Gente querida, venho aqui pedir toda a colaboração de vocês. É o seguinte: semana que vem, entre os dias 19 e 21 de outubro, teremos os Encontros Universitários da Universidade Fe
deral do Ceará. Uma professora muito querida que é coordenadora do Projeto Casa (todos os novos docentes passam por um estágio probatório de três anos e, enquanto isso, devem participar de várias atividades; eu gosto, temos bons debates e palestras, e é uma oportunidade de conhecer professores de várias áreas), revelou-se fã do meu blog e pediu sugestões pra uma mesa. Eu sugeri, e ela aceitou, um tema que vem me incomodando: o modo como professores lidam com alunas. Várias alunas minhas já reclamaram de professor que fica olhando pro decote, que
fala gracinhas inapropriadas, que não as levam a sério... Quando estive na UnB (saudades, meninas!) para a semana de Direito e Gênero, uma das alunas na minha sessão perguntou o que pode ser feito contra professores que desrespeitam alunas. Eu não me lembro de ter passado por nada disso como estudante, mas eu fiz Pedagogia (esmagadora maioria de alunas e professoras), e, na Pós-Graduação em Inglês na UFSC, além do número muito maior de mulheres, não parecia haver espaço pra desrespeito. No entanto, volta e meia recebo emails de leitoras relatando alguma barbaridade. Semana passada, no post sobre grosserias na rua, uma leitora deixou o seguinte comentário:Na faculdade, fui apresentar um seminário com um macacão curto. Amigas me disseram que o professor praticamente tentou ver meu útero quando eu passei por ele. Outro dia, na mesma aula
, eu estava com um casaco larguíssimo de lã e o professor ainda assim conseguiu encarar os meus seios. Ele me adicionou no orkut e no facebook. Eu nunca dei trela. No final da disciplina, tirei nota máxima E ME REVOLTEI. Eu sabia que minhas amigas tinham se esforçado o mesmo que eu e fizeram basicamente as mesmas coisas que eu no curso, mas não tiraram a mesma nota. Só eu e outras duas garotas para quem ele também arrastava asa ganhamos a nota máxima. Espalharam pro restante da turma que eu tinha ganhado aquela nota porque dei em cima do professor. Eu NUNCA fiz nada, nunca dei bola pros assédios dele, nunca dei a menor brecha e ainda assim fiquei estigmatizada por uma coisa que vinha dele. EU ODEIO AQUELA NOTA MÁXIMA! Será que esses alun
os que disseram que a leitora recebeu a nota máxima por ter dado em cima do professor eram mascus? Porque é isso que eles creem: que mulher não precisa estudar ou trabalhar (pra quê, se é só casar com homem rico?), e que mulher que tira boa nota é porque deu (muito mais que "dar em cima") pro professor. Porque, obviamente, apesar de já sermos a maioria nas escolas e faculdades do país, não temos competência pra ir bem nos estudos por conta própria.Então. Sabemos que há alunas que saem, namoram e casam com professores, e nã
o temos nada com isso. Mas parece ser muito mais frequente o assédio indesejado de professores a alunas, e, em cursos com minoria de mulheres, alunas serem discriminadas ou tratadas com desdém. Como eu respondi na mesa da UnB, sou otimista e ingênua, uma Pollyanna Deslumbrete, como me apelidou a Somnia, e portanto prefiro acreditar que muitos professores sequer sabem que estão passando dos limites. Acho que boa parte deles, se soubesse o que as alunas acham das “encaradas” e das gracinhas, tentaria mudar. É absurdo como a questão do gênero, uma questão tão importante, é geralmente deixada de lado nas discussões sobre práticas pedagógicas. Na minha graduação em Pedagogia, nunca falamos de gênero, apesar de serem conhecidos os estudos que mostram que alunas são tratadas de modo diferente que alunos (por professores e professoras
, que costumam decorar mais nomes de meninos que meninas, que fazem perguntas mais desafiadoras e dão mais tempo de resposta a meninos etc). Nos Encontros Universitários, teremos uma mesa em que eu, uma professora convidada da UnB, e uma aluna de Sociologia falaremos sobre essa questão de gênero. Desde já, quem mora no Ceará está convidad@ a comparecer e participar (será na sexta, dia 21, à tarde, no campus do Pici). Mas peço que vocês, neste espaço, relatem as experiências que têm ou tiveram sobre o assunto. O objetivo da mesa não é, de forma alguma, uma “caça aos bruxos”. Mas o assédio é um problema que incomoda muitas alunas e, se nossa vontade é fazer da universidade um lugar mais acolhedor, temos que abordar este tema. Queremos
fazer uma reflexão e propor algumas soluções. Logo, nos relatos, não incluam nome do professor ou nada disso. Não precisa nem colocar a instituição. Talvez apenas a área seja interessante. Eu quero compartilhar os relatos de vocês na mesa. Muito obrigada! Sei que posso contar com minhas querid@s leitor@s.
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