Já há alguns meses (tem fila pra guest post!), a Dária me enviou um link pra um ótimo post que ela havia escrito em 2009, e perguntou se eu queria um update. Recomendo muito que você leia primeiro o t
exto dela de dois anos atrás, em que ela defende uma postura diferente do senso comum: “Sempre bato nas teclas de regras e auto-conhecimento para uma relação. Todos temos ciúmes, e todos temos sentimentos de posse. Um relacionamento aberto para mim, no entanto, consegue abarcar vários dos meus medos. Não é o simples 'ficar', é mais sério: é o cotidiano do namoro, é a presença, a cumplicidade, o apresentar a amigos e famílias, o companheiro com quem quero estar, e de quem sempre sinto falta… mas é também a liberdade, a sinceridade à toda prova, e a não negação de instintos. Para mim
RA traz tudo o que há de positivo no compromisso, com uma honestidade maior”.Sou monogâmica faz duas décadas, mas nem por isso considero que este seja o único, ou sequer o melhor acordo que se possa fazer num relacionamento. A intenção deste blog é sempre questionar padrões. Portanto, é com orgulho que publico o guest post da Dária sobre relacionamentos abertos, um tema nunca antes tratado por aqui.
"O que me entristece é que o casal permaneça unido pelo hábito, pela pressão social… Logo que dois seres se sen
tem ligados não tanto por se amarem, o que era libertação e plenitude transforma-se em angústia e prisão. Sartre e eu nunca vivemos juntos e sempre consideramos ser livres de correntes que nos prendessem um ao outro. Se permanecemos unidos toda a vida, foi porque nos amávamos profundamente e porque, livremente, sempre tivemos vontade de estar um com o outro. E isso é a coisa mais bela que pode acontecer a um ser humano. O amor dá força e coragem para enfrentar o mundo e a vida, a dois e não a um só. É muito!” (Simone de Beauvoir)
Há pouco mais de dois anos comecei um texto com esta citação. Estava começando um namoro, o primeiro namoro
em que eu tentava por em prática ideias de relacionamento que eu já tinha, que eu já expunha, mas que ainda não havia tido coragem de experimentar.
O trecho é um retrato de minha adolescência, quando comecei a ler sobre liberdade e sexualidade, sobre as mulheres... e consequentemente me esbarrei em livros de Beauvoir. Curiosa, procurei um pouco sobre sua vida, li sobre sua história com Sartre. Encontrei esta passagem talvez em algum blog, não me lembro de onde a tiraram, acho que nunca conferi a fonte, mas ela resume bem minha concepção.
O que deve nos ligar às pessoas? Sentimento, vontade, desejo. Mas e se este desejo for sentido não apenas po
r uma pessoa, mas por diversas? E se, apesar disto, você tem um alguém que realmente te atrai de uma maneira mais forte, uma mulher ou homem por quem está apaixonad@, de quem não quer abrir mão? E se também não acha justo que se abra mão do desejo? Eu sei que há muito tempo eu já não achava isso justo. Sentia meus desejos tão puros, tão parte de mim, não sentia necessidade de reprimi-los, não conseguia ver exatamente porque sair com outros homens era necessariamente magoar aquele que eu amo. E foi assim que começou a se quebrar meu conceito de traição.
Na Wikipédia a definição de traição é uma “forma de decepção ou repúdio da prévia suposição”. Nos sentimos traíd@s pelo sexo casual de nosso parceir@ porque a exclusividade nos foi prometida. A tr
aição é o ato que quebra uma expectativa, e não a relação sexual em si.
Também na adolescência eu gostava bastante de História. E, enquanto formava meu modelo de relacionamento ideal, percebia o quanto aquele modelo pré-definido que recebemos, que inclui monogamia e fidelidade física como bases centrais, é um valor sociológico, cultural, intimamente ligado a nossa sociedade ocidental e cristã. Quantos aqui não acham estranho que muçulmanos se casem com várias mulheres? Isto quer dizer que naquelas sociedades não exista amor? Não s
ei. Sei que é um modelo machista e repressivo, que deu liberdade apenas aos homens, mas não posso dizer nada além disto.
Vejo um relacionamento, qualquer que seja, como um contrato, no qual ambas as partes (ou mais de duas partes) expõem desde o começo as regras que gostariam de seguir. Contam aquilo que lhes é ou não é essencial manter. O que estão dispostos ou não a mudar em suas vidas. Somos pessoas diferentes, há coisas diferentes das quais não queremos ou não podemos abrir mão. Eu e Ricardo há dois anos não quisemos abrir mão de nossa liberdade, da liberdade de ter novas experiências, de conhecer novas pessoas.
Conversamos sobre
relacionamento aberto (RA) em um de nossos primeiros encontros, antes mesmo do namoro. Era uma ideia que ambos vínhamos desenvolvendo. Foi, talvez, o primeiro ponto que identificamos ter em comum. Depois foram surgindo vários outros pontos e uma grande vontade de ficar juntos: o RA foi nosso caminho natural.
Acordamos mil pequenas regras de conduta que até hoje continuam dando certo. Uma delas foi a de contar sempre que algo acontecesse. Este foi um pedido meu: primeiro porque minha insegurança me faz sempre querer saber de tudo, como uma forma de me prevenir para futuras modificações. Segundo, porque acreditei que saber o que acontecia era o único modo de testarmos se realmente suportávamos este tipo de relação. Terceiro, talvez,
pela minha própria necessidade de dividir completamente minha vida com alguém. Ele concordou, fomos fazendo nossas outras regras.
Não vou ficar aqui relatando, é claro, cada acordo que fizemos nem os motivos que nos levaram a ele. Quero apenas dizer que, para mim, fidelidade física não era algo essencial em uma relação. Não me sentia ameaçada por meu parceiro sair com outras mulheres, não me sinto agindo errado por eu querer estar com outros homens. Não conseguia sequer prometer a um namorado nunca traí-lo, simplesmente porque, ainda que não fosse esta minha intenção, tinha medo de um dia não resistir a uma atração e sentir depois a sensação de ter mentido para a pessoa. P
rezo muito pela sinceridade, esta sim me é essencial.
Aprendi, enfim, que se não sou assim, se não apenas não preciso como não quero a exclusividade física, não tenho porque seguir aquele padrão. Tenho minhas inseguranças, tenho meu ciúme, mas estes talvez estejam mais atrelados ao lado sentimental do romance. Não acho que conseguiria me relacionar afetivamente com várias pessoas, ter vários namorados ao mesmo tempo, em um mesmo nível de intimidade. Neste ponto, sou monogâmica. Preciso de uma relação principal. Exijo presença constante. Exijo tempo, exijo paciência. Mas consigo ter relações paralelas sexuais e afetivas em outro nível. Aquelas que misturam amizade, afinidade e atração física, que tantos temos enquanto solteir@s, que para serem boas não precisam evoluir para algo mais.
Não prego RA como uma verdade universal, como o modelo ideal para t
odo mundo. Digo apenas que é o ideal para mim! Achei que era há dois anos, tenho mais certeza hoje, mas ainda assim estou disposta a mudar no momento em que isto deixe de nos fazer bem.
No fim, o que prego mesmo é que os casais reflitam, conversem e resolvam seu próprio modelo, sem ter de seguir necessariamente uma imposição social. Que se as coisas que os dois almejam forem incompatíveis, optem por não prosseguir com a relação. Que as pessoas pensem de verdade em como gostariam de viver. Que tenham coragem de enfrentar o mundo, pois às vezes, infelizmente, será necessário. Que sejam fiéis àquilo que prometerem, e a nada além disto. E que, se este não é seu modelo, se se sente melhor naquele padrão mono
gâmico, continue nele. Mas continue sem esquecer de que sua opinião é apenas isto, de que concordar ou não com ela não faz das pessoas melhores ou piores, de que pode haver amor com outras fórmulas, ainda que não o haja pra você. Enfim, respeite!
"O que me entristece é que o casal permaneça unido pelo hábito, pela pressão social… Logo que dois seres se sen
tem ligados não tanto por se amarem, o que era libertação e plenitude transforma-se em angústia e prisão. Sartre e eu nunca vivemos juntos e sempre consideramos ser livres de correntes que nos prendessem um ao outro. Se permanecemos unidos toda a vida, foi porque nos amávamos profundamente e porque, livremente, sempre tivemos vontade de estar um com o outro. E isso é a coisa mais bela que pode acontecer a um ser humano. O amor dá força e coragem para enfrentar o mundo e a vida, a dois e não a um só. É muito!” (Simone de Beauvoir)Há pouco mais de dois anos comecei um texto com esta citação. Estava começando um namoro, o primeiro namoro
em que eu tentava por em prática ideias de relacionamento que eu já tinha, que eu já expunha, mas que ainda não havia tido coragem de experimentar.O trecho é um retrato de minha adolescência, quando comecei a ler sobre liberdade e sexualidade, sobre as mulheres... e consequentemente me esbarrei em livros de Beauvoir. Curiosa, procurei um pouco sobre sua vida, li sobre sua história com Sartre. Encontrei esta passagem talvez em algum blog, não me lembro de onde a tiraram, acho que nunca conferi a fonte, mas ela resume bem minha concepção.
O que deve nos ligar às pessoas? Sentimento, vontade, desejo. Mas e se este desejo for sentido não apenas po
r uma pessoa, mas por diversas? E se, apesar disto, você tem um alguém que realmente te atrai de uma maneira mais forte, uma mulher ou homem por quem está apaixonad@, de quem não quer abrir mão? E se também não acha justo que se abra mão do desejo? Eu sei que há muito tempo eu já não achava isso justo. Sentia meus desejos tão puros, tão parte de mim, não sentia necessidade de reprimi-los, não conseguia ver exatamente porque sair com outros homens era necessariamente magoar aquele que eu amo. E foi assim que começou a se quebrar meu conceito de traição.Na Wikipédia a definição de traição é uma “forma de decepção ou repúdio da prévia suposição”. Nos sentimos traíd@s pelo sexo casual de nosso parceir@ porque a exclusividade nos foi prometida. A tr
aição é o ato que quebra uma expectativa, e não a relação sexual em si.Também na adolescência eu gostava bastante de História. E, enquanto formava meu modelo de relacionamento ideal, percebia o quanto aquele modelo pré-definido que recebemos, que inclui monogamia e fidelidade física como bases centrais, é um valor sociológico, cultural, intimamente ligado a nossa sociedade ocidental e cristã. Quantos aqui não acham estranho que muçulmanos se casem com várias mulheres? Isto quer dizer que naquelas sociedades não exista amor? Não s
ei. Sei que é um modelo machista e repressivo, que deu liberdade apenas aos homens, mas não posso dizer nada além disto.Vejo um relacionamento, qualquer que seja, como um contrato, no qual ambas as partes (ou mais de duas partes) expõem desde o começo as regras que gostariam de seguir. Contam aquilo que lhes é ou não é essencial manter. O que estão dispostos ou não a mudar em suas vidas. Somos pessoas diferentes, há coisas diferentes das quais não queremos ou não podemos abrir mão. Eu e Ricardo há dois anos não quisemos abrir mão de nossa liberdade, da liberdade de ter novas experiências, de conhecer novas pessoas.
Conversamos sobre
relacionamento aberto (RA) em um de nossos primeiros encontros, antes mesmo do namoro. Era uma ideia que ambos vínhamos desenvolvendo. Foi, talvez, o primeiro ponto que identificamos ter em comum. Depois foram surgindo vários outros pontos e uma grande vontade de ficar juntos: o RA foi nosso caminho natural.Acordamos mil pequenas regras de conduta que até hoje continuam dando certo. Uma delas foi a de contar sempre que algo acontecesse. Este foi um pedido meu: primeiro porque minha insegurança me faz sempre querer saber de tudo, como uma forma de me prevenir para futuras modificações. Segundo, porque acreditei que saber o que acontecia era o único modo de testarmos se realmente suportávamos este tipo de relação. Terceiro, talvez,
pela minha própria necessidade de dividir completamente minha vida com alguém. Ele concordou, fomos fazendo nossas outras regras.Não vou ficar aqui relatando, é claro, cada acordo que fizemos nem os motivos que nos levaram a ele. Quero apenas dizer que, para mim, fidelidade física não era algo essencial em uma relação. Não me sentia ameaçada por meu parceiro sair com outras mulheres, não me sinto agindo errado por eu querer estar com outros homens. Não conseguia sequer prometer a um namorado nunca traí-lo, simplesmente porque, ainda que não fosse esta minha intenção, tinha medo de um dia não resistir a uma atração e sentir depois a sensação de ter mentido para a pessoa. P
rezo muito pela sinceridade, esta sim me é essencial.Aprendi, enfim, que se não sou assim, se não apenas não preciso como não quero a exclusividade física, não tenho porque seguir aquele padrão. Tenho minhas inseguranças, tenho meu ciúme, mas estes talvez estejam mais atrelados ao lado sentimental do romance. Não acho que conseguiria me relacionar afetivamente com várias pessoas, ter vários namorados ao mesmo tempo, em um mesmo nível de intimidade. Neste ponto, sou monogâmica. Preciso de uma relação principal. Exijo presença constante. Exijo tempo, exijo paciência. Mas consigo ter relações paralelas sexuais e afetivas em outro nível. Aquelas que misturam amizade, afinidade e atração física, que tantos temos enquanto solteir@s, que para serem boas não precisam evoluir para algo mais.
Não prego RA como uma verdade universal, como o modelo ideal para t
odo mundo. Digo apenas que é o ideal para mim! Achei que era há dois anos, tenho mais certeza hoje, mas ainda assim estou disposta a mudar no momento em que isto deixe de nos fazer bem.No fim, o que prego mesmo é que os casais reflitam, conversem e resolvam seu próprio modelo, sem ter de seguir necessariamente uma imposição social. Que se as coisas que os dois almejam forem incompatíveis, optem por não prosseguir com a relação. Que as pessoas pensem de verdade em como gostariam de viver. Que tenham coragem de enfrentar o mundo, pois às vezes, infelizmente, será necessário. Que sejam fiéis àquilo que prometerem, e a nada além disto. E que, se este não é seu modelo, se se sente melhor naquele padrão mono
gâmico, continue nele. Mas continue sem esquecer de que sua opinião é apenas isto, de que concordar ou não com ela não faz das pessoas melhores ou piores, de que pode haver amor com outras fórmulas, ainda que não o haja pra você. Enfim, respeite!
No comments:
Post a Comment