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Thursday, December 22, 2011

GUEST POST: ESTADO DE CALAMIDADE NA SAÚDE

Tive o prazer de conhecer a ótima blogueira Carolina Pombo num evento sobre Criança e Consumo. Ela escreve muito sobre maternidade, mas tem sofrido com o estado da saúde no Brasil. Segundo o que ela me disse num email, "Depois de me formar no mestrado e adentrar no mercado de trabalho, numa instituição pública, a realidade tem me parecido muito mais difícil do que a Academia costuma considerar. Por isso, escrevi o texto abaixo, mesmo temendo pelo meu emprego (já que sou contratada e não estatutária)... Mas, gostaria muito de vê-lo em seu blog, onde um número grande de pessoas poderá ler e debater". Bom, Carol, ei-lo! Torço para que você não perca o emprego!

Mais uma vez, passei por uma situação bem desgastante ao tentar ser atendida num laboratório particular na zona sul do Rio de Janeiro. Sim, eu quero falar de saúde pública, e começo deixando bem clara a minha posição na cadeia predatória desse sistema: eu sou mulher, de classe média, sou formada em psicologia e trabalho há poucos meses numa instituição pública de saúde –- considerada referência para vários outros hospitais da minha cidade. Moro no Rio de Janeiro, onde fiz o mestrado em Saúde Pública. A situação que eu comecei a relatar não é novidade: cheguei às 9 horas da manhã, num laboratório enorme no Leblon, com 12 horas de jejum, para fazer um exame de glicose, com as pernas estranhamente doloridas e me sentindo muito enjoada. Era a minha tentativa de confirmar o resultado levemente alterado do último exame. Depois de uma hora e meia aguardando para ser atendida, e vendo que, paralelamente, se formava outra “porta de entrada” –- de pessoas “indicadas”, que conheciam fulano ou beltrano, que simulavam uma queda de pressão, enfim, que não aguentavam mais esperar em pé de igualdade aos outros mais de quarenta pacientes que se acumulavam na sala de espera --, resolvi consultar uma auxiliar de enfermagem sobre o tempo de jejum máximo que é considerado para se fazer um exame de glicose. (Eu já desconfiava que eram 12 horas, mas como ninguém até aquele momento me consultara sobre o tempo que eu estava sem comer, e como a toda hora vejo mudarem esses parâmetros de diagnóstico da diabetes, fiquei na minha, esperando).
Por ter se passado o tempo máximo de jejum não fui atendida, e fui embora faminta, frustrada, com raiva, depois de fazer uma reclamação sobre a “fila paralela” que se formara e que certamente atrasara o meu exame e o de tantos outros. Saí, pensando nas manchetes das revistas Época, Carta Capital e IstoÉ daquele fim de semana, que criticavam e até ridicularizavam os movimentos pela internet afora para que o presidente Lula fizesse seu tratamento contra o câncer pelo SUS. Já há algum tempo tenho percebido que nós, usuários do sistema suplementar de saúde, mesmo sendo também maioria da força de trabalho no SUS, conhecemos muito pouco o estado da Saúde no Brasil. Isso porque nos acostumamos a tratar a saúde como mercadoria.
Assim como nos EUA, o mercado da saúde em nosso país já é enorme e crescente. Lá, ele fica em primeiro ou segundo lugar, em termos de participação na economia nacional. Mas, isso não é segredo, faz parte do projeto político-social adotado pelo Estado e apoiado pela maioria da população. Os americanos gostam de “merecer” as coisas, não gostam de política social “de graça”. Mas, aqui, no Brasil, o que acontece é o crescimento de um mercado “camuflado”, mal e porcamente regulado, às custas do dinheiro e das instituições públicas. Sabe aquele cardiologista bambambam que você se gaba de ter como “médico de família” pelo seu plano de saúde? É o coordenador do serviço de cardiologia do hospital público XYZ de São Paulo (formado na USP e ex-residente de um serviço público). Ah, mas ele consegue dar conta dos pacientes do plano, do particular e do hospital? Isso não é, necessariamente, um problema, desde que ele mande os laudos por email, e dê um jeitinho de aparecer no hospital pelo menos uma vez por semana para assinar o ponto -– e olhe lá!
Aqui, pacientes, médicos, gestores, jogam nos dois times, usam os dois sistemas, quando lhes convém -– com exceção daqueles cidadãos que não têm condições de pagar por nenhum plano de saúde (mesmo esses precários e baratos planos hospitalares) e dependem estritamente do funcionamento do SUS. Esses são submetidos a esperas muito mais longas: 23 dias num leito aguardando exames do risco cirúrgico tá bom pra você? O médico faltoso põe a culpa no baixo salário, o governo não aumenta os salários porque já parte do princípio que funcionário público não presta, e o dinheiro vai então para as empresas privadas que prestam serviços públicos, como as Organizações Sociais (famosas OS’s que os cariocas estão importando de São Paulo), fundações, terceirizadas, ONGs etc. Essas, muitas vezes, pertencem aos mesmos proprietários de grandes redes particulares.
Outro dia, abri uma revista no avião, indo pra Sampa, e dou de cara com uma propaganda de página inteira: “Venha trabalhar para a Saúde no Rio: salário de R$ 15.000,00 para médico de família, sem experiência”. Era de uma OS convocando novos profissionais para trabalhar nas equipes de saúde da família (SUS!), nas favelas do Rio. Apesar do salário quase quatro vezes mais alto do que o de um médico federal que trabalha em serviço de emergência e cirúrgico, eles penam para manter as equipes, e acabam usando critérios duvidosos na seleção. Penam porque as condições de trabalho são péssimas, porque a gestão agora é estritamente baseada em produtividade -– ou seja, exige-se um número x de consultas domiciliares por hora, sem a real preocupação com a qualidade do atendimento, e porque as OS’s não podem oferecer a cobiçada “estabilidade” e “aposentadoria integral” do serviço público. Ora, entre fazer uma dobradinha entre consultório privado e a matrícula no hospital público, ou ter que dedicar-se exclusivamente a cumprir as metas de produtividade das equipes de saúde da família, o que é mais vantajoso? Essa é a lógica que tem prevalecido em muitos casos.
Apesar de, na lei, termos um sistema público de saúde universal, já chegamos no mesmo patamar de divisão entre gastos públicos e privados que os EUA. De acordo com o relatório da Organização Mundial da Saúde, de 2010, em termos de financiamento da saúde, 41% é público, 59% é privado. Ou seja, mais da metade de todo o dinheiro que financia nosso sistema global é do próprio bolso dos cidadãos, direta ou indiretamente. Isso inclui gasto com remédios, exames em laboratórios particulares, pagamento de planos de saúde, entre outras coisas. Isso quer dizer que pagamos duplamente, e na prática, poucos são os que conseguem ter acesso a atendimentos de qualidade.
Prezad@ colega trabalhador da saúde, usuári@ de planos, cidadão das classes médias, não pense você que há uma grande diferença entre SUS e não-SUS. O segundo não vive sem o primeiro. Entendo perfeitamente o incômodo das pessoas com o fato dos políticos (de todos os políticos) não usarem o SUS, e passei a entender melhor ainda depois de conhecer um senhor que teve exatamente o mesmo diagnóstico do presidente Lula e demorou mais de um mês para conseguir marcar a quimioterapia pelo plano de saúde (sem contar todo o tempo de espera num INCA ou hospital público de referência para o tratamento do câncer). Mas, se esses “movimentos” serviram para despertar a raiva de alguns e a inveja de outros, mesmo às vezes parecendo de muito mau gosto, desejo que eles sirvam para despertar em você, profissional e usuári@ da saúde, uma compreensão mais crítica do estado da saúde em nosso país. E, para fazê-l@ avaliar em que medida ele tem a ver com você e com suas próprias práticas no dia dia.

Sunday, October 9, 2011

A PROFESSORA E O GOVERNADOR

Estou indignada com o tratamento que o governo do Ceará vem dispensando aos professores estaduais. O CE é um entre vários estados brasileiros que se recusa a pagar o piso salarial que o governo Lula instituiu em 2006. Este piso é extremamente importante. Eu lembro quando toda semana algum noticiário de TV mostrava uma professora (quase sempre era professora) em alguma cidadezinha distante e o sacrifício que era dar aula num lugar sem a menor infra-estrutura. A reportagem sempre dizia quanto essa profissional recebia ― 150, 300 reais por mês... Era menos que um salário mínimo. Então o governo federal sancionou que nenhum professor, em nenhum canto do país, poderia receber menos que o piso salarial (que não é nenhuma fortuna: R$ 1187). Só que a maior parte dos estados não cumpre essa simples determinação. São Paulo, inclusive, o estado mais rico da federação, não paga o piso. E o Ceará tampouco. Os professores daqui estão em greve há dois meses (a greve foi suspensa por um mês na última sexta), e durante esse tempo, o governador Cid Gomes (PSB) só tem falado besteira. Disse que professor não deveria trabalhar por salário, mas por amor, que quem não está feliz com o salário na rede pública deveria ir pra particular... E no final de setembro o governo jogou o batalhão de choque em cima dos manifestantes, o que repercutiu internacionalmente. Os professores protestavam que os deputados estaduais (quase todos pertencentes à base do governador) aprovaram lei que praticamente extingue diferenças salariais para profissionais de titulação diferente. Agora um professor com doutorado vai ganhar apenas pouquinho a mais que um só com graduação. Os valores irão do piso, de R$ 1187, ao nível 10, de R$ 2255. Dá pra acreditar? Este será o salário máximo que um professor com titulação de doutor e muito tempo de carreira vai sonhar em receber na vida! O que isso quer dizer? Que muito em breve não haverá mais mestres e doutores lecionando na rede pública estadual. Aprovaram algo parecido em SC outro dia. É absolutamente vergonhoso. Espero que vocês concordem que um professor deve ganhar mais de acordo com sua titulação. Senão, por que alguém sacrificaria seu tempo para cursar um mestrado e doutorado? Só pelo amor à profissão? Por que esse “amor à profissão” só é cobrado dos professores? Os professores estaduais devem pagar suas contas apelando para o “amor” do dono do supermercado, da padaria, da empresa telefônica?
Não vou me estender sobre o assunto porque estou sem tempo nenhum. Mas ontem recebi um email que ilustra, de forma bem-humorada, o que vem acontecendo. Lá vai:

Havia certa vez um homem navegando em um balão por um lugar desconhecido. Como ele estava perdido, gritou para uma pessoa embaixo:
- Ei, você aí, aonde eu estou?
A jovem respondeu:
- Você está num balão a 10 m de altura!
Então o homem fez outra pergunta:
- Você é professora, não é?
A moça respondeu:
- Sim... puxa! Como o senhor adivinhou?
E o homem:
- É simples, você me deu uma resposta tecnicamente correta, mas que não me serve para nada.
A professora perguntou:
- O senhor é Cid, governador do Estado do Ceara, não é?
E o homem:
- Sou... Como você adivinhou?
E a Professora:
- Simples: o senhor está completamente perdido, não sabe fazer nada e ainda quer colocar a culpa no professor.

Saturday, October 1, 2011

GUEST POST: O PAPELÃO DA IMPRENSA NA HOMENAGEM A LULA

Tenho leitor@s tão especiais espalhad@s pelo mundo que sempre há alguém no lugar certo na hora certa! Desta vez foi a Lia, que é do Ceará e está cursando mestrado numa universidade argentina. No momento, ela está em Paris, fazendo intercâmbio.
Na terça-feira, o Sciences Po, Instituto de Estudos Políticos de Paris, entregou a Lula o título de doutor honoris causa. Não é a primeira nem a última homenagem que Lula recebe, mas nossa elite só falta pegar em armas a cada novo agrado. O que mais repercutiu pelo mundo foi a hostilidade que a imprensa brasileira presente na França dedicou ao diretor do Instituto por ter ousado conceder um título tão importante (foi apenas o 16o em 140 anos, e o primeiro entregue a um latino-americano) a um ex-presidente corrupto, sem diploma universitário, praticamente analfabeto, e sem um dedo. Por que Lula e não FHC, bradou em coro a imprensa brazuca ― que não, não representa os interesses da elite no país. É só impressão. Complexo de viralata, a gente se vê por aqui. Você consegue imaginar a mídia de algum outro país se queixando que o homenageado não merecia tal graça, mas seu antecessor, sim? Acho que não. Esta entra pra série “Só no Brasil”.
Bom, Lia esteve na homenagem e conta tudo.

Antes mesmo de sair de casa, falei super animada pro meu namorado alemão, pelo skype, porque ele está no Rio, que iria ver o Lula numa conferência na Sciences Po, e ele respondeu: Preferiria ver o Fernando Henrique Cardoso. Eu pensei que ele estava brincando e soltei: que cerdo capitalista! [cerdo é porco em espanhol]. E aí ele me veio com mil argumentos que uma conferência de FHC seria muito melhor que a de Lula e blablabla, que FHC é doutor, seria de muito mais aproveitamento acadêmico, que o Lula só teve a sorte de ter pegado o bonde andando, que as primeiras reformas e ajustes econômicos foram feitos pelo FHC, que o bolsa família foi criado por ele, etc etc. E inclusive falou dos episódios de corrupção e de como foram tolerados pelo Lula. Nossa, tive que resumir 25 anos de história numa discussão de 40 minutos. Isso você já sabe, mas o alemão não sabia que corrupção sempre existiu, que isso não ia mudar da noite pro dia no governo do Lula, que a corrupção foi mais denunciada durante seus dois mandatos porque a imprensa está na mão de quem faz oposição, que a Globo conspirou para que Lula fosse derrotado em 89, que essa mesma Globo estava com medo (vide Regina Duarte) do Lula em 2002, que historicamente a elite tem o controle dos meios de comunicação.
Era tanto argumento desfavorável ao Lula que eu apelei para o que mais me toca no seu governo. Lula começou uma revolução social, no sentido de diminuir as desigualdades sociais e econômicas entre as regiões do país, levando investimentos e projetos ao Norte-Nordeste, que antes só ficavam no eixo Sul-Suldeste. Os benefícios dessa descentralização já se podem ver na economia brasileira, porque a classe C é a que mais consome, e é essa classe que está sustentando o desenvolvimento do país, além de outras consequências como a inversão dos fluxos migratórios e a implicância econômica das migrações internas. Eu disse pra ele que ele tinha que parar de ser pessimista, e que às vezes o senso comum também é correto e sábio (Lula saiu com mais de 80% de aprovação).
Esse meu namorado é do tipo que não sabe terminar uma discussão sem vencer (nem eu!) e me chamou de nordestina que se faz de vítima. Nossa! Aí foi uma nova discussão sobre privilégios (que "aprendi" no seu blog). Ele Homem, Branco, Europeu, da Capital Berlim não pode falar nada sobre discriminação, porque nunca sofreu nenhuma, pelo contrário; em todo lugar que ele chegou, principalmente na Argentina (que é racista pra caramba), as portas se abriram pra ele.
Bom, assim que cheguei para a conferência em Paris percebi o tumulto de gente esperando para receber Lula. E eu que pensava que o status de Lulinha popstar só existia no Brasil.
Me juntei à multidão num lugar estratégico por onde passaria Lula para tirar uma foto bem de perto, já que aos alunos nos cabia o segundo andar do auditório. Troquei um par de palavras com conterrâneos brasileiros que não conseguiram entrada para o evento, e pasmem, eles eram estudantes de doutorado da conceituadíssima Universidade Sorbonne. Eu me senti uma privilegiada, mas mesmo assim, arrisquei meu valioso lugar no auditório para ficar na entrada à espera.
O ex-presidente Lula iria ser condecorado com o 16o diploma de Doucteur Honoris Causa em 140 anos de história. Finalmente, após a conferência fechada à imprensa, Lula iria passar por nós. Toda a formalidade do presidente, diretor e professores em becas de gala, quase vai por água abaixo devido à informalidade das pessoas gritando o nome de Lula ao som de uma das nossas inspiradas batucada. Momento único em que essa instituição secular se rendeu ao barulhento carnaval brasileiro para recepcionar Lula.
Eu, que deveria ter ido ao espaço reservado aos estudantes, entrei junto com a comitiva de seguranças. Sorte. E tinha um lugarzinho pra mim. Eu estava emocionada, o Lula parecia emocionado, isso só pela calorosa recepção, mas muito ainda estava por vir.
Os discursos foram emocionantes do começo ao fim. Foi minha primeira oportunidade de escutá-lo e vê-lo ao vivo. Lula improvisou antes e depois do seu pronunciamento formal. Seu carisma é indescritível. Sobre o conteúdo dos discursos, aqui estão na íntegra. E aqui está o pronunciamento formal do presidente.
Foi um discurso emocionante para mim, que votei nele nas suas duas eleições (inaugurando meu título de eleitor em 2002), e também para os não brasileiros. Sou testemunha!
Mas o mais impressionante estava por vir. Impressionante, para não dizer ridículo, foi o papelão que fez a imprensa brasileira perante o resto do mundo. No dia seguinte, vejo o resultado da entrevista coletiva feita pela nossa imprensa tão imparcial. Pareciam indignados porque Lula, e não FHC, que estudou e lecionou na Sorbonne, foi agraciado com o título. Tão ridícula foi a pergunta da jornalista Deborah Berlinck, do Globo, que virou piada.
Resumindo: a instituição francesa teve que sair em defesa do presidente Lula pelos mais diversos ataques por parte da imprensa nacional. Houve até jornalista que sentiu vergonha alheia, como o argentino Martín Granovsky, que publicou uma crônica sobre o episódio, intitulada "Escravistas contra Lula".
Ah... não podemos esquecer o Jornal Nacional, que deu uma notinha de 17 segundos (!) à homenagem, e depois passou uns bons 5 minutos se autoelogiando na mesma edição. Ou da Folha, que não deu uma mísera linha ao título dado a Lula, mas falou sobre um evento no Instituto FHC.
Bem, o que dizer?
Eu moro fora do país há quase três anos e isso não é novidade. Aqui fora o Brasil é destaque pelos seus feitos, pela redução da pobreza, pelo aumento do poder de compra dos brasileiros (famosos por serem turistas gastadores), e pela projeção internacional que o país conquistou e segue buscando. Já dentro do Brasil não parece que há esse respeito e admiração. Há um derrotismo que a imprensa prega e a antiga classe tradicional acredita. Nunca os empresários ganharam tanto dinheiro no nosso país. Multinacionais brasileiras florescem e tomam o mercado mundial e já dominam grandes mercados latino-americanos. Só que a classe média se queixa por ter que engolir um “pobre” comprando carro novo, pobre no Orkut e no Facebook, porque agora eles têm computador e conexão de internet, pasmem!
Pois é Lola, não tenho muito mais a dizer, porque mais uma vez a imprensa brasileira deixou a piada quicando, pronta pra chutar: #PorquenaoFHC?

Wednesday, June 15, 2011

UM ESCÂNDALO POUCO CONHECIDO

Pouca gente no Brasil acompanhou essa novela escandalosa que foi a candidatura de John Edwards. Eu vi tudo bem de perto, porque estava morando em Detroit em 2007 e 2008, quando os democratas se digladiavam para decidir se seu candidato a presidente seria Obama, Hillary, ou Edwards. Este jovem senador bonitão havia sido o candidato a vice na chapa de John Kerry em 2004, e tinha o mesmo perfil de democrata moderado, branco e do Sul dos outros três presidentes democratas mais recentes. Sua mulher, advogada famosa, que travava uma batalha pessoal contra o câncer, era amada pelo eleitorado. Tanto que, no início de 05, quando Obama era ainda um desconhecido e Hillary contava com altos índices de rejeição, Edwards despontava como o favorito entre os democratas.
Os assessores narram que esse sucesso lhe subiu à cabeça e fez com que sua personalidade mudasse. Tornou-se arrogante e mandão, adorando a fama. Mas ao menos num ponto os assessores estavam tranquilos: Edwards, embora muito assediado pelas mulheres, era esperto o bastante pra não ser seduzido. Ele sabia que não poderia cometer nenhum deslize num país conservador como os EUA, em que Clinton por pouco não perdeu seu mandato por causa de sexo oral. Ainda mais tendo ao lado uma esposa querida do público, e com câncer.
Mas Edwards se envolveu com Rielle Hunter, uma mulher que prestava serviços para sua campanha, ocupando-se da produção de vídeos. Eles se tornaram inseparáveis, atraindo atenção demais de assessores, que tentaram alertá-lo do risco de um escândalo em sua carreira. Nada foi feito até que Elizabeth conheceu Rielle, percebeu de cara que havia algo entre ela e o marido, e ordenou que Rielle fosse despedida. Mas boatos já haviam vazado, e o estrago estava feito.
O jornal National Enquirer, desses tabloides sensacionalistas vendidos em supermercados, publicou em outubro de 2007 uma matéria que mencionava um email de uma certa assessora dizendo que estava apaixonada por Edwards, mas que era difícil, porque ele era casado e tinha filhos. O comitê conseguiu contornar o escândalo, falando pra mídia mais respeitável que aquela matéria não passava de uma mentira trash de um tablóide. Por incrível que pareça, a história não se espalhou para blogs e jornais sérios, e o pior que ainda se podia dizer de Edwards é que ele andava com um corte de cabelo que custava 400 dólares. A Newsweek até deu capa para o candidato em dezembro, analisando suas possibilidades na corrida. Mas o tablóide sensacionalista atacou novamente. Desta vez o nome de Rielle era mencionado. Havia até uma foto dela e sua gravidez de seis meses. O texto afirmava que ela havia dito a uma amiga que o pai da criança era Edwards.
Como a equipe de Edwards já sabia de antemão da publicação dessa segunda reportagem, apresentou um antigo assessor pessoal do candidato, Andrew Young, que declarou ser o pai da criança de Rielle. Pegou mal: alguns colaboradores lembravam que Andrew havia mencionado ter feito uma vasectomia. Outros perceberam que era só uma questão de tempo para o bafão aparecer com força total, e pensaram no que fazer: deveriam conversar com os repórteres? Porque imagina só o que teria acontecido se Edwards tivesse conseguido a indicação e saído candidato a presidente pelo Partido Democrata. John McCain, o candidato republicano, venceria fácil, fácil, assim que o escândalo estourasse.
Enquanto a mídia continuava fechando os olhos pras matérias do National Enquirer e os assessores discutiam sua reponsabilidade em dar de bandeja o terceiro mandato consecutivo pros republicanos, a força do candidato Edwards foi se esvaindo. Ele perdeu a preliminar em Iowa e fez uma oferta a Obama: se retiraria da campanha, dando-lhe seu apoio contra Hillary, mas em troca queria a vaga de vice. Obama não topou, porque queria ganhar de Hillary sozinho, sem ajuda.
O bebê de Rielle e Edwards nasceu em fevereiro de 2008. Em julho, o tablóide publicou uma reportagem do senador secretamente visitando a filha. Algumas semanas depois, o Enquirer incluiu uma foto (fora de foco) de Edwards com o bebê no colo. A essa altura, óbvio, Obama não queria mais Edwards nem pra discursar a seu favor na convenção. Numa entrevista para a TV, Edwards desastradamente seguiu mentindo, inclusive para Elizabeth, ao mesmo tempo em que se recusava a fazer o teste de paternidade.
O que já estava ruim foi piorando. Quando finalmente ficou provado que a filha era mesmo de Edwards, Elizabeth entrou com pedido de separação formal. Assessores do senador decidiram contar a história num livro. Rielle ameaçou divulgar um vídeo em que ela e Edwards faziam sexo. E assim a promissora carreira do jovem político chegou ao fim. Em 2009 Edwards foi eleito a figura pública mais desprezível dos EUA, com o dobro dos votos de Tiger Woods. Elizabeth morreu no final de 2010.
E agora o Departamento de Justiça americano permitiu que fosse instaurado um processo contra Edwards. A acusação (feita pelo Enquirer anos antes!) é de que ele usou dinheiro da campanha para ora comprar o silêncio da amante, segundo algumas fontes, ora pagar pensão à filha. O futuro parece sombrio.
O que sempre me chamou a atenção nessa trama toda foi a cumplicidade da mídia. Ok, lógico que Edwards não era conhecido por suas puladas de cerca, ao contrário de Dominique Strauss-Kahn, o ex-chefe do FMI e ex-principal candidato socialista a presidente da França (que foi acobertado pela imprensa francesa por anos a fio), mas muitos jornalistas sabiam do seu adultério. Parece até a nossa imprensa, que soube durante mais de uma década do filho bastardo de FHC, e nunca deu um pio. No caso de Edwards, foi um tablóide desacreditado quem deu o furo de reportagem. Uma coisa é certa: se Edwards tivesse saído candidato, hoje o presidente dos EUA seria McCain ― que, ironicamente, também traiu a esposa, mas foi perdoado.

Tuesday, May 24, 2011

CRISES, GRANDES OPORTUNIDADES DE NEGÓCIOS

O capitalismo não está funcionando. Um outro mundo é possível

O documentário A Doutrina do Choque, baseado no livro de Naomi Klein, tem seus probleminhas de ritmo, mas o conteúdo é interessantíssimo e me mostrou vários pontos que eu desconhecia (dá pra vê-lo inteirinho aqui). Ele começa fazendo uma associação entre choques elétricos testados nos anos 1950 para tratar pacientes (técnicas que foram logo incorporadas pela CIA), e a doutrina de um dos maiores pensadores do capitalismo, Milton Friedman (vencedor do prêmio Nobel de Economia em 76, e saudado por Bush no aniversário de 90 anos do economista). Friedman estava convicto que uma terapia de choque econômico seria mais aceita pela sociedade para implantar o capitalismo sem nenhuma regulamentação. Ele havia se oposto ao New Deal de Roosevelt na década de 30, um plano que permitiu o mínimo de sobreviência à população pobre durante a Depressão, oferecendo empregos no setor público e uma rede de seguridade social. Logo após a Segunda Guerra, a Europa abraçou a causa da proteção social. Friedman também vociferou contra isso, pois achava radical. O que ele defendia era que qualquer intervenção governamental era maléfica, e que a economia saberia controlar-se a si própria. Nos anos 50 essas ideias eram vistas como coisa de maluco. Governo deixar de providenciar serviços à população? Não intervir na economia? Não dar nenhum tipo de alento à população menos favorecida? Pois é. Só que três décadas mais tarde essa visão virou a predominante.
A primeira chance que Friedman teve para testar seu modelo foi no Chile. No 11 de Setembro alternativo, mas igualmente trágico, o de 1973, um golpe militar orquestrado e patrocinado pelos EUA derrubou o presidente eleito, o socialista Allende, e colocou o general Pinochet no poder. Em questão de dias, 13 mil opositores ao regime foram presos, a maior parte mantida dentro do Estádio Nacional. Após pressões internacionais, Pinochet desocupou o estádio. Pouco depois, a FIFA deixou que jogos de classificação para a Copa do Mundo ocorressem em Santiago ― no mesmo Estádio Nacional que havia sido palco de torturas e mortes um mês antes! A União Soviética, que devia disputar uma partida contra o Chile, recusou-se a ir. A partida foi jogada, com a equipe chilena chutando sozinha contra o gol vazio do outro lado! O Chile se classificou para a Copa.
Friedman e os Chicago Boys investiram pesado no país sul-americano. Muitos estudantes chilenos receberam bolsas para ir para a Universidade de Chicago aprender a doutrina liberal. Qualquer sugestão de estatizar alguma empresa foi rapidamente ceifada. O primeiro ano deste choque de capitalismo no Chile foi uma explosão de desemprego, um alto custo social para os pobres, e uma inflação de 375% ao ano, a maior do mundo no período.
Durante os 17 anos em que Pinochet foi ditador, Friedman (e os EUA) esteve ao seu lado. Mas isso não impediu que os Chicago Boys colaborassem ativamente com outros governos militares, como o do Uruguai e o do Brasil. Na Argentina, após o golpe de 1976, esses economistas americanos conseguiram postos-chave no governo. Um ano depois, os salários da população perdiam 40% de seu valor. E aí vem outro sinal de como futebol é o ópio do povo (veja Pra Frente Brasil): em 1978, a Argentina sediou a Copa do Mundo. A final ocorreu num estádio a poucos quilômetros de onde boa parte dos presos políticos eram torturados e mortos sob as ordens do ditador Videla. Essa foi a ditadura em que quinhentos bebês de desaparecidas foram adotados por militares e simpatizantes do regime (Videla foi derrubado pelas Mães da Praça de Maio e mais tarde condenado à prisão perpétua. Enquanto isso, outros países ainda não conseguiram enfrentar seus fantasmas e punir militares).
Em seus discursos, Friedman gostava de dizer que capitalismo e liberdade andavam de mãos dadas, que o capitalismo era uma luta contra a tirania. Este ainda é o discurso oficial.
A grande vitória de Friedman veio nos anos 80, quando dois países ricos finalmente passaram a seguir sua doutrina com afinco. Margaret Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos EUA, cortaram gastos do governo, reduziram impostos e a propriedade estatal, e impediram a regulamentação da indústria. No primeiro ano de governo de Thatcher, o desemprego dobrou em alguns setores da economia, e houve muitas greves, a mais famosa a dos mineiros, que durou um ano (através da força policial, a dama de ferro derrotou o sindicato, e aproveitou para privatizar tudo). Naomi Klein diz que a impopularidade de Thatcher parecia provar que a doutrina liberal era detestada demais para ser implantada num país que dependesse de aprovação popular, tipo uma democracia. O que salvou Thatcher foi uma crise, a guerra. Embora a maior parte dos britânicos nunca tivesse ouvido falar nas Ilhas Falkland, Thatcher promoveu uma guerra lá nas Malvinas contra a Argentina, em 1982. Durou apenas três meses, mas gerou uma onda de patriotismo, o que fez com que a dama de ferro ganhasse a reeleição em 83.
Antes de Thatcher, um CEO (alto executivo) na Inglaterra recebia dez vezes mais que um trabalhador médio. Em 2007, ganhava cem vezes mais. Nos EUA pré-Reagan, um CEO ganhava 43 vezes mais que um trabalhador. Em 2005, já ganhava 400 vezes mais. Ou seja, é óbvio que o sistema funciona. Não pra todos, mas aí já é querer demais.
Quando o capitalismo chegou à Rússia, em 91, empresas estatais foram vendidas por uma pechincha, e pequenos grupos começaram a prosperar. Um terço dos russos caiu para abaixo da linha da miséria. A corrupção e a máfia tomaram conta do país. Com Yeltsin, que dissolveu o Parlamento ― com o total apoio do Ocidente ―, o número de pobres na Rússia explodiu, mas nenhum outro país no mundo teve tantos novos milionários. É uma compensação, né?
Com um inimigo de tantas décadas derrotado, era essencial que aparecesse um novo. Este novo inimigo surgiu em 2001, com o outro 11 de Setembro. Agora lutávamos contra um eixo do mal pouco especificado, sempre pronto para acolher novos inimigos na sua indefinição. Os conflitos que se seguiram foram vendidos como um choque entre civilizações, uma guerra contra o terror. Guerra esta que virou mais uma grande chance de negócios. A guerra no Iraque é a mais privatizada da história moderna. Em 2007 havia mais terceirizados que soldados, o que contraria até o que Friedman pensava (ele achava que as Forças Armadas não deveriam ser privatizadas).
A despedida de Friedman, em 2006, foi dizer que Nova Orleans depois do Katrina era uma terra de oportunidades. Poderia-se, por exemplo, privatizar toda a rede de ensino, então completamente destruída. Negócio imperdível!
Klein fala que o capitalismo é melhor implantado logo após um desastre (natural ou causado), quando as pessoas ainda estão anestesiadas pelo choque. No Sri Lanka, depois do tsunami, muitos habitantes foram impedidos de voltar as suas terras, que logo seriam vendidas para empreendores multimilionários que as transtormariam em hotéis de luxo.
Em setembro de 2008, como todos sabemos, o mercado implodiu, na mais grave crise desde o Crash de 1929. Nenhuma das duas quebras foi obra de comunistas. Pelo contrário, a crise é um resultado direto da política de privatização e da falta de regulamentação. Para tentar atenuá-la, dinheiro foi transferido do governo, dos impostos, para as empresas e os indivíduos que causaram a crise. Mas o documentário é otimista e diz que, da última vez em que o mundo se viu diante de uma crise tão grave, tivemos o New Deal e políticas keynesianas de seguridade social. Quem sabe aconteça de novo?
Eu adoraria ser tão otimista, mas acho que, se tem uma coisa que o capitalismo conseguiu fazer bem, foi vender pra maioria das pessoas a ideia de que este é o único modelo possível.
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