Saturday, February 4, 2012

GUEST POST: OS GRANDES PIRATAS E O QUE QUEREM SAQUEAR

Como as pessoas que frequentam este blog sabem, Niemi era uma das comentaristas mais assíduas por aqui. Espero que ela volte logo, assim que se recuperar da cirurgia para a retirada de um tumor. Faz pouco tempo, ela também começou um blog. E ela é administradora de banco de dados, ou seja, trabalha com TI. Ela quis contribuir com este post.

Piratas existem desde os primórdios da história da humanidade, porém ganharam mais importância e visibilidade na era naval, quando os primeiros tripulantes se lançaram ao mar para descobrir novas terras e desbravar novas culturas atrás de especiarias que logo se tornavam exóticas mercadorias em suas terras de origem.
Se pensarmos nos piratas como agentes captadores de descobertas, podemos atribuir a eles a importância da exportação de cultura. Os ladrões marítimos não só nos traziam novos objetos para consumir, mas também novas culturas para absorver. Com eles, a humanidade encurtou a relação de tempo e espaço. Mesmo que não fosse intencional, eles intercambiaram os povos que violaram. Os piratas navais iniciaram o que hoje chamamos de globalização.
E na nossa sociedade contemporânea? Qual o papel dos grandes e dos pequenos piratas? O quê eles roubam para nos vender? (mesmo que você pense estar adquirindo algo de graça, muitas vezes).
Assim como a sociedade, os piratas se modernizaram: agora eles estão organizados em grandes corporações e roubam entre si grandes montantes de dinheiro. Seja por meio de patentes de propriedades intelectuais ou por taxas sobre serviços de conteúdos de mídia que, muitas vezes, não foram eles que produziram.
Ao contrário do que se imagina, esses piratas não gostam de se identificar como tal. Eles não usam tapa-olhos e nem exibem bandeiras com o rosto de uma caveira estampada em pano preto, muito menos o seu capitão anda com um papagaio no ombro. Os grandes piratas de nossa era da informação têm CNPJ e usam nomes fantasias fáceis de memorizar, além de logotipos amigáveis. Seus lideres quase sempre são sujeitos carismáticos.
Ao fazer acordos com grandes produtoras de conteúdo midiático, esses piratas obtém um vasto volume de mercadoria para vender. Eles marcam com sua insígnia o hardware e nos softwares inserem códigos mestres, os famosos seriais, ocultam a pasta onde seus filmes são armazenados temporariamente via streaming, e nas músicas mp3 colocam travas digitais, as famosas DRM (Digital Rights Management).
Eles se aproveitam até de iniciativas da livre distribuição de conhecimento, e investem montantes exorbitantes de dinheiro para financiar pesquisas de entidades do software livre. Quando sai algo comercialmente atraente, esses grandes piratas carimbam suas patentes nos projetos e passam a tomar controle de todo o programa de desenvolvimento. Inclusive ocultando o código que deveria ser aberto.
Esses grandes piratas têm medo de sofrer um ataque ou mesmo ter seus produtos saqueados na rede pelos próprios consumidores. Um dia eles foram piratas amadores, lobbistas que conseguiam burlar regras, e aprenderam que copiar boas ideias é muito melhor do que ser obrigado a criar uma. Poderosos e com dinheiro, hoje eles estão na posição contrária, como alvos dos novos piratas digitais. Mas quem são esses outros piratas?
O outro grupo de piratas é maior só que desfragmentado; ele se compõe por pequenos cyber ativistas (que lutam pela democratização da livre distribuição de conteúdo), de amantes de diversos interesses até criminosos digitais, os crackers.
Crackers (não confundir com hackers) são gênios da computação, derrubam sistemas e desvendam códigos de criptografia avançada para ter acesso a conteúdo pago. Esses personagens do submundo se escondem atrás de N1CKK N4M3S 32TR4NH02. Justamente por não desejarem serem identificados é que os piratas digitais do segundo grupo são reconhecidos facilmente quando encontrados.
Graças a este grupo e suas redes de compartilhamento é que nós podemos ver filmes de décadas bem antigas, verdadeiras raridades em nossas casas (muito conteúdo analógico foi digitalizado e recuperado por piratas), ou conhecer bandas obscuras de rock progressivo. Podemos até ler uma versão digitalizada de algum bestseller sem diretamente pagar pelo download. Essa comoditização da cultura e do conhecimento traz um grande benefício para os mercadores da tecnologia (os piratas do primeiro grupo).
Assim como os piratas do passado, os de agora globalizam a cultura trazendo para a grande massa de internautas a disposição de uma grande variedade de conteúdo protegido por direitos autorais. Com o esforço de um clique podemos ter acesso a muita informação.
Consumir pirataria eletrônica se tornou um aspecto banal de nossas vidas. Agora nosso lema moderno é “indexar, linkar e baixar”, sem esquecer do “deletar”. Assim como os piratas saqueadores, nos livramos das tralhas que nós mesmos acumulamos sem pudores.
A parte do baixar é bem interessante; os downloads compulsórios são responsáveis pela nossa cada vez mais atuante necessidade de adquirir apetrechos eletrônicos, os tais gadgets. Todos os dias milhares desses brinquedos tecnológicos são criados pelos piratas corporativos a fim de tentar suprir nossos caprichos.
Tudo ia relativamente bem até que os grandes piratas perceberam que os pequenos não estão pagando devidamente pelas taxas de aquisição de conhecimento. Os grandes alegam que isso afeta diretamente no investimento de pesquisas de novas tecnologias, que é uma questão de todos, mas na verdade eles acionam os mecanismos de proteção da propriedade particular porque o interesse deles foi afetado.
De assalto seus exércitos de advogados irão fechar servidores, links serão quebrados e quem compartilhar informações será submetido à toda forma de punição arbitrária, para que a cultura que eles tomaram não seja tomada de volta por nós.
Até pagando nós não somos inteiramente donos do que possuímos. Seu dvd player pode reproduzir as suas séries ou filmes favoritos, mas você não pode instalar um monitor numa festa ou no seu próprio estabelecimento com risco de ser punido pela lei formulada pelos piratas corporativos. É necessário pedir licença aos piratas.
E eles mentem para você ao dizer que você tem o poder de ter acesso a cultura ilimitada -- há muito mais fronteiras legais na internet do que imaginamos. As bandeiras já foram hasteadas há muito tempo. A rede mundial de computadores não é uma terra sem lei como aparentemente nos fazem crer. E querem por ainda mais rigor no que você faz ou deixa de fazer.
Portanto, tome cuidado. Não dê S.O.P.A para o azar nem permita que os grandes piratas tirem de ti o que lhe é mais valioso.
Sua liberdade.

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