Saturday, October 15, 2011

HOMENS SE PASSANDO, E MULHERES SE PASSANDO POR INOCENTES


Uma estudante de Administração em Porto Alegre foi parada numa blitz de trânsito no dia 9, recusou-se a fazer o teste de bafômetro, teve sua carteira de motorista apreendida. Até aí, normal (se bem que ninguém deve beber e dirigir). Pouco depois ela recebeu a seguinte mensagem de texto no seu celular:Wanessa peguei o numero teu enquanto vc disse pro colega qdo ele pediu teu endereço. So quero que digas se posso saber teu MSN, Facebook, Orkut algo do tipo p/ conversarmos melhor e te Add nos meus contatos?Me da um retorno se possivel, sou o rapaz quem fez os testes do bafometros em vcs! Fernando/EPTC” (sic).

Quer dizer, este é um caso transparente de abuso de autoridade -- dados de pessoas autuadas devem ser sigilosos --, somado à total falta de noção (sério que o cara pensa que mandar mensagem pra pessoa que multou numa blitz seja um momento romântico?). Mas tem gente pregando que não há abuso de poder algum nessa situação, pois o fiscal “apenas passou uma mensagem respeitosa”. Pois é, são as feminazis novamente querendo castrar os homens e banir as cantadas do mundo!

Felizmente, não são mascus crentes em teorias da conspiração que regem as leis do país (segundo eles, o fiscal, se fosse homem, deveria ter exigido um boquete para não aplicar a multa). A empresa de trânsito agiu rápido e, depois da apuração, demitiu o fiscal. Wanessa, serena, deu o caso por encerrado. O que não encerra a misoginia do pessoal que acha que mulher está sempre errada, até num incidente óbvio como este. Os comentaristas do Globo presumivelmente não são mascus, mas isso não os impede de escrever um festival de barbaridades. Copio algumas pérolas abaixo, tudo sic (lamento dizer que são a vasta maioria):

- “Isso é Brasil! O cara foi extremamente educado no contato, não falou palavras de baixo nível e foi demitido por causa disso!

- “Parabéns à essa pilantra por ter feito um provável trabalhador ou pai de família ter perdido o emprego porque ela estava de decote e dirigindo bêbada”.

- “Se o cara que mandou a msg tivesse $ ela teria ficado feliz com a cantada. […] Tomara que morra solitária”.

- “O cara foi mandado embora por isso? simplismente não acreditoooo, ele foi super correto em não dar em cima dela na hora do trabalho. Essa dai deve ser sapata, olha o tamanho dos dedos dela.

- “Se ela não quer ser cantada que use roupas mais comportadas”.

[De uma leitora:] - “Coitado do Fernando. Perdeu o emprego e ainda foi posto em situação ridícula por catar este jaburu.A boca dela parece com a da minha avó.

- “Penso que essa menina agora está satisfeita! O rapaz foi demitido, mas qual o mal que feito? Penso que , se porventura, a opção sexual dela é diferente da dele, bastava ignorar.” [Nota minha: pra mulher desprezar um homem, só ela sendo lésbica!]

- “O que me chamou a atenção foi que a Wanessa não tendo aspecto de lavadeira ou empregada doméstica usa unhas curtas (não machucam), cabelos curtos, não usa maquiagem e a cor do esmalte parece ser Rosa Chiclete. Existem os sulcos cavados nas extremidades dos lábios e entornos das narinas. Só não deu para identificar uma tatuagem. A blusa é discreta e não se vê os calçados. Fernando - aparentemente - mandou torpedo para um um alvo errado.” [Anotem, pessoas! Vão lá pegar o manual “Como Reconhecer uma Lésbica de Longe”).

- “Vagabaaaaaaaaaaaaa......deu em cima do mané pra livrar a multa....”

- “Merece um estupro”.

- “Qual motivo da demissão do cara? É proibido mandar cantadas? Esse é o Brasil!”

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Pois é, é o Brasil. Semana passada também foi noticiada esta perda de cargo, mas pelo jeito político não desperta tanta compaixão quanto fiscal de trânsito.

Em 2009 o vereador Luiz Antônio Fávaro (PSDB), de Guararapes, SP, fez 79 ligações de um celular da Câmara Municipal para importunar uma mulher casada. Ele, que se dizia um “admirador secreto”, usava palavras chulas para convencer a moça a transar com ele. Segundo a notícia (bastante mal contada), em 2010 uma comissão julgou se Luiz havia quebrado o decoro parlamentar, mas os outros vereadores o inocentaram. Agora ele foi afastado pela Justiça e perdeu seus direitos políticos.

Desconfio que a falta de indignação pelo cara ter perdido o cargo tenha menos a ver com sua profissão que com o estado civil da vítima. Não? Se a mulher que recebeu 79 ligações fosse solteira, Luiz teria agido corretamente?

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Provavelmente um dos assuntos mais comentados da semana foi sobre o rapaz que quebrou o braço de uma estudante de Direito numa boate em Natal porque ela não quis ficar com ele. Um vídeo da boate gravou o ataque (acho que não dá pra ver direito, mas é visível como o agressor sai de lá rapidinho, depois de passar no caixa pra pagar). Já li várias matérias sobre o tema. Uma dizia que Rômulo Lemos ficou injuriado por ser rejeitado por uma gordinha. Em outra, o advogado do cara nega a agressão, e diz que a moça escorregou (ahã). Uma outra ainda fala que, depois do ataque, Rômulo foi perseguido na cidade por gente que quer fazer justiça com as próprias mãos.

O fato é que Rhanna teve de passar por uma cirurgia em que foram colocadas quatro placas de titânio e dezesseis pinos em seu braço. Que ela vai ficar com uma baita cicatriz por toda a vida. E que Rômulo já respondia a processo por ter agredido sua ex-mulher. Ou seja, ele é recorrente. Tem um histórico de quem não sabe lidar com frustrações e de quem se vale da violência ao se relacionar com mulheres.

É revoltante que uma moça vá a uma balada para se divertir e saia de lá com o braço quebrado. A atitude de Rômulo está relacionada ao entitlement, aquele sentimento típico dos privilegiados, que pensam que merecem ser bem-sucedidos em tudo que fazem. Rômulo insistir numa mulher que já deixou claro que não está interessada nele é sinal dessa ideia de merecimento. Só o costume de homens chegarem numa mulher que paqueram agarrando seu braço, cintura ou cabelo, como é comum, já vem desse sentimento de merecimento.

Pior foi ler comentários do tipo “se ela tivesse beijado ele nada disso teria acontecido” e “balada não é lugar de moça de família”. E o pessoal do “direitos humanos para humanos direitos” também sempre aparece nessas horas para pedir que Rômulo seja morto ou estuprado na cadeia. Porque isso sim resolveria os problemas que afligem às mulheres...

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Agora, se é pra citar o caso mais escabroso (e que ainda não foi amplamente divulgado), é este: oito homens foram presos por estuprarem uma colega de trabalho em Mato Grosso. Um outro está foragido, e os restantes estão em prisão temporária, pois o crime é hediondo e não permite que os acusados respondam em liberdade. A vítima foi a uma festa com eles, bebeu, desfaleceu, acordou com várias dores e, quando viu as imagens de seu estupro, chamou a polícia. A notícia diz: “Segundo a polícia, os suspeitos filmaram o crime usando telefones celulares e mostraram as imagens para outros colegas da empresa onde trabalhavam”. A notícia também dá grande destaque a um envolvido que, por ser homossexual, não estuprou a vítima, mas “presenciou toda a cena sem fazer nada em defesa dela”.

O crime ocorreu no dia 9, mesma data em que Wanessa foi parada pela blitz no RS.

Ainda não há muitos comentários no site, mas um deles é o de sempre: “Se essa mulher tivesse vergonha na cara na saiu pra encher o caneco com um bando de macho. Olha no que deu. O problema hoje em dia é que tem mulheres que sai pra farra com um bando de macho e quando acontece um absurdo desse ela se passa por inocente”.

Pois é, parece que o que mais tem hoje em dia são homens passando de seus limites. E muitos outros que pensam que as mulheres, todas culpadas desde Eva, estão apenas “se passando por inocentes”. Aviso: esses energúmenos que culpam as vítimas são parte do problema.

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