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Friday, April 20, 2012

DEUS, FIQUE LONGE DOS MEUS SAPATOS

Saia da minha calcinha, pede manifestante ateia

Uns dias atrás ateus americanos se reuniram em Washington DC. Até aí, normal — o número de pessoas que assumem não crer em deus vem crescendo mesmo. O que chamou a atenção foram os cartazes muito fofos que alguns deles trouxeram. Seleciono aqui os meus favoritos.“Acredito em vida antes da morte”. Simples e direto. Eu também acredito.Não sei quem este cartaz ofende mais: quem tem pênis ou quem tem religião. Mas concordo totalmente: “Religião é como um pênis... Tudo bem ter um. Tudo bem até se orgulhar de ter um. Mas não é legal mostrá-lo em público, jogá-lo na minha cara, ou querer mandar porque você tem um. Ou me marginalizar porque eu não tenho um.”
Este é meu preferido: "Deus odeia fatos". Em português perde um tanto da graça. A referência é a um dos cartazes mais famosos de uma igreja homofóbica, “God hates fags” (Deus odeia bichonas). Trocando fags por facts fica perfeito, porque também faz alusão ao fato de que religiões não são exatamente guiadas pela lógica.
Esta fala não tem nada a ver com a manifestação em Washington, mas eu a vi outro dia e amei e a traduzi. Ela está creditada a um tal de Matt Shultz, vocalista de uma banda de rock alternativo. Isso se só houver um cara com esse nome. Enfim: “Você pode acreditar num deus. Você pode acreditar num unicórnio morando no seu sapato, que eu não me importo. Mas no dia em que você começa a me dizer como devo calçar meus sapatos para que eu não incomode os unicórnios, aí eu tenho um problema com você. No dia em que você começa a envolver os unicórnios nas decisões feitas neste país, eu tenho um grande problema com você”.

Thursday, February 2, 2012

GUEST POST: NUNCA PERTENCI À HETEROLÂNDIA

A Linda, vamos chamá-la assim, me enviou um relato delicioso sobre a descoberta da sua sexualidade. Meninas que me mandam emails dizendo “Ish, acho que sou lésbica! E agora?”, leiam! Intolerantes de plantão que acham que é melhor viver uma mentira do que ser feliz, leiam também. E pessoas de todos os tipos e credos, leiam, que eu acho que vocês vão se identificar.

Cansei de ficar com isso preso toda vez que alguém liga homossexualidade à falta de vergonha na cara. Então vou escrever aqui tudo o que eu gostaria que essas pessoas, com esse pensamento totalmente ausente de empatia, soubessem.
Cresci numa típica família tradicional de classe média. Um pai, uma mãe, um irmão mais novo. Não era rica, nem sou, mas sempre tive uma vida confortável e com privilégios. Nunca fui maltratada, nem violentada, cresci cercada de homens maravilhosos, a começar pelo meu pai. O relacionamento materno nunca foi dos melhores, mas nada que se diferenciasse muito dos desentendimentos normais de mãe e filha.
Sempre fui diferente. No ensino fundamental achava bobas as meninas que corriam atrás dos meninos bonitinhos e ficavam chateadas quando eles não lhes davam bola. Sofria com a pressão interna do primeiro beijo e de ter histórias amorosas pra contar. Lembro-me de ter uma forte atração por uma coleguinha de classe, mas considerava normal, simples admiração. Com alguma sorte encontrei amigas que tinham os mesmos interesses que eu e tampouco ligavam pra namoro. Nós gostávamos de ler, ver filmes e dançar.
No ensino médio, mudei de escola. Lá os dramas amorosos eram mais frequentes e eu sempre era aquela que não tinha histórias pra contar. Ninguém queria saber sobre os livros que eu estava lendo ou sobre a coreografia que eu havia aprendido. Comecei a achar que talvez era eu que estava demorando demais pra crescer.
Por ser extremamente reservada, ninguém sabia da minha total ausência de vida amorosa. Eu seguia a vida apenas observando. Mas havia uma amiga, muito próxima, de quem eu fazia de tudo pra conseguir atenção sempre. Eu morria de ciúmes dela e era super compreensiva com tudo o que ela fazia, tinha pavor de perder a sua amizade. Chorava noites quando ela se distanciava (ou quando eu achava que ela estava distante) e vivia com uma louca vontade de estar sempre perto dela, abraçá-la o tempo todo. Ela era super carinhosa comigo também, e às vezes até demonstrava ciúmes. E eu achava isso tudo perfeitamente normal –- apesar de com as outras amigas ser completamente diferente. Éramos apenas amigas, muito amigas.
Enquanto ela namorava, eu continuava com meu drama de não sentir vontade de ficar com nenhum dos meninos que se interessavam por mim. Não entendia essa minha "falta" de sentimentos e me autodenominei insensível. Pensei que ninguém jamais seria capaz de me conquistar. Minha amiga/paixão platônica mudou de escola e eu só faltei morrer de tanta saudade. Alguma coisa na minha mente dizia ‘isso não é normal’, mas eu não me importava, não entendia de jeito nenhum. Foi então que cheguei à conclusão de que eu precisava sentir algo. Com minha pouca fé e muita ignorância fiz uma oração no chuveiro pedindo pra Deus fazer eu me apaixonar por qualquer cara que fosse, qualquer um, nem que fosse pra sofrer. Eu só queria sentir, só queria provar a mim mesma que eu não era fria e insensível.
A partir daí passei a observar todos os caras ao meu redor e considerar se eu não estava interessada neles. Tinha um colega de classe que eu até achava bonitinho. Tentei me convencer de estar gostando dele, mas não passou disso. Até que um colega de outra turma teve a coragem de chegar perto abertamente e dizer que tinha sentimentos por mim. Eu mal havia me dado conta da existência do moço, que dirá considerá-lo como parceiro em potencial. Mas ele era legal, uma pessoa querida por todo muito, e gostava muito de mim. Então eu pensei “por que eu não poderia gostar dele também?”, e decidi levar as coisas pra frente, decidi que eu fingiria gostar dele também, e quem sabe eu não me apaixonava? Como uma amiga dizia, eu precisava dar chance às pessoas de me conquistarem. Se não desse certo, eu me mudaria de cidade em alguns meses e usaria isso de desculpa para terminar o namoro. Um plano perfeito.
Lembro-me de chegar em casa na primeira noite em que ele expôs seus sentimentos, e chorar incontrolavelmente e sem saber o motivo, por uns cinco minutos. Tentei, em vão, me convencer de estar perdidamente apaixonada por ele e triste por estar indo embora em pouco tempo. Quando ele oficialmente me pediu em namoro, foi a mesma coisa, a diferença é que eu comecei a chorar no instante em que virei as costas pra ele, depois de dar boa noite. Novamente, eu não fazia ideia do porquê.
Os meses que se seguiram foram uma mistura de fingimentos. Menti pra ele, pros nossos amigos e pra mim mesma. Me afastei de quem eu não poderia enganar e quis muito que aquilo tudo fosse verdade. Queria acreditar nas minhas mentiras como todo mundo acreditava. A parte da pegação era a mais agradável, mas era como ficar com um estranho na balada. Gostoso, mas faltava alguma coisa. Não gostava de conversar com ele e por vezes ficava quieta. Detestava quando ele ligava pra dar boa noite e nós nunca tínhamos assunto. Eu não queria saber nada do que acontecia com ele e estava completamente presa a meus conflitos internos. Desejava não precisar fazer aquilo e poder aproveitar os últimos meses ao lado das minhas amigas. O mais difícil é que eu não conseguia nem arranjar um motivo para terminar, ele era um ótimo namorado, e a única forma seria dizer que eu não tinha sentimentos por ele. Chegou num ponto que isso foi tão forte que eu, sem conseguir arranjar motivo pra terminar o namoro, deixei ele extremamente chateado a ponto de ele terminar comigo. Tirei todo o peso das costas mesmo sabendo que quem tinha provocado o término havia sido eu. Tentei por na minha cabeça que se ele havia terminado, era porque não queria mais nada e eu estava livre.
Ao contrario do início, não derramei uma só lágrima. Contei tranquila a uma amiga e logo passamos a tratar de outras coisas. O ex se arrependeu e correu atrás de mim nas semanas seguintes, mas eu não iria voltar de jeito nenhum. Ele queria acreditar que eu estava mal, mas eu nem me importava em fingir isso também. Viajei. No último dia que passei na cidade acabamos ficando. Mais tarde tive uma briga feia com a minha mãe e fui encontrar com ele aos prantos. Ele perguntou se eu estava chorando pela briga apenas ou se estava chorando, também, porque iria sentir falta dele. Menti de novo. Não iria magoar alguém que não havia feito nada pra merecer ser parte do meu teste. Ele não merecia isso. Fui embora me sentindo a mais filha da p*ta das criaturas e jurei que nunca mais namoraria alguém que eu não gostasse. Nunca mais iludiria alguém.
Um bom tempo passou sem que eu não fizesse nada além de estudar. Não tinha amigos na nova cidade e meu relacionamento em casa continuava muito ruim, mas me convenci de que não precisava de ninguém e que a minha vida era estudar. Cheguei a ficar com alguns garotos aleatoriamente, mas me sentia muito desconfortável com eles e tinha ânsia só de pensar em sexo. As férias chegaram e eu fui visitar aquela amiga/paixão platônica. Fazia mais de um ano que não nos víamos. Foram ótimas férias e não nos desgrudamos durante o período que passei lá. Porém, alguma coisa na atitude dela me fez achar que a nossa amizade ia além. Nunca tive certeza se foi apenas exagero meu. Voltei pra casa e as imagens dela continuavam vindo a minha mente, principalmente durante as aulas, pensava nela o tempo todo. No início eu tentava bloqueá-las, mas aos poucos fui me convencendo de que não havia nada que eu pudesse fazer para continuar negando meus sentimentos por ela. Eu a amava, e o primeiro passo para me entender era admitir isso. Depois de admitir meus sentimentos e sofrer mais um pouco, comecei a me dar conta de que precisava entender o mundo ao qual eu fazia parte. Eu havia sido instruída na Heterolândia, e por mais que nunca houvesse pertencido a esse lugar, não fazia ideia de como deveria lidar com o mundo sendo lésbica.
Comecei a ler, muito. Procurei blogs, li artigos, reportagens, entrevistas, contos, poesias, procurei explicações na psicologia. Busquei todas as informações que estavam a meu alcance, e apesar de serem poucas, elas me ajudaram. Assisti muitos filmes e vídeos também. Comecei a entender o que as frases de amor diziam, o que as pessoas diziam e me peguei chorando ao assistir romances. Me vi fazer tudo aquilo que eu via as outras meninas fazerem e nunca entendia. Percebi que o interesse que algumas mulheres despertavam em mim desde sempre era o mesmo que as outras meninas sentiam, mas em relação aos homens. Durante esse período, entrei na faculdade. Já num dos primeiros dias de aula, uma menina linda e super estilosa chamou minha atenção. Ela fazia algumas aulas comigo e eu comecei a me interessar muito por ela. Mais uma vez tentei me interessar por algum dos meninos que me cercavam, sem sucesso. Inconscientemente minha atenção se voltava pra ela e era um esforço enorme ignorá-la. Era isso: eu não gostava dos garotos, nunca havia gostado e nem conseguiria, não havia nada que eu pudesse fazer.
Numa viagem de férias finalmente tive coragem de ficar com meninas, e foi uma descoberta maravilhosa, como um estalo. Algo como “Ah eu sou lésbica, claro! Como não percebi isso antes?”. Era algo que fazia parte de mim. É claro que ao mesmo tempo que veio o alívio e a autocompreensão, surgiu um novo conflito interno. Eu havia sido criada em uma família extremamente religiosa, e por mais que nunca houvesse concordado com tudo o que me diziam -– nem dentro nem fora das igrejas -– eu ainda tinha muito medo do que Deus ia achar de mim. Fiquei muito brava por um tempo por achar que Deus estava me testando ao fazer isso comigo. Na minha lógica, se Deus achava que era errado eu ser homossexual, por que ele havia me feito lésbica, ou me deixado tornar lésbica? Por que ele simplesmente não me fez gostar de homens? Ele é Deus, é uma coisa simples pra ele. Mas as pessoas insistiam em dizer que Deus testa as pessoas fazendo com que elas tenham vontade de fazer coisas que ele acha erradas, pra que elas provem seu valor para ir para o paraíso.
Sendo assim, na lógica delas, eu deveria ignorar meus sentimentos e atração por mulheres e viver relacionamentos heterossexuais falsos, exatamente como meu primeiro e único namoro, pois dessa forma eu estaria provando a Deus que eu sofreria a minha vida inteira para ter uma chance no paraíso. Mas essa ideia que as pessoas insistiam em por na minha cabeça não fazia sentido algum pra mim, pois ia de encontro ao que eles pregavam sobre Deus amar as pessoas. Um deus que quer que eu abdique da minha vida amorosa, viva uma mentira e sofra a vida inteira pra provar meu amor por ele, é um deus que me ama?
Deixei de acreditar no que as pessoas diziam sobre Deus, pois se acreditasse ia acabar com muita raiva dele. Eu sabia que Deus estava lá, eu acreditava nele, só não conseguia acreditar no deus de pseudo-amor que as religiões me mostravam, pois esse deus odeia quem eu sou. Finalmente me acalmei quanto a isso e cheguei à conclusão de que se Deus quiser me mostrar ou dizer alguma coisa, ele vai ter que achar outro meio de fazer isso que não seja através dessas pessoas prepotentes que usam a religião para justificar o domínio de uma maioria.
Mas eu tinha outros problemas também. Eu ainda dependia do dinheiro da minha família, e ela jamais aceitaria minha sexualidade e minha opinião diferente. A religião que eles possuem -– a maioria das religiões, na verdade -- tem uma grande dificuldade de lidar com o diferente. Se você quer conviver, tem de se adequar. E se adequar no meu caso significava me manter dentro do armário e viver uma falsa heterossexualidade disfarçada de falta de tempo para relacionamentos. O que significava também: nada de xavecar as gatas da turma da faculdade, até que eu tivesse uma independência total, incluindo a financeira.
Eu contei toda essa longa história de autodescoberta e aceitação pra mostrar que não foi por causa de violência sexual, falta de parceiros em potencial, curiosidade, tédio, vontade de ser diferente, MUITO MENOS falta de vergonha na cara, que eu me ‘tornei’ gay. Eu sou lésbica porque sou lésbica, ponto. Se nasci assim ou me tornei, eu não faço ideia, só sei que é o que eu sou. E o máximo que posso fazer é negar isso e causar sofrimento a mim e a outros, coisa que eu não vou fazer, porque eu tenho outra opção: a de ser feliz.

Saturday, January 21, 2012

GUEST POST: CAMISINHA E BOATOS NÃO TÊM HORA

Vinicius tem 24 anos, é estudante de Medicina, e me enviou o seguinte relato -- que me fez lembrar bastante nas campanhas de abstinência sexual e outras besteiras.

Sou leitor do seu blog há algum tempo, e você é ótima. Adoro sua lucidez.
Não sei se você usa o Facebook [Nota da Lolinha: Não, not yet]. Lá, vez por outra, aparecem umas "campanhas" que me deixam nauseado. Sou estudante de medicina e esses dias um colega de curso postou uma foto no Facebook que faz parte desse tipo de material deseducativo. Mais uma daquelas campanhas que marcham contra a saúde pública. O panfleto estampa em letras tamanho 100 os dizeres: A camisinha não te protege. Na coluna à direita, utilizando uma fonte reduzida, aparece: da culpa da vergonha do medo da inseguranZzZzZzZ (insira aqui os clichês. Muitos). Embaixo o gran finale: SEXO TEM HORA. Não há prazer maior do que obedecer a deus. Preserve-se. Confesso que um botão NÃO CURTIR naquela hora fez uma falta danada.
O autores da peça publicitária fazem parte do Ministério Entre Jovens do Rio de Janeiro, ligado à Igreja Assembleia de Deus. Eles vendem os "folhetos evangelísticos" via internet. O pacote com 100 unidades custa R$ 4,00 mais o frete. Além de pregar contra a saúde pública, há panfletos contra um monte de outras coisas, inclusive (pasmem) o halloween.
O fato é que fiquei estarrecido e revoltado. Primeiro pela divulgação irresponsável desse tipo de campanha. As pessoas se esquecem do poder de alcance da rede social e dão RT em qualquer besteira sem sequer pensar na quantidade de gente que irá ler aquilo e consequentemente formar uma opinião.
Há dois anos, durante a campanha de vacinação contra a gripe, ocorreu fato semelhante. Divulgaram via e-mail que a vacina estava na verdade provocando a gripe e incitava o
s idosos a não irem se vacinar. Felizmente a campanha atingiu uma boa meta de imunização e o boato foi pras cucuias. Isso é muito perigoso. Espertinhos que querem continuar no anonimato adoram começar "polêmicas" dessa forma. Nada mais cômodo. Acho que o pior de tudo foi o fato da informação ter sido passada a mim por um futuro profissional da saúde, que irá ter a camisinha como recurso na promoção da saúde de seus pacientes.
Você é evangélico e sua igreja prega a castidade? Ótimo. Siga a castidade e seja feliz desse jeito. Porém saiba que no seu consultório não irão aparecer somente irmãos-castos-da-igreja (eu não boto minha mão no fogo por ninguém, que fique claro). Você vai precisar atender pessoas que optaram por utilizar o sexo como forma de prazer. E aí? Você irá pregar a palavra pro paciente dentro do consultório, convencendo-o a seguir a bíblia e praticar o sexo somente como está escrito lá, ou oferecerá a camisinha e outros métodos contraceptivos como forma de prevenção? Qual é a sua atribuição dentro do serviço de saúde, evangelizador ou médico?
Isso não acontece somente em relação aos métodos contraceptivos, acontece também no atendimento ao abortamento de risco, ao paciente hepatopata cirrótico, ao depressivo suicida. Todos destratados e discriminados durante o acolhimento no serviço de saúde.
Claramente o panfleto prega a favor do sexo com fins reprodutivos e contra a utilização da camisinha. Dessa forma, alimentando as várias polêmicas que já surgiram sobre sua eficácia, desde se há porosidades no látex até a grande incidência dos rompimentos do material durante a relação sexual. O Ministério da Saúde, o órgão competente para emitir pareceres sobre a situação da saúde no país, emitiu uma nota bastante didática e clara sobre o método. O resumo da ópera é o que todo mundo já sabia: a camisinha tem uma eficácia estimada em torno de 90-95% na prevenção da transmissão do HIV. Protege. E MUITO.
Outra: se estorou é porque ela foi mal colocada por falta de instrução adequada. Da
í apareceu um monte de gente, que cabulou a aula de porcentagem no ensino fundamental, dizendo: Não, se não protege 100% então não é eficaz. Queridão, a chance de você morrer ao cair de uma cadeira é de uma em 4 473. Você vai deixar de se sentar por causa disso? E não me venham com a conversinha de que sexo pode ser evitado. Andar de bicicleta, viajar de avião, nadar na praia e até andar debaixo de coqueiros também pode, e eu não conheço nenhum igreja que seja contra isso. Fica claro que é uma discussão muito mais puritano-moralista do que científica. Como tantas outras (aborto, células tronco, homossexualidade) nas quais a religião quer se impor enquanto autoridade que necessita ser consultada pela ciência.
Depois de tantos boatos, instalou-se uma confusão na cabeça das pessoas. Muitos líderes religiosos embasaram-se nessa falácia dos 10% para propagar a suposta falta de eficácia da camisinha. Criou-se um pânico coletivo e uma série de distúrbios psiquiátricos vieram à tona. Pacientes que já eram propensos a depressão, desenvolveram-na. Pacientes com crises de ansiedade chegaram até a fazer uso de ansiolíticos. Pacientes repetindo o mesmo exame várias vezes e sobrecarregando o serviço. Não duvido nada ter ocorrido casos de suicídio somente pelo temor de ter contraído o vírus. Enfim, a histeria coletiva. A troco de quê?

Thursday, October 20, 2011

GUEST POST: ATEOFOBIA, NEGAÇÃO DA LÓGICA ATEÍSTA E INCITAÇÃO À INTOLERÂNCIA

Deus não acredita em ateus; logo, ateus não existem.

Robson, do blog Consciência, já nos deu um guest post importante (dividido em três partes) sobre por que não se deve mais usar homem quando queremos dizer humano. Agora ele fala de um outro problema, a ateofobia e a incitação do ódio contra os ateus.

Que triste! Esses pedófilos não têm Deus no coração!”. Assim foi a expressão de diversos religiosos no Twitter depois do caso do blog de pedofilia que foi alvo de campanha de denúncia em massa no site na madrugada de 26 para 27 de junho últimos. Numa investida coletiva contra pedófilos, quem acabou em parte pagando o pato foram os ateus, cuja descrença em divindades acabou sendo a ferramenta dos ateofóbicos para os equipararem a criminosos. Porque, afinal, para eles não existe o bem sem Deus, o que podemos explicar por diversos motivos.

Essa é uma das várias formas de cristãos fundamentalistas expressarem seu etnocentrismo religioso que, direta ou indiretamente, nega a existência de qualquer lógica em credos ou não credos que excluam o deus bíblico. Para essas pessoas, existe amor, bondade, justiça, compaixão, ética, o bem quando seu deus está presente. Seres humanos são vistos como incapazes de qualquer realização benigna sem a influência da divindade.

Isso leva à crença de que a falta de Deus é tudo de ruim. É maldade, é imoralidade, é perversidade, é injustiça, é violência. Só que quem pensa assim acaba ignorando, ou até mesmo desconhecendo, que existem pessoas que não acreditam nesse deus e não são ruins. E fatalmente a ignorância dos que não acreditam em uma lógica fora de Deus acaba se convertendo num preconceito dos mais pesados.

E isso vem aumentando à medida em que esses crentes começam a usar mais intensivamente a internet e se deparam com os ateus se expressando nas redes sociais. Se por um lado continuam imersos em uma fantasia onde o ateísmo enquanto descrença provida de lógica própria não existe, por outro chocam-se (em todos os sentidos) com os descrentes e declaram-lhes aversão. O que dá origem à estereotipação lógica de associar a descrença ateísta/”falta de Deus no coração” à criminalidade e à perversidade e, por tabela, taxar ateus como imorais e potenciais criminosos.

O perfil @ateus_atentos no Twitter, pelo qual o ativista em prol do respeito aos ateus Daniel Sottomaior denuncia, com minha colaboração, a ateofobia naquela rede-microblog, escancara quase diariamente essa endemia de ateofobia. Os ditados preconceituosos e aversivos que encontra e expõe via retweets nos permitem concluir o que este artigo teoriza: a intolerância contra quem não acredita em Deus se explica tanto pela fantasia religiosa em que se nega a existência de uma lógica não teísta como pela reação de estranhamento hostil à até então ignorada existência de ateus, mais um terceiro motivo que explico adiante.

Ideal e teoricamente isso só diminuiria até o status de comportamento minoritário e socialmente inaceito quando as igrejas em geral começassem a aceitar a existência dos descrentes em Deus e buscar interpretações bíblicas que incentivem a coexistência respeitosa entre cristãos e ateístas.

Porém isso é muito improvável hoje em dia, uma vez que nem mesmo a existência de uma categoria ainda mais óbvia e tornada visível, a dos LGBT, é aceita e tolerada pela esmagadora maioria das denominações cristãs. E o pior é que lésbicas e gays são discriminad@s pelos cristãos por muito menos -– amar pessoas do mesmo sexo –- do que os ateus que, quando incitados, negam a existência da entidade suprema do cristianismo, algo inaceitável e hediondo para muitos religiosos.

E há um segundo motivo que na prática inviabiliza a generalização do respeito aos descrentes: a existência de ateus prósperos e de “bom coração”, que respeitam as leis humanas e portam muitas virtudes sem precisarem se escorar nos ditames morais cristãos, prova que é sim possível uma vida reta, ética e próspera sem Deus. Assim o ateísmo acaba sendo encarado como uma ameaça aos desígnios das igrejas de se manterem em crescimento e arrogarem o monopólio sobre a moral humana.

Aceitar a existência de uma lógica de vida desprovida da divindade seria abrir as portas dos templos para os fiéis evadirem do controle social e psicológico exercido pelos sacerdotes, bispos e padres. E isso contraria os interesses daqueles clérigos mais inescrupulosos, avessos à liberdade de aderir e desaderir de religiões por livre-arbítrio.

Isso explica grande parte do porquê de as igrejas não adotarem de bom grado o princípio da tolerância para com ateus e preferirem manter os fiéis presos na Caverna de Platão onde o ateísmo é nada mais do que a sombria “falta de Deus” e, logo, a compilação de tudo o que é mau, imoral e perigoso. E nos revela mais uma razão, talvez a mais forte de todas, para a ateofobia que se escancara tantas vezes em que pedófilos, racistas e assassinos são denunciados à sociedade: os clérigos incitam a intolerância.

Essa incitação ganha toda uma lógica quando é observado o seu paralelo atualmente mais em evidência, a incitação dos crentes à homofobia por parte dos regentes das igrejas. Estes, ao mesmo tempo em que mantêm íntegra a Caverna de Platão sem ateísmo, açulam a caluniosa e difamatória crença de que quem deixa de crer em Deus se entrega às trevas, ao capeta, se torna mau como o Pica-Pau e compra uma passagem só de ida para o inferno eterno. Isso de uma forma um tanto parecida com quando incitam o ódio contra quem desobedece aos ditames homofóbicos do Pentateuco bíblico.

Assim, esperar que as denominações cristãs voluntariamente façam as pazes com os incrédulos acaba sendo uma ingenuidade. A solução para a inaceitabilização social da ateofobia é bem mais complicada do que isso. Penso que há pelo menos duas alternativas realistas hoje: levar a cabo iniciativas neoateístas de contrapropagandeamento das religiões mais intolerantes e retromorais, ou incentivar-se entre os ateus a disposição de se reunirem em torno da causa antipreconceito, tornando esta a segunda coisa em comum entre grande parte deles (a primeira é a própria descrença em deuses).

Como não sou um neoateu que deseja o fim de qualquer forma de crença religiosa -– embora deseje sim o colapso daquelas denominações eclesiais, hoje tão numerosas, que têm a fanatização, a atrofização intelectual, a retromoralidade e o açulamento de intolerâncias como praxes –-, eu aposto na segunda opção. A questão é como torná-la realidade neste contexto atual em que nem mesmo os próprios ateus, talvez em sua maioria, reconhecem ser alvos de preconceito e discriminação e tantos em sua categoria rejeitam associar-se a grupos de mobilização seja lá quais forem. [Adendo da Lola: eu incluo outro entrave -- infelizmente, há muitos ateus machistas, homofóbicos e racistas. Ficaria estranho se eles abraçassem uma causa antipreconceito].

Wednesday, October 5, 2011

QUAL A MAIOR ABOMINAÇÃO: SER GAY OU COMER MOLUSCOS?

O leitor Luiz Prata deixou este interessante comentário no post sobre feminismo e cristianismo. Descobri apenas que o texto é atribuído ao Rubem Alves, mas na internet não dá pra ter certeza. Na realidade, parece ser uma tradução de uma cena da série The West Wing.
Como sabemos, religiosos que levam a bíblia ao pé da letra costumam ser seletivos: certos trechos, como os que dizem que homossexualidade (que os religiosos sempre chamam de homossexualismo, pois pra eles trata-se de doença) é uma abominação, são literais. Outros são parábolas e precisam ser vistos no contexto da época. É pra deixar qualquer um confuso. Um ouvinte da locutora americana e fundamentalista cristã Laura Schlessinger lhe mandou uma carta com suas dúvidas.

Cara Dra. Laura,
Obrigado por ter feito tanto para educar as pessoas no que diz respeito à Lei de Deus. Eu tenho aprendido muito com seu show, e tento compartilhar o conhecimento com tantas pessoas quantas posso. Quando alguém tenta defender o homossexualismo, por exemplo, eu simplesmente o lembro que Levíticos 18:22 claramente afirma que isso é uma abominação. Fim do debate.
Mas eu preciso de sua ajuda, entretanto, no que diz respeito a algumas leis específicas e como seguí-las:
a. Quando eu queimo um touro no altar como sacrifício, eu sei que isso cria um odor agradável para o Senhor (Levíticos 1:9). O problema são os meus vizinhos. Eles reclamam que o odor não é agradável para eles. Devo matá-los por heresia?
b. Eu gostaria de vender minha filha como escrava, como é permitido em Êxodo 21:7. Na época atual, qual você acha que seria um preço justo por ela?
c. Eu sei que não é permitido ter contato com uma mulher enquanto ela está em seu período de impureza menstrual (Levíticos 15:19-24). O problema é: como eu digo isso a ela? Eu tenho tentado, mas a maioria das mulheres toma isso como ofensa.
d. Levíticos 25:44 afirma que eu posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, se eles forem comprados de nações vizinhas. Um amigo meu diz que isso se aplica a mexicanos, mas não a canadenses. Você pode esclarecer isso? Por que eu não posso possuir canadenses?
e. Eu tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados. Êxodo 35:2 claramente afirma que ele deve ser morto. Eu sou moralmente obrigado a matá-lo mesmo?
f. Um amigo meu acha que mesmo que comer moluscos seja uma abominação (Levíticos 11:10), é uma abominação menor que a homossexualidade. Eu não concordo. Você pode esclarecer esse ponto?
g. Levíticos 21:20 afirma que eu não posso me aproximar do altar de Deus se eu tiver algum defeito na visão. Eu admito que uso óculos para ler. A minha visão tem mesmo que ser 100%, ou pode-se dar um jeitinho?
h. A maioria dos meus amigos homens apara a barba, inclusive o cabelo das têmporas, mesmo que isso seja expressamente proibido em Levíticos 19:27. Como eles devem morrer?
i. Eu sei que tocar a pele de um porco morto me faz impuro (Levíticos 11:6-8), mas eu posso jogar futebol americano se usar luvas? (as bolas de futebol americano são feitas com pele de porco).
j. Meu tio tem uma fazenda. Ele viola Levíticos 19:19 plantando dois tipos diferentes de vegetais no mesmo campo. Sua esposa também viola Levíticos 19:19 porque usa roupas feitas de dois tipos diferentes de tecido (algodão e poliéster). Ele também tende a xingar e blasfemar muito. É realmente necessário que eu chame toda a cidade para apedrejá-los (Levíticos 24:10-16)? Nós não poderíamos simplesmente queimá-los em uma cerimônia privada, como deve ser feito com as pessoas que mantêm relações sexuais com seus sogros (Levíticos 20:14)?
Eu sei que você estudou essas coisas a fundo, então estou confiante que possa ajudar. Obrigado novamente por nos lembrar que a palavra de Deus é eterna e imutável. Seu discípulo e fã ardoroso.

Monday, September 26, 2011

NINGUÉM MAIS ACREDITA EM EVOLUCIONISMO

No velho Éden ele nasceu, e entre bravos se criou...

Talvez até não seja uma boa amostra, mas parte de um vídeo com candidatas a Miss USA deste ano é estarrecedora. É quando as cinquenta candidatas (justiça seja feita: tem muito mais diversidade racial nesse concurso que no nosso Miss Brasil, que não contou com uma única negra) respondem à pergunta “Evolução deve ser ensinada nas escolas?” Imagino que aqui no Brasil, se essa pergunta fosse feita a misses, a resposta seria de total incredulidade, algo como “Ué? Isso tá em discussão?”. Mas nos EUA é diferente. Ensinar evolução nas escolas é um dos motivos que mais fazem pais religiosos não deixarem seus filhos estudar fora, preferindo ensiná-los em casa para que não sejam “contaminados” por uma educação secular. Até uns quinze anos atrás, uma indagação dessas seria vista com estranheza até nos EUA. Mas hoje, é apenas vista como “uma pergunta difícil”. O que mostra que os religiosos ganharam: a evolução é considerada só uma teoria, com menos provas que o criacionismo (que tá na bíblia). Leia o que algumas misses responderam (minha tradução):

Miss Alabama: “Evolução? Não. Eu não acredito em evolução, não acho que deveria ser lecionada nas escolas, e eu não encorajaria isso”.
Miss Alasca: “É importante lecionar, porque faz parte das nossas crenças, mas pessoalmente, não acredito em evolução, acho que cada um de nós foi criado com um propósito, por deus, e isso dá a minha vida mais sentido”.
Miss Indiana: “Eu não sei. Vamos deixar isso pro governo. Muita gente seria contra se evolução fosse ensinada nas escolas”.
Miss Kentucky: “Informação sobre um assunto nunca é demais, mas eu acho que evolução não deveria ser ensinada nas escolas, porque há tantas opiniões, tantas definições. Como ensinar uma criança sobre a definição verdadeira de evolução quando tantas culturas têm suas teorias diferentes? Não é um bom assunto, as pessoas não vão chegar a um acordo”.
Miss Lousiana: “Eu acho que sim. Eu acho... Oh deus!”
Miss Massachussetts: “Acho que sim. Eu aprendi a teoria da evolução, mesmo estudando numa escola religiosa”.
Miss Michigan: “Deve ser ensinado nas escolas, porque é bobagem não conhecer os dois lados”.
Miss New York: “Eu pessoalmente acredito que evolução deve ser ensinada nas escolas, e também que religião seja ensinada”.
Miss South Carolina: “Se os pais estiverem de acordo, por que não?”
Miss Utah: “É difícil. De toda forma, alguém vai se ofender”.

A pergunta é tão cabeluda pras candidatas americanas (e não vale dizer que misses são burras; uma miss de um estado provavelmente já é celebridade faz tempo, tem muito treinamento, horas e horas de entrevistas. Não há espaço pra amadoras num Miss America) que as melhores respostas acabam sendo as mais tolerantes, do tipo “Sim, por que não? É uma das crenças”. Como o ótimo blog Sociological Images explica, este é um bom exemplo da normatização da ideia de que a evolução é “um lado da história, a religião sendo o outro lado, e que nós deveríamos simplesmente escolher entre essas duas histórias baseado no lado que nos faz sentir mais confortável”. Pra mim é um exemplo do perigo que é um estado não-laico, algo que sempre ameaça ganhar força em muitas partes dos EUA.
É também um problema de quem pensa que teoria é uma opinião, algo sem base nenhuma, como se dizer que o Big Bang aconteceu equivalesse a dizer “eu gosto de chocolate”. Lógico que a ciência deve ser questionada, ou senão vira uma outra religião, acima do bem e do mal. Mas há tantas evidências comprovando que dinossauros viveram (bem) antes da gente, e que os bichos se transformam e se adaptam ao longo dos tempos, que é duro levar a sério o pessoal que vê nos Flintstones um documentário.
Querer que “dois lados” expliquem nossas origens me fez pensar em como os saudosistas (pra usar uma palavra gentil) gostariam que o golpe militar de 1964 fosse ensinado no Brasil como “revolução” (aquela ladainha que, se não fossem os militares que salvaram o país, os comunistas brasileiros ― que eram tantos e tão organizados, como sabemos, e liderados por Jango, aquele comuna-mor ― o Brasil teria virado Cuba), e como golpe de estado que nos mergulhou numa ditadura sanguinária e de direita que durou 21 anos. Bom, talvez o lado da “revolução de 64” prefira que o lado do golpe militar seja esquecido.
Mas tem sempre a história dos “dois lados”. Já cansei de ouvir que feministas seriam chamadas prum determinado debate, desde que “o outro lado” também fosse ouvido. Quem? Os machistas? Conheço bastante gente que até acharia aceitável que tolerância aos homossexuais fosse ensinada nas escolas, desde que “o outro lado” também fosse. Ué, qual é o outro lado da tolerância? Intolerância? (e a gente realmente quer ensinar isso nas escolas? E precisa?). Homofobia? Ou simplesmente espalhar que a heterossexualidade é a única forma sexual aceitável e legítima? (e espalhar isso, pelo jeito, não é homofobia!). Isso de “dois lados” é uma falácia. Primeiro que existem sempre muito mais que dois lados. Depois que, desculpe dizer, alguns lados simplesmente não merecem ser ouvidos. É como fazer uma mesa redonda sobre o holocausto e chamar pra participar neonazistas que negam o massacre de judeus. É como organizar um debate sobre discriminação racial e abrir espaço pra Ku Klux Klan (ou pro pessoal que nega que exista racismo no Brasil, apesar de todas as evidências). Francamente, é como a faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense fazer um debate sobre homoafetividade e chamar o deputado Bolsonaro pra pregar preconceitos e negar direitos humanos. O lado da inclusão, da tolerância, dos direitos para todos, vive sendo deixado de fora. Por que dar voz aos que já fazem tanto barulho numa sociedade preconceituosa como a nossa?
Sobre essa briga entre criacionismo e evolucionismo, lembro de quando eu era coordenadora acadêmica e professora numa escola de idiomas, em Joinville. Na escola havia vários professores de um grupo cristão que formava uma comunidade fechada (de missionários), adotava o homeschooling (os filhos eram ensinados na comunidade, não na escola), e pregava que os membros só deveriam se casar entre si. Eu me dava incrivelmente bem com eles. De vez em quando eles diziam pra dona da escola que o fato da escola estar indo mal era porque a coordenadora era uma ateia (moizinha), o que impedia que deus abençoasse as instalações, mas na maior parte do tempo a gente só evitava esses assuntos espinhosos de religião, papel da mulher na sociedade, estado laico etc, e convivia numa boa. No entanto, um dia lá estava eu, na sala dos professores, preparando uma atividade que iria usar para uma aula de conversação numa turma de inglês avançado. E parte da atividade incluiria as cenas iniciais de 2001, Uma Odisseia no Espaço, aquelas em que os macacos territoriais e agressivos descobrem as armas (ossos de animais mortos) e tornam-se guerreiros muitos mais opressores e agressivos. Acho, não lembro bem, que o exercício inicial era só que os alunos “dublassem” os macacos, algo como “If my monkey could speak” (se meu macaco pudesse falar, o que ele diria?), e depois é que a gente partiria pra um debate sobre território, armas, e inclusive evolução. Mas a questão é que um professor do grupo cristão viu o que eu estava preparando e perguntou: “Você vai falar sobre evolução numa aula? Sério? Ninguém mais acredita nisso hoje em dia!”. Eu pensei que ele estivesse brincando. Não: ele acreditava literalmente em Adão e Eva (nessa ordem, lógico), e realmente acreditava que Darwin, evolução e tudo o mais fossem conceitos ultrapassados. Isso deve fazer quase quinze anos. As candidatas do Miss América mal tinham nascido. Um visionário, esse rapaz!

P.S.: E o Sociological Images também linka uma paródia hilária de “Matemática deve ser ensinada nas escolas?”, com respostas como “Matemática é só números. Uma criança de 7 anos deve poder decidir se quer ou não aprender matemática. Ninguém realmente sabe qual é a raiz quadrada de 16. Vivemos na América, não na Rússia, sabe? As crianças devem aprender números, mas também... cores... cheiros... vibrações”.
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