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Saturday, May 26, 2012

Marcha das Vadias BH 2012 por Raquel Pinheiro

A invasão das palhaças (Grupo Trampolim) na Marcha das Vadias 2012 Belo Horizonte

Marcha das Vadias reúne cerca de 200 pessoas em Belo Horizonte

Mulheres tiram a roupa para protestar na Marcha das Vadias em BH

Passeata saiu da Praça Rio Branco em direção à Praça da Liberdade. 
Segundo organizadora, objetivo é manifestar de maneira divertida.


Mulheres se pintaram para protestar
(Foto: Pedro Triginelli / G1)
Centenas de mulheres – e homens – reuniram-se , na tarde deste sábado (26), para participar da Marcha das Vadias em Belo Horizonte. Como forma de protesto, muitas manifestantes seguiram na passeata com os seios à mostra. A marcha começou na Praça Rio Branco, no Centro da capital, e seguiu em direção à Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul da cidade. Além da capital mineira, o movimento é realizado em mais de 20 cidades do Brasil e do mundo, incluindo, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Porto Alegre e Toronto, no Canadá. De acordo com uma das organizadoras da manifestação em Belo Horizonte, Débora Vieira, de 30 anos, a marcha ajuda a tirar o rótulo de que a mulher que sofre algum tipo de abuso é sempre a culpada. “O objetivo é convocar as pessoas para protestar de uma maneira divertida”, afirma.

O machismo foi um dos principais alvos do protesto. Diversas faixas e cartazes traziam mensagens afirmando a independência feminina, principalmente em relação ao sexo.

Elas sairam da Praça Rio Branco, no Centro de Belo Horizonte
(Foto: Pedro Triginelli / G1)
A manifestante Vanessa Sander, de 22 anos, fez questão de participar da marcha pela segunda vez. “Para mim, estar aqui é estar a favor da autonomia do corpo da mulher”, diz. No cartaz, a jovem dava seu recado: “lugar de mulher é onde ela quiser”. Slut walk O movimento começou no Canadá, quando um policial aconselhou que mulheres evitassem se vestir como “vadias” a fim de diminuir os casos de violência sexual. A declaração do oficial motivou feministas de todo o mundo a saírem às ruas da forma por ele descrita, com o propósito de chamar atenção para a causa.

Vanessa Sander, de 22 anos, participou da sua segunda Marcha das Vadias (Foto: Pedro Triginelli / G1)



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Originalmente publicado em  G1 MG  :

Marcha das Vadias 2012 - Porque a culpa não é nossa!


Por Adriana Torres


Já passava das vinte e duas horas quando o sinal do Instituto de Educação de Minas Gerais tocou. Após mais um dia cansativo de trabalho e uma noite de estudos eu voltava para minha casa, no trajeto de sempre, mas dessa vez sem a companhia de minha irmã que tinha faltado a aula (não me lembro o motivo).

Foi tudo muito rápido, nem tive tempo de pensar, quanto mais reagir. Um homem surgiu atrás de mim, correndo, me agarrou por trás, me levantando como se eu fosse uma pluma e passou a mão nas minhas partes íntimas. Eu gritei, apavorada… ele riu, me largou e sumiu em questão de segundos. Eu fiquei parada, sem saber o que fazer, sem uma pessoa sequer na rua para me dizer o que eu tinha feito de errado dessa vez.

Isso aconteceu em 1990, quando eu estava com 16 anos. É apenas um dos casos que relato no post “Ser Mulher“, um dos mais comentados do meu blog. E, como em todas as outras vezes, eu fiquei procurando razões para me culpar (e com isso diminuir a culpa do agressor). Por quê?

De acordo com pesquisas estimativas (já que poucas são as que denunciam), a cada 12 segundos uma mulher é violentada no país. Mais de 70% desses casos acontecem dentro de casa. Não é surpresa para mim. Quando escrevi o post, recebi diversos relatos no meu email (as vítimas pediram para não serem identificadas) nos quais amigas/conhecidas me contavam casos de abuso sexual sofridos, alguns desde a infância, cometidos por tios, amigos da família e outras pessoas próximas.

Em NENHUM desses relatos estavam elas em uma boate, usando microsaias e “se oferecendo” para os marmanjos de plantão. NENHUM. Mesmo assim todas se sentiram culpadas de alguma forma e a maioria nunca tinha contado para alguém a respeito, só tiveram coragem após lerem meu relato (o que me deixou muito feliz por ter aberto o verbo, afinal, nada melhor para nós do que compartilhar essas tristes lembranças, é uma forma de expurgar velhos fantasmas).

No meu caso acima, eu usava uma calça jeans velha e larga, uma camisa de malha, tênis e mochila nas costas. E se estivesse usando um vestido estilo Geisy Arruda? A culpa do agressor diminuiria e passaria pra mim?

Essa introdução tem por objetivo mostrar a falácia da cultura machista reinante no nosso mundo que propaga ser o comportamento feminino responsável pelos abusos e violências sofridos. De acordo com essa “lógica”, uma mulher é “estuprável” pela forma como se veste, sorri, fala, anda… chegam ao cúmulo da objetificação (tornar a mulher um objeto sexual do homem) ao comparar estupro com assalto:

” A gente não sai na rua com relógio de ouro se não pode ser assaltado, então mulher tem que se vestir direito pra não atiçar o bandido”
(Comentário retirado de um post sobre a Marcha das Vadias do ano passado)

Mulher = relógio, é isso mesmo? E quem estupra é sempre bandido, doente, louco, marginal? Bem, então estamos encrencados, pois os números da violência mostram que eles estão em maioria… Ou será que este comportamento é baseado numa ideia falsa que a mulher é um objeto pertencente ao homem, de uma cultura machista/patriarcal?

Foi nesse sentido que em abril do ano passado um policial de Toronto, no Canadá, após uma série de estupros ocorridos na Universidade local, sugeriu que as mulheres evitassem se vestir como vadias/putas para não serem vítimas da violência sexual.

Um representante do poder público, em especial alguém que deveria proteger a vítima das agressões, repetir um absurdo desse, foi a gota d’água para ser lançado, em nível mundial, um movimento contra a culpabilização da vítima, intitulado “A marcha das Vadias”, em referência ao comentário nonsense.

A primeira marcha ocorreu em Toronto mesmo, reunindo mais de 3000 mulheres vestindo roupas curtas, lingeries e carregando cartazes com dizeres como:


I’m a slut. Problem? (Eu sou uma puta. Problema?)


 
The Skirt is no Excuse for Rape (A saia não é desculpa para estupro).

Mulheres de Buenos Aires, Los Angeles, Chicago, Amsterdã e diversas outras cidades no mundo aderiram ao protesto, realizando marchas em seus países. No Brasil foram realizadas em Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Pelotas, Recife, Fortaleza, Brasília, Curitiba… mostrando que muitas já entenderam não ser culpa delas a violência sofrida.

Este ano, a Marcha das Vadias acontece em Belo Horizonte no dia 26 de maio, a partir das 13:00 horas. O trajeto inicia na Praça Rio Branco (Praça da Rodoviária) passa pela Praça da Estação até a Praça da Liberdade.

Como no ano passado, as mulheres são convocadas para participarem utilizando a roupa que mais se sentirem a vontade, seja uma saia longa ou curta, um vestido ou um macacão. A ideia não é fazer apologia a um determinado comportamento ou estilo, mas defender a liberdade de cada uma se vestir/comportar como achar válido, sem que essa escolha justifique qualquer violência.

Quem está organizando, já prevê os comentários rasos sobre o tema. Presos a forma e não ao conteúdo, os contrários irão soltar pérolas como as do bingo abaixo:


Não preciso argumentar sobre essas frases, tão senso comum. Já bastam os comentários que provavelmente terei que responder na caixa de comentários deste post.

Vou respirar profundamente, lembrar que todos temos uma capacidade só nossa de compreender a dor do outro e que não existem homens/mulheres machistas e preconceituosos, mas uma cultura, um hábito que todos herdamos de nossos antecedentes de pensar que assim é que as coisas são, como bem colocou a linda da Luciana neste post no Biscate Social Club.

Todos nós temos atitudes preconceituosas/machistas/racistas/homofóbicas alguma vez na vida. Reconhecer isso faz parte da busca pela nossa evolução. E evoluir é quebrar paradigmas, é questionar nossa herança moral e intelectual para avançarmos em direção a um novo patamar de conhecimento…

Não tenho a ilusão que, ao protestarmos na rua, conseguiremos anular as estatísticas de violência. Nem que iremos mudar o pensamento atual a respeito. Mas, se pelo menos UMA pessoa se sentir tocada pelo nosso protesto, já vale a pena.

UM que conseguir parar pra pensar e dizer pra si mesmo: “Caramba, eu nunca tinha pensado nisso, vou rever meus conceitos” eu me darei por satisfeita. Porque amanhã serão dois, depois três, até que um dia virá quando todos irão compreender a mensagem do vídeo abaixo:


“Ninguém pede para ser estuprada. Nunca”.

Venha marchar conosco, com alegria e irreverência. Por maior liberdade, justiça, igualdade. Se ser vadia é ser livre, que sejamos tod@s, vadias e vadios ao máximo! =)

P.S. Confirme sua presença na Marcha através da página do evento no Facebook:

Friday, May 25, 2012

A Marcha das Vadias e a Mercantilização do corpo e vida das mulheres



Há um ano atrás a Marcha das Vadias foi construída como uma resposta irreverente contra a responsabilização das mulheres pelas violências sofridas e a estigmatização dos corpos femininos. Potencializada pela mobilização nas redes sociais, a Marcha ganhou vários países e, no Brasil, várias cidades. Algumas conseguiram dialogar com a conjuntura local e denunciar práticas de machismo naturalizadas, como por exemplo, a denúncia da prática machista de Rafinha Bastos na televisão e em sua casa de show em São Paulo.


Passado um ano dessa movimentação é preciso refletir tanto sobre as formas como o capitalismo e o patriarcado mercantilizam a vida e o corpo das mulheres, como os instrumentos de resistências aos quais dispomos. Essa segunda tarefa passa por perceber que, muitas vezes, a violência contra as mulheres precisa de uma resposta rápida e incisiva, como se deu com a Marcha das Vadias, mas que seu enfrentamento deve ser um processo cotidiano, que vai além de um evento.

Desde o final dos anos 70, o conjunto do movimento de mulheres, através da insígnia “nosso corpo nos pertence”, buscou questionar as imposições do patriarcado sobre a autonomia das mulheres – questão de fundo da Marcha das Vadias. Essa bandeira tem significado a luta das mulheres pelo direito de viver a sua sexualidade livremente, a luta por autonomia sobre o corpo e a vida, desde o exercício autônomo do desejo e do direito ao prazer, à legalização do aborto.

Retomamos esta luta, aprofundando a compreensão da sua dimensão anti-capitalista, uma vez que denunciamos como a sociedade de mercado impõe padrões de beleza racistas e sexistas e como o mercado difunde uma ideia do corpo das mulheres como objeto - em constante ajuste, retoque, conserto.  As indústrias farmacêuticas e cosméticas acumulam lucros estrondosos, à custa da propagação da insegurança das mulheres, gerando, além de tudo, graves doenças como os distúrbios alimentares.

A associação entre capitalismo e patriarcado, que transforma as mulheres em objetos, está no centro da violência sexista. O Brasil possui o sétimo maior índice de homicídios de mulheres do mundo. Essas mulheres são assassinadas, muitas vezes, porque não se calaram diante de situações de violência ou porque exerceram sua autonomia. Conforme aponta pesquisa da Fundação Perseu Abramo (2010), a cada dois minutos 5 mulheres são espancadas no país, a cada minuto 5 mulheres sofrem assédio sexual, e a cada hora 220 mulheres são obrigadas a ter relações sexuais forçadas.

Essa situação de extrema objetificação da mulher está expressa no indignante caso de violência machista e sexista ocorrido no município de Queimadas no estado da Paraíba. Um estupro coletivo de cinco mulheres, sendo duas delas, assassinadas brutalmente por dez homens durante uma festa realizada por eles com o intuito de “presentear” o aniversariante com o estupro dessas mulheres. Este foi um ato de extremo machismo e misoginia pelo nível de crueldade, violência e desprezo pela vida das mulheres, derivados de um clima de terror que gera a perseguição e morte, caracterizados pelo abuso físico e verbal, estupro, tortura, escravidão sexual, espancamentos.  Este crime bárbaro precisa ser punido com todo rigor da lei!

Além disso, a prostituição continua sendo vista por muitos como uma forma de viver a sexualidade. Para nós, ela representa a mercantilização, violência e subjulgação as quais as mulheres são submetidas. Sabemos que a indústria do sexo é um setor internacionalmente articulado, que gera lucros enormes e é associado ao tráfico de drogas, armas, corrupção e esquemas de crime organizado e sobrevive da exploração massiva do corpo de mulheres e crianças.  Somos solidárias às mulheres que são vítimas dessa forma de exploração da sociedade patriarcal, mas é preciso perceber que a prostituição só existe em um sistema que se articula em torno da subordinação das mulheres e, portanto, não produz nada relacionado à liberdade e autonomia, ao contrário, a mulher se encontra escravizada por uma rede mercantilizada de controle do seu corpo e da sua vida. Essas redes funcionam como organizações criminosas que traficam e escravizam na sua maioria mulheres jovens negras entre 17 e 27 anos.

Essas formas materiais e simbólicas que constituem a opressão das mulheres na conjuntura atual revelam a necessidade de formas de mobilização e instrumentos de resistência que ultrapassem os limites da Marcha das Vadias. Essa resistência tem sido forjada há anos pelo conjunto dos movimentos de mulheres, pela articulação de mulheres nos movimentos mistos e pelas alianças entre movimentos que tem na sua base a luta por outro sistema. Não é possível “resolver” a opressão das mulheres, nos auto-intitulando “todas vadias”. Mas é preciso aprender com as novas formas de articulação, potencializadas pelas tecnologias da informação e comunicação, atualizando nossas formas de ação.

É preciso reafirmar a importância da auto-organização e resistência das mulheres para construção de um mundo baseado na igualdade, na solidariedade e livre de violência. É preciso fortalecer a nossa luta cotidiana contra a mercantilização das mulheres.

Negamos a falsa liberdade, oferecida pelo mercado, que se encerra unicamente na ideia de não ter impedimentos para a ação. Esta idéia está na base da banalização da sexualidade, tornando-a mais um produto a serviço dos lucros. Temos que ir além disso. É preciso construir a liberdade como condição necessária para a igualdade e como condição da autonomia tanto coletiva como individual das mulheres. Somente a partir desta compreensão é que faz sentido seguir em marcha até que TODAS sejamos livres!

Assim, estamos em constante luta para que as mulheres não sejam caracterizadas como vadias por sair dos padrões de comportamento, nem como qualquer outro símbolo que as menospreze e as diminua.  Reafirmamos o direito de todas as mulheres viverem livre de estigmas, estereótipos, violência e exploração!!!

Marcha Mundial das Mulheres



Originalmente publicado em  Sempre Viva Organização Feminina  :

Tuesday, May 22, 2012

Palavras de ordem + Palavras de respeito: os cartazes para a Marcha das Vadias


A Marcha das Vadias está aí e vai ganhar as ruas de Belo Horizonte no próximo dia 26.

Trata-se de um ato a favor da liberdade, da diversidade e contra a violência contra a mulher. Mas no que consiste essa violência? Como abordá-la nas manifestações?

Em primeiro lugar, devemos lembrar que a violência contra a mulher não é apenas a agressão física, sexual ou psicológica. A violência aparece de forma desavisada, muitas vezes, na linguagem.

Tanto é que esse é um mote importante da Marcha das Vadias: queremos nos apropriar de expressões que comumente são usadas para rotular e agredir as mulheres que não seguem a cartilha dos “bons modos”.

Nesse sentido, é sempre bom lembrar que a batalha da Marcha das Vadias passa também, e muito, pelo campo das palavras, dos seus significados, de se seus pesos e conotações sociais.

Assim, antes de escrever o seu cartaz, sua faixa ou inscrever em seu próprio corpo um lema, lembre-se disso. Lembre-se que a sua palavra pode excluir, machucar, ferir, violentar. Parece exagero?

No ano passado, na primeira edição da Marcha em Belo Horizonte, por exemplo, a tentativa de abarcar a diversidade de comportamentos e escolhas acabou por desencadear um mal entendido para com as prostitutas que, a nosso convite, optaram por aderir à Marcha, na luta por respeito.

Uma frase recorrente nos cartazes e corpos das manifestantes foi a emblemática “Nem Santa Nem Puta”. Uma frase forte, potente, que visa a questionar os extremos por meio dos quais a sociedade insiste em dividir as mulheres, ignorando a multiplicidade de escolhas e de comportamentos a que estamos sujeitas todos os dias.

Em todo caso, uma frase também ambígua, que foi interpretada por algumas prostitutas como uma exclusão, como se o que estivéssemos rechaçando não fosse o rótulo, mas as próprias putas. Como se não quiséssemos nunca ser confundidas com santas, tampouco com putas.

Entendemos que se trata de um grupo que é essencial para o fortalecimento da Marcha e que deve ser incluído, de forma orgânica, tanto na manifestação quanto em sua organização, sobretudo porque é uma luta que diz respeito direto a elas: quando vítimas de abuso, as prostitutas são atendidas com desconfiança e desprezo nas repartições, como se, na profissão delas, sofrer abusos e ser vitimada por crimes fosse algo
natural. Tanto é que grande parte delas já nem pensa mais em notificar a polícia quando sofre violência, pois sabe que sua queixa não merecerá crédito, pois de vítima ela pode passar a ser considerada culpada.

Por isso, ainda que frases como “Nem Santa Nem Puta” possam ser compreendidas como uma crítica ao estigma e ao preconceito, uma vez que identificamos que pode haver certo desconforto por parte daquelas que são putas por profissão, optamos por aconselhar aos participantes da marcha que evitem provocações que possam ter interpretações excludentes.

Afinal de contas, nossa proposta é unir, e nunca segregar!

Todas as santas, todas as putas, todas as vadias, todas as mulheres; todas nós exigimos respeito.



Então, aproveitamos para reiterar o convite para a oficina de cartazes, que vai acontecer no dia 26 de maio, a partir das 9:00h, na Aprosmig, que fica na Guaicurus, 648. O espaço foi gentilmente cedido pela Cida Vieira, diretora da Associação das Prostitutas.

Liberdade ainda que vadia




por Débora Vieira

Este mês vai acontecer, pelo segundo ano consecutivo em Belo Horizonte, a Marcha das Vadias, ou Marcha das Vagabundas, ou Marcha de Qualquer Mulher, ou Slut Walk.

No ano passado, a marcha aconteceu em junho. Eu, que a princípio havia sido convidada para ajudar a divulgar a Marcha, acabei por me identificar muito com a proposta, e por fim dediquei a essa bandeira muito mais tempo do que previa. Sempre fui meio feminista, meio artista, meio ativista, e, por isso, sempre sem tempo para me dedicar totalmente a qualquer uma dessas frentes.

Mas no caso da Marcha das Vadias, a coisa foi crescendo (de um jeito insuspeitado, assim como se você fosse apenas um evento no facebook e eu plantasse você esperando ver uma página qualquer, no máximo uma fanpage, avenca, samambaia, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a me assumir vadia, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o preconceito para que as flores da vadiagem crescessem livremente**).

E este ano estou aqui, novamente, ainda meio artista, cada dia mais feminista, cada dia mais ativista, cada dia mais vadia.

Porque eu louvo a vadiagem: todos os dias eu acordo, e tomo a irrefutável decisão: hoje eu quero ser mais vadia que ontem.

E, olha, é difícil, viu?

É necessária muita valentia para assumir-se vadia. Sobretudo quando se cresceu em uma cidade do interior, para casar, estudar apenas o suficiente para ter uma profissão que lhe garanta a sobrevivência, e que ainda lhe permita ter tempo de cuidar do marido e dos filhos.

Eu, que nasci na década de 80, e ainda assim criada para me casar virgem: imagine!

Aprendi que uma mulher deveria preservar-se dos instintos sexuais e supostamente aproveitadores de um homem, e que uma mulher de respeito não se deixa “fazer mal” (mais alguém já ouviu a expressão “fazer mal” como sinônimo de sexo?), uma mulher bem comportada não deixa que um homem se aproveite dela.

A propósito, não é curiosa essa concepção de que cabe a mulher frear os instintos sexuais do homem – como se ela também não tivesse qualquer tipo de instinto ou de desejo? Ou de que é a mulher que tem sua reputação manchada em um encontro sexual fora do casamento? Ou de que só o homem “tira proveito” de um encontro sexual – como se ela tampouco tivesse sensações a desfrutar? Inclusive, não viria dessa última concepção a premissa de que cabe ao homem pagar a conta do motel – como se os momentos ali vivenciados servissem apenas ao desfrute dele, e por isso cabe a ele pagar por isso?

Bom, mas eu falava da dificuldade de se assumir vadia, sobretudo em uma cidade do interior mineiro, bastante afeita à tradição, à moral e aos bons costumes.

E tudo me dizia que as coisas poderiam ser diferentes quando eu mudei para a capital – oh! A cidade grande!  Me formei, fiz mestrado, e o acesso à universidade me ofereceu acesso a múltiplas perspectivas sobre as tantas coisas que me interessavam nessa vida… sobre a cultura, a sociedade, sobre o que é ser mulher, sobre a família, sobre deus, sobre o tabu.

Em Belo Horizonte tive a sorte de ter boas oportunidades profissionais, e aos 20 anos eu já conseguia pagar todas as minhas despesas, o que me ofereceu o privilégio de escolher ser atriz de teatro – ah, essa vadiagem. Todo um universo de liberdade a ser desfrutado.

E hoje, eu, mulher, emancipada, que pago minhas contas – não sem algum atraso – , que compro meus chocolates, que limpo minha própria privada e que estou em dia com os presentes de aniversário de todos os afilhados, eu, feminista, que marcho à frente da Marcha das Vadias, repito: há que se ter coragem.

Porque, acreditem: aqui na cidade grande as coisas não são assim tão diferentes.  Por aqui, ainda há mulheres crescendo sob os bem intencionados conselhos para que sejam santas, limpas, puras, “mulheres que se deem o respeito para que sejam dignas de respeito” – partindo do velado princípio, pois, de que existam pessoas que não mereçam ser respeitadas.

Aqui na cidade grande, acreditem, ainda há mulheres que são educadas para que se vistam de forma decente, afinal de contas… afinal de contas o perigo está à solta.

Ah, a ameaça do perigo. Quantos desejos, quantos abraços, quantos pequenos atos de loucura abortamos a cada dia, com medo do perigo? Porque o perigo nos vigia, o perigo nos julga.

O perigo é como um espelho implantado em nossa retina, uma espécie de deus, de pai, de marido, de padre, de tarado – sempre a observar nossos pensamentos, nossos atos, nossas roupas, nossos desacatos.

Onipresente de olhos abertos, onipotente com o chicote na mão: uma só palavra e serás punida, um passo em falso e serás condenada: vadia! Vagabunda biscate puta quenga piriguete pistoleira galinha piranha. Toda uma sorte de termos que só se aplicam a mulheres: percebam que em sua grande maioria, quando transpostos para o masculino, esses termos não têm o propósito de condenar a reputação sexual de um homem.

Por isso nos semeiam o vigia, o perigo fardado de porteiro do céu.

O perigo nos diz: não seja vadia! Se você quer ser respeitada, dê-se o respeito. O perigo te diz para escolher entre ser “mulher para uma noite” ou “mulher para uma vida inteira”, sem te avisar que há mulheres que pagam por toda uma vida o preço de seus desejos silenciados.

E há também aquele perigo que se disfarça de bom amigo, de bom conselho, de cuidado: olha, é para o seu bem: cuidado com o que vão pensar sobre você! Cuidado para não assustar aquele rapaz! Cuidado, independência demais assusta.

Por isso, todos os dias, ao acordar, respiro fundo: mais um dia para matar um leão e alimentar a galinha, a mulher vadia que não deseja nada mais que ser livre, ser respeitada em suas escolhas, em sua diferença e sua sexualidade.

Porque o que o que a vida quer da vadia é coragem!


* Débora Vieira é mestra em Estudos Literários pela UFMG, atriz, feminista, ativista, e uma das articuladoras da Marcha das Vadias de Belo Horizonte.

** um beijo para o Caio Fernando Abreu, nosso queridinho das redes sociais.

*** aos desavisados: a Marcha das Vadias não faz apologia ao crime, à promiscuidade, à irresponsabilidade. É nada mais que um convite ao respeito à diversidade.

Monday, May 21, 2012

Vc na marcha

Como falta menos de uma semana para a Marcha das Vadias BH 2012, começamos a preparar a cobertura com fotografias e vídeos. Mas para ser democrático, pedimos aos que irão participar, que enviem suas fotos e vídeos para o email vcnamarcha@gmail.com. Coloque seu nome para darmos os devidos créditos. Automaticamente as fotos cairão no blog, ou seja, vc pode documentar a marcha em tempo real!!! 





Friday, May 18, 2012

Marcha das Vadias: a marcha pela liberdade das mulheres


Foto por Túlio Vianna durante a Marcha das Vadias de 
Belo Horizonte, realizada em 18 de junho de 2011.
Embora já tenha sido obtida a igualdade jurídica entre homens e mulheres, às mulheres ainda é negado o direito à autonomia, especialmente em relação à sua sexualidade e aparência. As Marchas das Vadias que vêm ocorrendo no mundo problematizam essa questão e indicam o caminho para efetivar a liberdade das mulheres


Em abril de 2011, um policial canadense, ao fazer uma palestra sobre violência, afirmou que as mulheres evitariam estupros se não se vestissem como vadias, vagabundas (sluts). Ele classificou mulheres pela aparência: as roupas “certas”, discretas, evitariam violência, enquanto as roupas “erradas” tornariam a vítima culpada pelo estupro.

O policial canadense tratou mulheres como pessoas sem direito à liberdade, que precisam ter seu comportamento e suas roupas monitoradas para receberem proteção do Estado. Por ser um agente do Estado, o policial deveria cumprir a lei e proteger a vítima de um crime. Sua manifestação foi exatamente oposta: ao culpar a vítima, ele protegeu e perdoou quem cometeu o crime de estupro.
O que determina o estupro não é a roupa, é a relação de poder. Homens estupram porque consideram que as vítimas estão ali para satisfazer seus desejos, inclusive o de serem forçadas a se submeter a uma relação sexual. Colocar a culpa do estupro nas vítimas é ignorar que elas têm o direito de escolher se e quando vão se relacionar sexualmente com alguém. Roupas não têm nada a ver com isso.

Em resposta à fala do policial, surgiram reações indignadas em todos os níveis. Foram acionados os mecanismos legais, como um processo administrativo e discussão sobre a capacitação adequada de policiais. E também foi criada uma passeata denominada “Slutwalk” (Marcha das Vadias, no Brasil). Nela, mulheres protestaram contra o preconceito que vincula roupas curtas ao estupro, portando cartazes feministas e vestindo roupas curtas, que remetem ao estereótipo de “vadias”.
Demonstrando que a opressão das mulheres ainda é uma constante no mundo, a Marcha das Vadias se espalhou em efeito dominó. Milhares de mulheres de diversos países vêm saindo às ruas, desde abril, em diversas Slutwalks e Marchas das Vadias, deixando claro seu descontentamento com a forma como vêm sendo tratadas em razão de suas roupas e comportamento.

O feminismo da Marcha das Vadias

A Marcha das Vadias é feminista, pois denuncia o tratamento desigual para homens e mulheres. Um homem ou menino que sofra violência sexual não é acusado de ter merecido a violência por causa de suas roupas. No entanto, uma mulher ou menina vai ser sempre questionada sobre suas roupas, maquiagem ou consumo de bebidas alcoólicas.

É importante destacar o caráter feminista das Marchas das Vadias, pois o que se divulga na mídia atualmente é que o movimento feminista é inexistente ou desnecessário. Afirmam que as mulheres têm igualdade de direitos, independência (inclusive financeira), orgasmo e direito à contracepção, e não há mais pelo que lutar. Ou então, afirma-se que a única causa feminista relevante atualmente é combater a violência, especialmente a que ocorre em ambiente familiar.

Essas são afirmações que evidenciam a incompreensão acerca da situação das mulheres hoje. O movimento feminista existe, e continua ativo, atuando em nível institucional contra todo tipo de discriminação contra mulheres. E as Marchas das Vadias, espontâneas, organizadas de forma colaborativa e sem hierarquia, via internet, mostram pontos que ainda precisam de muita atenção, especialmente em relação ao respeito aos desejos sexuais das mulheres.

Disputando o controle da sexualidade feminina

Não há dúvidas de que as mulheres estão insatisfeitas com a situação em que vivem. Apesar de terem a igualdade de direitos na lei, no cotidiano essa igualdade é condicionada ao controle da sexualidade feminina. As mulheres perdem autonomia: elas não podem decidir a forma de exercer sua sexualidade, sendo sutilmente forçadas a escolher entre dois modelos bastante excludentes.
A mulher recatada, de vida sexual discreta, à espera do companheiro ideal (antigamente conhecido como príncipe encantado), ainda é valorizada como modelo de conduta. A mulher que não se censura, vivendo de acordo com seus desejos sexuais, é tratada como inadequada. Uma forma de fazer esta mulher perder sua autonomia e se enquadrar no modelo recatado é considerá-la culpada por tudo de ruim que acontecer com ela. Roupas são a forma pela qual essa distinção será tornada pública.

Porém, a autonomia feminina passa pelo poder de cada mulher escolher como se vestir, como se comportar, sem necessariamente ter de se enquadrar nesses dois modelos como obrigação eterna e imutável. A mulher pode escolher inclusive oscilar entre ambos os modelos, não se enquadrar em nenhum, ou criar um terceiro mais adequado à sua personalidade e seus gostos. E, mais importante, ela não deve perder direitos nem pode ser julgada por causa dessas escolhas.
A participação espontânea e bastante expressiva de mulheres jovens nas Marchas das Vadias mostra que o controle da sexualidade feminina é para elas um ponto importante a ser combatido. Essas mulheres nasceram em um mundo no qual, segundo os conservadores, as mulheres já conquistaram todos os direitos.

No entanto, as jovens comparecem massivamente às passeatas para mostrar que seu cotidiano é bem diferente: seus desejos e sua autonomia estão sendo sistematicamente cerceados por causa do controle da sexualidade feminina. Elas não estão livres, ainda não podem se comportar da forma que desejam.
O que essas jovens já perceberam, e estão se insurgindo contra isso, é que mulheres ainda são julgadas por não quererem obedecer a uma ordem social que pune seus desejos. Mulheres ainda são consideradas como máquinas de sexo para o prazer masculino enquanto têm de refrear a própria sexualidade. Elas ainda são espancadas e mortas por não se submeterem aos desejos masculinos em relação a sexo, maternidade e profissão.

O que o movimento feminista quer, e a Marcha das Vadias torna público, é que as mulheres não sejam julgadas nem punidas por não obedecerem a um sistema que as oprime. Querem exercer sua sexualidade livremente, sem serem discriminadas por suas roupas, idade, aparência, ou pelo número de parceiros e parceiras. Querem escolher se e quando terão filhos. Querem ter vida sexual depois que passarem pela menopausa. Querem dar vazão aos seus desejos, ao invés de se restringirem a um modelo binário de comportamento que limita suas possibilidades. Querem um mundo mais livre e menos violento para as mulheres.

Combatendo a violência contra mulheres

Pais, irmãos, maridos e companheiros são os responsáveis pela maior parte da violência cometida contra mulheres. Eles espancam porque elas escolhem usar roupas que não lhes agradam, porque elas não querem se divertir da forma que eles consideram adequada, porque se sentem mal por elas não dependerem deles financeiramente, porque elas não querem se relacionar sexualmente com eles na hora que eles desejam. E eles matam porque elas não querem obedecer nem continuar mantendo um relacionamento de subordinação com eles.
Esses relacionamentos são construídos com base na opressão feminina. Quanto mais a igualdade entre homens e mulheres é inscrita na lei, mais a opressão é deslocada para o controle da sexualidade feminina.
A lei garante direitos iguais, mas a liberdade sexual ainda é cuidadosamente controlada, especialmente pela influência da mídia. A maioria das revistas femininas não explica como a mulher pode chegar ao orgasmo; o foco é ensinar como a mulher faz o homem ter orgasmo. A lei proíbe agressões físicas, mas toda novela mostra uma mulher sendo espancada. Esse espancamento não é punido porque a mulher era uma vilã e estava agindo como “vadia”.
Quando a mídia mostra mulheres sofrendo violência, não as trata como vítimas de um crime. Elas são tratadas como desobedientes que “mereceram” uma punição. É o mesmo raciocínio do policial canadense, que desculpa o agressor e culpa a vítima. A violência é usada para constranger mulheres a cercear sua autonomia e obedecer ao agressor.

A Marcha das Vadias expõe essas questões, e expressa os desejos das mulheres: não querem que os relacionamentos que as oprimem sejam a regra. E não querem que o Estado encampe um recuo conservador, agindo para constranger as mulheres a voltar ao sistema de opressão institucionalizado que vigorou até recentemente.

É necessário direcionar todos os esforços do movimento feminista para impedir um retrocesso: não se deve voltar a um modelo de comportamento que nega a sexualidade e a liberdade femininas. Esse modelo de comportamento é a causa da violência contra mulheres. E é ele o maior obstáculo atual para as mulheres jovens.

As Marchas das Vadias indicam claramente que as mulheres não querem que seu comportamento e seus desejos continuem sendo controlados. Resta a todos nós entendermos isso e lutarmos para garantir que mulheres tenham o exercício pleno de suas vontades e de sua sexualidade.

É necessário parar de julgar mulheres pela sua sexualidade e aparência. É necessário punir quem comete crime ao não respeitar a vontade da mulher. E é necessário lembrar sempre que as mulheres não podem ser forçadas a se enquadrar em um modelo de comportamento que nega sua autonomia e sua liberdade.


Originalmente publicado em  Revista Fórum  :


Monday, May 14, 2012

Feministas, sim. E em marcha!

por Fuzarca Feminista – núcleo jovem da Marcha Mundial das Mulheres

A marcha das vagabundas (do inglês SlutWalk ) surgiu quando um policial canadense afirmou, em uma palestra dentro de uma universidade de Direito, que as estudantes deveriam evitar se vestir como “vagabundas” para não serem vítimas de assédio sexual. As estudantes então resolveram protestar contra essa declaração. Daí surgiu a primeira marcha, reunindo cerca de 3 mil pessoas em Toronto. Através, principalmente, de mobilização nas redes sociais, jovens de diversos países têm saído às ruas, com faixas e roupas provocativas, buscando se apropriar da expressão pejorativa slut (vagabunda) pra protestar contra a responsabilização da mulher pela violência sexista. 

Nós da Fuzarca Feminista também estamos em marcha contra a cultura que responsabiliza a mulher pelas diversas formas de opressão, seja pelo estupro, pelas outras formas de violência física e psicológica, ou mesmo pelo fato de ainda termos relações desiguais entre homens e mulheres na sociedade. 

Marchamos pelo direito de nos vestir da forma que quisermos, sem que isso seja usado de pretexto para violência e para nossa desqualificação. Queremos viver em uma sociedade em que não sejamos mais divididas entre vadias e santas, ambas sob controle do homem. E se apropriar do termo “vadia”, nesse sentido, tem a ver com tudo isso. 

Queremos exercer nossa sexualidade de forma realmente livre, sem que o fato de ser “livre” implique em transar com quem/quando a gente não quiser. Queremos ser livres para ir atrás do nosso próprio desejo, e ser livres também para dizer “não”. 

Marchamos pelo direito de sermos “feias”, se ser “bonita” significa se encaixar num modelo de beleza ditado exclusivamente pelo desejo masculino e pelos lucros do mercado.

Não somos estupradas porque vestimos saias, andamos sozinhas à noite ou bebemos um pouco a mais. Não ganhamos menores salários e somos minoria em determinadas profissões e em cargos de poder devido a nossas “características naturais distintas”. Tampouco amamentamos em público para o deleite de nossos incautos observadores. 

A violência sexista é essa cometida pelos homens contra nós, mulheres, simplesmente por sermos mulheres. As situações de violência são demonstrações de poder e, geralmente, são justificadas por argumentos relacionados ao que deveria ser o jeito certo de nos portarmos. Estupro é questão de poder, não de sexo. 

Marchamos, hoje, pra lembrar dessas - dentre tantas outras - bandeiras que fazem o nosso feminismo tão atual e necessário, ainda em pleno século XXI. 

E seguiremos em marcha. Até que todas sejamos livres.


Originalmente publicado em  Ofensiva contra a mercantilização  :

Sunday, April 15, 2012

Marcha das Vadias

Você já deve ter ouvido falar sobre a Marcha das Vadias. É uma ver­são bra­si­leira da SlutWalk que aconteceu no Canadá, pas­sou pela Argentina, Estados Unidos, Inglaterra, Holanda e Nova Zelândia. Aqui no Brasil levou algumas mulheres à Avenida Paulista para pro­tes­tar con­tra o machismo e a culpa atri­buída às mulhe­res em casos de estu­pro.

Agora um grupo das manifestantes querem ir às ruas, durante o Carnaval, protestar contra esta violência visto que, nesta época, as queixas de abuso crescem absurdamente.

Nós, do Malvadas, apoiamos qualquer causa que tente inibir o abuso sexual e violência. Todos temos direito de ser livres sem prejudicar as outras pessoas. Por isso, vale a pena saber mais sobre esta manifestação.

Como tudo começou

A pri­meira Slutwalk acon­te­ceu no iní­cio do ano de 2011 em Toronto, no Canadá. Durante uma pales­tra sobre segu­rança em uma uni­ver­si­dade, um poli­cial disse que as estu­dan­tes deve­riam evi­tar se ves­tir como vadias (sluts) para não serem esco­lhi­das para o estu­pro. Depois, veio a res­posta: as mulhe­res cana­den­ses colo­ca­ram a banda (e o corpo) na rua para dizer que sim, podem se ves­tir como qui­ser, e a culpa dos abu­sos sexu­ais e estu­pros é do agres­sor, não da roupa que elas colocam.

No Brasil, o evento che­gou na metade do ano passado e Solange De-Ré, que criou a mar­cha com o noivo e artista musi­cal Edu Udek (42) e a amiga e publi­ci­tá­ria Madô Lopez (28). Informados da SlutWalk cana­dense, eles resol­ve­ram implan­tar essa ideia no Brasil. “Esperávamos de 50 a 100 pes­soas. Quando vimos, deram duas mil. Daí veio a neces­si­dade de maior orga­ni­za­ção: cui­da­mos do poli­ci­a­mento e da cober­tura da mídia, para dei­xar o evento o mais bem divul­gado e pací­fico pos­sí­vel”, conta Solange.

Tudo foi divul­gado no Facebook e, um dia antes de acon­te­cer, o evento con­tava com mais de seis mil confirmados. No sábado, dia 04, em que acon­te­ceu a SlutWalk bra­si­leira, foram 300 pes­soas, segundo da Polícia. Junto ao Brasil Chicago e Los Angeles (EUA), Edmonton (Canadá), Estocolmo (Suécia), Amsterdã (Holanda) e Edimburgo (Escócia) tam­bém rea­li­za­ram a cami­nhada. A reper­cus­são no exte­rior, no entanto, foi muito maior.

Na vés­pera da mar­cha bra­si­leira, em entre­vista à Revista O Grito!, Solange De-Ré con­tou sobre suas ideias e, claro, sobre a Marcha das Vadias.

“Vadia” não é uma pala­vra muito forte?

É. Mas que­ría­mos tra­du­zir a SlutWalk para o por­tu­guês. Quisemos ir a fundo no sen­tido e uti­li­zar a pala­vra que mais tinha a ver com o nosso idi­oma e repre­sen­tava o que mui­tos bra­si­lei­ros acham das mulhe­res que se ves­tem de forma mais pro­vo­cante: umas vaga­bun­das acéfalas.


Quais as prin­ci­pais ideias que a Marcha defende?

Defende que a mulher, inde­pen­dente de como se veste, merece res­peito. Devemos aca­bar com essa cul­tura da vio­lên­cia à mulher, da culpa pelo estu­pro. E tam­bém a opres­são. As pes­soas ficam ini­bindo as outras por causa do pre­con­ceito. Se, por exem­plo, uma guria usa um ves­tido mais colado e a outra já sente ciúme do namo­rado e chama de vadia. Temos de repen­sar isso. Reconsiderar os nos­sos jul­ga­men­tos, até para mudar nossa pos­tura. Só temos de res­pei­tar, aí, o limite do aten­tado ao pudor [risos].

Como você defi­ni­ria a Marcha das Vadias?

Não é rea­lity show nem car­na­val. Organizamos a mar­cha para deba­ter o machismo que atinge a soci­e­dade bra­si­leira e algo por qual toda mulher bra­si­leira já pas­sou: uma piada ou o pre­con­ceito por mos­trar mais do seu corpo. Não é como no Canadá, em que o poli­cial foi lá e disse o con­ceito de mulher estu­prá­vel. Aqui esses con­cei­tos acon­te­cem todo dia, den­tro da nossa cabeça. Nós [as orga­ni­za­do­ras] já dis­cu­tía­mos essas ques­tões, pois sofre­mos com dis­cri­mi­na­ção com as nos­sas rou­pas desde sem­pre. A Marcha foi uma opor­tu­ni­dade de colo­car no mundo o que con­ver­sa­mos entre nós. Quando uma mulher usa uma roupa mais colada, vêm logo os comen­tá­rios, e isso acon­tece muito, todo dia. Até parece que é a roupa que faz o estu­pro. Não é assim. O estu­pro vem da psi­co­lo­gia do estu­pra­dor. Independente da roupa, ele quer ver a mulher humi­lhada, sen­tindo dor e horror.

Você acha que a Marcha ape­nas pegou carona na onda de outras mani­fes­ta­ções?

Acredito que ela veio pela von­tade de levan­tar poeira, pela neces­si­dade de ir à rua. Nossas ori­gens [os três são do Sul] tam­bém con­tam muito. Vemos mui­tos exem­plos legais na his­tó­ria da nossa região. Acho que temos essa garra de lutar pelo que não con­cor­da­mos e pelo que está errado. Minha esta­dia recente no Chile tam­bém influ­en­ciou muito a criar o movi­mento. Lá, eles vão para a rua pro­tes­tar, nem que sejam 20 pes­soas. Não é à toa que tem a cidade limpa e bem menos cor­rup­ção — e eles se orgu­lham disso. Aqui, a Marcha das Vadias veio para falar de como os homens enxer­gam as mulhe­res, e de como as mulhe­res enxer­gam as pró­prias mulhe­res: com machismo e muito preconceito.

Existe algum caso que você des­ta­que aqui no Brasil ou um exem­plo mais pes­soal de machismo?

O caso Geisy é o mais mar­cante no Brasil. Até per­gun­ta­ram se essa mar­cha não tem a ver com ela, mas não. Até seria legal se ela par­ti­ci­passe, pois a Geisy pas­sou exa­ta­mente por isso. Fizeram todo aquele movi­mento por um ves­tido curto na facul­dade. De caso mais pes­soal, vemos exem­plos todos os dias. Eu des­ta­ca­ria uma vez em que um cara deu uma inves­tida pesada em mim. Sou escri­tora, blo­gueira, atriz e já posei nua. Justamente por eu ser cabeça aberta e ter mos­trado o corpo ele for­çou a barra, dizendo que só por­que eu me expus eu deve­ria dar para ele. Também posso citar minha pró­pria famí­lia: o tra­ta­mento da mulher é dife­rente. Fui cri­ada no Paraguai, onde nasci, tenho pais de cabeça aberta que cri­a­ram minhas duas irmãs e os meus três irmãos. E ima­gina, até nela tinham dife­ren­ças de tra­ta­mento. Os meni­nos tinham mais liber­dade que as meni­nas. Mamãe dizia que a mulher devia se con­ter mais e pare­cer qua­li­fi­cada, mesmo que os homens que arru­más­se­mos não fos­sem tão “qua­li­fi­ca­dos” assim.

O que seria ser qua­li­fi­cada? O oposto da vadia?

Ser vir­gem, ser com­por­tada. É aquela regra que cos­tu­ma­mos brin­car, a regra de três. Você tem que dizer que só ficou com três caras na vida: o pri­meiro foi um namo­rado de mui­tos anos, com quem foi quase casada; o segundo foi um cafa­jeste e o ter­ceiro foi aquele para quem você está conhe­cendo agora.

Vocês rece­be­ram muito apoio? E crí­ti­cas?


Até agora, temos rece­bido mais crí­ti­cas posi­ti­vas que nega­ti­vas. Mas um pro­testo assim vai ser mal rece­bido entre os libe­rais e mais ainda por con­ser­va­do­res. Para mim, feio mesmo é a cor­rup­ção, as coi­sas do nosso país que não fun­ci­o­nam. Não se mos­trar e pro­tes­tar nas ruas.

Uma dúvida que mui­tos colo­ca­ram no Facebook é “com que roupa eu vou?”. Alguém che­gou a dizer que vai nu ou algo do tipo?

Teve gente que disse que vai na Marcha de rou­pão, para abrir lá. Assim é demais. O Brasil gosta de levar as coi­sas com humor, o que é bom, mas temos a ten­dên­cia de tudo virar car­na­val. E essa mar­cha não é um cabaré ou uma piada do Casseta & Planeta. É uma mani­fes­ta­ção polí­tica que tem sig­ni­fi­cado. Vivemos em uma Hollywood Tupiniquim, onde apa­re­cer e tornar-se artista é melhor do que fazer alguma coisa que traga mudan­ças. Salvo algu­mas exce­ções, a mai­o­ria das pes­soas pre­fere apa­re­cer a agir de forma política. Eu, por exem­plo, ia de cami­seta, pen­sei em várias fan­ta­sias… mas eu deci­dir ir mesmo é de Solange. Roupa curta, decote, coladinha



Originalmente publicado no blog  Malvadas  : http://malvadas.org/2012/01/marcha-das-vadias/

Marcha das Vadias – Belo Horizonte – 2012


Amores, “Pelo segundo ano, acontece em Belo Horizonte a Marcha das Vadias – ou Marcha das Vagabundas.

Este ano, o evento que já teve diferentes versões em inúmeras cidades do mundo, acontecerá em várias cidades brasileiras numa mesma data: o dia 26 de maio.

 A ideia é ocupar as ruas de forma irreverente – e combativa – para chamar a atenção da sociedade para um preconceito do qual mulheres do mundo todo ainda são vítimas, a de serem julgadas em função da roupa que usam.

 Diferentemente do que acontece com os homens, mulheres usando roupas curtas estão mais vulneráveis ao assédio, um condicionamento sócio cultural que se manifesta não apenas nas ruas, mas também na estrutura de nossas instituições. É comum, por exemplo, juízes, advogados ou mesmo policiais fazerem referência às roupas que uma mulher costuma usar para justificar a atitude de um agressor. Trata-se de um comportamento aparentemente inofensivo, mas que nada mais é que um reflexo de uma lógica sexista perversa que prefere julgar a vítima, e não o agressor.

 Nós não temos a ilusão de que vamos “mudar o mundo” com uma marcha, como insistem em aclamar os descontentes com a ideia de marcharmos em favor da nossa liberdade. Tampouco queremos fazer apologia a este ou àquele comportamento. Queremos, pois, que as mulheres sejam livres para se vestir e se portar como bem entenderem, e que tais escolhas não sirvam nunca de justificativa à prática de nenhum tipo de violência.”

(texto do evento do face da marcha de bh)

VADIAS DO MUNDO, UNI-VOS MAIS UMA VEZ! 

“O Movimento teve origem em Toronto, Canadá, quando um policial aconselhou às mulheres que evitassem se vestir como “vadias” a fim de evitar a violência sexual. A infeliz declaração motivou um grupo de feministas a sairem as ruas, vestidas como “vadias”, com o propósito de chamar a atenção da sociedade para a lógica presente na fala do policial: a de culpar a vítima pela agressão sofrida.

Desde então, diferentes versões da Marcha foram organizadas em várias cidades dos Estados Unidos, da Europa e América Latina. No Brasil, a primeira “Slut Walk” ocorreu na cidade de São Paulo, no dia 04 de junho de 2011, a partir de uma convocatória realizada no Facebook.”




Originalmente publicado no blog InQuIeTuDiNe :
http://inquietudine.wordpress.com/2012/04/06/marcha-das-vadias-belo-horizonte-2012-2/


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