Sunday, October 16, 2011

GUEST POST: MACHISMO NO PARQUE

Domingo no parque: londrinos ouvem discurso contra a guerra do Iraque

Meu leitor antigo Allan Patrick (veja o blog dele aqui), que tive o prazer de conhecer quando ele me convidou para dar uma palestra sobre o Dia Internacional da Mulher, na Receita Federal (onde ele era delegado) em Mossoró, RN, me enviou este relato muito interessante sobre um parque inglês. Eu estava mesmo pensando nisso esses dias: de como, em vários sentidos, esses "oradores públicos" nas praças e parques encontraram espaço na internet. Não é um pouco isso que eu faço como blogueira? Lembro quando, em 89, eu gostava de passar na Praça Ramos, ao lado do Mappin, para discutir política. Lá, além das pessoas conversando, havia o pessoal discursando. Claro que sempre tem muito louco anunciando que o fim do mundo está próximo, mas também tem quem fale coisas minimamente coerentes. E o Patrick tem razão: raramente havia mulheres que falavam em público (ele tem razão também sobre banheiros públicos para mulheres viverem lotados; vi isso na Europa). Acho que a internet está aos poucos dando voz às mulheres. Um espaço, afinal, tão público como uma praça. Fiquem com o post do Patrick (as fotos são dele também).

Lola, estou concluindo um período de três meses na Inglaterra, para onde vim estudar inglês. Desde que comecei a frequentar seu blogue, em fevereiro de 2009, minhas ideias não mudaram. Sempre pensei parecido com o que você defende aqui. Mas tudo ficou mais claro e sistematizado na minha mente. Consigo enxergar e perceber melhor as coisas. Até num passeio dominical no Hyde Park, em Londres, eu observei detalhes que há alguns anos teriam passado batidos.
Comecei meu passeio pelo Speaker's Corner (na tradução, algo como a "Esquina dos Oradores"), localizado, justamente, numa das esquinas do parque e que congrega todo tipo de gente desejosa de discursar para o público. E, claro, também junta muita gente interessada nesses discursos. A primeira vez que eu ouvi falar no Speaker's Corner foi através de uma professora de espanhol, na 7ª série. Desde então eu tinha curiosidade de ir lá conferir.
O primeiro orador que encontrei -- e o que tinha a maior platéia -- fazia um discurso acirrado contra a presença do Reino Unido na aliança que invadiu o Afeganistão e o Iraque. Outro, acompanhado infelizmente por apenas três ou quatro ouvintes, propunha a abolição do dinheiro.
Mas o segundo e o terceiro oradores com maior público estavam falando, adivinhe só Lola, da vida das mulheres. Um era um clérigo muçulmano defendendo que o estilo de vida ocidental oprime as mulheres. Até concordo com o diagnóstico dele, mas a "solução" proposta, até onde pude perceber, era a velha história da mulher voltar a ser dona-de-casa. O outro era um cristão de extrema-direita com ideias muito parecidas às do assassino e terrorista noruguês Breivik. Na cara-de-pau, tinha um cartaz no seu palanque dizendo "Por que não há mulheres profetas no Alcorão", "Alá e seu Deus sexista?" Como se a bíblia cristã fosse um exemplo de empoderamento feminino, né? E repetia o mesmo rol de bizarrices machistas do Breivik, culpando a revolução feminista e a religião muçulmana por oprimirem as mulheres.
Também não pude deixar de notar que não havia sequer uma mulher discursando naquele domingo no final de julho em todo o Speaker's Corner.
Mas aí eu continuei meu passeio pelo parque e fui procurar um banheiro público. Encontrei. Mas um fato me chamou muito a atenção. Não havia fila no lado masculino, mas no lado feminino ela era enorme. Fiquei refletindo sobre isso: puxa, até na arquitetura dos espaços públicos somos machistas. Porque, evidentemente, quem projetou esse banheiro público dividiu isonomicamente o espaço em dois. Mas essa é uma falsa isonomia, uma igualdade apenas no papel, pois para uma quantidade semelhante de usuárias e usuários, as filas eram muito maiores no banheiro feminino. Para termos uma igualdade real, não é o número de metros quadrados de área dos banheiros que deve ser igual, mas a capacidade de pessoas que cada um pode atender simultaneamente. É um fato tão simples e corriqueiro mas que eu não enxergava, até que comecei a ficar mais atento a essas situações a partir da leitura do seu blogue!

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