por Débora Vieira
Este mês vai acontecer, pelo segundo ano consecutivo em Belo Horizonte, a Marcha das Vadias, ou Marcha das Vagabundas, ou Marcha de Qualquer Mulher, ou Slut Walk.
Este mês vai acontecer, pelo segundo ano consecutivo em Belo Horizonte, a Marcha das Vadias, ou Marcha das Vagabundas, ou Marcha de Qualquer Mulher, ou Slut Walk.
No ano passado, a marcha aconteceu em junho. Eu, que a princípio havia sido convidada para ajudar a divulgar a Marcha, acabei por me identificar muito com a proposta, e por fim dediquei a essa bandeira muito mais tempo do que previa. Sempre fui meio feminista, meio artista, meio ativista, e, por isso, sempre sem tempo para me dedicar totalmente a qualquer uma dessas frentes.
Mas no caso da Marcha das Vadias, a coisa foi crescendo (de um jeito insuspeitado, assim como se você fosse apenas um evento no facebook e eu plantasse você esperando ver uma página qualquer, no máximo uma fanpage, avenca, samambaia, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a me assumir vadia, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o preconceito para que as flores da vadiagem crescessem livremente**).
E este ano estou aqui, novamente, ainda meio artista, cada dia mais feminista, cada dia mais ativista, cada dia mais vadia.
Porque eu louvo a vadiagem: todos os dias eu acordo, e tomo a irrefutável decisão: hoje eu quero ser mais vadia que ontem.
E, olha, é difícil, viu?
É necessária muita valentia para assumir-se vadia. Sobretudo quando se cresceu em uma cidade do interior, para casar, estudar apenas o suficiente para ter uma profissão que lhe garanta a sobrevivência, e que ainda lhe permita ter tempo de cuidar do marido e dos filhos.
Eu, que nasci na década de 80, e ainda assim criada para me casar virgem: imagine!
Aprendi que uma mulher deveria preservar-se dos instintos sexuais e supostamente aproveitadores de um homem, e que uma mulher de respeito não se deixa “fazer mal” (mais alguém já ouviu a expressão “fazer mal” como sinônimo de sexo?), uma mulher bem comportada não deixa que um homem se aproveite dela.
A propósito, não é curiosa essa concepção de que cabe a mulher frear os instintos sexuais do homem – como se ela também não tivesse qualquer tipo de instinto ou de desejo? Ou de que é a mulher que tem sua reputação manchada em um encontro sexual fora do casamento? Ou de que só o homem “tira proveito” de um encontro sexual – como se ela tampouco tivesse sensações a desfrutar? Inclusive, não viria dessa última concepção a premissa de que cabe ao homem pagar a conta do motel – como se os momentos ali vivenciados servissem apenas ao desfrute dele, e por isso cabe a ele pagar por isso?
Bom, mas eu falava da dificuldade de se assumir vadia, sobretudo em uma cidade do interior mineiro, bastante afeita à tradição, à moral e aos bons costumes.
E tudo me dizia que as coisas poderiam ser diferentes quando eu mudei para a capital – oh! A cidade grande! Me formei, fiz mestrado, e o acesso à universidade me ofereceu acesso a múltiplas perspectivas sobre as tantas coisas que me interessavam nessa vida… sobre a cultura, a sociedade, sobre o que é ser mulher, sobre a família, sobre deus, sobre o tabu.
Em Belo Horizonte tive a sorte de ter boas oportunidades profissionais, e aos 20 anos eu já conseguia pagar todas as minhas despesas, o que me ofereceu o privilégio de escolher ser atriz de teatro – ah, essa vadiagem. Todo um universo de liberdade a ser desfrutado.
E hoje, eu, mulher, emancipada, que pago minhas contas – não sem algum atraso – , que compro meus chocolates, que limpo minha própria privada e que estou em dia com os presentes de aniversário de todos os afilhados, eu, feminista, que marcho à frente da Marcha das Vadias, repito: há que se ter coragem.
Porque, acreditem: aqui na cidade grande as coisas não são assim tão diferentes. Por aqui, ainda há mulheres crescendo sob os bem intencionados conselhos para que sejam santas, limpas, puras, “mulheres que se deem o respeito para que sejam dignas de respeito” – partindo do velado princípio, pois, de que existam pessoas que não mereçam ser respeitadas.
Aqui na cidade grande, acreditem, ainda há mulheres que são educadas para que se vistam de forma decente, afinal de contas… afinal de contas o perigo está à solta.
Ah, a ameaça do perigo. Quantos desejos, quantos abraços, quantos pequenos atos de loucura abortamos a cada dia, com medo do perigo? Porque o perigo nos vigia, o perigo nos julga.
O perigo é como um espelho implantado em nossa retina, uma espécie de deus, de pai, de marido, de padre, de tarado – sempre a observar nossos pensamentos, nossos atos, nossas roupas, nossos desacatos.
Onipresente de olhos abertos, onipotente com o chicote na mão: uma só palavra e serás punida, um passo em falso e serás condenada: vadia! Vagabunda biscate puta quenga piriguete pistoleira galinha piranha. Toda uma sorte de termos que só se aplicam a mulheres: percebam que em sua grande maioria, quando transpostos para o masculino, esses termos não têm o propósito de condenar a reputação sexual de um homem.
Por isso nos semeiam o vigia, o perigo fardado de porteiro do céu.
O perigo nos diz: não seja vadia! Se você quer ser respeitada, dê-se o respeito. O perigo te diz para escolher entre ser “mulher para uma noite” ou “mulher para uma vida inteira”, sem te avisar que há mulheres que pagam por toda uma vida o preço de seus desejos silenciados.
E há também aquele perigo que se disfarça de bom amigo, de bom conselho, de cuidado: olha, é para o seu bem: cuidado com o que vão pensar sobre você! Cuidado para não assustar aquele rapaz! Cuidado, independência demais assusta.
Por isso, todos os dias, ao acordar, respiro fundo: mais um dia para matar um leão e alimentar a galinha, a mulher vadia que não deseja nada mais que ser livre, ser respeitada em suas escolhas, em sua diferença e sua sexualidade.
Porque o que o que a vida quer da vadia é coragem!
* Débora Vieira é mestra em Estudos Literários pela UFMG, atriz, feminista, ativista, e uma das articuladoras da Marcha das Vadias de Belo Horizonte.
** um beijo para o Caio Fernando Abreu, nosso queridinho das redes sociais.
*** aos desavisados: a Marcha das Vadias não faz apologia ao crime, à promiscuidade, à irresponsabilidade. É nada mais que um convite ao respeito à diversidade.
No comments:
Post a Comment