December 4, 2011

QUAL A DIFERENÇA ENTRE SANCTOS E OUTROS MASCUS?

Todos enfrentam um deserto sexual, nas palavras de um mascu.

O post anterior gerou comentários interessantes. Um mascu jurou: "Nunca mais serei penetrado por uma feminazi!". Outro assumiu sua preferência por travestis, o que, convenhamos, no mundo extremamente preconceituoso em que mascus vivem, takes balls. Mas o clima geral dos mascus que comentaram aqui foi mesmo de revolta, algo na linha do "Como vocês ousam nos comparar aos Sanctos?! Eles são doentes, enquanto nós somos racionais!".
Bom, pra quem insiste que há muita diferença entre os Sanctos e outros mascus, por favor, vejam meus vários posts sobre masculinistas, e vejam se a única diferença não está na intensidade do ódio às mulheres e aos demais grupos discriminados de sempre. Este post, por exemplo, é de um racismo a toda prova. Esses comentários que cito no post não foram tirados do blog que os Sanctos pegaram para continuar o legado do Silvio Koerich e incriminar outros mascus. Foram tirados de um fórum mascu que se auto-intitula o maior de todos, e que coloca um aviso na entrada do site dizendo que são contra racismo, misoginia, homofobia, etc. Esses caras não conseguem fazer um só tópico sobre Obama sem chamá-lo de macaco. Não conseguem falar de qualquer mulher negra sem insultar seu nariz, seu cabelo, sua cor. Mas, pra eles, isso não é racismo. Chamar negro de macaco, pra eles, não é racismo! É só opinião pessoal!
Aí quando eu aponto esse disparate um mascu me diz: “Ah, mas vc pega cada comentário... Isso é comentário individual, não é a opinião do fórum, tem muito cara que chega aqui revoltado...”. Bom, primeiro que é pra se perguntar por que o movimento mascu não só no Brasil, mas em outros países, atrai tantos desequilibrados. O que vocês pregam que tem o potencial para servir de ímã pra homens como Wellington, do massacre de Realengo, e do atirador na Noruega? Segundo, este fórum que citei tem moderação, que bane qualquer mulher que tenta comentar e qualquer cara que diga ser de esquerda (ou que discorde das diretrizes do blog de modo geral. O ápice do fórum foi fazer uma pesquisa perguntando “Qual sua orientação política?”, e banir automaticamente os dois ou três usuários ingênuos que apareceram dizendo “esquerda”). Mas leva meses até o fórum banir um sujeito como o tal de Cobra, racista declarado. Num dos prints do orkut que um mascu me enviou, um Sancto dizia algo com que preciso concordar: os homens honrados falam que não querem nenhuma associação com o nosso racismo, mas olha só o que o Cobra publica lá no fórum deles, se não é igual ao que nós dizemos. E é. E não é só o Cobra, são todos.
Por isso que, quando quero exemplificar o grau de insanidade dessa gente, sempre dou preferência em pegar comentários dos próprios moderadores e do criador do fórum. Por que aí qual a desculpa para justificar seus inúmeros preconceitos?
Em quinze minutos de fórum hoje, só lendo por cima os tópicos mais atuais, vi isso:
- Sobre um membro que pergunta por que, se os mascus acham que o casamento é uma instituição falida, eles são contra o casamento gay (uma boa pergunta). “Com certeza, esse foi um dos tópicos mais nojentos da história do fórum. O relativismo desse tópico atingiu os níveis mais inacreditáveis que se poderia imaginar.” Sr. X, moderador. O mascu que ousou fazer tal pergunta foi banido.
- Primeira manifestação do criador do fórum sobre o mesmo tópico: “Demorou pra banirem esse gayzista daqui. Gosta de gays? Dê o C* pra eles então, filho da p*ta.” [os asteriscos são por minha conta].
- “O homossexualismo é tão natural quanto a zoofilia, o sado-masoquismo, a coprofilia e qualquer outra parafilia existente.” Também do criador do fórum.
Mas isso não é homofobia! Homofobia é apenas quando um homem hétero mata um gay. E, ainda assim, só se esse pobre assassino não tiver um motivo justo pra isso!
Como esses comentários do criador do fórum são diferentes dos dos Sanctos?

Do criador do fórum para uma mulher (declaradamente anti-feminista!) que ousou comentar no blog: “Vou repetir o que falei para a outra 'maria exceção' que apareceu aqui hoje: 'enfie sua opinião diferente no C*, sua arrombada!'”
Não enxotaram a prostituta daqui ainda?” De um colaborador e moderador de outro fórum mascu.
De outro moderador: “Os melhores homens digno (sic) de relacionamento enfrentam o deserto sexual, pegam mulheres a cada cometa halley, e muitos em fase adulta são virgens. A libido do homem é absurdamente maior que da mulher. Toda mulher faz sexo com um homem em troca de algum interesse, TODA, ou por puro ego, status, emoção, viagens, jantares etc. O problema é que é impossivel ter um debate com vcs mulheres, pois nós homens temos a necessidade de dizer coisas que fazem sentido, e vcs não sabem o que é isso, por serem ilógicas e irracionais."

Num post dizendo que mulheres estão destruindo o mundo ocidental e, portanto, devem parar de querer competir com os homens no mercado de trabalho e voltar pra casa, pra cuidar dos filhos, uma mulher comenta, e o criador do fórum responde: “Se essa mulher concorda com o tópico, então que caia fora daqui e vá buscar uma cerveja para o seu macho e lavar a louça.

Mas nada disso é machismo ou misoginia. Misóginos são os Sanctos! Mascus como os do fórum apenas pregam o desenvolvimento pessoal! E estou falando apenas deste fórum, mas pegue qualquer blog ou fórum mascu, sem exceçao, e as sandices cheias de ódio se repetem.
Falando sério: o único jeito de mascus não serem vistos (e não apenas por feministas, mas pela população em geral) como os preconceituosos que são é trancando os fóruns e blogs apenas pra membros. Assim vocês dialogam só entre si, com outros homens sem nenhum senso de realidade. E aí vocês podem repetir o mantra de que vocês não são preconceituosos, apenas justos, e de que mulheres, seres irracionais e burros que são, só gostam de cafas, não de vocês, homens maravilhosos e viris como os búfalos. Afinal, contra a Real não há argumentos, não é?

Tuesday, August 30, 2011

ESTADO LAICO, QUERO UM PRA VIVER

Marcha do Rio na semana passada



Domingo passado teve Marcha pelo Estado Laico em São Paulo e Recife, e durante a semana, no Rio. Haverá outras, em Florianópolis (hoje mesmo!), Curitiba (17/9) e Brasília (30/11) — você pode ver aqui o calendário com os locais de encontro. Mas é impressionante. Basta divulgar esses protestos no Twitter pra receber mensagens como “falta do que fazer”. Eu acho que todo mundo deveria participar dessas marchas, inclusive as pessoas religiosas. Porque é um Estado Laico que garante a sua liberdade religiosa. E você gosta disso, não é? De ter liberdade pra crer no que quiser, pra se reunir num lugar com outras pessoas e celebrar o seu deus. Pois é. Eu, ateia, fico feliz que você tenha liberdade pra isso. Mas também exijo liberdade para não ir ao seu templo ou acreditar no seu deus, ou em deus nenhum.

Lembro de, no ano em que vivi nos EUA (entre 2007 e 08), ter lido e visto coisas incríveis. Coisas que felizmente não são tão fortes por aqui, mas estão chegando rápido. Os fundamentalistas cristãos nos EUA representam 25% da população. Se dependesse deles, a maior potência mundial seria uma teocracia. Sério mesmo. Eles não apenas querem manter o direito de discriminar gays e retroceder quase meio século no que se refere às conquistas das mulheres e dos negros, como gostariam de banir ateus e não-cristãos do serviço público. Dessa forma, um professor de escola primária que fosse islâmico, por exemplo, seria posto no olho da rua. Médico ateu trabalhando em hospital público? Nem pensar. Muitos fundamentalistas cristãos gostariam de retornar aos tempos bíblicos. Eles defendem abertamente que um homem que não trabalhe não possa comer. Na realidade, eles são contra o governo — qualquer um. Gostariam de instituir os dez mandamentos e ver o país se transformar num único grande templo.

Eu tenho um pouco de medo dessa gente. Já foi perigoso o suficiente quando o presidente da nação mais poderosa do planeta disse invadir um outro país porque Deus quis assim. Eu vi os índices de gravidez na adolescência nos EUA subirem, porque Bush acabou com os programas de educação sexual, substituindo-os por aulas de abstinência. Eu acho que todo mundo deveria poder se expressar, mesmo que seja pra expressar preconceitos. Claro que eu preferia que não houvesse preconceitos. Mas, assim como não quero me meter (e nem quero que o governo se meta) nos assuntos religiosos, quero que os religiosos não se metam em assuntos de Estado. É bem simples: se uma religiosa é contra o aborto e ela tiver uma gravidez indesejada, ela deve ter toda a liberdade para não abortar. Se um religioso for gay e tiver certeza que sua orientação sexual o levará ao inferno, ele que tente não ser gay (não fazendo sexo, ou fazendo o esforço supremo de se casar com alguém do sexo oposto). Se um casal religioso quer que seus filhos pratiquem a religião, eles que a ensinem em casa, ou que coloquem a prole numa escola particular que siga aquela religião. Se um religioso tiver uma doença terrível e irrecuperável e for contra a eutanásia, ele que siga vivendo até onde der. Mas é prepotência demais querer que seus valores religiosos sejam os de todas as pessoas de um país.

Estado e igreja estiveram juntos, inseparavéis, nos piores momentos da humanidade. Não é bom pra ninguém que crenças religiosas se misturem com direitos e deveres da população. E, apesar de acharmos que vivemos num país laico, muitos de nossos direitos são tolhidos por, no fundo, vivermos num país cristão, em que dogmas da igreja católica (e mais recentemente, das evangélicas) se intrometem no nosso dia a dia. Não há outro motivo para que o aborto não seja legalizado senão a interferência religiosa na vida de todas as mulheres, incluindo as ateias, as de outras religiões, e até as católicas que não têm tanto apreço por uma igreja com os mesmos valores de dois mil anos atrás se metendo em suas vidas. Não há outro motivo para que dezenas de direitos dos homossexuais (e somos tod@s iguais de acordo com nossa Constituição) sejam negados. Fundamentalismo religioso — e é isso que acontece quando mistura-se religião e governo — é ruim sempre, independente da religião no poder.
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