Aproveitando que nosso patriotismo deveria estar um pouco em alta, depois que o Brasil adotou medidas de reciprocidade para turistas e visitantes espanhóis (o que deixou a Espanha, que está numa séria crise, tristinha), publico hoje
o guest post da Ana Paula, uma brasileira que mora nos EUA há oito anos. Ela é engenheira civil com mestrado e doutorado em Geotecnia, e é professora da Universidade da Flórida.Não concordo com tudo que ela diz no post, mas não há dúvida que brasileiros, principalmente os de classe média, na qual me incluo, reclamam demais, e muitas vezes de barriga cheia. E basta morar um tempinho no exterior pra constatar que aquele mito de que "país civilizado é outra coisa!" é só isso, um mito. Eu vivi um ano nos EUA e tive um
monte de problemas, daqueles que os brasileiros juram que só acontecem aqui. É disso que trata a indignação da Ana Paula.Preciso desabafar e acho que você é a pessoa certa pra "ouvir". Essa minha revolta começou ao ler o post de uma amiga no facebook e ver a resposta de uma outra brasileira à ela.
Aqui está o post da minha amiga:
“Recebi a conta da sala de emergência e estou chocada: 9,713 dólares! Deveria ser crime cobrar tanto de alguém que precisa de assistência médica! Não removeram m
eu estômago! Foi só dor! Meu seguro saúde pagou 8,406 dólares. O resto da conta, 1,300 dólares, sou eu que terei de pagar!" E aqui está a resposta que me deixou revoltada: “Concordo contigo! Isso é fora de cogitação! Mas se fosse no Brasil, eles também teriam removido seu estômago!"Estou tão de saco cheio dos brasileiros reclamarem do que têm. Moro nos EUA há 8 anos e quando vejo esse tipo de comentário, fico revoltada. É essa mania de todo mundo achar que lá nada presta e aqui tudo é uma maravilha. Durante uma visita ao Brasil, minha filha, então com um ano e meio, precisou ser levada a um ER, num domingo, pra fazer um enema. Esperei uns 15-20 minutos na sala de espera e fui levada pela enfermeira direto à sala da médica que já estava lá a minha espera. Fui super bem atendida e logo em seguida, a enfermeira veio nos buscar e levar pra sala do procedimento, sem esperas, e saí de lá com custo zero!

A mesma coisa já tinha acontecido aqui nos EUA quando minha filha tinha 3 meses, também num domingo. Ficamos uns 10-15 minutos na sala de espera. Mas aí vem a enfermeira te colocar numa sala, fazer mil perguntas (que serão perguntadas novamente pelo médico) e ficamos lá, uns 45 minutos esperando o médico chegar. O mesmo procedimento foi feito. A conta? Mais de mil dólares, dos quais meu seguro pagou uma parte e me sobraram U$ 350. Agora, e quem não tem seguro? Faz o quê?
No caso da minha amiga, foi descoberta uma úlcera, imagino que tenham feito exames. Mas uma conta de quase 10 mil?! Acho o atendimento médico no Brasil muito superior ao daqui. Mesmo quando s
e tem seguro saúde, os médicos sofrem uma pressão muito grande das seguradoras pra reduzirem pedidos de exames, procedimentos etc. Numa gravidez aqui, se fazem um ou no máximo dois ultrassons. Acho que aí no Brasil, mesmo pelo SUS, fazem-se uns seis ou sete.E o sistema odontológico, então? Aqui, além dos dentistas quererem sempre partir pra canais, coroas e extração do dente (é a filosofia do “pra que arrumar, quebrou, joga fora”, como tudo aqui), o custo é absurdo. Conheço famílias que esperam uma viagem aos seus países de origem pra fazerem o tratamento. Mesmo com plano dental, os procedimentos são pagos somente 20% a 50% (quanto mais caro o procedimento, menos eles pagam).
Eu nunca vi tantas pessoas jovens com dentes tão arruinados, pretos de cárie ou mesmo faltando muitos deles. E pessoas jovens. E não são pessoas paupérrimas não. Outro dia vi duas mulheres na Disney assim. A entrada na Disney custa caro, então dá pra imaginar que elas não eram muito pobres. E a faculdade de odontologia daqui não aceita nem o plano de saúde que a própria universidade oferece aos demais funcionários, quanto mais atender à população pobre de graça ou a custos módicos como as universidades do Brasil fazem.Mas não foi só pelo comentário maldoso em relação à saúde no Brasil que fiquei revoltada. É porque tô cansada mesmo de ver brasileiro reclamando. Pode ser sim que ainda existam muitos problemas a serem solucionados. Por exemplo, a segurança. Eu admito que na cidade onde moro a
gente pode andar tranquila, sem ter que se preocupar em ter a janela do carro fechada, ou ter que estar sempre agarrada à bolsa. Mas aposto que nas grandes cidades americanas existem problemas de segurança também.Sabe o que tem me irritado também? As reclamações sobre a Copa no Brasil. Odeio ver no FB o famoso post mostrando números relacionados com a Copa e reclamando que primeiro deveriam arrumar escolas, estradas etc... Parece que o brasileiro sempre reclama de barriga cheia e tá sempre insatisfeito. Lola, você aposta quanto que, se o Brasil tivesse perdido mais uma vez ser sede da copa, tava todo mundo reclamando e metendo a boca na FIFA e se achando injustiçado porque afinal, somos os únicos pentacampeões, e nada mais justo que a copa fosse no Brasil?

Enfim, acho que é só quando a gente vai morar em outro lugar pra aprender a dar valor ao que tem. Cada pessoa que reclama do Brasil deveria ser obrigada a morar um ano aqui. Aposto que iriam voltar para o Brasil de braços abertos. Capaz até de beijarem o solo brasileiro, à la João Paulo II, quando aterrissassem!
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