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Wednesday, December 28, 2011

AMOR E REVOLUÇÃO, MAIS ACERTOS QUE ERROS

O chato de acompanhar uma novela é que a gente fica meio escrava da TV, precisa ver quase todo dia. E o chato de ver uma novela que não é da Globo é que você fica sem todo o aparato “jornalístico” que te conta tudo o que está acontecendo e vai acontecer, que cria o hype. Mas, enfim, venho assistindo Amor e Revolução, no SBT, há meses. Desde abril. E não sei quando vai acabar. Janeiro? A emissora já anuncia a próxima novela -– que não vou ver, lógico. Só vi esta (e acho que A&R e O Aprendiz foram os únicos programas que vi na TV este ano) por causa do tema. Afinal, vi a minissérie da Globo Anos Rebeldes, em 1992 (mantenho que sem ela não teria acontecido os caras pintadas, e sem eles, não teria acontecido o impeachment do Collor). Se A&R fosse feita e transmitida pela Globo, todo mundo estaria falando nela. A gente estaria exigindo a punição dos militares torturadores, fazendo estardalhaço pela Comissão da Verdade... Esse pessoal impune tem muita sorte da novela nunca ter passado dos 5% de ibope.
De minha parte, amei a novela. Podem falar o que quiserem, que alguns atores deixaram a desejar, que os diálogos eram fracos, que as cenas de ação eram de quinta... É novela, pô! Pra mim tanto faz se é novela da Globo, do SBT ou da Record. Não espero realismo nem de novela, nem de filme de Hollywood. Eu “suspend my disbelief” e vou fundo. E a história de A&R foi mais ou menos verdadeira. Quero dizer, houve uma ditadura militar sanguinária no Brasil (não uma ditabranda, como quis reescrever um jornal). Houve tortura. Houve guerrilheiros que lutaram contra ela. Certo, esses guerrilheiros certamente não estavam lutando em abril de 1964, ao contrário do que a novela mostrou. Mas A&R foi totalmente de esquerda. Os vilões foram os militares e torturadores do Dops.Como sempre, vilão é o papel mais suculento das tramas, e em A&R quem brilhou foi o Nico Puig, como o Major Filinto. Aliás, gostei também de seu pai, o general Guerra (Reinaldo Gonzaga). Só não me perdoo por ter passado a novela inteira achando que quem fazia a mãe do major e também do mocinho bobalhão da história era a Nívea Maria (não era, era a Glauce Graieb). A novela teve várias crises longe das câmeras, nos bastidores mesmo. Primeiro cometeu-se a besteira extraordinária de picotar os depoimentos de personagens reais no final de cada capítulo. Mais pra frente, simplesmente tiraram esses depoimentos, que eram fenomenais. Alegaram terem tirado porque só gente de esquerda aceitou depor. O pessoal de direita não teve coragem de dar as caras e defender suas atrocidades. Olha, dane-se. Se eles foram convidados a gravar depoimentos e se recusaram, problema deles. Não tem que haver equilíbrio ideológico em obra nenhuma, ainda mais quando falamos de uma ditadura militar.Depois a novela ficou mais light, menos política. Parece que muita gente reclamou das cenas de tortura (definitivamente exageradas, mas realistas) nas primeiras semanas de novela. Aí o autor Tiago Santiago decidiu cortar todas as cenas de tortura, até chegar ao final ridículo em que os investigadores do Dops giravam a vítima de um lado pro outro. Havia outros momentos absurdos, como o fato de todo mundo em fuga se esconder da polícia sempre nos mesmos lugares: na igreja, na cantina, no teatro, e no apartamento da família Paixão (um lugar um tanto estranho, considerando que a filha, mocinha da novela, era uma militante política, e o pai, um jornalista contra o regime). Também não é segredo pra ninguém que o maior sucesso da novela foi ter protagonizado o primeiro beijo lésbico. O autor se entusiasmou com a audiência, disse que haveria também um beijo gay (entre o diretor de teatro e o carcerário, que chegaram a formar um par, com direito a algumas discussões interessantes partindo do filho carcerário, pedindo pro seu pai militar aceitá-lo como ele é). Aconteceu alguma coisa que não saberemos (ordens de cima, do dono do emissora? Censura da grossa? Rejeição do público?), mas de repente toda essa subtrama gay foi relegada a segundo plano. O produtor de teatro praticamente sumiu. Seu beijo nunca foi mostrado. E todo o desenvolvimento do casal lésbico foi só falado, nunca mais exposto. O autor chegou a anunciar um segundo beijo lésbico, que pelo jeito foi gravado -- e nunca foi ao ar. Como muitas tramas na novela (principalmente a dos padres), a da advogada Marcela (Luciana Vendramini), lésbica assumida, precisando fingir pros seus pais que ela iria se casar com um homem também virou mote cômico. Até aí ainda vai. O problema foi quando ela decidiu transar com um jornalista, partindo o coração de sua paixão, Marina (que demorou um tempão pra aceitar que estava apaixonada por uma mulher).O que eu vi nesta semana e na última foi um total retrocesso: Marcela se deixando seduzir por Mário, que a vê como virgem (porque ela nunca foi pra cama com um homem!); ela fora da personagem, frágil e insegura. Só aí que eu me toquei: a noite de sexo entre Marcela e Mário servirá para que ela engravide. O final feliz obviamente será entre ela e Marina, a dona do jornal (e a atriz mais bonita da novela, Giselle Tigre), que juntas criarão um bebê.Ótimo, legal, mas convenhamos: havia mil e uma formas de obter o mesmo resultado (uma gravidez) sem toda essa ladainha de “você não fez sexo até transar com um homem, mocinha”. E eu tô chutando tudo isso. Li também que é o público que vai decidir com quem Marcela vai ficar. Putz, um autor de novela não tem que ser democrático! Ele criou esse universo ficcional; cabe a ele decidir o que será do casal lésbico. Deixar a decisão pros espectadores é como fazer plebiscito pra maioria decidir se vai ou não conceder os mesmos direitos constitucionais a uma minoria. Toda essa confusão de Marcela, lésbica durante toda sua vida, apaixonada por Marina desde o início da novela, de repente querer transar com um pamonha feito o Mário foi um belo derrapão na última fase, sem dúvida. Porém, o saldo geral é extremamente positivo. Foi uma novela feminista e de esquerda. Muitas mulheres fortes e decididas na trama, a começar pela heroína, que fez treinamento de guerrilha em Cuba e é anos-luz mais inteligente e preparada pra luta que seu par romântico.Lúcia Veríssimo foi outra que interpretou uma guerrilheira, com direito a uma coluna feminista num jornal! Um rapaz lindo com metade da sua idade se apaixona por ela, e ela trai seu marido, o também guerrilheiro Batistelli (Licurgo Spinola), que é comunista mas machista, explicando-lhe: “Meu corpo não é de ninguém. Ou melhor, ele é meu. Só meu”.Outra adepta do amor livre é a atriz Stela (Joana Limaverde), que vive brigando com o namorado por não aceitar ser só dele. Lá no meio da trama ela faz um aborto, que rende inúmeros bons debates, e surprise surprise, sua personagem não é punida por isso! E, ainda no primeiro semestre, uma estudante (que logo também entraria pra luta armada) é beijada à força por um rapaz. Contrariando todos os clichês de que a donzela será domada, ela morde a língua dele e lhe diz: “Assim você aprende a nunca mais tentar calar minha boca com um beijo”. E por aí vai. Amor e Revolução é uma prova de que a televisão pode influenciar corações e mentes de forma positiva. Eu ficarei com saudades. Mas, por favor, não permitam que a novela tenha um final tão infeliz, esse da lésbica assumida ficar com um homem só porque é isso que a sociedade espera das lésbicas -- que sejam salvas.

Monday, May 23, 2011

LEITORA PERGUNTA: COMO SERIA SE A MENINA DA NOVELA FOSSE MENINO?

Terça passada dei uma palestra sobre Sexualidade, Corpo e Mídia no SESC-CE, parte de um ótimo seminário que apresentou os resultados de uma ampla pesquisa da Fundação Perseu Abramo sobre as mulheres (prometo falar mais sobre isso). Uma das palestrantes foi a Maria da Penha, pra você ver a minha responsa. Mas, como diz o Borat, minha apresentação acabou sendo um “great success”. Muita gente veio falar comigo no coquetel que houve depois. Duas moças inteligentes e articuladas me perguntaram sobre a novela Insensato Coração. Afirmaram que todos os personagens homens agem e falam de uma forma machista que desvaloriza as mulheres. Eu respondi que não sabia, pois só assisto (e recomendo) Amor e Revolução, que trata dos anos de chumbo (e eu considero uma novela feminista, pois mostra o papel relevante que as mulheres tiveram na luta contra a ditadura).
Aí recebi um email de uma leitora simpática, a Aurora, falando da novela, ao mesmo tempo em que li este textinho da atriz (Bruna Linzmeyer) que faz a Leila, uma garota de 19 anos que se apaixona pelo mulherengo André (Lázaro Ramos). Se você estiver boiando tanto quanto eu, neste vídeo André comenta com um amigo como a menina se jogou em cima dele. Ele parece ser um escrotossauro (a meu ver, mais pelo que fala da esposa do colega do que pelo que fala da garota). Mas nesta cena em que Leila se declara a ele, eu gostei da resposta dele.
Nesta parte Júlio, o pai (Marcelo Valle), descobre que André tinha saído com a filha. Aqui, o pai chama a filha de vadia e recebe um tapa (gostei! Em geral é o patriarca que espanca a filha, e o público aplaude). E aqui, Leila acaba saindo de casa. Agora que você já está a par de tudo, leia o depoimento e as dúvidas de Aurora, que eu volto no final.

Aurora: Esta semana tivemos um jantar em família pra apresentar o namorado novo da minha prima. Eis que em certo ponto da noite, depois de toda a comilança, restam apenas as mulheres e o convidado na mesa. Começa a novela das 9, e logo estamos todAs engajadas numa discussão sobre os últimos acontecimentos da trama.
Talvez você não veja novela, então vou apresentar a situação bem por cima: Uma jovem vive frustrada por não se realizar sexualmente. Em busca de prazer, se joga nas baladas e começa a sair com vários caras, tudo sem compromisso nenhum. A casa vem abaixo quando o pai (que acredita piamente naquela história de mulher que transa é vagabunda) descobre que ela transou com dois colegas de trabalho dele. Como ele descobre? Do pior jeito possível: está numa mesa ouvindo os colegas falarem "horrores" de uma garota e, papo vai, papo vem, ele liga os pontos e percebe que a filha dele é a mulher em questão. Há um tremendo barraco e sequências com o pai em casa, dizendo que não criou a filha pra ser uma vadia e chorando horrores pela decepção gigantesca.
Eis o nosso diálogo na mesa:
Tia: Vocês viram que horror ela aprontou com o pai?
Mãe e prima: Ah, é, foi horrível!
Eu: Tá, mas e se a filha na verdade fosse um homem? Tipo, é o cara que sai pra balada toda a noite e passa o rodo. Será que seria a mesma coisa?
Tia, rindo nervosa: Ah, mas é diferente... Ele é PAI... Ela é filhA... E ele teve que ouvir aqueles caras falando dos detalhes...
Eu: Ela é maior. Trabalha e se sustenta e--
Mãe: Ela quer dizer que é diferente o sentimento...
Tia: É, filhO tanto faz, mas filhA o pai quer proteger... blábláblá...
E aí elas me encurralaram -- eu nunca tive um pai, não entendo nada disso. Olhando de fora me parece um argumento machista (sexo é sexo, pô. Porque se a filhA faz sexo ela corre perigo, e se o filhO faz sexo tanto faz? Se o pai tivesse ouvido meninas comentando que o filho dele é bom de cama, ou que é galinha, ele ia pra casa chorar?).
Me parece que a questão é cultural, e não simplesmente um instinto protetor que naturalmente só se aplica a meninAs. E me parece muito, mas muuuito errado perpetuar essa coisa de que "sim, papai te trata diferente, mas você devia ficar feliz, isso é porque você é especial! Na verdade, seu pai se importa mais com você do que com seu irmão! Não, ele não vê sexo como algo diferente pra vocês dois! Sexo realmente É perigoso PROS DOIS, mas o caso é que ele tá é se lixando pros riscos que o seu irmão corre! Ele só quer saber de proteger a menininha dele!". Tava todo mundo emocionado e feliz na mesa dizendo que um pai trata uma filha "com mais carinho".
... e eu boiei, porque não sou pai nem nunca tive um.
Não se trata de "vencer" o debate. O negócio é que eu fiquei intrigada. E óbvio que a primeira coisa que me veio à cabeça foi o Escreva, Lola, Escreva...
Então lá vai: É possível aplicar conceitos como feminismo e/ou machismo à família? Se sim, como a ótica feminista vê uma relação pai-filhA? Até que ponto se questiona a "espontaneidade" dos sentimentos afetivos? Até que ponto a sociedade influencia o que se passa dentro de casa?
Além disso, tem outra questão: Na novela, é clara a intenção do autor de levantar o debate. Pelo menos a meu ver, até aqui a história se mostrou a favor da menina, levando pras pessoas a noção de que está tudo bem a mulher ser sexualmente independente. Mas não é bem assim que o povo está recebendo -- lá em casa todo mundo interpretou como "o retrato da desgraça de um pai", não como "o tratamento diferenciado que uma jovem tem que enfrentar". Será que não dava um post?
Se fosse um filhO, seria o mesmo? Sim? Não? Por quê? Quero focar na reação dele em relação à filha estar "falada". Essa "proteção" é questionável ou não? Ele é retrógado, ou todos os pais são assim? Quando a filha tenta argumentar que é maior, independente, etc, por que ele não escuta? Pais se revoltam quando os filhOs vão pra cama com meninas... hã... qual o feminino de cafajeste? Ah, você entendeu. Pais brigam pra defender a honra sexual dos filhOs? Etc, etc, etc. A novela foi só um gatilho pras minhas dúvidas.

Euzinha de volta, respondendo apenas a algumas das perguntas (o resto eu deixo pra você nos comentários): Lógico que a reação dos pais seria diferente se a filha em questão fosse filho. Não consigo imaginar pais destruídos com a honra do seu filho, por ele “estar passando de mão em mão”, falando coisas horríveis sobre sua sexualidade! É só comparar: o que de horrível pode ser dito da sexualidade de um cara? Que ele broxa? Que ele goza rápido demais? Que ele tem o pênis pequeno? As opções acabam aí. (Ah sim, que ele -- o horror, o horror -- é gay!). É só lembrar quantos termos pejorativos existem pra descrever a sexualidade de uma moça: vadia, vagabunda, piranha, galinha, vaca etc etc (desculpe, meu vocabulário é meio limitado). Uma mulher não precisa fazer nada pra ser chamada de vadia. Basta ser mulher. É aquela velha história que só homem gosta de sexo, que mulher tem que se dar o respeito ― e só transar depois de casada, imagino. Quantos parceiros uma mulher precisa ter na vida pra ser taxada de promíscua? E os homens? Cadê a igualdade neste cenário?
Se a gente realmente quiser mudar a sociedade e acabar com a desigualdade entre os gêneros, é primordial que paremos de educar filhas e filhos de forma tão diferente (leia um excelente guest post sobre isso). Aquela ladainha: a menina tem que cuidar dos afazeres domésticos enquanto o irmão fica jogando videogame, o menino pode sair à vontade enquanto a irmã tem hora pra voltar, o menino tem sua curiosidade sexual valorizada enquanto a irmã deve se envergonhar. Nada disso é natural ou biológico. Ninguém nasce assim. A gente aprende.
Claro que, enquanto vivermos numa sociedade tão desigual, é compreensível que os pais se preocupem mais com a filha adolescente que com o filho. Dificilmente um senhor ou sua assistente chegarão pra um menino e dirão que, se ele sair com o velho, ganhará coisas (como aconteceu comigo com 12 ou 14 anos). Quando uma jovem engravida sem querer, sobra pra ela. Existe também a ameaça do estupro, da violência sexual. Sem dúvida, é um mundo perigoso pras meninas (e pras mulheres). Mas o pai da novela não está preocupado com nada disso (tanto que ele expulsa Leila de casa, onde ela estará mais desprotegida ainda). Ele só condena que ela esteja sendo "comentada". Seu lamento é com a sua honra ― a honra dele, como pai. Ele está chateado porque falam da sua filha, sua propriedade, com desdém. E isso é de um machismo ridículo e inaceitável nos dias de hoje.
O único “crime” de Leila é não ser mais virgem e ter transado com mais de um. Isso aos 19 anos! Em outras épocas, se Leila fosse menino, o pai, constrangido com a virgindade do filho, o teria levado a um prostíbulo. Aqui, ele expulsa Leila de casa. Que venham me falar de igualdade!

Wednesday, May 18, 2011

GUEST POST: MEU LESBIANISMO NÃO É TEU FETICHE

Pedi pra Aoi Ito transformar seus ótimos comentários no post sobre a novela Amor e Revolução num guest post que considero de suma importância. Ei-lo.

A visão inicial dos comentários no post sobre a novela era quase a mesma: beijo lésbico era fetiche masculino, logo, não chocava, não valia como expressão contra homofobia, não contava... Me abalei um bocado com essas colocações, especialmente as que implicavam que o lesbianismo era mais tolerado que a homossexualidade masculina e, logo, lésbicas não sofriam tanto preconceito como homens gays.
Galera, falar que mulher lésbica sofre menos preconceito que homem gay é... Bem... Não ser lésbica. O "problema" de ser lésbica é que, como disseram, você não é levada a sério. Além de ter homofobia, tem machismo forte porque você é mulher. Vamos lá. Vou falar de lesbianismo como de 5 pra cima na escala Kinsey, que acho que entre 2 e 4 pode ser considerado bissexual:
1- Você é lésbica. É uma fase, porque você ainda não achou um macho que te convertesse em uma hetero "amante de pênis". Homens querem te "levar para a luz". Não creio que isso aconteça com homens gays, não conheço muitas mulheres que ativamente queiram convertê-los com o poder de sua vagina . As mulheres que fetichizam os relacionamentos gays, eu vejo, querem ser homens gays também, ou ter um relacionamento idealizado como é mostrado na mídia, tanto filmes, quanto sitcoms, mangás e anime. O desejo de "converter" lésbicas vai levar ao estupro corretivo, à insistência que homens têm em ficarem com lésbicas, à toda a pressão psicológica que fazem para lésbicas "se converterem". Era questão de mamãe, todo dia, perguntar se eu já queria um namorado, porque eu já tinha tido namorada no passado e ela estava suuuper preocupada com eu não achar um macho que me deixasse nos trinques.
2- Sua sexualidade é reduzida a fetiche. Como estava acontecendo aqui. Sabe o que deve ser muito chato? Você, mulher, beijar sua namorada em um lugar público e sentir que as pessoas ficam tipo, "olha, não aprovo o que tu faz, mas deixo pra lá porque vou bater umazinha pra vocês depois" (E, do outro lado, "olha, te apóio totalmente, mas acho que sua demonstração de sexualidade não é válida como a demonstração de um casal gay, porque né, tem gente que bate pra isso"). Já passei por isso. É aquela "olha, sou lésbica", até mesmo pra amigos, e eles respondem "ah, tudo bem, se você fosse um homem e gay aí sim seria um problema". Por quê? Porque é pro prazer deles, eles entendem lesbianismo como na verdade uma bissexualidade falsa, de "modinha", que só existe para provocar e atiçar homens. É okay ser lésbica porque EU gosto de ver vocês trepando, EU deixo. Olha só, até mesmo quando lesbianismo não tem homens, homens influenciam diretamente nisso. Enfim, para fechar a parte do “lesbianismo é fetiche”, olhem só como esse pensamento é perigoso: não vamos botar beijo lésbico porque beijo lésbico é fetiche, mas como então quebrar a ideia de que lésbicas existem apenas para o aproveitamento masculino se não vamos mostrar que elas existem, se relacionam e têm sua sexualidade?
3- Depois de tanta comercialização da bissexualidade falsa passada como lesbianismo, até mesmo FEMINISTAS começam a falar que um beijo feminino automaticamente é fetiche masculino e, logo, não tem tanto impacto. Para uma lésbica, isso pode ser muito triste, porque aí ela não se sente representada nem pelas pessoas que lutam por seus direitos. Ao menos é assim comigo. Ter minha sexualidade como mulher biológica reduzida a fetiche até por quem lutaria por mim, em toda situação, e logo minha representação de sexualidade não ter tanto impacto quanto a masculina, é MUITO ruim. Devemos lutar sabre contra o quê? Essa bissexualidade falsa passada por lesbianismo apenas por fetiche. Não condeno bissexualidade por interesse, por experimentar, porque isso é completamente normal. Não condeno (muito... Não tenho opinião formada no momento) que mulheres "bissexuais" se beijem pra conseguir a atenção de homens. Condeno SIM passar "bissexualidade" de heteros para atrair homens como genuíno lesbianismo. Já cheguei a ouvir um colega de faculdade falando: "Toda lésbica que eu peguei era bi".
4- Quem lembra das lésbicas? O homossexual mainstream é sempre homem. Até na GLOBO tem um seriadinho sobre um gay que tomou um choque/bateu a cabeça/não lembro e começou a demonstrar tendências heteros. Lésbicas? Pra que lésbicas? Elas não são divertidas, elas não são preppy, elas não são interessantes, elas são man-haters que ousam ignorar o mágico pênis e acham que têm prazer assim. Não é legal ter personagens lésbicas (não é nem legal ter personagens mulheres!). Não é legal falar de lésbicas, são duas mulheres que ousaram não precisar de homens, o poder máximo. Lésbicas não são legais porque a própria existência delas fere o patriarcado. Vamos ignorar lésbicas.
5- Se você é lésbica feminina, você é obrigatoriamente bi/hetero que quer atrair homens, não é lésbica de verdade, você só não conheceu o homem certo. Se você é lésbica masculina, merece ser estuprada/espancada, você acha que pode ser macho, acha que pode desafiar a "verdadeira masculinidade", você só não conheceu o homem certo. Lésbicas também não podem fazer sexo, ao contrário de casais heteros e gays, porque né, cadê o pênis? Ignorando completamente que uma lésbica na maioria das vezes pode dar bem mais prazer a uma mulher que um homem justo por conhecer o corpo feminino como seu....
Eu acho que ser ignorada e não ser levada a sério é uma péssima discriminação, sim. Com gays a sexualidade existe, não pode ser mudada, ele "escolheu" e tá lá. Com lésbicas, é só falta de pica. Vê? E no final ambos são sujeitos que apanham nas ruas, ambos são sujeitos à discriminação do seu próprio jeito, mas eu acho que ser ignorado até numa área tão vital quanto SAÚDE é uma coisa muito perturbadora, sim. Acompanhei um amigo meu na escrita do TCC dele (Enfermagem), que ele fez justo sobre saúde lésbica. Pra achar fontes foi uma desgraça. Só achava em inglês e eu ajudava a traduzir. Descobrimos coisas muito claras, tipo, lésbicas podem pegar AIDS de outras lésbicas se não tiverem cuidado com unhas mal-cortadas ou brinquedos! Agora alguém vai falar isso em até mesmo um discurso de ódio?
Enfim, creio que falar que lésbicas sofrem menos preconceito que homens gays e são mais aceitas é errar uma coisa simples e matemática. É indiscutível que ambos os sexos sofrem com o machismo. É indiscutível, também, que mulheres sofrem mais. Então, se igualamos ambos com mais uma característica não-convencional propensa a sofrer com o machismo, como a mulher magicamente passa a sofrer menos que o homem? Uma mulher negra sofre porque é mulher E negra, uma mulher gay sofre porque é mulher E gay. É claro que isso não tira o sofrimento de homens negros, gays, bissexuais, etc etc, apenas mostra que há um fator a menos para o possível preconceito.
O beijo lésbico na novela foi importante SIM, não deve ser deixado de lado porque alguns homens podem achar excitante ver duas pessoas – não objetos – em um relacionamento. Precisamos de mais beijos como esse para quebrarmos a ideia de que lesbianismo é pura e simplesmente fetiche. Ou vamos deixar os beijos lésbicos para depois dos beijos gays, porque eles têm “mais impacto”? Ou vamos ir adiando o beijo lésbico, porque com beijo gay ou sem beijo gay, ainda existirá a ideia de que lesbianismo é fetiche? Quando, então?
Ramona e Norma, primeiro casal lésbico a se casar na Argentina.
[Lola: Procurando imagens pra ilustrar o post da Aoi, encontrei este bom texto (em inglês) sobre o tema.]
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