Foi ontem a primeira Marcha das Vadias brasileira, realizada em SP. Pelas fotos e pela repercussão gerada, dá pra ver que foi um sucesso. Talvez não tenha tido o número esperado de participantes (6 mil haviam confirmado presença; a Polícia Militar contabilizou 300), mas foi a primeira, e é isso que conta. Fazia tempo que não se via tanta palavra de ordem a favor das mulheres numa manifestação. E essas palavras de ordem estamparam manchetes em todo o Brasil. Isso é muito posit
ivo!
ivo!Já falei minha opinião a respeito da Marcha neste post, e também em duas entrevistas. Tenho um pouco de pé atrás com o nome, vadias, sluts, porque é sempre complicado reapropriar o significado de um termo (o único caso bem sucedido que conheço é queer, que o movimento LGBTTT conseguiu tirar do sentido pejorativo e até o adotou pra nomear toda uma linha de pesquisa, a de queer studies). Eu preferiria que termos como vadias, vagabundas, piranhas, galinhas, putas, vacas etc etc — enfim, todos esses nomes criados e amplamente usados para condenar a sexualidade feminina — desaparecessem do mapa.
Mas o importante é que a Marcha em si deixa claro que a sexualidade de uma mulher é dela, não é pública, não é do homem ou da sociedade, e que deve ser respeitada. Respeitada de todas as formas, desde não ser julgada (sim, queremos a mesma liberdade sexual a que os homens têm direito) a não ser invadida, seja através de estupros, seja através de “passar a mão” (que, assim como as grosserias verbais na rua, funcionam como uma espécie de terrorismo sexual).
Sempre que mulheres reivindicam autonomia sobre seu corpo — para ter o direito de fazer um aborto, para poder continuar amamentando em público, para poder transar com quem escolher — a sociedade (os homens principalmente, mas também as mulheres acostumadas a serem controladas) se une para barrar esse direito básico.
Por isso não me espanta que a reação à Marcha das Vadias, a julgar pelos comentários, seja a pior possível. Tem os comentários machistas de sempre avaliando o corpo das participantes, lembrando sobre quem manda e a quem pertencem aqueles corpos. E, lógico, chamando feministas de mal amadas, dizendo que “há tanta coisa importante contra o que se protestar” (escrevi sobre essas acusações clichê ontem; são sempre
exatamente as mesmas, não importa o objetivo da manifestação! Se há mulher envolvida, haverá esses clichês bocós, típicos de quem não tem argumentos), que a louça tá se amontoando na pia... O que me preocupa mais são comentários como este, deixado na caixa do Bolsa de Mulher (por quem também fui entrevistada):
“Querem esfregar um suculento pedaço de carne na cara de um leão faminto e obrigá-lo a não mordê-la, fala sério, quer quase o impossível, manter o leão sob fortíssima repressão ao limite da explosão. O instinto de sobrevivência e o sexual são indomáveis, querer domá-los é guerra perdida como a guerra contras as drogas. A mulher quer a liberdade de andar seminua pelas ruas, provocante, insinuante, sensual e negar-se a todos os homens q a desejam exceto o q ela escolher, isto não lhe parece discriminação, preconceito e antidemocrático? Não apoio e nem quero justificar o estupro. Querem diminuir a incidência de estupros? Vistam-se e comportem-se como mulheres de respeito. [...] Assuma os riscos de provocar um dos maiores instintos masculinos, o sexual, dentre estes, muitos de mau caráter. Assuma sua parte da culpa”.
Eu fui lembrada na Marcha! Obrigada, gente!
Pra quem não quer justificar o estupro, ele até que faz um belo serviço, né? Esse discurso incoerente é o mais comum. E é por isso que eu bato na mesma tecla: homens, estupro tem mais a ver com violência e poder que com sexo. Lembrar que homens estupram e que mulheres são estupradas não equivale a dizer que todos os homens estupram, nem que todas as vítimas sejam mulheres, nem que todas as mulheres são estupradas. Mas uma e
m cada três já sofreu alguma forma de abuso sexual (eu disse, e repito: toda mulher tem uma história de horror pra contar). E pensar que todos esses casos foram cometidos por psicopatas doentes é querer mascarar a realidade e continuar fingindo que os “homens de bem” não têm nada a ver com a história. Ou seja, é continuar lavando as mãos e dizendo que estupro é um problema das mulheres. É uma atitude cômoda e covarde. Se você, homem, se incomoda com o estupro, então mexa-se! Converse com seus amigos sobre o assunto. Discuta sobre o que vocês consideram estupro, sobre como vocês falam “Essa daí tá pedindo”, sobre o tão comum “O quê ela estava vestindo?”.
Duvido que o autor do comentário acima seja um psicopata, sequer um estuprador. Mas analise o discurso dele. Veja quantas mensagens que ouvimos e repetimos diariamente estão contidas em tão poucas linhas:
Algumas das sempre poderosas blogueiras feministas juntas na Marcha.
1) Mulheres são reduzidas a um suculento pedaço de carne. É isso que somos? Só isso?
2) O “instinto” sexual masculino é incontrolável. Em outras palavras, o leitor diz que homens não podem se conter, e que querer contê-los é “guerra perdida”. Ele parte de uma ciência tosca, a psicologia evolucionista (e já tem três décadas que a mídia repete essa ladainha como se fosse verdade absoluta!), para dizer que a violência sexual é uma questão de sobreviência da espécie. Isso representa naturalizar a violência. Quando se naturaliza alguma coisa, caímos no “é assim que as coisas são”. Fica difícil combater. Essa é a função da ideolo
gia dominante: naturalizar um discurso para que não percebamos que é um discurso e, assim, não podermos combatê-lo.
3) O leitor, ao mesmo tempo em que acha sensual ver mulheres “seminuas pelas ruas”, também condena essas mulheres. É o velho discurso moralista de que nós “devemos nos dar o respeito”. Se não nos respeitarmos, diz o discurso, então os homens tampouco precisam nos respeitar. Libera-se o estupro (as pessoas não costumam achar que prostituta não pode ser estuprada?).
4) O leitor lamenta que as mulheres possam escolher o parceiro sexual (ou os parceiros, ou as parceiras). Nesse discurso entra a negação da autonomia da mulher sobre seu corpo, e também a ideia 100% equivocada de que só homem gosta de sexo. O leitor se revolta não contra os estupros que as mulheres sofrem, mas contra o fato das mulheres não quererem fazer sexo com ele, e ele não poder pegá-las a força.
5) Ele termina jogando a culpa do estupro na mulher. Apesar de tudo que ele disse antes (o homem é indomável, é natural, é a lei da sobrevivência e do mais forte), quando uma mulher é estuprada, a culpa é dela. Ou pelo menos parte da culpa. Talvez um pedacinho minúsculo da culpa, segundo o leitor, caiba não ao homem, mas ao seu “instinto”. Azar. É instinto, é biológico, não há nada que se possa fazer.
E aí, quantas vezes você e seus amigos (e também suas amigas, lógico) conversaram sobre sexo nesses termos? Melhor perguntar: quantas vezes hoje? Pense em esse tipo de discurso perpetua a violência contra a mulher. Então reflita: mulheres de todos os tipos e idades são estupradas (inclusive as feias, Rafinha). As roupas que vestem quando são estupradas variam enormemente. 80% dos estupros não seguem o roteiro lugar-comum de mulher sozinha numa rua escura à noite. Só 20% dos estupros são cometidos por estranhos. Os outros 80% são cometidos por conhecidos da vítima. Como a roupa que a vítima está usando tem alguma relevância nesses casos?
Sabe o que não muda nunca? O discurso. É o mesmo discurso, tão bem resumido pelo leitor acima. É isso que nós mulheres queremos combater, e que manifestações como a Marcha das Vadias expõem tão bem. Mas não vamos ganhar essa luta sozinhas. Precisamos de você, homem. Em vez de criticar as mulheres, as feministas e nossas causas, ponha-se no nosso lugar. Empatia -- essa é a palavra-chave.
A Marcha acabou em frente ao clube de comédia de Rafinha e D. Gentili.
Mas o importante é que a Marcha em si deixa claro que a sexualidade de uma mulher é dela, não é pública, não é do homem ou da sociedade, e que deve ser respeitada. Respeitada de todas as formas, desde não ser julgada (sim, queremos a mesma liberdade sexual a que os homens têm direito) a não ser invadida, seja através de estupros, seja através de “passar a mão” (que, assim como as grosserias verbais na rua, funcionam como uma espécie de terrorismo sexual). Sempre que mulheres reivindicam autonomia sobre seu corpo — para ter o direito de fazer um aborto, para poder continuar amamentando em público, para poder transar com quem escolher — a sociedade (os homens principalmente, mas também as mulheres acostumadas a serem controladas) se une para barrar esse direito básico.
Por isso não me espanta que a reação à Marcha das Vadias, a julgar pelos comentários, seja a pior possível. Tem os comentários machistas de sempre avaliando o corpo das participantes, lembrando sobre quem manda e a quem pertencem aqueles corpos. E, lógico, chamando feministas de mal amadas, dizendo que “há tanta coisa importante contra o que se protestar” (escrevi sobre essas acusações clichê ontem; são sempre
exatamente as mesmas, não importa o objetivo da manifestação! Se há mulher envolvida, haverá esses clichês bocós, típicos de quem não tem argumentos), que a louça tá se amontoando na pia... O que me preocupa mais são comentários como este, deixado na caixa do Bolsa de Mulher (por quem também fui entrevistada):“Querem esfregar um suculento pedaço de carne na cara de um leão faminto e obrigá-lo a não mordê-la, fala sério, quer quase o impossível, manter o leão sob fortíssima repressão ao limite da explosão. O instinto de sobrevivência e o sexual são indomáveis, querer domá-los é guerra perdida como a guerra contras as drogas. A mulher quer a liberdade de andar seminua pelas ruas, provocante, insinuante, sensual e negar-se a todos os homens q a desejam exceto o q ela escolher, isto não lhe parece discriminação, preconceito e antidemocrático? Não apoio e nem quero justificar o estupro. Querem diminuir a incidência de estupros? Vistam-se e comportem-se como mulheres de respeito. [...] Assuma os riscos de provocar um dos maiores instintos masculinos, o sexual, dentre estes, muitos de mau caráter. Assuma sua parte da culpa”.
Eu fui lembrada na Marcha! Obrigada, gente!Pra quem não quer justificar o estupro, ele até que faz um belo serviço, né? Esse discurso incoerente é o mais comum. E é por isso que eu bato na mesma tecla: homens, estupro tem mais a ver com violência e poder que com sexo. Lembrar que homens estupram e que mulheres são estupradas não equivale a dizer que todos os homens estupram, nem que todas as vítimas sejam mulheres, nem que todas as mulheres são estupradas. Mas uma e
m cada três já sofreu alguma forma de abuso sexual (eu disse, e repito: toda mulher tem uma história de horror pra contar). E pensar que todos esses casos foram cometidos por psicopatas doentes é querer mascarar a realidade e continuar fingindo que os “homens de bem” não têm nada a ver com a história. Ou seja, é continuar lavando as mãos e dizendo que estupro é um problema das mulheres. É uma atitude cômoda e covarde. Se você, homem, se incomoda com o estupro, então mexa-se! Converse com seus amigos sobre o assunto. Discuta sobre o que vocês consideram estupro, sobre como vocês falam “Essa daí tá pedindo”, sobre o tão comum “O quê ela estava vestindo?”.Duvido que o autor do comentário acima seja um psicopata, sequer um estuprador. Mas analise o discurso dele. Veja quantas mensagens que ouvimos e repetimos diariamente estão contidas em tão poucas linhas:
Algumas das sempre poderosas blogueiras feministas juntas na Marcha.1) Mulheres são reduzidas a um suculento pedaço de carne. É isso que somos? Só isso?
2) O “instinto” sexual masculino é incontrolável. Em outras palavras, o leitor diz que homens não podem se conter, e que querer contê-los é “guerra perdida”. Ele parte de uma ciência tosca, a psicologia evolucionista (e já tem três décadas que a mídia repete essa ladainha como se fosse verdade absoluta!), para dizer que a violência sexual é uma questão de sobreviência da espécie. Isso representa naturalizar a violência. Quando se naturaliza alguma coisa, caímos no “é assim que as coisas são”. Fica difícil combater. Essa é a função da ideolo
gia dominante: naturalizar um discurso para que não percebamos que é um discurso e, assim, não podermos combatê-lo.3) O leitor, ao mesmo tempo em que acha sensual ver mulheres “seminuas pelas ruas”, também condena essas mulheres. É o velho discurso moralista de que nós “devemos nos dar o respeito”. Se não nos respeitarmos, diz o discurso, então os homens tampouco precisam nos respeitar. Libera-se o estupro (as pessoas não costumam achar que prostituta não pode ser estuprada?).
4) O leitor lamenta que as mulheres possam escolher o parceiro sexual (ou os parceiros, ou as parceiras). Nesse discurso entra a negação da autonomia da mulher sobre seu corpo, e também a ideia 100% equivocada de que só homem gosta de sexo. O leitor se revolta não contra os estupros que as mulheres sofrem, mas contra o fato das mulheres não quererem fazer sexo com ele, e ele não poder pegá-las a força.
5) Ele termina jogando a culpa do estupro na mulher. Apesar de tudo que ele disse antes (o homem é indomável, é natural, é a lei da sobrevivência e do mais forte), quando uma mulher é estuprada, a culpa é dela. Ou pelo menos parte da culpa. Talvez um pedacinho minúsculo da culpa, segundo o leitor, caiba não ao homem, mas ao seu “instinto”. Azar. É instinto, é biológico, não há nada que se possa fazer.
E aí, quantas vezes você e seus amigos (e também suas amigas, lógico) conversaram sobre sexo nesses termos? Melhor perguntar: quantas vezes hoje? Pense em esse tipo de discurso perpetua a violência contra a mulher. Então reflita: mulheres de todos os tipos e idades são estupradas (inclusive as feias, Rafinha). As roupas que vestem quando são estupradas variam enormemente. 80% dos estupros não seguem o roteiro lugar-comum de mulher sozinha numa rua escura à noite. Só 20% dos estupros são cometidos por estranhos. Os outros 80% são cometidos por conhecidos da vítima. Como a roupa que a vítima está usando tem alguma relevância nesses casos?Sabe o que não muda nunca? O discurso. É o mesmo discurso, tão bem resumido pelo leitor acima. É isso que nós mulheres queremos combater, e que manifestações como a Marcha das Vadias expõem tão bem. Mas não vamos ganhar essa luta sozinhas. Precisamos de você, homem. Em vez de criticar as mulheres, as feministas e nossas causas, ponha-se no nosso lugar. Empatia -- essa é a palavra-chave.
A Marcha acabou em frente ao clube de comédia de Rafinha e D. Gentili.
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