Monday, March 12, 2012

PAUSA PARA UMA CRÔNICA


Foto: Milena Palladino


Por: Daniela Galdino

Hoje vou me sabonetar com fúria pra limpar a tua loucura da minha memória... Não sem antes entornar esse teu angu – mísera porção pra dois. A minha vingança começa agora: duas da madrugada. Você, dormindo os sonhos dos injustos no estreito colchão ortopédico – ainda forrado com plástico bolha. Sente uma fisgada acima da virilha. Toma susto, volta a dormir. Pensa ser impureza onírica. Mas agora – vejo de longe – a fisgada se multiplica. São inúmeras, intensas. De tal força que tomam o peso de mão ávida pela tortura... Você acorda em ares de espanto. Abafa um terrível grito ao se ver num mar vermelho... Com quanto terror enxerga coágulos sendo expelidos pelo teu pau!!!! Do outro lado meu telefone toca. Eu sabia disso, mas não atendo. Duas, três, sete vezes... Em nome da solidariedade norte-americana ao povo cubano eu atendo. Peço calma e que fale de modo entendível – para que eu entenda o já sabido. Assumo a sobriedade que a situação pede. E limito-me a receitar: “uma cápsula de butilbrometo de escopolamina a cada seis horas, absorvente noturno em plena luz do dia e um ar de desfaçatez na cara” - ninguém deve saber o que acontece contigo. Você me pede ajuda, ao que respondo: “Nesta cidade bizarra em que vivemos a única farmácia 24 horas fecha à meia noite. São quatro da manhã... Prometo que com o sol a pino serei a primeira cliente. Pego o meu carro e levo os absorventes. Por ora, coloque uma toalha felpuda entre as pernas - de preferência, Artex”. Chego a tua casa. Eu sei que é uma obviedade, mas quando vi o olhar parado da tua irmã associado e esse teu estado de torpeza, pensei que eu havia sido tragada por uma página de Kafka. Eu presenciava o espetáculo da metamorfose alheia. Eu cuidei de ti – em nome da solidariedade norte-americana ao povo cubano. Assentei o absorvente entre as tuas pernas e entreguei os 10 pacotes. Sim, dez pacotes e avisei: “Isso é coisa para sete dias”. Diante da insistência, disse: “Não posso ficar aqui”. Tenho que conferir a última prova do meu livro de poemas - o editor está no meu pé. Daqui a duas semanas entrego o primeiro capítulo da Tese. Ainda hoje terei que fazer por onde, arranjar grana pra pagar o IPTU e os boletos atrasados. E tem a lição de casa com a pequena - não posso deixar a menina com trauma no início da escolarização.Tenho aula de yoga também. Sim, yoga. E à noite, meditação no apartamento de uma moça tântrica que conheci. No próximo feriado iremos ao Capão. Preciso exercitar o meu campo de visão para identificar os OVNIs no vale - nem posso desapontar essa moça tântrica... Comigo acontece todo mês. Evite andar de pernas abertas - não há necessidade. Se precisar, telefone. Posso conversar, tirar qualquer dúvida. Pra você, TPM é arquétipo... pois agora vai fazer uma pesquisa antropologicamente empírica. Tenho que ir, já deu minha hora... Não tenho culpa, meu bem, se você não sabe o que fazer com um pênis que menstrua.



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