A Susanna me enviou este lindo email que eu pedi autorização pra transformar em guest post. Vocês vão ver que o título (que eu que criei) se contradiz logo no começo, mas no final talvez dê pra entender. E espero que concordem comigo que o post é uma delícia de ler.Diariamente aco
mpanho o seu blog, tenho que minimizar a tela, vejo no trabalho. Que meu chefe não me leia, o que duvido muito que aconteça.Sei que no “Escreva Lola Escreva” você, com maestria, aborda inúmeros assuntos: amor, sexo e sexualidade, religião, violência, dentre outros.
Eu vim aqui, para deixar meu testemunho a você, e quem sabe caso isso vire um post a seus milhares de seguidores, de como é complicado ser mulher e ser gay/lésbica/sapatão/cola-velcro ou qualquer outro adjetivo que as pessoas sintam-se confortáveis a nomear.
Oitenta por cento de minhas relações amorosas foram com homens. E, de repente, não mais que de repente, conheci a mulher da minha vida. Para mim foi tudo bem, su
rpresa, mas tudo bem. O “problema” foi social. Minha família é nordestina/machista/sexista/chauvinista e o pior: é do tipo falsa preconceituosa. Finge que aceita, mas no fim não aceita nada; o maior auê por trás. “Ok” com o filho da vizinha, que é descolado, mas com minha filhinha não. Entre amigos, muitos me apoiaram (e lá tinham o que apoiar?), alguns não sabem e muitos pediram para que eu os avisasse quando essa fase passasse. Enfim, não devo exigir que eles reajam da forma que eu gostaria.E isso é só uma pincelada para que você entenda o que eu quero falar.
Ninguém crê que exista preconceito com relação à mulher. Parece algo surreal. Como? Século XXI? Isso não existe!
E imagina uma mulher homossexual?! Como ela não é tachada? Já escutei de tudo, mas o mais engraçado foi: "Nossa,
você é tão bonita, tão feminina, nunca pensei". Parece doença. Do tipo quando o médico fala: “Então, você sofre de uma doença conhecida como ‘lesbianismo crônico’. É contagioso. Avise seus familiares e não esqueça de lavar as mãos, utilizar álcool em gel e tomar cuidado para não proliferar o vírus no metrô". Ou seja, se reprima.Ter um amigo/conhecido homossexual é cool. Mas ter uma amiga/conhecida lésbica? Fala sério! Logo te definem como problemática, mal-amada, feia, gorda, ou algo assim. Aliás, se é lésbica é porque não atrai/satisfaz os homens. É uma pária. Uma aberração. Não é o estereótipo inventado pela mídia, pelos homens e por esse mundão repressor que só faz com que as mulheres se sintam feias por não serem iguais às capas da Boa Forma.

Isso é só porque as pessoas até nesse aspecto preterem ao sexo masculino. A homossexualidade feminina é totalmente marginal. Submundo.
Então eu comecei a entender o porquê de se andar em guetos, se camuflar, fingir, inventar personagens e namorados que moram no Alasca e nunca estão presentes.
São muitos dedos apontados. É medo de violência. É medo de arriscar. De serem as primeiras a se expor. Um beijo e pronto, você vira o guaxinim do rabo azul-celeste. Todo mundo olhando, querendo tirar foto e postar no youtube. Isso é se você não levar uns safanões, ou então ser excomungado até sua trigésima-oitava geração.
O que é engraçado: um mundo tão moderno, tão aberto, e as pessoas tão limitadas. Numa era em que nem mesmo
para procriar precisa-se de ato sexual, por que cargas d’água tanto medo? Medo do novo? Acho que não é, porque que eu saiba Safo é mais antiga que a Bíblia.Outro dia meu chefe, inconformado com minha sexualidade, me perguntou: "Mas como você gosta de mulher?!"
E eu respondo para ele e para vários: eu gosto de mulher, sim. Sem vergonha. Eu sempre gostei de mim. Do meu sexo, nada a ver com minha opção sexual. Sempre gostei da fragilidade e ao mesmo tempo da força, da coragem, da feminilidade, da pureza, dos sorrisos. Mulheres são guerreiras que num mundo opressor ainda assim conseguem conviver, harmonizar, e a cada insulto erguem a cabeça e dão a volta por cima.
Nós só temos que nos dar conta disso. Ser feminista é se amar. Ser feminista é não cair no conto da carochinha “Toda mulher é invejosa, toda mulher quer tomar seu n
amorado...”.Gostem das Anas, Joanas, Marinas, Paulas, Teresas, Lolas, Penhas, Ritas... De todas elas que buscam um lugar ao sol. Vamos nos unir para que um dia possamos olhar para trás e aí sim acharmos um absurdo quando alguém falar em opressão qualquer que seja.
Ah, e a mulher?! Ela é uma delícia!
Obrigada por me inspirar todos os dias. Me fazer um pouco mais consciente e definitivamente melhor.
No comments:
Post a Comment