Esta quarta estive em SP rapidamente para um encontro sobre Criança e Consumo. Gostei muito, e foi ótimo conhecer mães blogueiras de várias partes do país, que também tinham sido convidadas. Claro que falou-se muito em educação, e lá pelas tantas uma jornalista carioca disse algo com que concordo totalmente: não é apenas a educação pública
do nosso país que é péssima; a particular também é. Porque a gente fala tanto das escolas públicas que se esquece que as particulares estão longe de ser um modelo. Depois do evento, e antes de pegar o voo pra voltar pra Fortaleza, corri pra ver meu irmão e minha cunhada, e meu primeiro e único sobrinho até agora, o encantador Yuri, de dois meses de idade (e corpitcho de seis). Eles já estão pensando em que escola o fofo vai estudar daqui a um tempo. E as mensalidades das particulares que eles estão considerando custam (glupt) 3 mil reais. E mesmo pagando um valor tão alto, eles duvidam que conseguirão uma escola da qualidade que gostariam.Esses dias chegou o desabafo da Renata, uma professora em SP, que pinta um quadro bastante desabonador de como profissionais qualificados são tratados.
Gostaria de relatar experiências de uma professora que sonhava em trabalhar numa instituição onde, dizem,
a educação e o bem estar de alunos e professores são prioridades. Essa professora, no caso, sou eu.
Há alguns anos no serviço público, eis que surgiu a possibilidade de trabalhar em uma escola particular tida como referência de ensino em minha cidade. Desejando passar por essa experiência e iludida com aquela escola lindíssima, cheia de recursos tecnológicos, cópias à disposição e outras vantagens não encontradas na escola pública, lá fui eu, feliz e saltitante, iniciar minha jornada na escola particular.
Qual não foi a minha surpresa quando, somente depois de assinarem minha carteira de trabalho, deparei-me com salas de aula sem mesa e cadeira para os professores! Essa configuração acontece em todas as salas de aula do colégio e deixa subentendido que é proibido sentar. Isso mesmo! O professor chega, acomoda
o pouco material que consegue levar para as classes em um móvel minúsculo, em cima do qual não consegue colocar mais do que alguns cadernos ou pastas empilhados. Caso precise fazer anotações, o jeito é apoiar-me numa pasta ou algo assim.
Vocês conseguem imaginar o caos que é recolher trabalhos de alunos? Você pega tudo e acomoda onde? No chão, é claro! Ao lado de sua bolsa e do seu casaco, que também ficam lá, jogados num canto qualquer da sala de aula.
Fiquei boba com essa situação e não pude deixar de conversar com outros professores a respeito disso. Todos me disseram que é isso mesmo, não se pode sentar. Percebe-se, portanto, que a escola não deseja para seu corpo docente pessoas com dificuldades de locomoção, pessoas de mais idade, mulheres grávidas, obesos ou, simplesmente, professores que se desdobram em mais de um turno e acham importante ter, ao menos, um local para apoiar o material, bolsa, trabalhos. E -- por que não? -– a própria “buzanfa” e o corpo cansado. (Afinal, professor deveria ter mais trabalho intelectual do que trabalho braçal, n
ão?)
Questionei a direção da escola a respeito disso e fui informada de que nenhum dos professores se considerava explorado por não ter onde sentar e as aulas deles eram tão dinâmicas que eles sequer conseguiriam se sentar, caso desejassem. Ou seja, o problema era comigo mesmo, pois não ter cadeiras e mesas é algo "super legal" e eu, preguiçosa que sou, estava achando estranho à toa. Não me contive e mencionei que uma coisa é o professor não reclamar e que outra bem diferente é ele achar legal. Principalmente numa instituição em que ir contra as regras instituídas de cima para baixo pode fazer cabeças rolarem.
Conversando com outros professores sobre tais abusos pelos quais estava passando, descobri outras unidades escolares que trabalham dessa forma. A prefeitura de Barueri,
por exemplo, tem uma escola considerada ótima, na qual há inspetores que cronometram o tempo que o professor fica sentado. O professor que passar mais de cinco minutos por aula sentado leva advertência.
Posso mencionar diversos outros absurdos com os quais me deparei, mas vou me deter em apenas alguns. Há mais de uma unidade do referido colégio em minha cidade e nós temos, obrigatoriamente, que nos deslocar entre elas. A exigência de locomoção para outras unidades não obedece ao tempo de deslocamento mínimo de uma hora, como ocorre em instituições do Estado e da Prefeitura. Todos os professores têm que se deslocar, em veículo próprio, durante o intervalo.
Mais um desabafo: todo e qualquer dia eles colocam alguém da instituição para assistir às minhas aulas e depois questionar tudo o que eu faço. Se entrassem apenas a supervisora ou a coorden
adora da escola, até teria algum motivo, vá lá. No entanto, já entraram em sala de aula inclusive secretárias e inspetores para analisar o que eu faço. Aqui é válido lembrar que me ligaram numa segunda-feira de manhã pedindo que eu fosse lá na hora seguinte para iniciar as aulas. Nunca marcaram um horário para me dizer o que pode e o que não pode ser feito. Além disso, esse povo não é pedagogo nem licenciado em nenhuma disciplina. Eu sou formada pela USP e fiz meu mestrado em Educação lá também. Caso eu faça algo "inconcebível" para a escola (inconcebível só lá e puramente aceitável em qualquer estabelecimento normal, claro) lá vem a coordenadora me "descascar", sem o menor pudor.
Um dia, fui acusada de gritar com os alunos e dar berros ouvidos na escola inteira quando tentava interceder numa briga travada entre dois alunos. E eu que não conheci
a esse alcance da minha voz! Talvez eu devesse ser tenor de ópera... ou então poderia me inscrever no “Se vira nos trinta” do Faustão e quebrar o maior número de vidraças em 30 segundos. Seria um “estouro” (ah, essas palavras que podem ser entendidas literalmente e metaforicamente...)
A cada dia, uma nova ponderação absolutamente descabida a meu respeito era feita. Logo eu, que sempre me orgulhei de ser uma boa professora, estava passando por aquela situação. Saía da escola emocionalmente abalada e levei duas semanas para conseguir dizer tudo o que estava entalado em minha garganta. Nesse pequeno período, já estava começando a ceder ao assédio moral e havia momentos em que colocava em dúvida minha postura como educadora. Questiono-me acerca das razões que me
levaram a aguentar ficar calada por 15 dias. E a cada dia, a cada aula, a cada manifestação equivocada que fizeram a meu respeito e jogaram na minha cara, eu perdia um pouco de minha dignidade. De onde tais instituições tiram essas ideais "geniais” para colocar em prática? Qual é a pedagogia de boteco que embasa tudo isso? Por que alguns professores se submetem a tal exploração?
Agora que já avisei que não continuarei com as turmas, preciso que encontrem alguém para me substituir. E se não encontrarem tão cedo, eu preciso me desgastar num colégio que não valoriza o corpo docente por mais quantos dias?
As empresas (é isso que essa instituição é) juram que nos três meses de experiência elas é quem estão nos avaliando. Esquecem-se de que nós, trabalhadores, também estamos avaliando se essas empresas servem para nossa vida.
Para o leitor que se pergunta qual é o mega salário que essa instituição oferece, aí vai: 12 reais a hora/aula para os novos contratados. Talvez isso justifique o assédio moral que nos impingem, pois só um professor convencido de sua falta de valor e de mérito pode aceitar trabalhar nessas condições.
Gostaria de relatar experiências de uma professora que sonhava em trabalhar numa instituição onde, dizem,
a educação e o bem estar de alunos e professores são prioridades. Essa professora, no caso, sou eu.Há alguns anos no serviço público, eis que surgiu a possibilidade de trabalhar em uma escola particular tida como referência de ensino em minha cidade. Desejando passar por essa experiência e iludida com aquela escola lindíssima, cheia de recursos tecnológicos, cópias à disposição e outras vantagens não encontradas na escola pública, lá fui eu, feliz e saltitante, iniciar minha jornada na escola particular.
Qual não foi a minha surpresa quando, somente depois de assinarem minha carteira de trabalho, deparei-me com salas de aula sem mesa e cadeira para os professores! Essa configuração acontece em todas as salas de aula do colégio e deixa subentendido que é proibido sentar. Isso mesmo! O professor chega, acomoda
o pouco material que consegue levar para as classes em um móvel minúsculo, em cima do qual não consegue colocar mais do que alguns cadernos ou pastas empilhados. Caso precise fazer anotações, o jeito é apoiar-me numa pasta ou algo assim.Vocês conseguem imaginar o caos que é recolher trabalhos de alunos? Você pega tudo e acomoda onde? No chão, é claro! Ao lado de sua bolsa e do seu casaco, que também ficam lá, jogados num canto qualquer da sala de aula.
Fiquei boba com essa situação e não pude deixar de conversar com outros professores a respeito disso. Todos me disseram que é isso mesmo, não se pode sentar. Percebe-se, portanto, que a escola não deseja para seu corpo docente pessoas com dificuldades de locomoção, pessoas de mais idade, mulheres grávidas, obesos ou, simplesmente, professores que se desdobram em mais de um turno e acham importante ter, ao menos, um local para apoiar o material, bolsa, trabalhos. E -- por que não? -– a própria “buzanfa” e o corpo cansado. (Afinal, professor deveria ter mais trabalho intelectual do que trabalho braçal, n
ão?)Questionei a direção da escola a respeito disso e fui informada de que nenhum dos professores se considerava explorado por não ter onde sentar e as aulas deles eram tão dinâmicas que eles sequer conseguiriam se sentar, caso desejassem. Ou seja, o problema era comigo mesmo, pois não ter cadeiras e mesas é algo "super legal" e eu, preguiçosa que sou, estava achando estranho à toa. Não me contive e mencionei que uma coisa é o professor não reclamar e que outra bem diferente é ele achar legal. Principalmente numa instituição em que ir contra as regras instituídas de cima para baixo pode fazer cabeças rolarem.
Conversando com outros professores sobre tais abusos pelos quais estava passando, descobri outras unidades escolares que trabalham dessa forma. A prefeitura de Barueri,
por exemplo, tem uma escola considerada ótima, na qual há inspetores que cronometram o tempo que o professor fica sentado. O professor que passar mais de cinco minutos por aula sentado leva advertência.Posso mencionar diversos outros absurdos com os quais me deparei, mas vou me deter em apenas alguns. Há mais de uma unidade do referido colégio em minha cidade e nós temos, obrigatoriamente, que nos deslocar entre elas. A exigência de locomoção para outras unidades não obedece ao tempo de deslocamento mínimo de uma hora, como ocorre em instituições do Estado e da Prefeitura. Todos os professores têm que se deslocar, em veículo próprio, durante o intervalo.
Mais um desabafo: todo e qualquer dia eles colocam alguém da instituição para assistir às minhas aulas e depois questionar tudo o que eu faço. Se entrassem apenas a supervisora ou a coorden
adora da escola, até teria algum motivo, vá lá. No entanto, já entraram em sala de aula inclusive secretárias e inspetores para analisar o que eu faço. Aqui é válido lembrar que me ligaram numa segunda-feira de manhã pedindo que eu fosse lá na hora seguinte para iniciar as aulas. Nunca marcaram um horário para me dizer o que pode e o que não pode ser feito. Além disso, esse povo não é pedagogo nem licenciado em nenhuma disciplina. Eu sou formada pela USP e fiz meu mestrado em Educação lá também. Caso eu faça algo "inconcebível" para a escola (inconcebível só lá e puramente aceitável em qualquer estabelecimento normal, claro) lá vem a coordenadora me "descascar", sem o menor pudor.Um dia, fui acusada de gritar com os alunos e dar berros ouvidos na escola inteira quando tentava interceder numa briga travada entre dois alunos. E eu que não conheci
A cada dia, uma nova ponderação absolutamente descabida a meu respeito era feita. Logo eu, que sempre me orgulhei de ser uma boa professora, estava passando por aquela situação. Saía da escola emocionalmente abalada e levei duas semanas para conseguir dizer tudo o que estava entalado em minha garganta. Nesse pequeno período, já estava começando a ceder ao assédio moral e havia momentos em que colocava em dúvida minha postura como educadora. Questiono-me acerca das razões que me
levaram a aguentar ficar calada por 15 dias. E a cada dia, a cada aula, a cada manifestação equivocada que fizeram a meu respeito e jogaram na minha cara, eu perdia um pouco de minha dignidade. De onde tais instituições tiram essas ideais "geniais” para colocar em prática? Qual é a pedagogia de boteco que embasa tudo isso? Por que alguns professores se submetem a tal exploração?Agora que já avisei que não continuarei com as turmas, preciso que encontrem alguém para me substituir. E se não encontrarem tão cedo, eu preciso me desgastar num colégio que não valoriza o corpo docente por mais quantos dias?
As empresas (é isso que essa instituição é) juram que nos três meses de experiência elas é quem estão nos avaliando. Esquecem-se de que nós, trabalhadores, também estamos avaliando se essas empresas servem para nossa vida.

Para o leitor que se pergunta qual é o mega salário que essa instituição oferece, aí vai: 12 reais a hora/aula para os novos contratados. Talvez isso justifique o assédio moral que nos impingem, pois só um professor convencido de sua falta de valor e de mérito pode aceitar trabalhar nessas condições.
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