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Thursday, January 19, 2012

ESTUPRO NO BBB12

Olá, pessoas queridas! Vocês devem ter notado pelo excesso de comentários de trolls que eu não estou aqui. No momento estou no meu terceiro e último dia na deslumbrante João Pessoa. Hoje eu e o maridão vamos iniciar nossa viagem de volta a Fortaleza. Chegaremos em casa lá pela segunda ou terça-feira (há excelentes guest post agendados até lá, como vocês devem ter notado). É a primeira vez que chego perto de um computador desde o dia 10 (bom, no dia 14, quando estávamos em Natal, aproveitei o acesso grátis no hotel pra dar uma olhada rápida). Agora vim até uma lan house só pra deixar minhas inconsistentes impressões sobre o que parece ser o assunto do momento: o suposto estupro no BBB12.
Não acompanho o programa. Porém, na terça, após ler num jornal potiguar uma notinha sobre a eliminação do participante Daniel, vi uns pedaços. E me surpreendi em como a Globo conseguiu fazer desaparecer a convivência de Daniel em uma semana da casa. Tanto que comecei e terminei o programa sem saber quem era ele.
Enfim, todo mundo que vê BBB sabe mais disso tudo do que eu. Não vi o que aconteceu aquela noite (foi sábado?) embaixo do edredon. Só quem tinha pay per view (e internet) viu. Mas parece que Monique estava bêbaba, desacordada, e Daniel ou transou com ela ou a tocou, sem seu consentimento, enquanto ela estava vulnerável. Pela nova lei, isso é estupro. Não importa se Daniel realmente fez sexo com Monique. A lei não mais define estupro apenas quando há penetração vaginal.
Monique, pelos depoimentos que vi, foi contraditória: disse que houve consentimento, e que não se lembra de nada, que apagou, e que só se Daniel fosse muito "mau caráter" para transar com ela enquanto estava desacordada. Bom, talvez Monique não saiba o quanto este tipo de crime é comum. É difícil acreditar que "amigos" se aproveitem de mulheres bêbadas, eu sei. Afinal, se eu estivesse ao lado de um amigo que bebeu demais e apagou, o que eu faria? Me aproveitaria dele sexualmente, ou roubaria sua carteira, ou o ajudaria, ou zelaria pelo seu sono? A resposta é óbvia pra maior parte das pessoas. Mas fiquei surpresa duas semanas atrás, pouco antes de viajar, ao receber dois emails em menos de vinte dias de duas moças pedindo ajuda. Ambas tinham passado pela mesma coisa: tinham saído com amigos, bebido, passado mal, "apagado", e acordado no dia seguinte com dores, sem saber o que havia acontecido. Passadas algumas semanas, cada um dos "amigos" revela, rindo, que tinha "se aproveitado" da moça enquanto ela estava desacordada. As duas leitoras em questão, de diferentes regiões do país, não acharam graça nenhuma -- queriam processar seus estupradores. Consultei uma advogada amiga minha para pedir orientações, e as passei às leitoras. O primeiro passo é fazer um boletim de ocorrência. E reunir o máximo de provas e testemunhas (quem viu a vítima com o acusado por último, por exemplo). Em um dos casos, havia todo o papo gravado no computador, com a confissão do ex-amigo. E não é que esses caras sejam monstros. Eles "só" pensam que o corpo de uma mulher é público, e que se uma amiga está desacordada ao seu lado, ele merece transar com ela. É seu prêmio. Disseram pra ele que homens e mulheres não podem ser amigos, e ele acreditou.
Pelo jeito, aquele ditado de que "c* de bêbado não tem dono" só se aplica a mulheres, ou a bebuns pobres que vivem na rua. O que os carinhas que transaram com essas duas leitoras quando elas estavam vulneráveis diriam se um "amigo" tivesse se aproveitado para transar com eles enquanto eles estivessem desacordados? Continuaria sendo aceitável? Engraçado?
Por um lado, é positivo que um estupro tenha ocorrido num programa de grande popularidade, porque isso traz um tema cada vez mais comum à tona. Li que a pressão para que a Globo eliminasse Daniel começou no twitter. Ou seja, houve reação. Por outro lado, não quero nem ler as atrocidades que @s machistas de plantão devem estar dizendo. Lógico que essas pessoas não acreditam em estupro! E lógico que a culpa é da vítima (vale lembrar que beber até cair não é crime; fazer sexo ou tocar sexualmente em alguém desacordado, é). Eu entrei no primeiro site que encontrei, procurando o nome da participante (pensava que ela se chamava Michelle), e lá havia uma enquete perguntando se Monique também deveria ser eliminada, porque a culpa seria tão dela quanto de Daniel. 80% responderam que sim. Mas este é o senso comum, aquele que tanto combatemos.
Outro ponto importante é a responsabilidade da Globo. Num reality show, tudo ocorre ao vivo, na frente de espectadores e responsáveis pelo programa. Boninho e companhia viram o que estava acontecendo. Por que não fizeram nada? Por que não impediram o estupro? Se um participante começasse a espancar um outro participante, o BBB deixaria que aquilo continuasse, ou interromperia? Certo, é bem provável que o participante seria punido com a eliminação, mas não é função da emissora evitar que algum crime seja cometido? Ou vale tudo mesmo?
Bom, gente, deixem aqui suas observações e possíveis correções ao que escrevi. Hoje estou pegando meu primeiro dia de férias com chuva. Mas vou entrar no mar de qualquer jeito. Até a volta! (e trolls, tirem férias também. Faz bem).

Wednesday, January 4, 2012

INSULTAR OU APLAUDIR MULHERES RICAS, O CULTO AO CAPITALISMO

"Capitalismo é o máximo", diz a faixa

Anteontem vi alguns pedaços de Mulheres Ricas, já que todo mundo no Twitter só parecia falar no novo programa da Band. Não vi inteiro porque o canal pega mal na TV de casa, e também proque é justamente no horário de Amor e Revolução, praticamente a única coisa que vi na TV em 2011.
Bom, de cara, eu não sou o público-alvo de Mulheres Ricas. As tais cinco socialites ostentam carros importados, joias, champanhe e viagens internacionais. Vejamos. Carro, pra mim, é um meio de transporte. Feito pra levar uma pessoa do trecho A ao trecho B. E que deveria ser repensado e substituído por transporte coletivo pra que possamos ter de volta cidades mais humanas. Pra mim nunca foi símbolo de status. Eu mal sei distinguir um Fusca de uma Kombi. Joias? Taí um produto que desprezo totalmente. Não tenho nem orelha furada. Nunca usei; acho horroroso, pra falar a verdade. E se 10% do que é denunciado em Diamante de Sangue for verdade, deveríamos parar com essa besteira de “diamonds are a girl's best friend”. Champanhe? Só bebo água, obrigada. Sem gás. Não engarrafada, que é pra não poluir o meio ambiente com embalagens inúteis. Não tenho problema algum em beber água de torneira, se bem que todos meus amigos de classe média garantem que vou morrer por causa disso. Sobram as viagens internacionais. Ano passado o maridão e eu passamos quinze dias na Europa. Foi bem legal, adorei Paris, queijos e chocolates baratos. Mas, sei lá, não acho que estamos falando do mesmo padrão de andar de jatinho.
Já falei que sou de esquerda e não-consumista? Acho que nem preciso, depois dessa introdução. Eu defendo limites pra riqueza. Acho que ninguém precisa ser bilionário. Aliás, acho imoral que alguns indivíduos tenham mais dinheiro que o PIB de vários países reunidos. E nem estou pensando na África. Nos EUA, as 400 pessoas mais ricas têm mais bens que 150 milhões de americanos juntos. Sinal de um desequilíbrio monstruoso.Mas este é o nosso mundo. Um mundo em que falar isso que falei já me torna uma dinossaura. Não sei se o capitalismo venceu (é duro considerar vitorioso um sistema que gera tantas desigualdades e que vive uma das piores crises de sua história), mas sem dúvida conquistou corações e mentes. Apesar de todos os Occupy Wall Street e de todos os protestos no mundo inteiro, que me deixam com muita esperança, o que mais vejo são pessoas que querem ser ricas. Não que querem um mundo mais justo, com distribuição de renda menos desigual. Não. O pessoal quer mesmo é enriquecer, e joga semanalmente na loteria pra sonhar com este dia que jamais chegará. A diferença, talvez, é que hoje muitos jovens sabem que pouquíssimos ganham na megasena, e que trabalhar não torna ninguém milionário. Mas isso só faz com que fiquem mais cínicos. A revolta não é mais contra a injustiça do mundo, é contra a injustiça que eles não sejam ricos.Temos que mudar essa mentalidade. Eu não quero ser rica. Tenho tudo que quero. Se eu tivesse um milhão de dólares a mais minha vida não seria diferente. Já sou privilegiada. Não quero melhorar de vida, quero que aqueles que estão numa situação muito menos privilegiada que a minha melhorem de vida.
Mas no nosso mundo cultuamos os ricos. Há revistas dedicadas a eles, listas dos mais mais. O pessoal parece se lixar com que Bill Gates tenha um monopólio que lhe rende bilhões de dólares -– o importante é que ele faz doações! Ter uma dúzia de bilionários de “bom” coração vale mais do que ter governos que garantam justiça social. Caridade é muito mais importante que direitos!, berra o pensamento dominante. Só que no Brasil não existem ricos. Pelo jeito ninguém é rico. Já viu como a mídia se refere aos bairros onde só vivem ricos? “Bairro de classe média alta”. Temos classe média alta, mas não ricos. Nem o Ermírio de Moraes se considera rico. Fica uma coisa meio esquizofrênica: as pessoas querem ser algo que nem existe! A resposta pra velha pergunta “Qual a primeira coisa que você faria se ficasse rico?” é “Eu negaria que fiquei rico” (mas não se preocupe, que você não vai ficar rico).
As cinco retratadas de Mulheres Ricas negam ser ricas. Algumas disputam entre si quem é a mais endinheirada, uma diz que a outra está falida, outra que ela é melhor por ser rica de berço (sinceramente, não sei bem quem é quem, e não me interessa. Um jornalista reaça como o Guilherme Fiúza poderia namorar qualquer uma delas, e eu acharia coerente).Até entendo que a galera de esquerda ria dos ricos. No entanto, não faz muito sentido o pessoal conservador vilanizar os ricos. Mas aí é que está: eles, nós, direita, esquerda, não vilanizamos os ricos. Só as ricas. É a esse propósito que o programa da Band serve. Que, aliás, não é só o programa da Band. Existem vários por aí que têm o mesmo formato, como The Real Housewives of Orange County, que mostra americanas abastadas de subúrbio, vivendo suas vidas luxuosas e morrendo de medo de envelhecer.
Imagine se o programa se chamasse Homens Ricos. Seria totalmente diferente -– e muito mais respeitado. Aí poderíamos fingir que homens ricos sim trabalham e merecem ter a fortuna que exibem. Afinal, termos como perua e socialite só existem pra definir mulheres. Homem rico é playboy. Se for jovem, talvez filhinho de papai (que também serve pra qualquer rapaz de classe média). A gente não vê chamarem ricos midiáticos como Eike Batista, Roberto Justus ou João Dória Jr de fúteis. Seus itens de consumo, suas plásticas, suas obsessões por roupas e carros devem ser tão fúteis quanto os da Narcisa, mas fútil é ela, não eles. Então, beleza: a gente libera todo o nosso machismo, ri sem vergonha das madames patéticas e conclui que não, não é a riqueza que é fútil. São as mulheres que usufruem dela.Programas como Mulheres Ricas não são contra o capitalismo. Muito pelo contrário. É o próprio sistema dizendo Eis seus ídolos de barro para serem idolatrados. Alguns espectadores assistem à atração da Band como inspiração; outros para rir das peruas. E assim tod@s seguimos alegres criticando as socialites, e não o sistema que possibilita que inutilidades assim existam. Mas fica a dúvida: quem está rindo de quem?

Wednesday, December 28, 2011

AMOR E REVOLUÇÃO, MAIS ACERTOS QUE ERROS

O chato de acompanhar uma novela é que a gente fica meio escrava da TV, precisa ver quase todo dia. E o chato de ver uma novela que não é da Globo é que você fica sem todo o aparato “jornalístico” que te conta tudo o que está acontecendo e vai acontecer, que cria o hype. Mas, enfim, venho assistindo Amor e Revolução, no SBT, há meses. Desde abril. E não sei quando vai acabar. Janeiro? A emissora já anuncia a próxima novela -– que não vou ver, lógico. Só vi esta (e acho que A&R e O Aprendiz foram os únicos programas que vi na TV este ano) por causa do tema. Afinal, vi a minissérie da Globo Anos Rebeldes, em 1992 (mantenho que sem ela não teria acontecido os caras pintadas, e sem eles, não teria acontecido o impeachment do Collor). Se A&R fosse feita e transmitida pela Globo, todo mundo estaria falando nela. A gente estaria exigindo a punição dos militares torturadores, fazendo estardalhaço pela Comissão da Verdade... Esse pessoal impune tem muita sorte da novela nunca ter passado dos 5% de ibope.
De minha parte, amei a novela. Podem falar o que quiserem, que alguns atores deixaram a desejar, que os diálogos eram fracos, que as cenas de ação eram de quinta... É novela, pô! Pra mim tanto faz se é novela da Globo, do SBT ou da Record. Não espero realismo nem de novela, nem de filme de Hollywood. Eu “suspend my disbelief” e vou fundo. E a história de A&R foi mais ou menos verdadeira. Quero dizer, houve uma ditadura militar sanguinária no Brasil (não uma ditabranda, como quis reescrever um jornal). Houve tortura. Houve guerrilheiros que lutaram contra ela. Certo, esses guerrilheiros certamente não estavam lutando em abril de 1964, ao contrário do que a novela mostrou. Mas A&R foi totalmente de esquerda. Os vilões foram os militares e torturadores do Dops.Como sempre, vilão é o papel mais suculento das tramas, e em A&R quem brilhou foi o Nico Puig, como o Major Filinto. Aliás, gostei também de seu pai, o general Guerra (Reinaldo Gonzaga). Só não me perdoo por ter passado a novela inteira achando que quem fazia a mãe do major e também do mocinho bobalhão da história era a Nívea Maria (não era, era a Glauce Graieb). A novela teve várias crises longe das câmeras, nos bastidores mesmo. Primeiro cometeu-se a besteira extraordinária de picotar os depoimentos de personagens reais no final de cada capítulo. Mais pra frente, simplesmente tiraram esses depoimentos, que eram fenomenais. Alegaram terem tirado porque só gente de esquerda aceitou depor. O pessoal de direita não teve coragem de dar as caras e defender suas atrocidades. Olha, dane-se. Se eles foram convidados a gravar depoimentos e se recusaram, problema deles. Não tem que haver equilíbrio ideológico em obra nenhuma, ainda mais quando falamos de uma ditadura militar.Depois a novela ficou mais light, menos política. Parece que muita gente reclamou das cenas de tortura (definitivamente exageradas, mas realistas) nas primeiras semanas de novela. Aí o autor Tiago Santiago decidiu cortar todas as cenas de tortura, até chegar ao final ridículo em que os investigadores do Dops giravam a vítima de um lado pro outro. Havia outros momentos absurdos, como o fato de todo mundo em fuga se esconder da polícia sempre nos mesmos lugares: na igreja, na cantina, no teatro, e no apartamento da família Paixão (um lugar um tanto estranho, considerando que a filha, mocinha da novela, era uma militante política, e o pai, um jornalista contra o regime). Também não é segredo pra ninguém que o maior sucesso da novela foi ter protagonizado o primeiro beijo lésbico. O autor se entusiasmou com a audiência, disse que haveria também um beijo gay (entre o diretor de teatro e o carcerário, que chegaram a formar um par, com direito a algumas discussões interessantes partindo do filho carcerário, pedindo pro seu pai militar aceitá-lo como ele é). Aconteceu alguma coisa que não saberemos (ordens de cima, do dono do emissora? Censura da grossa? Rejeição do público?), mas de repente toda essa subtrama gay foi relegada a segundo plano. O produtor de teatro praticamente sumiu. Seu beijo nunca foi mostrado. E todo o desenvolvimento do casal lésbico foi só falado, nunca mais exposto. O autor chegou a anunciar um segundo beijo lésbico, que pelo jeito foi gravado -- e nunca foi ao ar. Como muitas tramas na novela (principalmente a dos padres), a da advogada Marcela (Luciana Vendramini), lésbica assumida, precisando fingir pros seus pais que ela iria se casar com um homem também virou mote cômico. Até aí ainda vai. O problema foi quando ela decidiu transar com um jornalista, partindo o coração de sua paixão, Marina (que demorou um tempão pra aceitar que estava apaixonada por uma mulher).O que eu vi nesta semana e na última foi um total retrocesso: Marcela se deixando seduzir por Mário, que a vê como virgem (porque ela nunca foi pra cama com um homem!); ela fora da personagem, frágil e insegura. Só aí que eu me toquei: a noite de sexo entre Marcela e Mário servirá para que ela engravide. O final feliz obviamente será entre ela e Marina, a dona do jornal (e a atriz mais bonita da novela, Giselle Tigre), que juntas criarão um bebê.Ótimo, legal, mas convenhamos: havia mil e uma formas de obter o mesmo resultado (uma gravidez) sem toda essa ladainha de “você não fez sexo até transar com um homem, mocinha”. E eu tô chutando tudo isso. Li também que é o público que vai decidir com quem Marcela vai ficar. Putz, um autor de novela não tem que ser democrático! Ele criou esse universo ficcional; cabe a ele decidir o que será do casal lésbico. Deixar a decisão pros espectadores é como fazer plebiscito pra maioria decidir se vai ou não conceder os mesmos direitos constitucionais a uma minoria. Toda essa confusão de Marcela, lésbica durante toda sua vida, apaixonada por Marina desde o início da novela, de repente querer transar com um pamonha feito o Mário foi um belo derrapão na última fase, sem dúvida. Porém, o saldo geral é extremamente positivo. Foi uma novela feminista e de esquerda. Muitas mulheres fortes e decididas na trama, a começar pela heroína, que fez treinamento de guerrilha em Cuba e é anos-luz mais inteligente e preparada pra luta que seu par romântico.Lúcia Veríssimo foi outra que interpretou uma guerrilheira, com direito a uma coluna feminista num jornal! Um rapaz lindo com metade da sua idade se apaixona por ela, e ela trai seu marido, o também guerrilheiro Batistelli (Licurgo Spinola), que é comunista mas machista, explicando-lhe: “Meu corpo não é de ninguém. Ou melhor, ele é meu. Só meu”.Outra adepta do amor livre é a atriz Stela (Joana Limaverde), que vive brigando com o namorado por não aceitar ser só dele. Lá no meio da trama ela faz um aborto, que rende inúmeros bons debates, e surprise surprise, sua personagem não é punida por isso! E, ainda no primeiro semestre, uma estudante (que logo também entraria pra luta armada) é beijada à força por um rapaz. Contrariando todos os clichês de que a donzela será domada, ela morde a língua dele e lhe diz: “Assim você aprende a nunca mais tentar calar minha boca com um beijo”. E por aí vai. Amor e Revolução é uma prova de que a televisão pode influenciar corações e mentes de forma positiva. Eu ficarei com saudades. Mas, por favor, não permitam que a novela tenha um final tão infeliz, esse da lésbica assumida ficar com um homem só porque é isso que a sociedade espera das lésbicas -- que sejam salvas.

Friday, December 23, 2011

NA PRÉ-HISTÓRIA NÃO HAVIA MARIDOTECA. EVOLUÍMOS!

Algumas leitoras pediram que eu comentasse uma reportagem do Fantástico do último domingo (veja aqui), e como eu tardo, tardo, tardo, mas não falho (ahan), tô na área. A matéria era sobre maridotecas, um espaço nos shoppings feito pra que os homens relaxassem enquanto suas esposas percorressem todas as lojas como as malucas incontroláveis que somos. O estranho é que eu já tinha lido algo sobre essa “tendência” bem antes da reportagem. Mas, enfim, algumas mulheres são entrevistadas pra provar que o senso comum está absolutamente certo: “Ah, eu adoro gastar!”, diz uma. “Toda mulher gosta demais de um shopping”, diz outra. Eu ouço essas coisas e meu cérebro faz cálculos: eu sou mulher. Eu não gosto de shopping. Logo, eu não sou mulher?
Puxa, mas como assim? Como uma mulher pode não gostar de shopping, ainda mais de shopping completamente lotado em época de natal? É o paraíso na terra!
Não. É ponto pacífico pra reportagem que 1) mulher adora shopping, e 2) homem odeia shopping. Então, pra eles, há um espaço com atendentes jovens e bonitas (não aquelas umas que eles têm em casa), massagem, pebolim, TV com jogos -– sabe, que nem tem brinquedoteca pra deixar as crianças? Nada como infantilizar os homens também e deixar alguém cuidando deles! “Mas antes de entrar, tem pedágio”, diz o repórter. E a câmera mostra os maridos dando dinheiro e cartão de crédito pras suas respectivas. Porque, óbvio, mulher não trabalha! Mulher não tem seu próprio dinheiro, já nos ensinou a Gisele naquele comercial! A preocupação do repórter com os maridos é genuína: “Vocês não 'tão lá pra controlar! E o prejuízo depois?” Pois é, como deixar sua mulher solta por aí? Coleira nela!
Não consegui prestar atenção no resto da reportagem porque ficava pensando como eu gostaria de receber massagem, comer petiscos e jogar pebolim (é tão legal!) enquanto o maridão vai às compras. Exceto que nenhum de nós dois compra muita coisa, graças aos céus. Mas eu queria entender a causa da matéria não fugir nem um tiquinho do senso comum e da vontade de fazer gracinha. Queria que a matéria tentasse resolver esse grande mistério: por que homem vai às compras com a mulher (que em geral, e principalmente no natal, não compra presentes pra ela, mas pros outros)?
Possíveis hipóteses:
- Pra controlar a mulher.
- Pra carregar as sacolas de compras.
- Pra, no caso de um pote de azeitona aparecer na frente deles, o macho conseguir abri-lo.
- Pra olhar feio pra esposa e lembrá-la que o sagrado matrimônio só é sagrado pro papa.
- Pra estacionar o carro (mulher não sabe dirigir; mulher nem tem carro, como já disse o comercial da Gisele).
- Pra participar de um ritual sofrido e sentir-se mais que um provedor -- um grande caçador.
Pode ser isso? Fui atrás de mais informações, e só encontrei um post antigo num blog que parece ser de marketing. O nome do post é “Porque as mulheres gostam tanto de comprar?”, que também poderia se chamar “Por que a reforma ortográfica não reduziu as quatro formas de porque a apenas duas?”
E a resposta é científica. Quer dizer, de um jeito PsicoEvo de ser:
Na pré-história, cabia ao homem a tarefa inglória de ir à caça, buscar carboidratos para alimentar sua família. À mulher, cabia a missão de cuidar do lar, ou melhor, da caverna. Sua rotina era limpar o ambiente, cuidar dos filhos, preparar a comida. Por sua iniciativa, a mulher também gostava de sair da caverna e buscar, na natureza, objetos, vegetais e frutas que pudessem ampliar a dieta da família. Uma frutinha aqui, uma lenha ali, a mulher era a grande colhedora da natureza. O tempo passou, mas este hábito ficou na gene feminina. Hoje, o hábito de consumir representa uma evolução daquela mulher colhedora da pré-história. Não podendo simplesmente colher, a mulher de hoje compra, e adora comprar! Portanto, caras leitoras, não se sintam culpadas por gostarem tanto de um shopping. Isto é genético!

Não é possível, eu devo ter vindo com um cromossomo Y! Defeito de fábrica!
Puxa, a julgar pelo post (puro senso comum), as mulheres já eram parasitas desde a mais tenra idade da humanidade. Enquanto os machos iam com suas potentes clavas buscar carne de mamute, uma tarefa inglória, as fêmeas tinham a tarefa obviamente gloriosa de limpar a caverna, uma caverna sem luz elétrica e alguns séculos antes da invenção do aspirador em pó. A rotina tranquila das fêmeas deixava tanto tempo livre que elas, por sua sua vontade mesmo, e pra se distanciarem do choro dos Bambans e Pedritas, saíam por aí em busca de coisas absolutamente fúteis, porque, né, quem precisa de frutinha se seu homem vai trazer um mamute? Mas hoje sim somos evoluídas: não colhemos, compramos! E pagamos com o cartão de crédito do marido! Uau! E não é pra se sentir culpada, Wilma Flintstone! Você não consegue sair de um shopping porque foi geneticamente programada pra isso!
Como esse tipo de pensamento está arraigado na sociedade! As pessoas acreditam nessas baboseiras sem piscar. Afinal, é ciência! Outro dia uma amiga minha, a Manu, contava o que viu num programa de TV verspertino, cujo público-alvo é composto de mulheres. Um especialista explicava que a gente não pode querer discutir a relação com o companheiro nunca, porque homem não gosta mesmo de ouvir, mas, nos raros casos em que a gente de repente quiser se comunicar com nossos machos, deve escolher a parte da manhã. Por quê? Ah, porque é genético. Na pré-história, os homens saíam pra caçar, geralmente de manhã (por isso, já explicou um psicólogo evolucionista, a cor preferida do homem é azul. Céu azul, sacou? Nós amamos rosa por causa das frutinhas). E à noite os machos estavam exaustos, após tanto esforço físico. Só queriam se jogar no sofá, ver uma partida de futebol na TV, e beber cerveja. Mas, na falta disso tudo, só lhes restava dormir mesmo, pobrezinhos. Nós mulheres precisamos compreender nossos provedores.
Pois é. Cadê o meu mamute?
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