Saturday, May 26, 2012

Marcha das Vadias 2012 - Porque a culpa não é nossa!


Por Adriana Torres


Já passava das vinte e duas horas quando o sinal do Instituto de Educação de Minas Gerais tocou. Após mais um dia cansativo de trabalho e uma noite de estudos eu voltava para minha casa, no trajeto de sempre, mas dessa vez sem a companhia de minha irmã que tinha faltado a aula (não me lembro o motivo).

Foi tudo muito rápido, nem tive tempo de pensar, quanto mais reagir. Um homem surgiu atrás de mim, correndo, me agarrou por trás, me levantando como se eu fosse uma pluma e passou a mão nas minhas partes íntimas. Eu gritei, apavorada… ele riu, me largou e sumiu em questão de segundos. Eu fiquei parada, sem saber o que fazer, sem uma pessoa sequer na rua para me dizer o que eu tinha feito de errado dessa vez.

Isso aconteceu em 1990, quando eu estava com 16 anos. É apenas um dos casos que relato no post “Ser Mulher“, um dos mais comentados do meu blog. E, como em todas as outras vezes, eu fiquei procurando razões para me culpar (e com isso diminuir a culpa do agressor). Por quê?

De acordo com pesquisas estimativas (já que poucas são as que denunciam), a cada 12 segundos uma mulher é violentada no país. Mais de 70% desses casos acontecem dentro de casa. Não é surpresa para mim. Quando escrevi o post, recebi diversos relatos no meu email (as vítimas pediram para não serem identificadas) nos quais amigas/conhecidas me contavam casos de abuso sexual sofridos, alguns desde a infância, cometidos por tios, amigos da família e outras pessoas próximas.

Em NENHUM desses relatos estavam elas em uma boate, usando microsaias e “se oferecendo” para os marmanjos de plantão. NENHUM. Mesmo assim todas se sentiram culpadas de alguma forma e a maioria nunca tinha contado para alguém a respeito, só tiveram coragem após lerem meu relato (o que me deixou muito feliz por ter aberto o verbo, afinal, nada melhor para nós do que compartilhar essas tristes lembranças, é uma forma de expurgar velhos fantasmas).

No meu caso acima, eu usava uma calça jeans velha e larga, uma camisa de malha, tênis e mochila nas costas. E se estivesse usando um vestido estilo Geisy Arruda? A culpa do agressor diminuiria e passaria pra mim?

Essa introdução tem por objetivo mostrar a falácia da cultura machista reinante no nosso mundo que propaga ser o comportamento feminino responsável pelos abusos e violências sofridos. De acordo com essa “lógica”, uma mulher é “estuprável” pela forma como se veste, sorri, fala, anda… chegam ao cúmulo da objetificação (tornar a mulher um objeto sexual do homem) ao comparar estupro com assalto:

” A gente não sai na rua com relógio de ouro se não pode ser assaltado, então mulher tem que se vestir direito pra não atiçar o bandido”
(Comentário retirado de um post sobre a Marcha das Vadias do ano passado)

Mulher = relógio, é isso mesmo? E quem estupra é sempre bandido, doente, louco, marginal? Bem, então estamos encrencados, pois os números da violência mostram que eles estão em maioria… Ou será que este comportamento é baseado numa ideia falsa que a mulher é um objeto pertencente ao homem, de uma cultura machista/patriarcal?

Foi nesse sentido que em abril do ano passado um policial de Toronto, no Canadá, após uma série de estupros ocorridos na Universidade local, sugeriu que as mulheres evitassem se vestir como vadias/putas para não serem vítimas da violência sexual.

Um representante do poder público, em especial alguém que deveria proteger a vítima das agressões, repetir um absurdo desse, foi a gota d’água para ser lançado, em nível mundial, um movimento contra a culpabilização da vítima, intitulado “A marcha das Vadias”, em referência ao comentário nonsense.

A primeira marcha ocorreu em Toronto mesmo, reunindo mais de 3000 mulheres vestindo roupas curtas, lingeries e carregando cartazes com dizeres como:


I’m a slut. Problem? (Eu sou uma puta. Problema?)


 
The Skirt is no Excuse for Rape (A saia não é desculpa para estupro).

Mulheres de Buenos Aires, Los Angeles, Chicago, Amsterdã e diversas outras cidades no mundo aderiram ao protesto, realizando marchas em seus países. No Brasil foram realizadas em Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Pelotas, Recife, Fortaleza, Brasília, Curitiba… mostrando que muitas já entenderam não ser culpa delas a violência sofrida.

Este ano, a Marcha das Vadias acontece em Belo Horizonte no dia 26 de maio, a partir das 13:00 horas. O trajeto inicia na Praça Rio Branco (Praça da Rodoviária) passa pela Praça da Estação até a Praça da Liberdade.

Como no ano passado, as mulheres são convocadas para participarem utilizando a roupa que mais se sentirem a vontade, seja uma saia longa ou curta, um vestido ou um macacão. A ideia não é fazer apologia a um determinado comportamento ou estilo, mas defender a liberdade de cada uma se vestir/comportar como achar válido, sem que essa escolha justifique qualquer violência.

Quem está organizando, já prevê os comentários rasos sobre o tema. Presos a forma e não ao conteúdo, os contrários irão soltar pérolas como as do bingo abaixo:


Não preciso argumentar sobre essas frases, tão senso comum. Já bastam os comentários que provavelmente terei que responder na caixa de comentários deste post.

Vou respirar profundamente, lembrar que todos temos uma capacidade só nossa de compreender a dor do outro e que não existem homens/mulheres machistas e preconceituosos, mas uma cultura, um hábito que todos herdamos de nossos antecedentes de pensar que assim é que as coisas são, como bem colocou a linda da Luciana neste post no Biscate Social Club.

Todos nós temos atitudes preconceituosas/machistas/racistas/homofóbicas alguma vez na vida. Reconhecer isso faz parte da busca pela nossa evolução. E evoluir é quebrar paradigmas, é questionar nossa herança moral e intelectual para avançarmos em direção a um novo patamar de conhecimento…

Não tenho a ilusão que, ao protestarmos na rua, conseguiremos anular as estatísticas de violência. Nem que iremos mudar o pensamento atual a respeito. Mas, se pelo menos UMA pessoa se sentir tocada pelo nosso protesto, já vale a pena.

UM que conseguir parar pra pensar e dizer pra si mesmo: “Caramba, eu nunca tinha pensado nisso, vou rever meus conceitos” eu me darei por satisfeita. Porque amanhã serão dois, depois três, até que um dia virá quando todos irão compreender a mensagem do vídeo abaixo:


“Ninguém pede para ser estuprada. Nunca”.

Venha marchar conosco, com alegria e irreverência. Por maior liberdade, justiça, igualdade. Se ser vadia é ser livre, que sejamos tod@s, vadias e vadios ao máximo! =)

P.S. Confirme sua presença na Marcha através da página do evento no Facebook:

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